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segunda-feira, 25 de julho de 2016

A SAGA DO ESPETÁCULO “BAR CABOCLO”

     Dia primeiro de julho, estive no Teatro das Bacabeiras para apreciar mais uma vez, a última versão do espetáculo “Bar Caboclo” do Grupo Língua de Trapo, que conta com 27 anos de jornada, desde sua primeira apresentação.
     O espetáculo vem sendo apresentado há vinte e sete anos e conta com diversas adaptações, tendo em vista seu próprio sustento e sua sobrevivência enquanto obra artística. Nesse ínterim, atravessou calmarias e maremotos, aclives e declives, invernos e verões, respectivamente. Isto significa dizer que, para cada momento histórico social e suas mais variadas transformações, o Grupo conseguiu adaptar a lente do seu telescópio para melhor atender aos anseios do público.
     A saga do espetáculo “Bar Caboclo” inicia sua primeira versão, com um espetáculo mais original em função de pesquisa realizada sobre a existência de um antigo bar que realmente existiu na década de 1960 e que funcionava no canal da Mendonça Júnior, no centro da cidade de Macapá. O local se tornou famoso em função de atender barqueiros que aportavam nas docas da cidade, que na época situava-se ao sopé da Fortaleza de São José. Ponto de encontro dos barqueiros, que se empenhavam em atrair as prostitutas do lugar.
     Portanto, na sua gênese, era um espetáculo que se preocupava muito mais em revelar uma questão histórica e antropológica, mesmo que já utilizando em seu texto, palavras usadas cotidianamente pela camada mais baixa da sociedade. Vocabulário este, que não dominava completamente o texto, como acontece na sua última versão. Em seus primórdios o Grupo Língua de Trapo fazia uso do teatro de sombras na encenação, o que gerava grande plasticidade nas cenas.
     Quando das primeiras apresentações, o texto não enaltecia heróis como é de costume, mas revelava a vida de pessoas simples, quietas e discriminadas pela sociedade, como: pobres, prostitutas, lésbicas, loucas, gays, gigolôs, anciãos, idosos, crianças e negros, deixando reflexões diante do público em relação a revelar, mostrar e traduzir para a plateia, questões sociais sobre esses guetos sociais e essas minorias excluídas da sociedade contemporânea. Havia no enredo a personagem Chicona, que era um exemplo típico de personagem que além de prostituta, era anciã, gorda, pobre, negra e personagem viva, concreta e significante representativa das minorias.
     Dessa forma, o espetáculo, paralelo ao texto, se mostrava mais preocupado em refletir, do que apenas mostrar esses personagens, sem fomentar nenhuma consciência da situação social deles próprios, como acontece na encenação mais atual. O espetáculo trazia à tona personagens que a sociedade mais prefere ocultar a buscar soluções evidentes para esses problemas.
     Naquele momento inicial, o Grupo Língua de Trapo, aparentemente tendo por base o gênero comédia, nos trazia à cena discussões relacionadas às questões sociais e antropológicas referentes à inclusão social. Os personagens estavam em cena, paralelamente às reflexões cognitivas de discernimento da própria encenação em relação aos personagens frente ao público. Na primeira geração de atores, o espetáculo voltava-se para se preocupar com questões relacionadas à fatos históricos e culturais, num binômio do tragicômico e discriminação social. De fato, infelizmente esta relação já não mais existe. Os personagens estão lá, por estar, para fazer rir a plateia em função do básico da comédia que é a crítica ao vício e a exaltação à virtude.
     Por outro lado, a versatilidade do espetáculo ao longo dos anos, tem se ramificado e redimensionado em vários caminhos diferentes e isto nos leva a compreender na prática o dinamismo, a transformação, a criação, o ir e vir constante da cultura, revelado no seu mais profundo hibridismo. Não fosse isto, possivelmente o espetáculo, não mais estaria em cartaz.
     Ao longo dos anos o espetáculo foi se modificando e nesse movimento centrífugo, foi se deslocando do seu próprio eixo para suas arestas. Nesta relação intrínseca, esqueceu seu objetivo inicial, transformando-se num besteirol cômico com linguagem ordinária, elementar e rudimentar. O texto que possuía enredo e carpintaria teatral virou novela com capítulos, com mescla de revista e teatro rebolado, com o principal intuito de fazer o público delirar de risos e gargalhadas. Tanto é que hoje, qualquer personagem pode visitar o Bar Caboclo. A peça passou a funcionar como um programa de humor em que os personagens passam por ela e facilmente se encaixam nas sequencias dos quadros, sem nenhum prejuízo ao tema proposto pela encenação nem ao roteiro previamente estabelecido.
     Tendo como ponto de partida, sua última versão na contemporaneidade, denominado espetáculo “Bar Caboclo na Crise”, enquanto que por um lado, evoca novo elenco, mantém por outro lado, alguns atores tradicionais que há tempo vêm dividindo a cena no referido espetáculo. Se por um lado, boa parte do elenco funciona como figurantes durante todo o desenrolar da peça, dois personagens garantem o básico necessário para manter os elementos essenciais e fiéis ao espetáculo.
     Há uma relação de palco muito próxima, equilibrada e simétrica entre “Veruska” interpretada pelo ator Jackson Amaral e “Caluda”, interpretada pela atriz Núbia Oliveira. São esses dois atores que representam a mola mestra da peça, e demonstram que a cadeia posturo-mimo-gestual se faz presente e a dêixis se mostra completa. Incomensuravelmente, eles fazem a peça acontecer. São os principais responsáveis em manterem a peça digna de aplausos, aclamação e entusiasmo do público. Aqui, o ator Jô Cabeleireiro também merece destaque por sua ativa participação em cena. São artistas afinados e conectados um ao outro, principalmente em função da experiência e da tradição que trazem consigo, visto que trabalham juntos há vários anos, com total domínio do palco, improvisações e relação estreita com a plateia. Isto fica explícito e muito claro no desenrolar das cenas.
       Em sua versão contemporânea, tanto o texto como a encenação deixaram de ser primordiais para o espaço físico do bar, alicerce fundamental, que era defendido resistentemente pelo personagem “Seu Chico”, outrora interpretado pelo ator Alcemir Araújo, então proprietário do famoso prostíbulo. Sem o referido personagem, o espaço físico do bar ficou a ver navios, sem proteção, sem um comandante em chefe que o proteja e o defenda, significando quase que apenas uma imagem no aspecto cenográfico. Não há hoje, um personagem que mantenha uma postura defensiva em relação ao bar. Nos tempos da globalização, o bar foi inexoravelmente terceirizado.
     Nesta última versão, a mise en scène, de Disney Silva, busca mesclar quadros que muitas vezes não se coadunam com o texto e a encenação como um todo.  Caso específico é o quadro da entrada da personagem “Dilma”, que foge completamente do ritmo da peça deixando os atores totalmente indecisos. Já com mais de uma hora de espetáculo, nesse momento o ritmo cai de forma devastadora. E é nessa ocasião que algumas pessoas começam a se desinteressar e a sair do teatro. A peça deixou de se fundamentar no Bar Caboclo para se transformar em quadros humorísticos, como se fora teatro de revista, utilizando-se de músicas para fazer a inter-relação entre os demais quadros.

     Todavia, percebe-se grande hibridismo no texto espetacular, fato que vem sendo realizado ao longo de duas décadas e meia pelo grupo. Não desejo aqui, colocar em xeque a encenação! Salienta-se a persistente contribuição do Grupo Língua de Trapo, não só com este espetáculo, entre muitos outros já montados pela trupe. Faz-se necessário compreender que nessas últimas décadas é um dos únicos, senão o único Grupo Teatral em nossa Terra que consegue abarrotar o Teatro das Bacabeiras, levando um público muito diverso e ávido de cultura. Quando a peça entra em cartaz, sempre tem uma plateia que é fiel ao trabalho do grupo. A saga e a trajetória do “Bar Caboclo” estão consumadas no que hoje o grupo apresenta em cena. Talvez, quem sabe? Se o mesmo não tivesse seguido esta trajetória, não se sabe ao certo se o espetáculo existiria na contemporaneidade! 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

ENSAIO A RICARDO III DE SHAKESPEARE


     “O inverno do nosso desgosto se fez verão glorioso”. Estas são as palavras faladas quando o personagem Ricardo III imagina perspectivas concretas de sua futura coroação. São metáforas, verdadeiras e atuais. Refletem e conotam ao mesmo tempo: demagogia, egoísmo, despotismo, egocentrismo e poder absoluto! Frase célebre que significa, em um só tempo: passado, presente e futuro. É o reflexo das irreflexões humanas. É a síntese; o resumo do próprio homem enquanto ser existencial, em busca de sua verdade.
     É no Renascimento onde podemos encontrar um dos dramaturgos mais importante da Europa. Especificamente na Inglaterra, sob o período Elisabetano, viveu Williams Shakespeare, de 1564 a 1616. Nesse período a Inglaterra encontrava-se em crescimento econômico muito promissor. A rainha Elizabeth havia conquistado a hegemonia da sociedade inglesa, que, por sua vez, estava submersa em suas contradições éticas, morais e sociais e mergulhada nos seus valores burgueses.
     Na pequena cidade de Stratford-on-Avon, a 80 quilômetros de Londres, Shakespeare passou boa parte de sua vida, onde estudou vários idiomas. Posteriormente, abandona a família e vai para a cidade grande (no caso Londres) onde, em poucos dias gasta suas economias nos bares e teatros da cidade. Aliás, esse foi praticamente o grande universo de Shakespeare: Stratford-Londres Stratford.
     Diante de um teatro (provavelmente o Globe Theatre), durante as apresentações, sem mais poder assisti-las, e para sua sobrevivência, passa a guardar e cuidar de cavalos do público presente. O certo é que após um certo período, ele passa a trabalhar nesse mesmo teatro. Inicialmente como tradutor de textos já que sabia vários idiomas, (trabalho que lhe deu suporte significante em sua futura obra, tendo em vista que à medida que fazia as traduções, paralelamente, ia compreendendo a carpintaria teatral dos referidos textos).
     Com o seu crescente conhecimento, conseguiu uma vaga como ator e nesse mesmo teatro se tornaria famoso ao montar seus próprios textos. No Globe Theatre, as peças de Shakespeare foram encenadas a partir do ano de 1599. Como dramaturgo, foi de encontro a paradigmas como as unidades aristotélicas, criando tragédias que não seguiam as unidades de tempo, lugar e ação. Trouxe para o palco questões éticas e morais da sociedade inglesa da época.
     Uma das questões fundamentais de sua obra é que ao invés da tragédia grega que enfocava a luta do homem com os deuses; com um toque metafórico, sua obra revelou a luta do homem contra o próprio homem. O que ele levou para o palco, já não eram os deuses, mas a crescente burguesia inglesa lutando contra si, em busca de resolver seus próprios problemas. Romeu e Julieta é um bom exemplo do que se trata aqui.
     O existencialismo humano e uma das questões fundamentais que denota a atualidade da obra de Shakespeare. Esta é uma das razões que faz com que sua obra seja estudada e reverenciada até nossos dias e que seus textos sejam geralmente montados em latitudes totalmente diferentes, com: “Hamlet”, “Macbeth”, entre outros.
     “Ricardo III”, que é o que mais nos interessa neste momento, já foi encenado infinitas vezes nesses últimos séculos. Para imaginarmos a grandiosidade da obra desse autor, basta dizer que este último texto já rendeu discussões, teses, estudos diversos, e como não poderia de ser também foi transformado em vários filmes.
     Tratando-se de cinema, quantos cineastas transformaram em filme a obra de Shakespeare? Sabe-se que não foram poucos os filmes; não só de sua obra, mas também sobre sua vida. É oportuno enfocar que “Ensaio Sobre Ricardo II” de Al Pacino é um deles.
     Este filme, nos leva a uma porta aberta à medida que não se resume apenas como um filme qualquer. É um documentário, é teatro no cinema, são pessoas anônimas que estão na rua e que contribuem com vários pontos de discussão (mudanças) para que possamos refletir objetivamente sobre o autor, sem esquecer a obra, “Ricardo III” que é o tema do filme.
     A todo tempo, o referido filme se transforma num jogo; um jogo em que os participantes refletem sobre Shakespeare, deixando sempre um espaço vazio, para novas reflexões. É o cinema buscando preencher seus espaços, seus meta-espaços. O enfoque é um grupo de teatro, mas a arte é cinema; é cinematográfica. Neste caso, não vamos ao cinema para ver “Ricardo III”, mas para conhecer Shakespeare e consequentemente, pensar “Ricardo III”. Com esse viés, Al Pacino põe em discussão uma das obras mais importantes do autor renascentista.
     No filme, um grupo de teatro decide montar “Ricardo III”. Essa é a trama, que não se deixa cair nos fios do tempo, buscando pesquisar para compreender, e poder explicitar mais profundamente para o espectador, a obra do autor.
     Não se trata de cinema pelo cinema, Al Pacino faz do seu “Ricardo III”, um filme que, antes de se preocupar com a montagem, seu objetivo foi estudar o autor. E não só isso, ele não se contentou que seus espectadores entendessem apenas o tema, no caso “Ricardo III”, mas se preocupassem também com o dramaturgo. Portanto, é de fundamental importância esse ângulo “Paviniano”, quando nos referimos à arte como um universo macro. Assim, Al Pacino, em “Ricardo III”, tenta preencher todos os espaços possíveis no âmbito do cinema, quer dizer, no âmbito do filme.

     No final dessas elementares palavras, poderíamos imaginar a seguinte frase: “Um cavalo... Meu reino por um cavalo...”, dita e redita simbolicamente por um homem (político, empresário, milionário, etc.), neste século XXI, num momento difícil de sua existência pessoal; da mesma forma e no mesmo tom, como falou Ricardo III, há cinco séculos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

FAMÍLIA NA SALA

     As gerações mais novas talvez não saibam, mas antes do advento da televisão e principalmente depois do jantar, as famílias sempre se reuniam na sala da casa para poder colocar os assuntos em dia, enquanto as crianças brincavam no terreiro à frente. Costume que praticamente anda esquecido na atualidade. Era uma época em que apenas o rádio existia e quando não, os circos (famílias nômades) que passavam de cidade em cidade. Além da roda de conversa com a própria família, ainda existia a roda de conversa com os vizinhos.
     As famílias também se reuniam para discutir o espetáculo circense e falar sobre o palhaço e ainda assuntos sobre namoros e casamentos dos filhos, que era uma preocupação latente. De toda forma, também havia a roda de conversa sobre a novela transmitida pelo rádio. Numa família de agricultores havia a noitada de conversas enquanto se amarrava os molhos de feijão para vender na feira da cidade.
     “Família na Sala” é um nome bastante sugestivo que meu amigo e escritor Almeida Júnior escolheu para seu livro. Obra que ele inicia com a chegada da filha no voo da madrugada, que há muito tempo não havia visto sua família. Aliás, madrugada que não acabou em função de tantos temas e assuntos que tinham para conversar até o amanhecer do dia, que se complementou com o café da manhã. Só este fato já indica os sucessivos assuntos que virão um após o outro até finalizar sua obra.
     Por sua vez, quando sempre longe de casa, a filha comumente se alimentava com uma simples lembrança que era a da sua família reunida na sala de casa. Distante dos seus familiares esta lembrança era o suficiente para acalmar seu coração na esperança por dias melhores. Isto nos leva a pensar o quanto os pais e a família como um todo, são extremamente importantes embora os filhos só apercebam esta relação quando iniciam sua vida e sua independência econômica e social. Geralmente é nessa fase que os filhos começam a levar em consideração o que os pais e a família sempre fizera por eles.
     E é numa dessas passagens do seu livro que Almeida Júnior tenta explicar metaforicamente ao leitor, esta relação perceptiva existente na família, mas que transparece cotidiano, vulgar, comum e trivial para os menos desavisados: “Mas as grades deixavam ver o gramado e o jardim cheio de flores, e os postes que acendiam a noite” (p.27).
     Sabe-se que muitos jovens se rebelam contra seus pais e fogem de casa para tentar uma nova vida, e é nessa ocasião que muitos deles têm a oportunidade de refletir sobre si mesmo e sobre sua própria família, analisando o valor que ela tem. Sem a maturidade necessária para enfrentar o mundo, em muitos casos vários deles retornam para a casa dos pais, enquanto que outros acabam sua vida com o uso de entorpecentes. Em outras passagens da obra o autor também faz uso da figura de linguagem quando escreve: “A Lua vestia-se como se fosse para a noite de núpcias com um véu, um halo” (p.43), e ainda: “O Sol nascente, também sonolento, lembrou-me o tempo” (p.44).
     A partir do ato da escrita, nesta coletânea de contos o autor também nos leva a imaginar como se estivéssemos num vernissage de um artista visual, quando assim inicia seu capítulo metamorfose: “Navios mercantes e pequenos barcos flutuavam tranquilos, criando a sensação de uma imagem congelada em um cartão postal” (p.31).
     Por outro lado, faz uso da criatividade do teatro na tentativa de melhor se aproximar do leitor, quando busca identificar e caracterizar seu personagem de forma precisa para que o próprio leitor possa julgar o desenrolar da trama. Ao explanar sobre seu personagem diz ele: “Um homem forte, calçando chinelos de couro cru, calças largas tipo jeans com a barra enrolada até perto dos joelhos, camisa social com gola, semiaberta no peito e mangas enroladas acima dos cotovelos” (p.32). Aqui o autor busca a partir de suas palavras, motivar e facilitar o imaginário do leitor, para que ele (leitor), possa fluir na compreensão do personagem e nas características gerais do texto.
     Como se pode observar, Almeida Júnior sabe muito bem utilizar fatores diversos para desenvolver sua escrita e sua prosa. Ele transita por várias esferas da arte para poder diversificar o desenrolar de seu texto, portanto é um autor astucioso e audacioso. Aliás, é bom frisar que entre outras ele já publicou: “Antologia Experimental”; “Ensaio Geral”; e “Horas vivas”. Isto implica dizer que um autor sempre está em constante crescimento, e Almeida Júnior se insere nesse rol.
     Estou escrevendo uma obra, na qual enfoco minhas reminiscências quando criança no sítio do meu avô, só quem viveu momentos assim sabe o que significa a natureza e a simplicidade das pessoas. Almeida Júnior nos remete a momentos semelhantes quando focaliza a seguinte passagem: “... tratou de anotar o nome de tudo e de todos; das árvores, dos marrecos, das galinhas, dos vizinhos, dos filhos dos vizinhos, das vacas, dos cabritos, das formigas, dos cavalos, dos pássaros, das histórias, dos duendes, dos peixes, dos rios, dos cheiros, da brisa do ar” (p.75).

     Para finalizar, ainda nesta página há uma passagem muito importante que serve de sobreaviso para qualquer cidadão que vive em sociedade: “Extinguir-se do mundo é correr o risco de desaparecer da lembrança da história”. Parabenizo o autor por mais esta publicação e aqui deixo o meu recado: para quem desejar uma boa leitura, não esqueça de ler “FAMÍLIA NA SALA” de Almeida Júnior. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

CECÍLIA LOBO E O TEATRO NO AMAPÁ


     Cecília Palheta Lobo entrou no teatro quase que por acaso, na época em que a professora Nazaré Trindade trabalhava no SESC e estava montando o espetáculo “A Eleição”. Em função da falta de uma atriz, foi convidada por Nazaré para participar da referida montagem. Leiga e mesmo sem conhecer nada sobre teatro aceitou e passou a ensaiar no galpão do SESC que se localizava na Rua Odilardo Silva.
    Acompanhou a montagem ensaiando todas as noites e participando de todas as apresentações. Foi no teatro, que ela aprendeu a pesquisar, a conviver com os outros, técnicas novas, conversar com a plateia, iluminação, sonoplastia e tudo o que envolve um espetáculo teatral. Trabalhou com atores conhecidos como Raimundo Conceição e Marcio Bacelar. Para ela, o SESC se transformou na grande oportunidade que a fez descobrir esse lado artístico e teatral.
     Num determinado momento de sua carreira, Cecília Lobo percebeu que realmente havia se encaixado dentro do teatro, quando num dos espetáculos a plateia a aplaudia de pé, como também em função da sua criatividade os próprios colegas de trabalho a parabenizavam por sua desenvoltura e construção da personagem.
     Depois da peça “A Eleição” montou o espetáculo chamado “Matinta Pereira”, quando interpretou o papel de uma vovó contadora de histórias. Contava as histórias de Matinta Pereira que era protetora da natureza. Depois de ter passado por essas duas peças, Cecília Lobo apaixonou-se pelo que fazia e encarou o teatro com profissionalismo realizando vários outros trabalhos no Estado do Amapá. Organizou-se com um pequeno grupo de atrizes como: Richene Amim, Sol Pelaes, Andréia e Roberta. Com esse grupo montou várias esquetes como também fez teatro de rua. O Macapá Verão foi um dos locais que o grupo mais se apresentou.
     Um momento crucial de decisão na vida de Cecília Lobo foi quando a professora Nazaré Trindade deixou o SESC para assumir a Coordenação do Curso de Educação Artística na Universidade Federal do Amapá. Em função disso, Paulo Rodrigues convidou a Cecília Lobo para assumir a vaga de Técnica em Teatro do SESC, deixada por Nazaré Trindade.
     Com apoio do SESC Cecília viajou por vários centros do Brasil, como Rio de Janeiro e São Paulo, participando de cursos e oficinas de teatro, o que em muito a ajudou a desenvolver seu trabalho no SESC como também na produção cultural. Com esse aprendizado, passou a repassar esses conhecimentos e a ministrar oficinas no próprio SESC.
     Após sua saída do SESC e com a carga de conhecimento que havia adquirido lá, passou a se dedicar à produção cultural. Por um período chegou a dirigir a peça “Bar Caboclo”. Dirigiu a peça “Castelo Misterioso” com a participação das atrizes Richene Amim, Andréia e Sol Pelaes. Espetáculo que enfocava a questão da higiene e ambiental. Durante a década de 1990, o grupo viajou por vários municípios do Amapá.
     Foi no período em que era diretora da peça “Bar Caboclo”, que conseguiu pela primeira vez, lotar o Teatro das Bacabeiras, feito que nenhum outro grupo tinha conquistado até aquela data. Época em que o grupo apresentava duas sessões. Nesse primeiro momento, o espetáculo tinha como base especificamente a pesquisa sobre o antigo bar que existira em Macapá.
     As peças “Bar Caboclo” e “Castelo Misterioso” participaram de várias turnês pelo interior do Estado, dentro do “Projeto Pé na Estrada”. Depois dessa fase, Cecília Lobo ingressa numa universidade para realizar seu curso superior. A partir dai passou a se dedicar à educação enveredando para um trabalho com teatro de bonecos.
     Participou dos seguintes espetáculos, como atriz: “A Eleição - 1986”, “Matinta Pereira - 1986”, “O Rapto das Cebolinhas – 1987”, “Estatuto da Criança – 1989”, “O Natal do Comerciário – 1989”; “O Auto do Menestrel – 2007”, “Retratos de Uma Atriz – 2008 a 2010”, “O Sonho de Doroty – 2010 e 2011”, “Compadre da Morte e Amigo do Diabo – 2010 e 2011”, “As Aventuras de Soneca e Nheco – 2009 a 2001”, e “Ai, Meu Dentinho”. Como diretora: “Palco, Sonho e Fantasia – 1989”, “Castelinho Misterioso – 1991 a 1999”, “Lei é Lei Está Acabado – 1991 e 1992”, “Aniversário do Lobo – 1993 a 1995”, “Bar Caboclo – 1992 a 2000”, “O Casamento – 2001”, “O Mundo de Alan – 2008”, “Dona Baratinha Na Ilha das Flores – 2007 a 2011”, “Auto de Natal, Jesus – 2009 a 2011”, entre outros.

     Cecília Lobo é formada em Letras pela Universidade Federal do Amapá; é Pós-Graduada em Educação e atualmente é professora de ensino fundamental e médio no Estado do Amapá. 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O CURSO DE TEATRO DA UNIFAP E A II SEMANA ACADÊMICA



     Em 1994 quando aqui cheguei para realizar prova de concurso público para professor do Magistério Superior, trouxe comigo uma missão: a de implantar o Curso de Licenciatura em Teatro na Universidade Federal do Amapá. Ao longo das últimas três décadas muitos foram os eixos que nortearam a reflexão da formação docente na área do teatro. Porém, atualmente o que centraliza os entendimentos é a qualificação em nível de ensino superior que perpassa pela emergente necessidade de ampliar a discussão acerca das reflexões e possibilidades didáticas e pedagógicas que o espaço acadêmico provoca na contemporaneidade e as circunstâncias e convergências reflexivas, sensorial e estética que abriga a linguagem teatral, sobretudo na promoção e formação dos sujeitos de modo geral.
     Para o curso de Teatro da UNIFAP alinhei três eixos para propor a elaboração do Plano Político Pedagógico: primeiro: compreensão do espaço de formação como produtor de saberes em vista a articulação entre investigadores da ciência educativa, estética e teatral; segundo: aspectos históricos e culturais do espaço do teatro nas sociedades; e terceiro: interesse com as demandas contemporâneas, enfoques midiáticos e tecnológicos que a teatralidade cênica intervém a partir de sua concepção epistemológica.
     Em busca de efetiva articulação busquei nas percepções de formação e produção teatral um redimensionamento amplo, entremeadas pela cognição, processos científicos de experimentação, sobretudo balizados por um sentido e sentimento estético em perspectivas plurais da construção de conhecimentos/saberes. Esperando que assim os espaços da universidade e os momentos articulados desse espaço/tempo possam desterritorializar modos de aprender e modos de ensinar aceitando momentos entre o pensar e o realizar.
     Assim, elaborar atitudes participativas, ouvindo o clamor da comunidade amapaense que há muito tempo esperava um curso dessa competência é de todo modo perceber e compreender aqueles que escolheram a licenciatura em teatro como futuros professores intelectuais, contínuos pesquisadores e produtores de cultura.
     É com este entendimento: filosóficos, conceitual, sobretudo de um sentimento humanístico que a organização desses eixos norteou o projeto. Por outro lado, atende a complexidade que a sociedade contemporânea vive, onde exige e requer outros trânsitos para se perceber, entender, aprender, ensinar e fazer teatro no espaço da formação docente. Aqui faço, uma ressalva acerca desses trânsitos, assumindo novos desafios conceituais, atentando para que o ensino superior de teatro seja desvinculado das ideias de aprendizagens e ensino como mera transmissão de conhecimento.
     Escolher, persistir e seguir tais concepções é acolher desafios que não paralisam o pensar, nem a ação acadêmica, ao contrário, ganham força e dinamizam o processo de (re) pensar as licenciaturas, consolidando a qualidade da formação de professores em teatro. Contudo, e continuamente deverei rever metas e estabelecer tanto quanto forem necessárias; ideias e percepções que mesmo na provisoriedade ajudem a construir outras aprendizagens.
     O Curso de teatro da UNIFAP foi aprovado pelo Conselho Superior em 12 de novembro de 2013. A primeira turma iniciou em março de 2014. Neste ano realizamos a I Semana Acadêmica do Curso de Teatro; o I Seminário Científico em Artes Cênicas, lançamentos de Livros, Ciclos de Palestras entre outros eventos. Atualmente estamos com duas turmas. Próximo concurso público para professor, teremos sete vagas para o curso de teatro. Estão sendo encaminhados e estudados a construção de dois teatros; um em estilo italiano e outro de arena.
     Estamos promovendo no período de 18 a 22 do mês em curso, a II Semana Acadêmica do Curso de Teatro com vasta programação: no dia 18 às 09h, palestra, “O Setor de Cultura do SESC”, com Genário Dunas; às 10:30 apresentação do espetáculo “Os Magníficos” com a Companhia Sem Teto; no dia 19 acontecerá a mesa redonda Perspectivas do Ensino do Teatro no Amapá com participação de convidados da SEED, SEMED, SECULT, FUMCULT e Rede Particular de Ensino; dia 20 a programação continuará às 9h com Workshop  “Contação de História”, com o ator e contador de histórias Joca Monteiro; dia 21: Palestra “Amadeu Lobato e a Formação de Atores no Amapá”, com o diretor de teatro Amadeu Lobato;  em seguida a palestra “O Reggae, origem e vertentes” com o Dj Duffnaldo; dia 22; Palestra com o diretor Paulo Alfaia sobre “A Experiência do Grupo Desclassificáveis; em seguida a apresentação do espetáculo “Cabaré, Anjos em Crise.com”.

     O II Encontro Acadêmico do Curso de Teatro será aberto a alunos de graduação e à comunidade em geral com direito a certificado. Este evento é uma realização do Curso de Teatro com apoio do Grupo de Pesquisa em Artes Cênicas/UNIFAP e do Núcleo Amazônico de Estudos das Artes Cênicas/NACE/UNIFAP. A comissão organizadora é composta pelo Prof. Dr. Romualdo Palhano e pelos acadêmicos: Aninha Martins, Larissa Macedo, Carla Thais, Jayne Alves e Jhou Santos. 

domingo, 3 de maio de 2015

DISNEY SILVA - De Artista a Secretário de Cultura


     Disney Furtado da Silva é um caboclo do Norte que tem dedicado sua vida à arte e à cultura do Estado do Amapá. É carnavalesco, produtor cultural, dramaturgo, ator e diretor de teatro. Escreveu entre outros, o famoso texto “Bar Caboclo”, que o transformou em espetáculo muito conhecido dos amapaenses. Seu primeiro contato com as artes cênicas foi em 1978, quando iniciou sua carreira no extinto grupo de teatro do SESC/AP, do qual, participou pelo menos por dois anos seguidos até a extinção do próprio grupo. Nessa época, também participou de oficinas promovidas pelo antigo MOBRAL.
     Cinco anos mais tarde, (em 1983), juntamente com alguns amigos como: Raimundo Conceição, Jackson Amaral, Sol Pelaes, Rechene Amim, Marcio Bacelar, entre outros, fundou o Grupo Língua de Trapo que ainda continua em plena atividade. No referido grupo, participou como ator das seguintes peças: “Repiquete”, de Francisco Carlos; “Paixão de Ajuricaba”, de Márcio Souza, entre outros.
     Intensa é sua contribuição com a cultura, com a arte e principalmente com o teatro no Amapá. Ao longo de sua carreia, além do Língua de Trapo ajudou a fundar outros como, por exemplo, o “Grupo de Teatro da Secretaria de Promoção Social” do governo do Estado, quando participou das encenações de “Pluft O Fantasminha” de Maria Clara Machado e ainda “Beatles e a Revolução Social”.
     Sua experiência na vida prática dedicada ao teatro o ajudou no seu amadurecimento e com este suporte resolveu escrever peças e se tornar também dramaturgo. E é ai que surge seu primeiro texto, o renomado “Bar Caboclo” que foi apresentado pela primeira vez em 1991. Depois do sucesso da montagem desse espetáculo, resolveu definitivamente escrever e encenar seus próprios textos.
     E foram sendo escritos e encenados: “Seu Pinto, Uma Filosofia de Vida”; “No Tempo da Ditadura”; “Pecado”; “Triângulo”; “Os Cabuçús no Bar Caboclo”; “Do Oiapoque para o Brasil, A História Que Ninguém Viu”; “Nazareno, O Revolucionário”; “O Bug do Zé Lixão”, além dos infantis “A Turma da Fanfarra”; “Surpresa de Pompom” e “A Casa Mal Assombrada”.
      Disney Silva é amapaense, servidor público do quadro do Ex-Território Federal do Amapá. Tem formação em Marketing e Comunicação pela Faculdade SEAMA e Administração e Marketing pela FAMAP. Foi Diretor do Teatro das Bacabeiras e Vice Presidente da Confederação Brasileira de Teatro – CBT. É Ex-Presidente da Federação Amapaense de Teatro Amador – FATA. Há mais de 25 anos é carnavalesco e já contribuiu com as seguintes escolas de samba: Maracatu da Favela; Grêmio Recreativo Império de Samba Cidade de Macapá; Unidos do Buritizal; Embaixada de Samba da Cidade de Macapá, campeã no ano de 2007 e Piratas da Batucada, campeã em 2012.      No Amapá, promoveu o I e II Festival de Teatro no Meio do Mundo e o Festival Nacional de Teatro, que aconteceu em 2008.
     Há mais de 40 anos que Disney Silva vem se dedicando ao teatro e à cultura no Amapá. Entre os espetáculos montados pelo Grupo Língua de Trapo poderíamos destacar: “Pecado”; “A Saga de Seu Pinto” e “Bar Caboclo”.  “Pecado” (que esteve em cartaz no ano de 1998) é um texto que focaliza-se especialmente no pecado religioso. No espetáculo, o tema poderia ter sido mais explorado pelo autor. Segue a mesma linha do “Bar Caboclo”, mas consegue conquistar a atenção do público.
     “A Saga de Seu Pinto” (em cartaz em 2007) era um espetáculo de sessenta minutos em que o texto nos remete a problemas conjugais criados, rejeitados e ao mesmo tempo aceitos no subsolo e na escuridão moral da sociedade burguesa contemporânea. É ligeiramente popular em função de sua linguagem clara e elementar. Portanto, encontra-se pleno de mexericos, intrigas e bisbilhotices, e tenta enfocar problemas psicológicos e emocionais de relacionamentos amorosos desgastados pelo tempo.
     Não se pode discutir que seu trabalho mais famoso é o espetáculo “Bar Caboclo” com texto do mesmo nome. Mesmo tendo sido produzido antes, há vinte anos que vem sendo apresentado, inclusive é um dos únicos trabalhos de teatro do Estado que consegue lotar o Teatro das Bacabeiras. O texto foi criado a partir de pesquisas sobre um bar que realmente existiu nas docas da antiga cidade de Macapá. Era um dos mais famosos prostíbulos da década de 1960 e localizava-se na esquina da Avenida Mendonça Junior com a Rua São José.
     Constitui-se de um espetáculo de expressão para nossa sociedade, visto que resgata esse famoso bar que outrora existira em nossa cidade. O texto não enaltece heróis, como é de costume, mas revela a vida de pessoas simples, quietas e discriminadas pela sociedade como pobres, prostitutas, lésbicas, loucas, gays, gigolôs, anciãos, idosos, crianças e negros.

     Um exemplo disso está na própria personagem “Chicona”. Vários desses adjetivos está nesse exemplo típico de mulher negra, anciã, prostituta, gorda e pobre. Apesar de se direcionar ao Bar Caboclo, o texto traz à tona discussões relacionadas às questões sociais e antropológicas referentes à inclusão social. Por isso, o mesmo continua atualizado, visto que esta é uma das questões que tanto se discute nos dias de hoje. Disney Silva é um cara batalhador e dedicado às artes em nosso meio, e foi em função do seu trabalho que passou de Artista a Secretário de Cultura do Estado do Amapá.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

AS FACES DE CRISTO - Conforme a Maré


                                      
     A Companhia Cangapé idealizou e concretizou o projeto da encenação de “As Faces de Cristo”, que versa sobre a quaresma. A quaresma é o período de 40 dias que inicia na quarta-feira de cinzas e vai até o domingo de páscoa. É nesse espaço de tempo o momento em que católicos e ortodoxos se dedicam à penitência. O espetáculo foi apresentado no dia 17 de maio do ano em curso, uma sexta-feira. O início estava marcado para as 19:30h, todavia, como é de costume foi preciso esperar o tempo passar um pouco para que a maré pudesse baixar.
     Na montagem deste espetáculo apresentado ao ar livre e dentro do rio Amazonas, a Companhia Cangapé objetivou experimentar novas possibilidades estéticas de representação cênica não tradicional. O espetáculo foi encenado próximo à rotatória do bairro Santa Inês, em Macapá. Apesar da neblina que caía sequencialmente, o espetáculo aconteceu normalmente, inclusive conquistando o público e curiosos que por ali passavam e paravam para assistir ao espetáculo.
     Desde que foi fundada, a companhia Cangapé vem circulando por vários gêneros e estéticas cênicas, como: teatro, dança e circo e agora volta-se para este trabalho que é mais uma ousadia do grupo. Torna-se evidente em suas atividades a forte presença do circo. Contudo, nota-se esta presença fundamental que também é marcante na montagem de “As Faces de Cristo”.
          No geral, o espetáculo se desenvolveu bem, inclusive conquistando um público considerado, que se espalhou pelo menos por cento e cinquenta metros no muro de arrimo entre a cidade de Macapá e o rio Amazonas. Como é uma nova linguagem, ou seja, um espetáculo que apresenta maiores proporções no que diz respeito ao espaço, número de atores e figurantes, iluminação, sonoplastia e visualidades cenográficas; alguns detalhes se fazem necessários para que a relação entre o teatro, a imagem, os olhos de quem realiza e os olhos de quem vê se coadunam gerando sensação de harmonia para a formação do quadro cênico.
     Entretanto, levando-se em consideração as técnicas teatrais e circenses e os aspectos semiológicos das artes cênicas em geral, enfocarei aqui, algumas sugestões para que sejam observadas pelo grupo. Quanto mais distante do público, consequentemente o espaço cênico exigirá maior amplidão dos atores, do cenário e da cena em geral, para dar lugar e significado à representação, diante das pessoas que assistem efetivamente a um espetáculo. Os gregos já faziam isso há 2.500 anos antes de Cristo quando colocavam batas com listras verticais em seu vestuário para criarem ilusão de ótica e se tornarem mais altos perante os olhos do público.
     Outra questão gira em torno da boa utilização do espaço e nuances oferecidas pelo próprio rio. Várias cenas poderiam acontecer tendo como ponto de partida os espelhos d’água que são naturalmente oferecidos pelo rio, gerando nas cenas bela plasticidade, quando as mesmas passam a refletir na própria água. No espaço geográfico do rio Amazonas ficam expostas pequenas ilhas e pequenas poças d’água que devem ser utilizadas como fonte de beleza natural da peça.
     Algumas cenas foram apresentadas sendo encobertas pelas bandeiras brancas que representavam barcos e que foram utilizadas como parte do cenário. Em determinados momentos a visão do público era prejudicada em função dessas bandeiras. Nesse caso, as cenas deveriam ser localizadas à frente das referidas bandeiras, para uma melhor visão do público. Desta forma, permaneceriam em cena, visto que estavam num plano mais alto que os próprios atores. Isto seria bom para dar melhor brilho ao cenário, delimitação do mesmo e principalmente contribuiria demasiadamente para o visual plástico da encenação.
     Em relação à iluminação, se faz necessário mais pontos de luz em direção ao leito do rio, enquanto que no cenário propriamente dito, o número de tochas deveria ser quadruplicados para gerar melhor sensação de plasticidade. Assim, teríamos consequentemente mais iluminação das cenas. Nesse tipo de espetáculo, geralmente os atores não andam, caminham rápido ou correm. Contudo, para que seus corpos possam ficar mais elásticos, deverão exagerar nos gestos e movimentos. Em função da distância, esses movimentos parecerão normais aos olhos do público.
     O grupo tem que insistir nesse espetáculo. Entendo que “As Faces de Cristo” deveria entrar para o calendário da Companhia Cangapé e ser apresentado todos os anos no leito do rio Amazonas. O trabalho foi uma realização da Cia quem tem à frente Washington Silva, Mauro Santos, Alice Araújo, Cleber Luiz e Keila Moreira. O espetáculo teve apoio do Coletivo de Artistas Produtores e Técnicos em Teatro do Estado do Amapá – CAPTTA; Secretaria de Estado da Cultura – SECULT e do Conselho de Cultura – CONSEC.

     Valeu a ideia, a ousadia e a persistência da Companhia Cangapé. Todos os atores que se dedicaram ao espetáculo estão de parabéns, “As Faces de Cristo” foi uma boa oportunidade para quem presenciou o evento. Todos sabem que em nossa região tudo depende da maré. Na Amazônia é assim, até o teatro acontece conforme a maré.