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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

SEGUNDO TEATRO DO AMAPÁ


     O Primeiro teatro do Amapá foi construído especialmente para os eventos e comemorações em honra à visita do Governador da Província do Grão Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado à Vila de São José de Macapá. Na época o Amapá era parte integrante da Província do Grão Pará. Por outro lado, envolvido e entusiasmado com as apresentações que havia visto, o próprio governador determina a construção de um novo teatro, que deveria localizar-se no lado oriental do jardim do palácio.
     Na obra “Compendio das Eras da Província do Pará”, cuja autoria é de Antônio Ladislau Monteiro Baena, há um fac-símile do documento que consta: “Encarrega a Antônio José Lande o desenho e a erecção de um pequeno Theatro bem ordenado junto ao lado oriental do Jardim do Palácio: e expressa-lhe nesse momento que nisto espera ver a mesma atividade e inteligência que sempre tem manifestado no desempenho das difíceis obrigações inherentes a um Architecto.
     Antônio Landi, como ficara mais conhecido, era o arquiteto oficial do governo da província do Grão-Pará e havia construído na cidade de Belém uma pequena sala para apresentação de óperas em 1775. Por isso, o governador o definiu para também construir o teatro da Vila de São José de Macapá.
     Tendo como ponto de partida análise de mapa de época, assinado por Henrique Galúcio, o jardim do Palácio localizava-se ao lado sul da igreja de São José de Macapá, e juntamente a ele, a Casa de Câmara. De acordo com as coordenadas geográficas, o jardim do palácio estaria situado à frente do Palácio e da Casa de Câmara, com uma divisão ao meio, que no futuro se transformaria na Rua São José.
     Portanto, este pequeno teatro deveria ter sido construído no local onde hoje se situa o Teatro das Bacabeiras, sendo que, diferente deste, seu frontispício ficaria para o oeste, dessa forma situando-se defronte ao Palácio e à Casa de Câmara, e os fundos para leste, ou seja, com vistas para o rio Amazonas. Também poderia dizer que o frontispício ficaria para o ocidente e a parte de trás da construção, para o oriente.

     Tendo em vista que esses documentos são da época do Império, por si só, revelam um olhar dos gestores daquele período para as artes e principalmente para o teatro. De qualquer forma restam-nos algumas dúvidas: o que ainda não se sabe é se esse novo teatro foi realmente construído na Vila de São José de Macapá. Talvez exista em algum lugar o desenho arquitetônico do referido teatro.  Será que esse teatro foi realmente construído? Quem sabe? Para essas indagações, ainda não se tem uma resposta. Talvez pesquisas futuras possam nos revelar isso. Mas há uma certeza: o espaço geográfico na Vila de São José de Macapá, que no Império foi cobiçado para a construção de um teatro é o mesmo local onde hoje está erigido o Teatro das Bacabeiras. 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

PRIMEIRO TEATRO DO AMAPÁ

 PRIMEIRO TEATRO DO AMAPÁ

     Até meados do século XVIII, pode-se afirmar que no Brasil, as atividades teatrais até então existentes eram exclusivamente de cunho religioso e ocorria tanto nos conventos e educandários da ordem jesuíta, como nos adros das igrejas em dias de festa. Por vários séculos as igrejas foram as principais construções de referência das paisagens urbanas. No entanto, foram surgindo novas edificações ao longo do período colonial, que eram destinadas à administração pública, à cultura e ao lazer.
     Nesse caso, e pelo fato de representarem sinônimo de progresso e civilização, os edifícios teatrais começaram a se multiplicar nas pequenas cidades, tornando-se um contraponto frente às construções religiosas. Nesse período, além do teatro ser considerado como escola de bons costumes, também era um edifício que revelava civilização e adiantamento moral das cidades que o possuíam. Possivelmente, esses fatos fizeram surgir na Vila de São José de Macapá, ainda no século XVIII, seu primeiro teatro construído especificamente em madeira.
     A colonização do espaço geográfico em que hoje se localiza a cidade de Macapá se encontra em duas construções fundamentais: em primeiro lugar a construção e inauguração da Igreja de São José de Macapá que se deu em 06 de março de 1761, na então Vila de São José de Macapá. Paralelamente a isso, a construção e inauguração da Fortaleza de São José de Macapá, que aconteceu em 19 de março de 1782.
     Cronologicamente, a data mais antiga que se tem conhecimento sobre atividades dramáticas no Amapá, reporta-se ao ano de 1775, de acordo com o livro “Compendio das Eras da Província do Pará”, cuja autoria é de Antonio Ladislau Monteiro Baena. O sociólogo Fernando Canto também enfoca o referido teatro em sua obra intitulada: “Adoradores do Sol: novo textuário do meio do mundo”.
     Em sua obra, BAENA focaliza que já nesse período havia um pequeno teatro de madeira, sendo que teria sido construído para receber o Presidente da Província do Grão-Pará: Senhor Francisco Xavier de Mendonça Furtado, que na ocasião, estava visitando a Vila de São José de Macapá: diz o documento: “Visita o Governador (1775) a Villa e Fortaleza de Macapá. Entre os obséquios urbanos, que com elle pratica o Governador da Fortaleza, teve logar distincto o Theatrinho, que para este festejo foi erguido debaixo de excellente disposição e aceio, e que assas lhe agradou. Vê as Villas de Mazagão e Vistosa Madre de Deus. Volve à Cidade. Diffunde pelos lavradores e Povoados Indianos melhor planta de arroz: e anima a industria rural”.

     Em relação ao exposto acima, considero a referida construção como primeiro espaço teatral do Amapá, levando-se em consideração questões arquitetônicas e técnicas. Também o considero como o primeiro espaço teatral fechado, ou seja, um edifício à italiana. Embora este teatro tenha existido, não se sabe quais textos ou espetáculos foram apresentados em seu interior.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE

     Uma das maiores alegrias da minha vida foi quando soube da notícia que havia sido aprovado no vestibular. Morava no interior da Paraíba numa cidade conhecida por Itabaiana. Talvez você leitor, nunca tenha ouvido falar, mas é a terra em que nasceu o renomado músico Severino Dias de Oliveira, mais conhecido como Sivuca... Aquele que compôs feira de mangaio. Itabaiana também é berço do famoso poeta Zé da Luz.
     Raspei a cabeça, sai em passeata pelas ruas da cidade junto com outros colegas que também haviam passado naquele processo seletivo. Fui aprovado para o antigo curso de Educação Artística. Na ocasião, ouvia de várias pessoas alguns comentários como: - Mas tu vais mudar de curso, não é? – Esse curso não é muito bom para homem! Eu ouvia e sempre respondia com o silêncio.
     Tive muitas dificuldades para realizar o ensino fundamental e médio. Aliás, da quinta série até o ensino médio eu estudei no mesmo colégio estadual resultando em sete anos de dedicação e estudos. A alegria foi imensa visto que fui aprovado no vestibular vindo da escola pública, sem ter participado de nenhum cursinho que na época eram famosos. No pequeno interior fiquei conhecido como gente inteligente, mas reforço ao dizer que foi um grande desafio chegar à universidade.
     Ao longo da minha história de vida as vicissitudes me ensinaram a ser combatente e persistente. Aprendi também a acreditar no que realizo; a acreditar em mim e nos meus projetos. Desistir? Nunca...! Infelizmente, em algumas ocasiões você se surpreende e quase se dá por vencido. Foi exatamente o que aconteceu nesses últimos vinte e quatro anos na tentativa de implantar um curso de licenciatura em teatro no Amapá. Os dois primeiros projetos, um de 1996 e outro de 2001 sequer passou pela câmara de graduação.
     Há quatro anos atrás, no ano de 2013 publiquei a obra “Curso de Teatro no Amapá: concepções e proposições para o ensino superior” com a intenção de que a mesma se transformasse numa prestação de contas com a sociedade amapaense ao esclarecer a intenção do meu trabalho e de minha dedicação em prol desta terra que me recebeu de braços abertos como profissional do magistério superior.
     Muitos anos se passaram após a minha aprovação no vestibular, hoje já professor universitário a minha segunda grande alegria se transformou em felicidade quando ouvi dos conselheiros, no dia 12 de novembro de 2013 o veredito do Conselho Superior da Universidade Federal do Amapá, da aprovação do Curso de Licenciatura em Teatro...! E hoje, após quatro anos tenho a honra de dizer que ,com a conclusão do curso pela turma pioneira, o Estado do Amapá terá após a finalização do segundo semestre de 2017 da UNIFAP, a primeira turma de professores qualificados para assumirem seu espaço como profissional do teatro nas escolas do nosso Estado. Depois de tudo isso, percebi claramente que a esperança é a última que morre.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

ARTE DRAMÁTICA
                                  

     Na arte dramática as palavras deixam de serem signos arbitrários para converterem-se em signos maturados de objetos arbitrários. Cada letra é um signo e ao juntarmos esses signos, deveremos seguir alguns códigos e regras juntando-as e formando as palavras que por sua vez são relacionadas a determinados objetos ou sensações.
     Aqui se pode encontrar a grande diferença entre dramaturgia e encenação. Se por um lado, a dramaturgia refere-se à literatura propriamente dita, por outro, a encenação por sua vez, está estritamente ligada ao movimento e à ação. Portanto, estamos enfocando aqui duas obras completamente distinta. A dramaturgia é literatura; a encenação é ação, é teatro.
     Na poesia dramática, o mais importante está nos gestos, ou seja, no movimento e na ação, como também nas palavras criadas para explicar esses gestos. O drama é a representação de uma ação concluída e não o começo de uma ação, como acontece com a poesia lírica. Se há signos linguísticos para a literatura, também há signos para a encenação de uma peça teatral, obviamente.
     O drama exige unicamente a unidade de ação; a unidade de tempo e de lugar. Paralelamente, o ator tem que saber e entender essas três dimensões. Quem sou eu? O que estou fazendo? E em qual momento histórico me encontro e em qual espaço geográfico estou realizando determinada ação?
     A arte é a imitação da realidade e cada obra de arte alcança seu autêntico espaço estritamente por meio do seu conteúdo e de sua estrutura visível, que se insere no seu ritmo intrínseco evocado por dominantes espaciais e temporais.
     Quando um ator se apresenta diante de um público ou fala diretamente (como no teatro dialético) esses recursos estilísticos não só modificam o espaço, mas toda a relação do significando com o significante. Certamente que hoje se faz muito mais esforço para alcançar a relativa autonomia do teatro contemporâneo, sua funcionalidade e sua praticidade. Já não mais parece ser como um fragmento ilusório de vida, casualmente presenciado pelos espectadores.

     E a perfeição técnica não é mais um padrão de qualidade artística e sim pura e simplesmente o resultado da habilidade profissional em um terreno artístico determinado. Penso, porém que as obras de arte plenamente originais são aquelas que conservam certo grau de excelência e atributos individuais dos artistas. No caso, a originalidade poderia ser equivalente a uma individualidade excepcionalmente criativa.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A SAGA DO ESPETÁCULO “BAR CABOCLO”

     Dia primeiro de julho, estive no Teatro das Bacabeiras para apreciar mais uma vez, a última versão do espetáculo “Bar Caboclo” do Grupo Língua de Trapo, que conta com 27 anos de jornada, desde sua primeira apresentação.
     O espetáculo vem sendo apresentado há vinte e sete anos e conta com diversas adaptações, tendo em vista seu próprio sustento e sua sobrevivência enquanto obra artística. Nesse ínterim, atravessou calmarias e maremotos, aclives e declives, invernos e verões, respectivamente. Isto significa dizer que, para cada momento histórico social e suas mais variadas transformações, o Grupo conseguiu adaptar a lente do seu telescópio para melhor atender aos anseios do público.
     A saga do espetáculo “Bar Caboclo” inicia sua primeira versão, com um espetáculo mais original em função de pesquisa realizada sobre a existência de um antigo bar que realmente existiu na década de 1960 e que funcionava no canal da Mendonça Júnior, no centro da cidade de Macapá. O local se tornou famoso em função de atender barqueiros que aportavam nas docas da cidade, que na época situava-se ao sopé da Fortaleza de São José. Ponto de encontro dos barqueiros, que se empenhavam em atrair as prostitutas do lugar.
     Portanto, na sua gênese, era um espetáculo que se preocupava muito mais em revelar uma questão histórica e antropológica, mesmo que já utilizando em seu texto, palavras usadas cotidianamente pela camada mais baixa da sociedade. Vocabulário este, que não dominava completamente o texto, como acontece na sua última versão. Em seus primórdios o Grupo Língua de Trapo fazia uso do teatro de sombras na encenação, o que gerava grande plasticidade nas cenas.
     Quando das primeiras apresentações, o texto não enaltecia heróis como é de costume, mas revelava a vida de pessoas simples, quietas e discriminadas pela sociedade, como: pobres, prostitutas, lésbicas, loucas, gays, gigolôs, anciãos, idosos, crianças e negros, deixando reflexões diante do público em relação a revelar, mostrar e traduzir para a plateia, questões sociais sobre esses guetos sociais e essas minorias excluídas da sociedade contemporânea. Havia no enredo a personagem Chicona, que era um exemplo típico de personagem que além de prostituta, era anciã, gorda, pobre, negra e personagem viva, concreta e significante representativa das minorias.
     Dessa forma, o espetáculo, paralelo ao texto, se mostrava mais preocupado em refletir, do que apenas mostrar esses personagens, sem fomentar nenhuma consciência da situação social deles próprios, como acontece na encenação mais atual. O espetáculo trazia à tona personagens que a sociedade mais prefere ocultar a buscar soluções evidentes para esses problemas.
     Naquele momento inicial, o Grupo Língua de Trapo, aparentemente tendo por base o gênero comédia, nos trazia à cena discussões relacionadas às questões sociais e antropológicas referentes à inclusão social. Os personagens estavam em cena, paralelamente às reflexões cognitivas de discernimento da própria encenação em relação aos personagens frente ao público. Na primeira geração de atores, o espetáculo voltava-se para se preocupar com questões relacionadas à fatos históricos e culturais, num binômio do tragicômico e discriminação social. De fato, infelizmente esta relação já não mais existe. Os personagens estão lá, por estar, para fazer rir a plateia em função do básico da comédia que é a crítica ao vício e a exaltação à virtude.
     Por outro lado, a versatilidade do espetáculo ao longo dos anos, tem se ramificado e redimensionado em vários caminhos diferentes e isto nos leva a compreender na prática o dinamismo, a transformação, a criação, o ir e vir constante da cultura, revelado no seu mais profundo hibridismo. Não fosse isto, possivelmente o espetáculo, não mais estaria em cartaz.
     Ao longo dos anos o espetáculo foi se modificando e nesse movimento centrífugo, foi se deslocando do seu próprio eixo para suas arestas. Nesta relação intrínseca, esqueceu seu objetivo inicial, transformando-se num besteirol cômico com linguagem ordinária, elementar e rudimentar. O texto que possuía enredo e carpintaria teatral virou novela com capítulos, com mescla de revista e teatro rebolado, com o principal intuito de fazer o público delirar de risos e gargalhadas. Tanto é que hoje, qualquer personagem pode visitar o Bar Caboclo. A peça passou a funcionar como um programa de humor em que os personagens passam por ela e facilmente se encaixam nas sequencias dos quadros, sem nenhum prejuízo ao tema proposto pela encenação nem ao roteiro previamente estabelecido.
     Tendo como ponto de partida, sua última versão na contemporaneidade, denominado espetáculo “Bar Caboclo na Crise”, enquanto que por um lado, evoca novo elenco, mantém por outro lado, alguns atores tradicionais que há tempo vêm dividindo a cena no referido espetáculo. Se por um lado, boa parte do elenco funciona como figurantes durante todo o desenrolar da peça, dois personagens garantem o básico necessário para manter os elementos essenciais e fiéis ao espetáculo.
     Há uma relação de palco muito próxima, equilibrada e simétrica entre “Veruska” interpretada pelo ator Jackson Amaral e “Caluda”, interpretada pela atriz Núbia Oliveira. São esses dois atores que representam a mola mestra da peça, e demonstram que a cadeia posturo-mimo-gestual se faz presente e a dêixis se mostra completa. Incomensuravelmente, eles fazem a peça acontecer. São os principais responsáveis em manterem a peça digna de aplausos, aclamação e entusiasmo do público. Aqui, o ator Jô Cabeleireiro também merece destaque por sua ativa participação em cena. São artistas afinados e conectados um ao outro, principalmente em função da experiência e da tradição que trazem consigo, visto que trabalham juntos há vários anos, com total domínio do palco, improvisações e relação estreita com a plateia. Isto fica explícito e muito claro no desenrolar das cenas.
       Em sua versão contemporânea, tanto o texto como a encenação deixaram de ser primordiais para o espaço físico do bar, alicerce fundamental, que era defendido resistentemente pelo personagem “Seu Chico”, outrora interpretado pelo ator Alcemir Araújo, então proprietário do famoso prostíbulo. Sem o referido personagem, o espaço físico do bar ficou a ver navios, sem proteção, sem um comandante em chefe que o proteja e o defenda, significando quase que apenas uma imagem no aspecto cenográfico. Não há hoje, um personagem que mantenha uma postura defensiva em relação ao bar. Nos tempos da globalização, o bar foi inexoravelmente terceirizado.
     Nesta última versão, a mise en scène, de Disney Silva, busca mesclar quadros que muitas vezes não se coadunam com o texto e a encenação como um todo.  Caso específico é o quadro da entrada da personagem “Dilma”, que foge completamente do ritmo da peça deixando os atores totalmente indecisos. Já com mais de uma hora de espetáculo, nesse momento o ritmo cai de forma devastadora. E é nessa ocasião que algumas pessoas começam a se desinteressar e a sair do teatro. A peça deixou de se fundamentar no Bar Caboclo para se transformar em quadros humorísticos, como se fora teatro de revista, utilizando-se de músicas para fazer a inter-relação entre os demais quadros.

     Todavia, percebe-se grande hibridismo no texto espetacular, fato que vem sendo realizado ao longo de duas décadas e meia pelo grupo. Não desejo aqui, colocar em xeque a encenação! Salienta-se a persistente contribuição do Grupo Língua de Trapo, não só com este espetáculo, entre muitos outros já montados pela trupe. Faz-se necessário compreender que nessas últimas décadas é um dos únicos, senão o único Grupo Teatral em nossa Terra que consegue abarrotar o Teatro das Bacabeiras, levando um público muito diverso e ávido de cultura. Quando a peça entra em cartaz, sempre tem uma plateia que é fiel ao trabalho do grupo. A saga e a trajetória do “Bar Caboclo” estão consumadas no que hoje o grupo apresenta em cena. Talvez, quem sabe? Se o mesmo não tivesse seguido esta trajetória, não se sabe ao certo se o espetáculo existiria na contemporaneidade! 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

ENSAIO A RICARDO III DE SHAKESPEARE


     “O inverno do nosso desgosto se fez verão glorioso”. Estas são as palavras faladas quando o personagem Ricardo III imagina perspectivas concretas de sua futura coroação. São metáforas, verdadeiras e atuais. Refletem e conotam ao mesmo tempo: demagogia, egoísmo, despotismo, egocentrismo e poder absoluto! Frase célebre que significa, em um só tempo: passado, presente e futuro. É o reflexo das irreflexões humanas. É a síntese; o resumo do próprio homem enquanto ser existencial, em busca de sua verdade.
     É no Renascimento onde podemos encontrar um dos dramaturgos mais importante da Europa. Especificamente na Inglaterra, sob o período Elisabetano, viveu Williams Shakespeare, de 1564 a 1616. Nesse período a Inglaterra encontrava-se em crescimento econômico muito promissor. A rainha Elizabeth havia conquistado a hegemonia da sociedade inglesa, que, por sua vez, estava submersa em suas contradições éticas, morais e sociais e mergulhada nos seus valores burgueses.
     Na pequena cidade de Stratford-on-Avon, a 80 quilômetros de Londres, Shakespeare passou boa parte de sua vida, onde estudou vários idiomas. Posteriormente, abandona a família e vai para a cidade grande (no caso Londres) onde, em poucos dias gasta suas economias nos bares e teatros da cidade. Aliás, esse foi praticamente o grande universo de Shakespeare: Stratford-Londres Stratford.
     Diante de um teatro (provavelmente o Globe Theatre), durante as apresentações, sem mais poder assisti-las, e para sua sobrevivência, passa a guardar e cuidar de cavalos do público presente. O certo é que após um certo período, ele passa a trabalhar nesse mesmo teatro. Inicialmente como tradutor de textos já que sabia vários idiomas, (trabalho que lhe deu suporte significante em sua futura obra, tendo em vista que à medida que fazia as traduções, paralelamente, ia compreendendo a carpintaria teatral dos referidos textos).
     Com o seu crescente conhecimento, conseguiu uma vaga como ator e nesse mesmo teatro se tornaria famoso ao montar seus próprios textos. No Globe Theatre, as peças de Shakespeare foram encenadas a partir do ano de 1599. Como dramaturgo, foi de encontro a paradigmas como as unidades aristotélicas, criando tragédias que não seguiam as unidades de tempo, lugar e ação. Trouxe para o palco questões éticas e morais da sociedade inglesa da época.
     Uma das questões fundamentais de sua obra é que ao invés da tragédia grega que enfocava a luta do homem com os deuses; com um toque metafórico, sua obra revelou a luta do homem contra o próprio homem. O que ele levou para o palco, já não eram os deuses, mas a crescente burguesia inglesa lutando contra si, em busca de resolver seus próprios problemas. Romeu e Julieta é um bom exemplo do que se trata aqui.
     O existencialismo humano e uma das questões fundamentais que denota a atualidade da obra de Shakespeare. Esta é uma das razões que faz com que sua obra seja estudada e reverenciada até nossos dias e que seus textos sejam geralmente montados em latitudes totalmente diferentes, com: “Hamlet”, “Macbeth”, entre outros.
     “Ricardo III”, que é o que mais nos interessa neste momento, já foi encenado infinitas vezes nesses últimos séculos. Para imaginarmos a grandiosidade da obra desse autor, basta dizer que este último texto já rendeu discussões, teses, estudos diversos, e como não poderia de ser também foi transformado em vários filmes.
     Tratando-se de cinema, quantos cineastas transformaram em filme a obra de Shakespeare? Sabe-se que não foram poucos os filmes; não só de sua obra, mas também sobre sua vida. É oportuno enfocar que “Ensaio Sobre Ricardo II” de Al Pacino é um deles.
     Este filme, nos leva a uma porta aberta à medida que não se resume apenas como um filme qualquer. É um documentário, é teatro no cinema, são pessoas anônimas que estão na rua e que contribuem com vários pontos de discussão (mudanças) para que possamos refletir objetivamente sobre o autor, sem esquecer a obra, “Ricardo III” que é o tema do filme.
     A todo tempo, o referido filme se transforma num jogo; um jogo em que os participantes refletem sobre Shakespeare, deixando sempre um espaço vazio, para novas reflexões. É o cinema buscando preencher seus espaços, seus meta-espaços. O enfoque é um grupo de teatro, mas a arte é cinema; é cinematográfica. Neste caso, não vamos ao cinema para ver “Ricardo III”, mas para conhecer Shakespeare e consequentemente, pensar “Ricardo III”. Com esse viés, Al Pacino põe em discussão uma das obras mais importantes do autor renascentista.
     No filme, um grupo de teatro decide montar “Ricardo III”. Essa é a trama, que não se deixa cair nos fios do tempo, buscando pesquisar para compreender, e poder explicitar mais profundamente para o espectador, a obra do autor.
     Não se trata de cinema pelo cinema, Al Pacino faz do seu “Ricardo III”, um filme que, antes de se preocupar com a montagem, seu objetivo foi estudar o autor. E não só isso, ele não se contentou que seus espectadores entendessem apenas o tema, no caso “Ricardo III”, mas se preocupassem também com o dramaturgo. Portanto, é de fundamental importância esse ângulo “Paviniano”, quando nos referimos à arte como um universo macro. Assim, Al Pacino, em “Ricardo III”, tenta preencher todos os espaços possíveis no âmbito do cinema, quer dizer, no âmbito do filme.

     No final dessas elementares palavras, poderíamos imaginar a seguinte frase: “Um cavalo... Meu reino por um cavalo...”, dita e redita simbolicamente por um homem (político, empresário, milionário, etc.), neste século XXI, num momento difícil de sua existência pessoal; da mesma forma e no mesmo tom, como falou Ricardo III, há cinco séculos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

FAMÍLIA NA SALA

     As gerações mais novas talvez não saibam, mas antes do advento da televisão e principalmente depois do jantar, as famílias sempre se reuniam na sala da casa para poder colocar os assuntos em dia, enquanto as crianças brincavam no terreiro à frente. Costume que praticamente anda esquecido na atualidade. Era uma época em que apenas o rádio existia e quando não, os circos (famílias nômades) que passavam de cidade em cidade. Além da roda de conversa com a própria família, ainda existia a roda de conversa com os vizinhos.
     As famílias também se reuniam para discutir o espetáculo circense e falar sobre o palhaço e ainda assuntos sobre namoros e casamentos dos filhos, que era uma preocupação latente. De toda forma, também havia a roda de conversa sobre a novela transmitida pelo rádio. Numa família de agricultores havia a noitada de conversas enquanto se amarrava os molhos de feijão para vender na feira da cidade.
     “Família na Sala” é um nome bastante sugestivo que meu amigo e escritor Almeida Júnior escolheu para seu livro. Obra que ele inicia com a chegada da filha no voo da madrugada, que há muito tempo não havia visto sua família. Aliás, madrugada que não acabou em função de tantos temas e assuntos que tinham para conversar até o amanhecer do dia, que se complementou com o café da manhã. Só este fato já indica os sucessivos assuntos que virão um após o outro até finalizar sua obra.
     Por sua vez, quando sempre longe de casa, a filha comumente se alimentava com uma simples lembrança que era a da sua família reunida na sala de casa. Distante dos seus familiares esta lembrança era o suficiente para acalmar seu coração na esperança por dias melhores. Isto nos leva a pensar o quanto os pais e a família como um todo, são extremamente importantes embora os filhos só apercebam esta relação quando iniciam sua vida e sua independência econômica e social. Geralmente é nessa fase que os filhos começam a levar em consideração o que os pais e a família sempre fizera por eles.
     E é numa dessas passagens do seu livro que Almeida Júnior tenta explicar metaforicamente ao leitor, esta relação perceptiva existente na família, mas que transparece cotidiano, vulgar, comum e trivial para os menos desavisados: “Mas as grades deixavam ver o gramado e o jardim cheio de flores, e os postes que acendiam a noite” (p.27).
     Sabe-se que muitos jovens se rebelam contra seus pais e fogem de casa para tentar uma nova vida, e é nessa ocasião que muitos deles têm a oportunidade de refletir sobre si mesmo e sobre sua própria família, analisando o valor que ela tem. Sem a maturidade necessária para enfrentar o mundo, em muitos casos vários deles retornam para a casa dos pais, enquanto que outros acabam sua vida com o uso de entorpecentes. Em outras passagens da obra o autor também faz uso da figura de linguagem quando escreve: “A Lua vestia-se como se fosse para a noite de núpcias com um véu, um halo” (p.43), e ainda: “O Sol nascente, também sonolento, lembrou-me o tempo” (p.44).
     A partir do ato da escrita, nesta coletânea de contos o autor também nos leva a imaginar como se estivéssemos num vernissage de um artista visual, quando assim inicia seu capítulo metamorfose: “Navios mercantes e pequenos barcos flutuavam tranquilos, criando a sensação de uma imagem congelada em um cartão postal” (p.31).
     Por outro lado, faz uso da criatividade do teatro na tentativa de melhor se aproximar do leitor, quando busca identificar e caracterizar seu personagem de forma precisa para que o próprio leitor possa julgar o desenrolar da trama. Ao explanar sobre seu personagem diz ele: “Um homem forte, calçando chinelos de couro cru, calças largas tipo jeans com a barra enrolada até perto dos joelhos, camisa social com gola, semiaberta no peito e mangas enroladas acima dos cotovelos” (p.32). Aqui o autor busca a partir de suas palavras, motivar e facilitar o imaginário do leitor, para que ele (leitor), possa fluir na compreensão do personagem e nas características gerais do texto.
     Como se pode observar, Almeida Júnior sabe muito bem utilizar fatores diversos para desenvolver sua escrita e sua prosa. Ele transita por várias esferas da arte para poder diversificar o desenrolar de seu texto, portanto é um autor astucioso e audacioso. Aliás, é bom frisar que entre outras ele já publicou: “Antologia Experimental”; “Ensaio Geral”; e “Horas vivas”. Isto implica dizer que um autor sempre está em constante crescimento, e Almeida Júnior se insere nesse rol.
     Estou escrevendo uma obra, na qual enfoco minhas reminiscências quando criança no sítio do meu avô, só quem viveu momentos assim sabe o que significa a natureza e a simplicidade das pessoas. Almeida Júnior nos remete a momentos semelhantes quando focaliza a seguinte passagem: “... tratou de anotar o nome de tudo e de todos; das árvores, dos marrecos, das galinhas, dos vizinhos, dos filhos dos vizinhos, das vacas, dos cabritos, das formigas, dos cavalos, dos pássaros, das histórias, dos duendes, dos peixes, dos rios, dos cheiros, da brisa do ar” (p.75).

     Para finalizar, ainda nesta página há uma passagem muito importante que serve de sobreaviso para qualquer cidadão que vive em sociedade: “Extinguir-se do mundo é correr o risco de desaparecer da lembrança da história”. Parabenizo o autor por mais esta publicação e aqui deixo o meu recado: para quem desejar uma boa leitura, não esqueça de ler “FAMÍLIA NA SALA” de Almeida Júnior.