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segunda-feira, 25 de agosto de 2025

SÍNDROME RESPIRATÓRIA AGUDA GRAVE

 


     Uma nota musical aguda, trata-se do que se chama popularmente de som fino, mas, na verdade, é uma nota que se refere a um som com frequência mais alta, na escala musical. Já, a nota que o leigo costuma dizer que tem um som grosso, são exatamente as notas mais baixas, na escala musical. O pentagrama ou pauta, que possui um conjunto de cinco linhas horizontais paralelas e quatro espaços, é o lugar da escrita das notas musicais. É a base da notação musical, onde as notas são dispostas para representar a altura e duração do som. E esse sistema musical, que conhecemos hoje, foi criado no século XI, por um monge italiano, conhecido por Guido d’Arezzo. 

     Ele usou um hino s São João Batista, como base para o nome das notas musicais: Ut, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si.  Ele é considerado pessoa de fundamental importância para a notação musical, visto que, deu nome às notas e simplificou o processo de aprendizado, a partir do solfejo. Por outro lado, alguns instrumentos, em função de seus timbres, se encaixam num desses dois polos. Por sua vez, o timbre é a característica que nos permite distinguir um som de outro: alto ou baixo. Instrumentos altos, possuem sons agudos, visto que suas ondas sonoras são de alta frequência e vibram intermitentemente, como exemplo: violino, flauta, clarinete e trompete, já os instrumentos baixos, possuem sons graves, por isso, eles produzem sons com frequências mais baixas, nessa lista, estão o contrabaixo, o trombone, a tuba, o fagote, entre outros.

     Agudo vem do latim, e tem origem no termo “acutus”, que significa afiado, porém, também pode ser usada em outros contextos, como por exemplo, na música, registrando as notas mais altas numa escala musical. Por outro lado, a palavra grave, também se origina do latim “gravis”, que significa pesado, cheio, sério, etc. Refere-se também a um som de baixa frequência, oposto ao som agudo. Portanto, percebe-se que, na música, o som grave está na parte de baixo, e o som agudo está na parte de cima do pentagrama musical. Na música, há como ter uma nota aguda, separada de uma nota grave, como também as duas em uníssono.   

     Frente a isso, como entender a Síndrome Respiratória aguda/grave, de que tanto se fala nos noticiários? Bom, segundo os órgãos de saúde, a síndrome respiratória é considerada aguda, devido ao seu início rápido e duração relativamente curta, sendo que, a característica “aguda”, refere-se à evolução rápida da doença, geralmente com sintomas que se manifestam de forma intensa em curto espaço de tempo. Ao mesmo tempo, que é grave, devido à sua capacidade de causar uma infecção respiratória severa, levando-se a dificuldades respiratórias. Vamos tentar entender... na música, as notas agudas ou altas, possuem uma frequência de vibração maior, enquanto que, as notas graves ou baixas, possuem uma frequência de vibração menor. Entretanto, o que se pode concluir é que a síndrome respiratória é aguda/grave, em vista de que, por um lado, é aguda porque tem duração relativamente curta, é sagaz e pontuda, por outro lado, é grave, devido à sua capacidade de causar uma infecção, comprometendo a oxigenação do sangue, com sentimento pesado, gerando baixa frequência dos batimentos cardíacos.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

TÉCNO PALAFÍTICO

 

 

     Foi na passagem do século XX para o século XXI, que aconteceram determinados fenômenos artísticos de engrandecimento da cultura amapaense, com o surgimento de nova leva de atores e diretores, coletivos, grupos e companhias teatrais, às quais estabeleceram rumos contemporâneos para as artes cênicas no Amapá, insurgindo-se com novas ideias e novos encaminhamentos para o teatro em nosso Estado. Movimento esse que trouxe consigo, ideias inovadoras a partir de seus inéditos agrupamentos, que ao longo do novo século e dessas últimas décadas, continuam a florescer nos dias atuais. E um desses representantes de grande monta, foi a Casa Circo, à qual, surgiu no ano de 2015, sob coordenação de Ana Caroline e Jones Barsou.

     Juntando-se a tudo isso, foi também em função da implantação do Curso de Licenciatura em Teatro na Universidade Federal do Amapá, que a partir de abril de 2018, disponibilizou vários profissionais de teatro que entraram para o mercado de trabalho nas escolas, como também se deu início à uma nova produção relativa aos primeiros espetáculos teatrais, com suporte artísticos e estéticos mais apurados, e pesquisas artísticas com suporte teórico-práticos, relativos às novas montagens teatrais que surgiam naquele momento. E um dos primeiros espetáculos que se elevou com grande influência do Curso de Teatro da UNIFAP, foi A Mulher do Fim do Mundo, com encenação da Companhia Casa Circo. É fato que esta encenação trouxe uma série de elementos interessantes no que diz respeito, principalmente à concepção estética em relação ao teatro amapaense    

     O referido espetáculo foi selecionado para o Amazônia das Artes/SESC, e em 2018 se apresentou em dez municípios da região Norte. Foi o primeiro espetáculo amapaense que conseguiu ser selecionado para um circuito nacional em 2019, quando participou do Projeto Palco Giratório do SESC, e se apresentou em várias capitais do país.    

     Desta vez, a Companhia Casa Circo nos presenteia com mais uma montagem de crítica social, com seu pequeno grande espetáculo, intitulado: Técno Palafítico: Diálogo de Uma Amazônia em Suspensão. A montagem foi apresentada no dia 31 de julho, nas dependências do Departamento de Letras e Artes da Universidade Federal do Amapá. É um musical que põe em xeque uma visão crítica da realidade cotidiana das eternas palafitas que fazem parte intrínseca da vida do homem amazônida, com foco nas ocupações das áreas de resseca em cidades da Amazônia e principalmente para as áreas de resseca invadidas no entorno da cidade de Macapá, capital do Estado do Amapá.

     Com música ao vivo, tendo à frente Gabriel Guimarães no teclado, e um suporte nas chanchadas, teatro de revista, vaudeville, e comédia, o espetáculo de cunho frenético, combina música, dança e diálogo para contar história sobre palafitas, e tem no elenco atrizes como Ana Caroline, Stefhany Borges e Iara Piris, com encenação de Jones Barsou. Portanto, há condições de estender ainda mais o tempo da encenação, acrescentando à conexão crítica e social, cenas e quadros mais picantes como por exemplo, uma pessoa caindo e se ferindo em ponte quebrada; alguém com dificuldade para circular de bicicleta; pessoas pescando no lago poluído e fétido; uma criança que cai na água, a ponto de se afogar; um conserto do cano de água, que está furado; a preocupação e aflição das pessoas, em função do temporal e da subida da água com a chegada do inverno; cenas de pessoas colocando gato nos postes da energisa, entre outras cenas, às quais, poderiam ainda mais, complementar o tempo da encenação além de deixar o espetáculo mais deslumbrante.

domingo, 3 de agosto de 2025

EVOLUÇÃO DA QUADRILHA JUNINA

 

  

 

     A antiga dança da quadrilha, que perdurou basicamente até o início da década de 1990 do século passado, em suas raízes, era completamente diferente das quadrilhas de hoje.  Tem origem na Europa e sua maior influência no Brasil, veio da França. Era uma dança popular que surgiu principalmente no meio rural. Nela, havia uma sequência de passos com várias coreografias, como: a)cumprimento às damas; b)cumprimento aos cavalheiros; c)damas e cavalheiros trocar de lado; d)primeiras marcas ao centro; e)grande passeio; f)trocar de damas; g)trocar de cavalheiros; h)o Túnel; i)caminho da roça; j)olha a cobra; k)é mentira; l)caracol; m)desviar; n)atenção para o serrote; o)coroar damas; p)coroar cavalheiros; q)duas rodas; r)reformar a grande roda; s)despedida, entre outros passos que mudam de acordo com a necessidade da brincadeira. Além de tudo isso, havia a dramatização de um casamento matuto, um legado da Commedia dell’Arte.

     Se torna muito difícil, na atualidade, encontrar alguma comunidade ou grupo que organize uma quadrilha nos moldes antigos. Notadamente, esse tipo de quadrilha está em extinção. Com o passar dos anos, nota-se um hibridismo e a consequente influência de várias culturas. Hoje, pode-se perceber nas atuais quadrilhas juninas, vestígios do frevo, da ciranda; do maracatu; do bumba-meu-boi; nos figurinos, roupas do cancan francês. Na dança atual, o casamento, que era parte fundamental da antiga quadrilha junina, hoje, praticamente não tem mais o mesmo significado dramático de antes. Por sua vez, os passos da antiga quadrilha, se transformaram numa sequência de músicas com coreografias modernas, isso nos remete ao primeiro forró, de 1979, a música Frevo Mulher, que se fundiu com o frevo, de autoria de Zé Ramalho.

     A referida gravação alcançou grande sucesso depois que Amelinha a interpretou no Maracanãzinho num Festival da MPB em 1980. Já o cancan, é uma dança francesa que se tornou muito popular na França, na década de 1840, com sua maior expressividade no cabaré Moulin Rouge, que ainda hoje está em atividade no bairro de Montmartre, em Paris. Sendo que, mais tarde, foi transportada para Londres e Nova Iorque, se tornando uma dança difundida no mundo ocidental. Outro fenômeno que trouxe muita influência para essa hibridização é que, enquanto por um lado, a antiga quadrilha era ensaiada e apresentada por jovens, quando cada bairro tinha sua própria quadrilha e apresentava apenas dentro dos festejos de cada comunidade; fato que mudou completamente, quando as prefeituras instituíram os concursos de quadrilhas, durante os festejos juninos, o que acontece na atualidade em vários locais do território brasileiro, e principalmente no Nordeste.

     Acrescentando a esse fenômeno, as várias bandas que foram surgindo do final da década de 1970 para a década de 1980, e principalmente a partir da década de 1990 quando irão surgir bandas como Mastruz com Leite (1990), Banda Patrulha (1992), Limão com Mel (1993), Cavalo de Pau (1994), Calcinha Preta (1995),  Magníficos (1995), e Aviões do Forró em 2002, entre tantas outras bandas do gênero, às quais, herdaram influências das primeiras gravações de música tendo como mescla forró e frevo, como: Frevo Mulher, de Zé Ramalho, gravada por Amelinha em 1979, Gemedeira, de Robertinho do Recife e Capinan, também gravada por Amelinha, no ano 1980, e ainda, Crina Negra, de Robertinho do Recife, gravada pela Banda Patrulha em 1992. E demais bandas que foram surgindo ao longo dessas décadas, por sua vez, influenciaram as quadrilhas contemporâneas que apresentam geralmente esse gênero e ritmo musical: a combinação forró/frevo.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

GOTAS DE SABERES

 

 

          A primeira vez que visitei Daniel de Rocha e Tina Araújo, na sua residência no Bairro Perpétuo Socorro, percebi no quintal uma espécie de um estranho projeto de um imenso galpão. Nesta conversa de quase três décadas atrás, fui informado pelo jovem casal, de que ali estava a base fundamental de um futuro teatro, o que se tornaria no que conhecemos hoje como: Teatro Marco Zero. O que havia naquele pequeno terreno? A casa, uma grande estrutura de ferro, coberto de telhas, um piso revestido de cimento e, num dos cantos, encostada numa cerca de madeira, uma surrada e velha Kombi.

     E esse era o cenário inicial do sonho desses persistentes artistas..., construir um teatro no quintal de casa, sonho que realmente virou realidade...! Virou realidade com muita luta, perseverança, trabalho, dedicação, e muita paixão. E foi assim que surgiu o Teatro Marco Zero, o qual, já é bastante conhecido no Amapá. Aliás, hoje, único teatro que abre suas portas para os grupos locais, seja de música, de poesia, de dança, todos serão bem recebidos no teatro marco zero: os artistas, os grupos de teatro e o público em geral.

     Como o nosso anfitrião, Teatro das Bacabeiras, está, há bastante tempo hibernando, o único teatro que pode suprir esta necessidade é exatamente o Teatro Marco Zero, que no dia 15 de julho, recebeu a Companhia Arteatro de Roraima, que apresentou o espetáculo “Gotas de Saberes”, o qual, busca socializar para o público, aspectos da ancestralidade dos povos indígenas da etnia Macuxi. Para início de conversa, Gotas de Saberes é um espetáculo que não depende exclusivamente de palco italiano, e esta, é uma boa razão para quem pretende levar sua obra para os mais diversificados e imprevistos espaços cênicos, como também para um grande público.

      Diz-se de um espetáculo voltado para o público infanto-juvenil, é o que está escrito no programa do mesmo, concordo com tal definição, mas, por outro lado, percebo que o referido espetáculo, alcança grande amplitude em termos de que a mensagem que se deseja revelar e enviar ao público, adapta-se para qualquer faixa etária, principalmente para aqueles que necessitam entender e respeitar os povos da floresta. Ao narrar a história do povo originário da etnia Macuxi, o dramaturgo utiliza-se de versos com métricas e rimas, o que dar maior sensação de beleza à peça.

     A aglutinação do texto poético e da encenação em si, somando-se a tudo isso, a desenvoltura das atrizes em cena (Aravis e Silmara Costa), com a incumbência de representar sucessivamente vários personagens; a mise en scène nos lembra o teatro didático de Brecht. Por outro lado, com cenário elucidativo, concentrando a cenografia em dezenas de objetos de cena, além de instrumentos de percussão, dispostos à vista do público, o que de mais relevante e expressivo nos parece, no referido espetáculo, é a sonoplastia ao vivo, e a consequente relação harmônica musical entre os sons dos instrumentos, as vozes e onomatopeias sussurradas pelas atrizes, com o determinado acompanhamento do sonoplasta/ator (Márcio Sergino), que também é parte intrínseca da cena. A peça gira em torno dos quarenta minutos, e isso, gera certa surpresa no público, visto que, imbuído na contemplação dos sons da floresta, quando menos se espera o mesmo finaliza, deixando um gosto de quero mais na plateia. Este espetáculo foi selecionado pela Lei Rouanet Norte de incentivo à cultura.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

SACERDOTISA DA PESQUISA

 

   

    Na minha tenra juventude, eu fazia parte do grupo de jovens da igreja católica, aliás, vivência que me trouxe muito conhecimento teológico como também, minha relação como o divino, além de sinceras e grandes amizades. Cada paróquia tem seu padre ou sacerdote. Naquele período, o padre responsável pela paróquia do lugar chamava-se Padre Antônio Kemps, originário da Europa. Ele veio da Bélgica para uma pequena cidade do interior da Paraíba, com uma grande missão: coordenar a paroquia da cidade. Como um verdadeiro sacerdote, viveu o restante da sua vida naquela pequena cidade, cumprindo o seu dever como religioso e desempenhando suas funções religiosas e rituais sagrados em prol daquela comunidade.

     A palavra sacerdote deriva do latim “sacerdos, dotis”, sendo uma combinação de sacer – de sagrado, e dotis – dote, dom. Significa, aquele que oferece coisas sagradas, como também, está relacionado à função de realizar rituais e oferendas sagradas. Simplificando: são aquelas pessoas que em toda sua vida, se dedicam a um objetivo comum, uma missão, ou algo desse gênero. Com certeza, ao longo do tempo esse termo evoluiu designando várias situações, sendo usado na atualidade sobre quaisquer circunstâncias. Se alguém se dedica diuturnamente em determinada atividade, pode-se dizer, ele é um verdadeiro sacerdote. Isto significa dizer que, dependendo da sua dedicação e empenho em relação ao que você realiza durante sua vida, este fazer também pode ser reconhecido como um sacerdócio.

     E é em função de dedicações como as citadas acima, que venho aqui fazer minha homenagem à arqueóloga e pesquisadora Niède Guidon, a quem defino como sacerdotisa da pesquisa. Ela era professora da Universidade de São Paulo, e em 1963 soube da primeira notícia das pinturas que existiam no sul do Piauí, quando gerenciava uma exposição no Museu Paulista da USP, no qual, ela trabalhava naquele momento. Infelizmente ela não teve a oportunidade de conhecer a região piauiense, tendo em vista que, em função do golpe militar, teve que se exilar na França. Depois de passar vários anos fora do Brasil, somente em 1973, que ela, de férias, conseguiu fazer sua primeira visita a São Raimundo Nonato. Porém, ela criou a Missão Arqueológica Franco-Brasileira, e com apoio do governo francês, em 1978, começou suas primeiras escavações.

     Já em 1979, conseguiu criar o Parque Nacional da Serra da Capivara, abrangendo uma área protegida pela UNESCO. Foi diretora-presidente da Fundação Museu do Homem Americano, também sediado em São Raimundo Nonato. Tornou-se famosa no mundo, com sua tese científica de que o homem se instalou na América do Sul, vindo provavelmente de barco, da África, há mais de trinta e dois mil anos. Como se pode observar, em função de uma vida dedicada às suas pesquisas arqueológicas naquela região, a sacerdotisa Niède Guidon foi a principal responsável pela preservação, desenvolvimento e progresso de São Raimundo Nonato, no Piauí. Deixando esse grande legado, e esse exemplo de sacerdotisa da arqueologia, faleceu em 4 de junho de 2025.  

segunda-feira, 14 de julho de 2025

CAVALO E CAVALEIRA

 


     A música Crina Negra apresenta uma poesia muito sugestiva, a mesma, foi composta por Robertinho do Recife, em homenagem e dedicada à cantora Amelinha, que entre as décadas de 1970 e 1980, era muito famosa e flertada pelos que a rodeavam. Infelizmente, por algum motivo, Amelinha não conseguiu gravar a referida canção. A composição ficou por mais de uma década em banho-maria, quando em 1992, foi gravada pela Banda Patrulha, nas vozes dos intérpretes e vocalistas Leco Maia e Cátia Guima. A referida música já está com 33 anos, mas sempre é sucesso absoluto no período junino.

     Embora, perante os olhos do observador, a arte pareça algo simples e fácil de realizar, aos olhos do artista não é tão corriqueiro assim. Essa questão é fato, principalmente em função da compreensão do leigo sobre a produção artística. Quem assiste a um espetáculo de dança, que apresenta bastante leveza na coreografia dos dançarinos, não imagina, o trabalho, a persistência, o esforço e a dedicação desses artistas que estão entre a arte e o desporto. Da mesma forma, num espetáculo teatral, numa apresentação musical, num vernissage, ou seja, em qualquer área da arte.

     A questão é que, em qualquer área da arte, todo artista realiza um esforço fenomenal, para que sua obra pareça ser natural aos olhos do público, mas, não é bem assim...! Na verdade, são dias e meses de preparação para que o trabalho esteja totalmente pronto para o dia da estreia. Além disso, a arte apresenta um leque amplo de juízo de valor, onde qualquer um terá sua opinião própria perante os valores estéticos que presencia, levando-se em consideração de que o leigo, na maioria dos casos, vai em busca de diversão e entretenimento.

     Outra questão é que, cada obra de arte apresenta sua peculiaridade, sendo que, muitas vezes, o público em geral não consegue discernir o que está implícito na mesma. Portanto, como exemplo, faremos uma rápida análise da letra da música Crina Negra. Iniciaremos pela primeira estrofe, que diz: Meu cavalo é forte, faz mil léguas sem cansar/Na batida dum chicote/No galope a beira-mar/Meu cavalo alazão saiu no clarão da lua/Meu famoso garanhão, cavalgando toda nua. Como se percebe, a letra começa a relatar um sugestivo passeio de uma cavaleira nua, montada no seu alazão. Em seguida, a próxima estrofe descreve o seguinte: Eu sou cavaleira, sou mulher guerreira/Em cima do crina negra, me dá uma tremedeira/Uma suadeira que me faz arrepiar/Uma louca gemedeira, ui-ui-ui ai-ai-ai-ai. Esta estrofe, complementa a primeira, no sentido de propor uma ambiguidade conotativa na relação íntima da cavaleira com o seu cavalo, principalmente com a sensação de suadeira e tremedeira, juntamente com as onomatopeias, ui-ui-ui, ai-ai-ai-ai, alucinadamente ecoadas pela cavaleira.

     Em suma, é uma letra que, metaforicamente, além de assinalar uma possível relação amorosa, ou mesmo uma vivência de prazer e êxtase entre cavaleira e seu cavalo, por outro lado, também reconhece e caracteriza certas habilidades e conquistas por parte do gênero feminino ao longo da história social, como: força e liberdade, conquista do voto, emprego, espaço na política, empoderamento e sensualidade de uma mulher guerreira. É uma música que apresenta uma fusão entre o espírito selvagem da relação da mulher com a natureza, como tanto pregava Dioniso, o deus grego da arte e da liberdade.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

CORPO DE CRISTO

 


     Salve a Companhia Teatro de Arena do Amapá, que no dia 19 de junho, apresentou pela primeira vez, seu novo espetáculo, intitulado Corpo de Cristo. Diferentemente do tradicional, “Uma Cruz Para Jesus”, desta vez, o espetáculo aconteceu no espaço interno da Fortaleza de São José de Macapá. A Companhia Teatro de Arena, como todos sabem, tem uma tradição de montar espetáculos com temas religiosos. Para os que acompanham sua trajetória, basta afirmar que são 46 anos de resistência em relação ao fazer teatral nas terras tucujus. Próximo a completar cinco décadas à frente de sua Companhia Teatral, Amadeu Lobato segue firme como diretor. Não obstante, acredito que já está na hora de se preparar um sucessor para que no futuro seja dado prosseguimento a esse grande e sublime desafio.

     Uma questão sui generis é que Amadeu Lobato transformou seu trabalho num espetáculo ontológico e clássico do Amapá. Agora, uma segunda peça em que não se paga ingresso, onde o acesso é livre para o público em geral, sem discriminação de cor, etnia, religião e classe social. Todos podem assistir ao referido espetáculo. Por outro lado, ele (Amadeu), transformou seu espetáculo numa considerável escola de teatro ao ar livre, visto que significativa parte dos artistas do Amapá se iniciaram nesta escola. Além disso, é um trabalho totalmente inclusivo, gerando integração absoluta de pessoas que possuem necessidades especiais, e que em relação a esse tema, não há qualquer barreira para quem deseja participar dos espetáculos da Cia de Arena.

     No caso, da produção cênica, “Corpo de Cristo”, há professores e alunos do curso de teatro da UNIFAP, que fazem parte do elenco como: Marina Brito, Carla Thaís, Heiron Mascarenhas, Brenda Lobato, Renan Cunha, Giulia Dominike, Laurene Morais, Eliete Galvão, entre outros. Situação que gera substanciais trocas de conhecimento entre os acadêmicos e os demais artistas do elenco. Levando-se em consideração que havia diversos artistas iniciantes em cena, centrarei minhas observações em relação ao próprio tema da peça. Tendo como ponto de partida o título da obra: “O Corpo de Cristo – Ele ressuscitou”, há de se esperar que o enredo dramatúrgico esteja direcionado e evidencie o sofrimento, o martírio, as angústias e os dissabores, pelos quais padecem o próprio corpo de Cristo.

     A cena que mais sensibiliza o público se dá quando Cristo está caído, com o corpo abatido, sem forças de carregar sua cruz, mas está envolto com o total apoio de sua mãe que o consola, sob a tênue leveza da música interpretada por Nathanhe Rogelle. Esta cena específica gerou um silêncio no público presente, e quando os espectadores silenciam completamente, é sinal de que a cena está cumprindo seu objetivo. E essa calma total, ao ver a cena, gera na plateia, respeito, comoção, tristeza, compaixão e terror e, em consequência, a catarse. Portanto, para que esta montagem busque novos indícios de melhoras na mise en scène, com foco dramático no corpo de Cristo, sugiro que a cena da remoção de Cristo da Cruz, seja delicada, com mais sutileza e elegância, e com a presença daqueles que vivenciaram tal fato, como os discípulos José de Arimatéia e Nicodemos, como também, Maria mãe de Jesus, Maria Madalena e Salomé.

     Observo a necessidade de mais duas cenas que poderiam ser introduzidas na referida montagem: primeiro, a cena em que Cristo ressuscitado aparece à Maria Madalena, ela que foi a primeira pessoa que testemunhou a ressureição; primeira pessoa a ver Cristo ressuscitado. A segunda cena, seria sobre São Tomé, o apóstolo incrédulo, que precisava ver para crer, o apóstolo só acreditou da ressurreição do Senhor, depois de tocar a chagas de Cristo. No entanto, ele arrependeu-se amargamente e chorou, ao conferir com seus próprios olhos, as chagas abertas de Cristo. Já a última cena, a ascensão de Cristo aos céus, poderia ser abrilhantada com gelo seco, iluminação mais intensa, fogos de artifício e, se possível, um drone com um foco de luz em elevação incessante.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

SÃO PEDRO E SANTA ANA

 

 

     Embora as festas em homenagem aos Santos, Antônio João e Pedro, se concentrem no mês de junho, entendo que o prenúncio das festas juninas tem início no dia de São José, 19 de março, visto que, esse é o principal dia para a plantação do milho, com vistas à colheita após três meses, já nas proximidades do São João. Aliás, nas culturas remotas, o domínio de se conhecer a relação entre o tempo, a plantação e a colheita, significava alta tecnologia. Essa consciência gerava poder e know-how, entre tribos que ainda não dominavam esse conhecimento. Muitas festas que se conhece em cada cultura, geralmente tem a ver com a produção, colheita, e fartura de uma determinada região, por exemplo, no Nordeste, a produção do milho em junho, como também a colheita da cevada e divulgação da cerveja, na Oktorberfest, em Santa Catarina, entre outras.

     Sendo assim, o dia 13 de junho é dedicado à Santo Antônio, que é conhecido como Santo Casamenteiro. Vale lembrar que, para todos esses Santos, o costume do povo é fazer simpatias para alcançar seus desejos e pedidos. Mas, o momento áureo das festas juninas, acontece efetivamente no dia 24 de junho, dia de São João, que, entre os demais, é o santo mais comemorado. Há quem diga que a festa do ano mais esperada pelo nordestino, é o dia 24 de junho. E ainda temos o dia 29 de junho, quando se comemora o dia de São Pedro. Pedro que era Simão e que Cristo mudou seu nome para Pedro, que deriva de pedra, e Pedro seria a primeira pedra da Igreja de Cristo. Praticamente 30 dias depois da festa de São Pedro, exatamente no dia 26 de julho, comemora-se o dia de Santa Ana, é um dia que também se acende fogueiras, solta-se fogos de artifícios em comemoração à Santa. Aqui fecha-se o ciclo das festas juninas.

     Independentemente de qualquer coisa, é interessante saber que muitas dessas festividades iniciam, por um lado, pelo cristianismo, e por outro, pelo comércio. Portanto, essas datas sempre foram comemoradas por remotas civilizações pagãs, principalmente em função do domínio da cultura de cereais, que era fundamental para que o homem pudesse se fixar em algum lugar e deixar a vida nômade. Cereal, que deriva da Deusa romana Ceres, e que na Grécia era conhecida por Deméter, que era a divindade da agricultura e da fecundidade da terra. O dia de São José, 19, se aproxima do equinócio quando o Sol segue paralelo à linha do equador, e que ocorre entre os dias 20 e 23 de março, o dia de São João, 24, é o dia do solstício de verão para o hemisfério norte, e acontece entre os dias 20 e 24, as populações antigas já comemoravam o Sol Invictus, período de fim do inverno e início do verão.

     O dia de Santa Aurélia comemora-se no dia 25, próximo ao equinócio de setembro, e no solstício de inverno, é quando acontece a festa de Natal. São Cosme e São Damião são celebrados em 26 de setembro. Vale lembrar também, a comemoração do dia de Santa Ana, que acontece em 26 de julho, período que ainda há festividades relacionadas com os santos de junho, época em que há comemorações e queima de fogos. Santa Ana é a padroeira dos mineradores, e não é à toa que a antiga Vila de Madre de Deus, foi denominada pela ICOMI, como cidade de Santana. Já que a ICOMI trabalhava com a extração do manganês.

   

 

segunda-feira, 23 de junho de 2025

SÃO JOÃO

 


     Estamos em pleno São João, festividade tradicional no Brasil e principalmente na região nordeste. Festas joaninas ou juninas? Joanina deriva de João e é em homenagem a ele que assim se fala: festas joaninas. Junina deriva do mês de junho, visto que acontece nesse período do ano. É a principal festividade do ano e a mais comemorada no nordeste brasileiro.

     Os pagãos comemoravam essa data em função do solstício de inverno, no hemisfério sul e solstício de verão no hemisfério norte. Como a Europa situa-se no hemisfério norte, e praticamente maior parte do ano perdura o frio, os pagãos comemoravam a chegada do “Deus Sol Invictus”, ou seja, o sol invencível que chegava abrindo o verão para abrilhantar e esquentar aquele espaço geográfico.

     O culto ao Sol invicto continuou a ser base do paganismo oficial até a adesão do império romano ao cristianismo. Antes da sua conversão, até o imperador Constantino I, tinha o Sol Invicto como a sua cunhagem oficial. Quando aconteceu a ascensão do cristianismo, ficou decidido que a referida data seria para comemorar o santo “São João”. Com isso, a cultura europeia e de suas colônias, foi se adaptando gradativamente, como é o caso no novo mundo e do nordeste do Brasil.

     Mesmo sendo na atualidade uma dança popular, é bom lembrar que a quadrilha que era muito difundida na França, foi inicialmente dançada na corte francesa. Em seguida, no campo entre os agricultores e seus familiares. Com a descoberta do novo mundo, os costumes e a cultura europeia vieram juntos. Foi assim que se consagrou as quadrilhas mais antigas que traziam muitas palavras francesas e que foram ao longo do tempo sendo aportuguesadas aqui no Brasil.

       Alavantú, vem do francês “en avant tous” (todos para a frente); changê de damas e changê de cavalheiros, vem do verbo “changer” que significa trocar, neste caso, trocar de damas e trocar de cavalheiros. Anarriê, também é do françês “en arrière” (todos para trás); Otrefuá, do francês “autre fois”, que significa outra vez.

     O que não havia na quadrilha francesa e que foi adaptado pelo povo brasileiro, foi a encenação do casamento matuto, neste caso a quadrilha gira em torno desse casamento matuto na roça em que o noivo é obrigado a casar pelo pai da noiva, que com uma espingarda apontada para ele, o obriga definitivamente a aceitar o casamento.

     As festas juninas são comemoradas no dia 13, em homenagem a Santo Antônio, quando na véspera se comemora o dia dos namorados; o dia de São João, 24, é o dia mais comemorado, há fogueiras, queima de fogos e impera a comida derivada do milho, inclusive porque é período de colheita. Dia 29 comemora-se o São Pedro que também é muito lembrado nas pequenas cidades do interior. Nesse período não se toca outra música a não ser o forró. Para o nordestino, o São João tem o mesmo significado sentimental e religioso, da mesma forma que o Círio de Nazaré para o amapaense.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

SEGREDOS DA MURTA

 


     Aproveitando aqui o ciclo do marabaixo, dança bastante significativa para a cultura amapaense, para enfocar principalmente, o que diz respeito a um símbolo seriamente respeitado e utilizado nesse culto, os segredos da murta. Por sua vez, a dança do marabaixo ultrapassa questões: antropológicas, sociológicas, étnicas e culturais. Tornou-se a mais autêntica manifestação cultural do Amapá. Observando que em novembro de 2018, recebeu o título de patrimônio imaterial do Brasil, pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional - IPHAN. De outra parte, há uma questão de tamanha importância, que se trata da murta, a planta sagrada do marabaixo, que entre outras coisas, serve para envolver os mastros das bandeiras em devoção ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade.

     Na mitologia grega, a murta era consagrada a Afrodite, já em Roma, era Vênus quem recebia o título de Múrcia, denominação que a relacionava com a referida planta. Os gregos adornavam as noivas com grinaldas confeccionadas com murta. A madeira da murta, a mirra, era usada para incensar cerimônias religiosas tanto na época de Cristo, como também na Grécia antiga. Portanto, a murta tem seus vestígios em vários rituais da antiguidade, por exemplo, o culto às Deusas Deméter e Perséfone, na antiga Grécia, iniciava com uma procissão que partia de Atenas para Elêusis, na qual, os mystai, que eram os iniciados, caminhavam com um buquê de murta nas mãos, como se seguissem os passos das Deusas. A murta também era símbolo fundamental em várias cerimônias à Dioniso, Deus da uva, do vinho, da fertilidade e das festividades.

     A murta simboliza o amor, pureza, proteção, renovação, paz, juventude e beleza. Deriva do hebraico Hadassad, chegando à versão portuguesa, Hadassa, e significa mirto ou murta na nossa língua mater. No antigo testamento na Bíblia, Hadassa, que era judia, mudou seu nome para Ester, para esconder sua identidade e casar com o Rei persa Assuero/Xerxes. Hadassa também está relacionada com estrela, em função da forma da flor. Com o nome científico de Myrtus communis, pertence a um gênero botânico com mais de uma espécie de plantas com flores, que fazem da família das myrtaceae, sendo nativas do sudoeste da Europa e do Norte da África.

      Também é conhecida em várias outras denominações como: hadassad, murta, mirta, marta, múrcia e mirto, sendo esta última relacionada à Vênus e ao matrimônio. Com várias propriedades, suas folhas possuem ação expectorante, antisséptica, sendo usadas para o tratamento da sinusite, tosse e bronquite entre outras enfermidades. Suas folhas também possuem compostos ativos, os quais, possuem propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianas, dermatológicos e até mesmo como auxiliar no combate ao envelhecimento. A planta em si, pode ultrapassar os 100 anos de idade. Além do Livro de Ester, na Bíblia, a murta é citada em várias passagens, como no livro de Zacarias, onde simboliza a restauração e a bênção divina, e ainda, no Livro de Neemias, relacionada à celebração da Festa dos Tabernáculos. Esses fatores, reforçam uma visão de renovação espiritual e proteção divina, sentimentos que também se refletem na atual dança do Marabaixo, no Amapá. 

 

segunda-feira, 9 de junho de 2025

OPORÃ

 

                               

         Sexta-feira, dia 30 de maio, no Departamento de Letras e Artes da Universidade Federal do Amapá, aconteceu a inauguração da escultura tridimensional, “Oporã”, cujo artista, J. Márcio, já é personalidade deveras conhecida na cidade de Macapá, tendo em vista que o mesmo, assinou a obra que se encontra na Praça Povos do Meio do Mundo, um espaço público dedicado aos povos originários do Amapá. J. Márcio também é autor da obra “Mulheres do Igarapé”, cujas esculturas localizam-se na Praça Jaci Barata Jucá, e eternizam a história das lavadeiras do Igarapé das Mulheres, no atual bairro Perpétuo Socorro.

     A placa da obra Oporã, foi descerrada às 17:00 horas, com depoimento do próprio artista, como também de vários professores. A referida obra, inaugura um momento peculiar na história do Curso de Artes Visuais, do Departamento de Letras e Artes, como também da própria UNIFAP. J. Márcio é egresso do Curso de Artes Visuais, desenhista, artista visual, pintor, artista plástico, cartunista, caricaturista e professor de artes visuais do Centro Profissional em Artes Visuais Cândido Portinari. Em 2011, publiquei minha terceira obra infantil, intitulada “A Ovelha Malhada”, cujas ilustrações foram de J. Márcio. Naquela época, ele já era licenciado em Artes Visuais e já demonstrava o que tinha de melhor na sua arte para oferecer à comunidade amapaense.

     Em tupi-guarani, “Oporã, ” significa bonito ou belo, sendo uma palavra muito usada no português do Brasil, assim como “oporã, “porã” também é usada para indicar beleza, por exemplo, o nome “Ponta Porã, ” significa ponta bonita, em tupi-guarani. Esta produção do escultor J. Márcio, volta suas lentes para as questões contemporâneas, revelando uma quebra de paradigmas no que concerne ao processo da inclusão social, tema tão necessário a ser abordado na atualidade.

     A obra em si, já se revelou como o totem institucional do Departamento de Letras e Artes da UNIFAP, determinando a indicação física e estética do próprio departamento. Oporã, de J. Márcio, assemelha-se a um pequeno obelisco, com relevos e sulcos que parecem rios, os quais, testemunham a monumental bacia amazônica, com seus furos, suas matas e suas infinitas ilhas, ensejando uma osmose nesse entrelaçar de amor eterno entre as águas fluviais e o continente. Nessa obra, J. Márcio conseguiu criar uma composição harmônica, a partir de materiais completamente distintos, por um lado, o concreto armado, e por outro, materiais metálicos e derivados do ferro, gerando uma leveza unificada na composição da obra.

     A constituição da imagem nos passa ainda, um caboclo remando seu barco sobre águas revoltas, mas com bastante domínio e equilíbrio, como se fosse fácil dominar um pequeno barco frente a fúria da pororoca. De outra forma, também lembra a barca sagrada dos deuses egípcios Ísis e Osíris, ícone crucial que representava o transporte dos deuses e a ligação entre o céu e a terra. Nos remete similarmente, à deusa grega Ártemis, deusa da caça, da vida selvagem, da lua, do parto e protetora das mulheres, à qual, com sua virilidade, vivia armada com seu arco e flecha para atacar o instável e impetuoso inimigo.  O evento contou com a presença do Prof. Dr. Marcos Paulo Torres Pereira (Diretor do DEPLA); Prof. Dr. Joaquim Cesar da Veiga (Coordenador do Curso de Artes Visuais); Prof. Dr. Rostan Martins (Coordenador Artístico) e o autor da obra J. Márcio. 

segunda-feira, 2 de junho de 2025

TEATRO DO MUNICÍPIO

 


 

     Há 30 anos que venho clamando por um teatro de bolso na cidade de Macapá, sobre esse tema, já escrevi vários artigos ao longo dessas três décadas. Em breve teremos mais um espaço teatral na cidade, desta vez o Teatro Municipal de Macapá, o qual está sendo concluído e está situado na convergência da Avenida FAB e Rua Cândido Mendes, no centro da cidade. Este edifício teatral possui 358 lugares.  

     Na realidade, uma das hipóteses para um novo impulso no teatro em Macapá gira em torno de, por um lado, a construção de um pequeno teatro, e por outro, uma política cultural de administração desse espaço, que propicie o acesso aos mais diversificados grupos que trabalham com artes cênicas em nossa cidade. Uma política cultural que motive também a criação de novos grupos de teatro, principalmente nas escolas da rede municipal de ensino, visto que é principalmente na escola que surge o novo cidadão.

     Tais encaminhamentos viriam a dar cara nova às artes cênicas em nosso município, cativando os jovens, criando uma nova mentalidade e contribuindo para o desenvolvimento sócio cultural de nossa sociedade. Sem esquecer, que os órgãos de cultura em nível federal, estadual e municipal, deveriam contribuir com projetos voltados para o desenvolvimento das artes cênicas como um todo, em nosso Estado.

     Os espaços alternativos que já existem em nossa capital não suprem a necessidade dos nossos grupos de teatro. Por outro lado, apesar de estar inativo, o Teatro das Bacabeiras é um espaço para eventos profissionais ou para grupos, que, como o Língua de Trapo, com seu espetáculo Bar Caboclo, já conquistou um público efetivo, e até hoje é considerado o único espetáculo local que consegue lotar aquele edifício teatral, com capacidade para aproximadamente 710 pessoas sentadas.

     Um exemplo efetivo a essas questões resume-se na utilização do porão do Teatro das Bacabeiras, quando vários grupos já fizeram uso daquele espaço, como foi o caso do espetáculo Esperando Godot, nos primeiros anos do século XXI, com montagem da Companhia Supernova. Ao se falar em teatro de pequeno porte, é importante registrar que, pelo seu espaço ser consideravelmente menor, diminui em muito as despesas em geral, como: limpeza e material de limpeza, com pessoal qualificado para administrar o edifício, com ar condicionado e iluminação, tendo em vista que com apenas uma lâmpada, um grupo pode ensaiar seus números e preparar seu espetáculo, o que muito reduz os custos financeiros e a manutenção do referido prédio, em si. De outra forma, com quatro centrais de ar resolve-se a temperatura na plateia, neste caso, com metade do público basta ligar apenas duas centrais, espaço lotado, passa a funcionar as quatro centrais. Além disso, faz aglomerar ainda mais o público presente, dando um ar de participação mais ativa ao espetáculo.  

     É evidente que com o passar do tempo, administradores e agentes públicos, percebam essa necessidade de engrandecimento de nossa cultura. Portanto, observa-se que na atualidade, há uma luz no fim do túnel, e os artistas e a cultura, esperam com muita ansiedade a inauguração do Teatro do Município de Macapá. Que seja bem-vinda esta notícia, e que realmente seja concretizada pela Prefeitura Municipal de Macapá. Evoé! Que Dioniso nos permita a breve inauguração desse novo e tão esperado edifício teatral!

 

 

 

 

 

domingo, 25 de maio de 2025

AINDA ESTOU AQUI

 


     Todos já ouviram falar sobre o filme que tem como título este artigo. Ainda Estou Aqui, é um filme de 2024, dirigido por Walter Salles, tendo como protagonista Fernanda Torres, no papel de Eunice Paiva e, Selton Mello como Rubens Paiva. A referida obra foi baseada na autobiografia homônima de 2015, escrita e publicada por Marcelo Rubens Paiva, como pode-se observar, o enredo revela a história da família Paiva, com enfoque no Marcelo Rubens Paiva e Eunice Paiva, sua esposa. Ainda Estou Aqui, foi lançado em novembro de 2024. Em razão do filme enfocar questões relacionadas à ditadura militar, que se deu entre o período de 1964 a 1985, do século XX, evidenciando as mais diversas consequências de desagregação do núcleo familiar, sofreu um boicote da direita brasileira. Apesar disso, virou um sucesso de bilheteria, e já alcançou um público de mais de seis milhões de espectadores.

     Foi distribuído no mercado internacional com o título I’m Still Here e, em março deste ano, fez história quando conquistou o prêmio de melhor filme internacional no Oscar, nos Estados Unidos. Consequentemente, em vários países da Europa e do mundo, o filme foi automaticamente traduzido para que o globo conhecesse um pouco dessa fase obscura que aconteceu no Brasil no século XX. Embora a mídia nacional e internacional tenha tido colocado em tela, tal acontecimento, à vista disso, e possivelmente pelo fato de ter conquistado o Oscar, é notório que grande parte da população se sensibilizou em assistir ao referido filme. Destarte, decido trazer à tona, semelhantes acontecimentos artísticos de décadas passadas, que, pelo fato de não terem tido o regozijo de galgar um Oscar, e de não terem sido largamente divulgados pela mídia, não lograram o êxito do filme em tela. Direcionarei meu olhar para dois trabalhos cinematográficos, de tamanha importância e que devem ser citados neste debate. 

     Em primeiro caso, citarei o filme Cabra Marcado para Morrer, de 1984, dirigido por Eduardo Coutinho. É um filme documentário brasileiro, que também mostra os estragos de um governo autocrático frente às Ligas Camponesas, que eram órgãos representativos dos agricultores brasileiros. Por sua vez, este filme também é uma narrativa semidocumental, sobre a vida do agricultor João Pedro Teixeira, um líder camponês da Paraíba, assassinado no ano de 1962 e, principalmente da viúva, Elizabeth Teixeira, que participou efetivamente das gravações. O enredo mostra a vida dos camponeses sendo expulsos da terra pelos coronéis e donos de usinas. O filme estava sendo produzido pelos Centros Populares de Cultura da União Nacional de Estudantes. Em função do golpe militar, as filmagens foram interrompidas em 1964. Desde esse período, a viúva, Elizabeth Teixeira, separada de seus filhos, vivera na clandestinidade. O referido filme também galgou alguns prêmios como, por exemplo, o de melhor documentário, no VI Festival do Cinema Latino-americano, em Havana-Cuba.

     O segundo caso, trata-se do filme, A Hora da Estrela, de 1985, sendo este, um drama, dirigido por Suzana Amaral. Aqui, o roteiro foi uma adaptação do romance homônimo de Clarice Lispector. O papel principal, (Macabéa), foi assumido pela atriz paraibana Marcélia Cartaxo, e num Festival de Cinema de Berlim, ainda em 1985, ela tornou-se a primeira atriz brasileira a ganhar o troféu, Uso de Prata. Após treze anos, em 1998, foi que Fernanda Montenegro galgou o Urso de Prata, no mesmo Festival, com o filme Central do Brasil. Hoje, quando se remete ao prêmio Urso de Prata, a população logo se lembra de Fernanda Montenegro. É preciso estarmos atentos para as informações que nos são dirigidas.

 

terça-feira, 20 de maio de 2025

Teatro na Sala de Aula

 


     Quando se fala em teatro, a grande maioria das pessoas, pensa logo em ator, atrizes, cinema e novelas de televisão. O teatro não se resume apenas a esses fatores, em tempos passados foi o principal lugar para a educação das crianças, dos jovens e dos adultos, e é por isso que ele está na escola. Com o teatro se aprende a desenvolver-se a si próprio, no teatro você vai realizar um auto trabalho, tendo em vista que vai reaprender a andar, olhar, falar, gesticular, melhorar a dicção, saber falar em público, deixar de ser introspectivo para ser expansivo.    

     Em relação ao teatro na sala de aula, observamos que vários filósofos em diversas épocas da história, destacaram a importância do ensino das artes na sala de aula através do jogo de expressão. Para Montaine, “jogos de criança não são esportes e deveriam ser sua mais séria ocupação”. Leibniz, apoiava o teatro na sala de aula com a condição que fosse instrutivo”. Para Rousseau, cujo pensamento influenciou profundamente as teorias de Fröebel, Pestalozzi, Montessori e Dewey, a primeira fase da educação da criança deveria ser quase inteiramente baseada em jogos.

     O teatro na escola, é aquele realizado no âmbito da escola e dependendo do objetivo do professor, pode ser levado de escola para escola. Portanto, não se faz necessário levar um grupo de alunos para representar uma peça num palco de teatro, visto que isto implica uma série de variáveis. Tendo como ponto de partida a faixa etária, e sabendo-se que boa parte dos nossos alunos é leiga no que diz respeito à arte de representar, temos que levar em consideração que, para a apresentação de algum trabalho no palco propriamente dito, é necessário conhecer algumas técnicas como: domínio de espaço; dicção e tom de voz compatível com o espaço interno do teatro; ritmo; preparação física e mental; domínio da maquilagem; conhecer sobre dramaturgia; iluminação; sonoplastia; expressão corporal, entre outras técnicas com as quais nos deparamos ao encenar um espetáculo.

     Ao levar para o palco de um teatro um grupo que não domina tais técnicas, ao invés de motivar o referido grupo para esta arte, o professor com sua atitude infantil e irresponsável poderá desmotivar seus alunos, visto que triplica a responsabilidade expondo tal grupo à crítica teatral em geral. De outra parte, ao levar seus alunos para outras escolas, o professor estará orientando melhor seus afazeres, em função de que a mensagem será bem recebida por partes dos outros colegas que, por sua vez, possuem um nível de conhecimento que se iguala aos iniciantes atores. São diversos os temas para dramatização: histórias tradicionais; mitos; fatos acontecidos na comunidade, entre outros. Finalizamos afirmando que o teatro na educação é muito amplo, sendo realizado em qualquer lugar, na sala de aula, na escola, numa associação de bairro, numa rua, numa casa, no hall da biblioteca, num tablado, auditório e até mesmo no próprio edifício teatral.      

terça-feira, 13 de maio de 2025

À Minha Mãe

 


     Hoje, segundo domingo do mês de maio é comemorado o dia das mães, dia de muita importância para as famílias como um todo; momento em que a população brasileira homenageia as mães. Também é um período muito significativo para as transações comerciais, em função da grande procura de presentes para as homenageadas. É um domingo muito especial, para quem tem a oportunidade de estar pessoalmente com sua querida mamãe.  

     Minha mãe tem uma longa história de vida; como meus avós eram agricultores, foi criada em terras alheias e sítios inóspitos, nas cercanias da cidade de João Pessoa-PB, mas, apesar disso, conseguiu concluir o ensino primário. Mesmo com sua vida pacata, gostava de estudar e dava muito valor ao conhecimento. Só deixou a zona rural, depois que casou e foi morar numa pequenina cidade com o nome de Cabedelo, na Paraíba.

     Enquanto seu esposo trabalhava na Rede Ferroviária Federal, ela se limitou aos quatro recantos da casa, e por um longo período de tempo, se dedicou especificamente, às responsabilidades das atividades domésticas, preparando a comida e cuidando dos filhos: sete no total. Quando começou a surgir momentos difíceis e crises na economia doméstica, resolveu, de certa forma, se desvencilhar de tudo isso, e passou a costurar. Era exímia costureira.

     A partir deste trabalho, ajudou nas despesas domésticas, e, direta e indiretamente, a todos de casa. Tinha vários clientes, na vizinhança e de outros recantos da cidade. O mais interessante, era que morávamos defronte a um grande espaço aberto, que se tornou o local onde se armavam os circos que chegavam à pacata cidade. Resultado: os artistas desses circos, também contratavam minha mãe, como costureira. Enquanto o circo estivesse na cidade, ela criava, costurava, modificava, fazia de tudo, para aproveitar e reaproveitar todos os figurinos daqueles artistas mambembes. Lembrando que esses circos eram armados literalmente defronte da nossa casa.

     Esse momento foi fundamental para minha vida: porquê? Porque, todas as vezes que ela entregava uma roupa pronta, ao pessoal do circo, por um lado, eles a pagavam em moeda corrente do país, e por outro, também a presenteava com alguns ingressos para ter acesso aos espetáculos do próprio circo. E ela recebia ingressos para adultos e para crianças. Esses fatos, interferiram beneficamente em minha vida, tendo em vista que, todos os finais de semana, passava a assistir aos espetáculos matinées dos circos, quando sempre terminavam com uma dramatização clássica, como “chapeuzinho vermelho”; “Cinderela”, “Branca de Neve e os Sete Anões”, entre outras histórias infantis. Daí, me vem toda a relação que tenho com o teatro, com a educação, com minha profissão como professor de teatro; como também, com a arte em geral.

     Hoje, no seu dia, aproveito, parabenizando-a e celebrando não só este dia das mães, como também seu aniversário de noventa e cinco anos, que comemorará no próximo dia 25 deste mês. Mesmo sendo agricultora, nunca deixou de me incentivar aos estudos, e isto foi de fundamental importância para o meu desenvolvimento profissional. Sempre dizia que o estudo era o melhor caminho para o pobre, e para quem gostaria de conseguir ser gente, um dia na vida. À minha mãe, Hilda Palhano, agradeço de todo meu coração, tudo o quanto ela me incentivou para que eu pudesse conquistar meus sonhos e organizar minha vida, como cidadão. A vida que tenho hoje e o profissional que sou, agradeço à minha mãe. Felicidades pelo seu dia e, parabéns pelos seus noventa e cinco anos. Parabéns a todas as mães do Amapá e do Brasil.

 

 

segunda-feira, 5 de maio de 2025

MISTÉRIOS DE ELÊUSIS

 


     Elêusis é uma localidade da Grécia que fica cerca de 23 quilômetros de Atenas, onde se celebravam os ritos de iniciação ao culto das deusas agrícolas, Deméter e sua filha Perséfone, (Ceres e Proserpina para os romanos). Os Mistérios de Elêusis giram em torno do mais famoso ritual religioso secreto da Grécia antiga, realizado entre os séculos 6 a.C. e 4 d.C., eram cerimônias de iniciação e apresentavam vários ritos, que teriam que ser seguidos exclusivamente pelos novos participantes, os quais, tinham a obrigação de guardar os segredos dessas iniciações.

     Segundo a lenda, Perséfone, filha de Deméter, enquanto colhia flores no vale do Nisa, foi raptada por Hades, rei do tártaro. Na mitologia grega, tártaro é a personificação do mundo inferior, ou seja, o mundo dos mortos. A partir dessa situação inesperada, e com grande tristeza em ter perdido sua filha, Deméter, que era a Deusa da agricultura, resolveu deixar de cuidar das plantações. Consequentemente começou a escassez de todo o tipo de cereal e alimento, fazendo com que a população começasse a passar fome. Zeus, que havia permitido seu irmão Hades, roubar Perséfone, resolveu reparar seu erro, decidindo que a mesma deveria voltar à terra por um período de seis meses para poder visitar sua mãe, sendo assim, os outros seis meses passaria com seu esposo, Hades.

     Os Mistérios de Elêusis giravam especificamente, em volta desse psicodrama. Destarte, o período de seis meses que Perséfone passava no Olimpo, simbolizavam a primavera e o verão, período em que favorece a agricultura, e os seis meses que passava com Hades, representavam o outono e o inverno, temporada em que o solo ficava infecundo. Esses rituais se dividiam em dois: os grandes e os pequenos mistérios. Enquanto os Grandes Mistérios eram realizados no equinócio da primavera, aproximadamente no dia 21 de março, os Pequenos Mistérios sucediam no equinócio de outono, por volta de 23 de setembro.

     As festividades começavam com uma procissão que partia de Atenas, no período matutino, em direção a Elêusis. Havia nesse cortejo, um espaço dedicado a Dioniso, quando os mystai (candidatos a iniciados), tomavam uma bebida alucinógena, feita especialmente para a cerimônia, onde na ocasião, eles carregavam uma estátua do Deus Dioniso, dando viva ao Deus do vinho. Ciceona, era uma bebida fermentada, psicoativa; dizem, ser uma bebida favorita dos camponeses gregos. Esses mistérios sempre eram comemorados no início da primavera, que significava o retorno de Perséfone, e assim, ela trazia sementes novas e o renascer de toda vida vegetal, ou seja, o ressurgir das plantas, a colheita e a vida na terra.  Lançar novas sementes que brotam novos frutos, significa no mito, uma espécie de morte e ressureição. Presumivelmente, pessoas idôneas e grandes personalidades importantes da sociedade grega, foram iniciados nos Mistérios de Elêusis, como: Aristóteles, Cícero, Pitágoras, Aristófanes, Plutarco, Platão, Alcebíades, Sócrates, Demóstenes e Sófocles, entre outros. 

 

segunda-feira, 28 de abril de 2025

MANIA DIVINA

 


     Ouvindo “Amante Latino” de Rabito, com versão de Antônio Carlos e interpretada por Sidney Magal, música que galgou estrondoso sucesso no ano de 1977, e que depois foi transformada em filme no ano de 1979, comecei a estudar a referida letra e, consequentemente, a fazer algumas reflexões em relação à mensagem que a mesma poderia enviar ao público em geral. De acordo com o seu conhecimento, cada indivíduo fará sua própria leitura de uma referida música, ou de qualquer imagem que o rodeia. Já dizia Einstein: “Tudo aquilo que o homem ignora, não existe para ele. Por isso, o universo de cada um, se resume ao tamanho do seu saber”. A propósito, quando jovem de 16 anos, eu também vivi essa época e em muito ouvia e curtia os sucessos de Sidney Magal. Observemos a seguir, uma parte da letra da música Amante Latino: sou como você já sabe, amante latino/Eu gosto das mulheres da noite e do vinho/Levo a vida sorrindo e sempre cantando/Eu não esquento a cabeça e nem vivo chorando/E assim nos amaremos até sair o sol/E encontrarás comigo o fogo do amor.

     Várias leituras poderiam ser feitas em função desta letra, mas, na minha concepção, tenho o olhar voltado para uma grande festa, ou seja, um bacanal que tem sua relação com Dioniso, antigo deus grego. Salientando que esse trecho da música, se torna um refrão que sempre será repetido ao longo do tempo da gravação. A partir do artista que criou o personagem chamado Sidney Magal, a música em si, era muito mais dirigida às mulheres do que aos homens, portanto, ele invoca todas as mulheres para passar juntos, uma noite regada ao vinho, da mesma forma como faz o deus Dioniso na peça As Bacantes, quando convoca todas as mulheres tebanas para participarem do seu culto durante a noite nas altas montanhas gregas, festividades estas, que tinham por base o vinho. E isso fica explícito quando o autor afirma: eu gosto das mulheres, da noite e do vinho.  

     O culto ao deus Dioniso, acontecia sempre à noite em montanhas e florestas, com muito vinho, junto aos seus seguidores que eram as bacantes ou mênades, como também pelos sátiros que eram os protetores das florestas. Tal assunto, está presente em várias tragédias gregas. Era festividade de muitos delírios, alegria e bebida. Este trecho da letra: levo a vida sorrindo e sempre cantando/Eu não esquento a cabeça e não vivo chorando, denota o sentimento dionisíaco, de um estado de delírio e liberdade, visto que nesses bacanais a relação sexual era liberada e realizada ao ar livre, culminando com o êxtase dos ritos, nessa mania divina. Eram momentos de orgia, que revelam a ideia de dualidade onde a sanidade e a loucura são opostos que caminham juntos.

     A última frase da música: e assim nos amaremos até sair o sol/E encontrarás comigo o fogo do amor, vai de encontro à necessidade das bacantes em participar desses cultos, frente à repressão grega contra o sexo feminino, uma espécie de buscar nos cultos a Dioniso o que a própria sociedade grega não as oferecia, um verdadeiro bálsamo, visto que amar até o nascer do sol, era um dos principais objetivos do culto dionisíaco. Naquele rito, certamente, todos encontrariam o fogo do amor, que significava uma fuga às rígidas regras daquela sociedade do quinto século Antes de Cristo.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

TEATRO DOS JESUÍTAS

 


     As atividades com teatro no Brasil têm início com o padre José de Anchieta, o qual, é caracterizado historicamente como símbolo, tendo em vista que na colonização e aculturação dos nativos, os jesuítas utilizaram principalmente o teatro, como forma pedagógica para catequizar os que aqui já habitavam. Embora o padre jesuíta fizesse parte de um sistema que destruía tudo de novo e diferente do pensamento europeu, para prevalecer a ordem a que pertencia, uma questão culturalmente positiva, foi a utilização do teatro nesse período. 

     Como soldado fiel à catequese ele conseguiu seus objetivos, encenando peças simples, com versos tupis de fácil compreensão, conquistando assim, os indígenas. Nesses autos, Anchieta aproveita a tendência natural dos silvícolas para a representação, música e dança. Em sua dramaturgia ele renomeava as personagens de acordo com sua ideologia religiosa, por exemplo, ao diabo ele determinava o nome de tribos inimigas. De qualquer forma, ele era bem objetivo nas suas ações, embora em suas representações, se utilizasse de linguagens simples para os povos da época, por outro lado, quando se comunicava com Portugal, escrevia com melhor vocabulário aumentando o nível da escrita.

     No século XVII, a política brasileira era omissa e com vários problemas. Nesse período também começaram a surgir crises internas na Companhia de Jesus. Preocupado com a educação dos índios com ideologia religiosa, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas do Brasil, o que fez com que padre Anchieta retornasse a Portugal. Embora discutível, essa ação religiosa com os índios, a verdade é que o teatro foi um forte instrumento para a catequização dos primeiros moradores dessas terras. A premissa dos jesuítas era de que: um exemplo vale mais do que um discurso. Ainda no século XVII, Manoel Botelho, um baiano de cultura europeizada, se destaca por fazer um teatro profano com leve desenvolvimento popular.

     Já no século XVIII, surge Antônio José da Silva ou Antônio José, o Judeu, que foi para Portugal aos oito anos de idade e adquiriu formação portuguesa, ele destacou-se como um bom autor, a ponto de suas peças serem aceitas em outros países. Alguns de seus textos: “Europa do Século XVIII”, “Dom Quixote”, e “As Guerras do Alecrim e da Manjerona”. Nesse período, começou a se desenvolver as Casas de Óperas. Em seus escritos sobre teatro, padre Ventura, desenvolveu alguns trabalhos juntos aos mulatos.

     Em função das questões políticas, se por um lado ele teve que expulsar os jesuítas do Brasil, por outro lado, Marquês de Pombal, demonstrou grande interesse com a produção teatral da época, e se tornou um grande animador, visto que considerava a representação como um veículo de formação do povo. Ele iniciou o reconhecimento dos artistas de teatro, e criou algumas normas para reger atores e atrizes e profissionais da área, quando criou a norma de que: “o ator não pode ser preso a caminho do teatro”, por outro lado, no mesmo documento também constava que: “se o ator não comparecer ao teatro para se apresentar para o público será preso”.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

UMA CRUZ PARA JESUS

 

 

     Neste domingo de ramos inicia-se a Semana Santa. E no final desta semana teremos a apresentação do espetáculo Uma Cruz Para Jesus. Com uma vida dedicada ao teatro do Amapá, o ator e diretor de teatro Amadeu Lobato merece meus cumprimentos e minhas felicitações, em função de sua persistência e dedicação exclusiva à sua tradicional montagem do espetáculo “Uma Cruz para Jesus”, que neste ano de 2025, está completando seus 46 anos em cartaz. É bom lembrar que, no Brasil, são poucos os grupos de teatro que permanecem tanto tempo em cartaz, como exemplo, José Pimentel que passou mais de 40 anos representando a Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém, Pernambuco.

     A primeira apresentação que aconteceu no ano de 1979, teve apoio da Igreja Católica, e consequentemente, nesses quarenta e cinco anos à frente, como diretor da Companhia Teatro de Arena, Amadeu Lobato transformou seu trabalho num espetáculo ontológico e clássico do Amapá. Uma peça em que não se paga ingresso, onde o acesso é livre para o público em geral, sem discriminação de cor, etnia, religião e classe social. Todos podem assistir ao referido espetáculo, e para isso, basta se dirigir na sexta-feira santa, ao teatro ao ar livre que existe na lateral norte da Fortaleza de São José de Macapá, no centro da cidade. 

      Para aqueles que acompanham essa trajetória, basta imaginar que são 46 anos de resistência em relação ao fazer teatral nas terras tucujus. Amadeu Lobato é nosso grande Mestre do teatro amapaense e transformou seu espetáculo numa considerável escola de teatro ao ar livre, visto que significativa parte dos artistas do Amapá, pela primeira vez, subiram ao palco, nesta escola. Também não é para menos, sua peça coloca em cena, todos os anos, mais de cem atores e atrizes, concentrados num espetáculo de um pouco mais de uma hora, na área externa da Fortaleza.

     Mas o que muito me chama atenção é a falta de apoio dos órgãos públicos e até mesmo dos empresários para um melhor apoio para o desenvolvimento do referido espetáculo. Em Oeiras, cidade do interior e antiga capital do Piauí, também há um grupo que encena a Paixão de Cristo, e diferentemente do Amapá, o espetáculo de Oeiras, todos os anos é transmitido ao vivo para todo o Estado do Piauí. Em muito me admira que, com vários canais de televisão aqui no Amapá, e durante todo esse tempo, nunca, nenhum deles se propôs a fazer uma transmissão ao vivo para o Estado do Amapá, da peça Uma Cruz para Jesus, essa produção local que merece esse olhar.

     Em outras capitais de Estados como Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, para esse tipo de espetáculo há editais específicos com apoio financeiro, em que todos os profissionais da área ganham uma bolsa durante sua participação de montagem e apresentação do mesmo, do figurante ao ator principal que geralmente é um ator conhecido nacionalmente e que é contratado pelo Estado para representar o papel de Cristo, durante as apresentações da Semana Santa. Que Uma Cruz para Jesus alcance mais uma vez o sucesso que merece. 

domingo, 6 de abril de 2025

CINETEATRO / ESCOLA BARÃO

 


     Encontra-se em vários blogs e páginas na internet a afirmação de que a Escola Barão do Rio Branco foi construída antes do Cineteatro Territorial, inclusive enfoca-se que o Cineteatro Territorial fica aos fundos da Escola Barão. Na verdade, o Cineteatro Territorial foi construído e inaugurado em 22 de julho de 1944, enquanto que a inauguração da Escola Barão do Rio Branco ocorreu em 13 de setembro de 1946, ou seja, após dois anos e dois meses em relação ao Cineteatro.              

   Ao observar a foto aqui postada, que se encontra no site: http://porta-retrato-ap.blogspot.com.br, percebe-se em primeiro plano, o registro da construção da Escola Barão do Rio Branco. De fato, ela nos revela, não só isso, mas, muito mais do que se percebe à primeira vista. Em último plano, ao lado esquerdo, localiza-se o prédio do Cineteatro Territorial que já estava ali, em plena atividade, e que fora inaugurado em julho de 1944. Esta foto e este fato provam que o Cineteatro foi inaugurado antes da Escola Barão do Rio Branco. Tendo sido o Cineteatro, inaugurado em 22 de julho de 1944, e a Escola Barão, em 13 de setembro de 1946, sendo que, consequentemente, foi esta instituição de ensino quem, determinantemente, ofuscou o prédio do Cineteatro Territorial. Transportando para a atualidade cotidiana, a ideia de que o Cineteatro fica nos fundos da Escola Barão.

     O desenho arquitetônico original do prédio do Cine Teatro, tem sua entrada principal para o oriente, em direção à atual Rua Candido Mendes; e os fundos para o ocidente, em direção à atual Rua São José. Estudando mais profundamente, percebe-se que a referida foto nos revela o momento da edificação da Escola Barão do Rio Branco entre 1945 e 1946.  Aqui, observa-se o momento exato da anexação do edifício do Cineteatro Territorial, àquela instituição de ensino. Nesta ocasião, já fazia aproximadamente, dois anos que o prédio do Cineteatro havia sido inaugurado, (julho de 1944). Em função desse fato, só se observa andaime de madeira, no edifício da Escola, que a partir de uma linha perpendicular cria um ângulo reto nas paredes do Cineteatro. O edifício do Cineteatro apresenta-se concluído, intacto e em plena atividade, como pode-se observar, segundo a foto.

     Possivelmente, e de acordo com a necessidade dos gestores, resolveram isolar o frontispício daquela casa de espetáculos, consequentemente, abrindo acesso lateral, momento em que a anexaram definitivamente à escola. Este fato se concretizou principalmente a partir do ano de 1961 quando o prédio do Cineteatro foi desativado por José Francisco de Moura Cavalcante, então governador, inimigo político de Janary Nunes. Na atualidade, o edifício do Cineteatro Territorial foi restaurado, e possui uma entrada alternativa, pela Rua São José.

segunda-feira, 31 de março de 2025

Teatro e Resistência

 


     O teatro que vinha sendo realizado no Brasil até o ano de 1964 do século XX, passa a enfrentar uma das piores crises de sua história em todos os níveis, juntamente com toda a população do país. A arte teatral, especificamente, é esmagada como um todo: artistas são presos, massacrados, torturados e exilados, em função da ordem, do progresso e do respeito ao sistema que se instalara exatamente a partir de 31 de março. Como se não bastasse, teatros são incendiados e artistas acusados de participarem de guerrilhas.

     Tudo começou quando o prédio da UNE – União Nacional de Estudantes, foi incendiado precisamente no dia 1º de abril daquele ano, destruindo por completo o auditório, que estava sendo transformado, naquela época, numa moderna sala de espetáculos. Portanto, o que seria o futuro teatro, ficou resumido a um monte de escombros. Nas suas chamas morria também o CPC – Centro Popular de Cultura, que foi imediatamente colocado, como a própria UNE, fora da lei.

     Em 1965, Dias Gomes, com a peça O Berço do Herói, teve a honra de ser censurado pelo próprio Governador do então, Estado da Guanabara, Sr. Carlos Lacerda, poucas horas antes da estreia. No início de junho, o Diretor Geral do Departamento da Polícia Federal, General Riograndino Kruel, mandava tirar de cartaz, Opinião e Liberdade Liberdade. A classe teatral reagiu, artistas e intelectuais redigiram telegrama de protesto, enviado ao Presidente Castelo Branco. E a resposta foi imediata. O Presidente telefonou à atriz Tônia Carrero, negando ter determinado medidas restritivas à liberdade de expressão, prometendo apurar as interdições das duas peças. No mesmo dia, Riograndino Kruel desmentia a proibição de Opinião e Liberdade Liberdade.

     Os jovens responsáveis pela revolução da linguagem cênica que tomaria corpo a partir de 1966, sentiram-se inconformados e impotentes diante do sistema repressivo que controlava cada vez mais radicalmente a vida do país, riscando do mapa qualquer noção de consulta popular. Com influências da revolução cultural que se preparava praticamente em todo o Ocidente, os espetáculos que iam surgindo a partir de então, já apresentavam algumas reformulações, por exemplo: o palco italiano, virtual espaço único e imutável há três séculos, é parcialmente abandonado em favor de vários tipos de espaços livres como: rua, arena, praças, entres outros, onde atores e público coexistiam sem fronteiras físicas. Por outro lado, em agosto de 1966, agentes do DOPS invadiam o Teatro Jovem, no Rio de Janeiro, impedindo a realização de um debate sobre a obra de Bertold Brecht, ao qual, aliás, estavam incumbidos de prendê-lo. Receberam a explicação de que o Sr. Brecht havia morrido há 10 anos.

     A somatória dos fatos ocorridos em 1966, fez com que os artistas e intelectuais deixassem de lado a caneta e a máquina de escrever. E foi assim, que trezentas pessoas abriram o ano de 1967 num ato público na ABI – Associação Brasileira de Imprensa, no lançamento da “Semana de Protesto à Censura”. Já os jornais do dia 23 de outubro deste mesmo ano, traziam declaração do General Façanha, então Diretor do Departamento de Polícia Federal, chamando Tônia Carrero de Vagabunda.