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segunda-feira, 27 de abril de 2026

TRAVESSIAS AMAZÔNICAS

 

 

     Na última segunda-feira, dia 20, cumpri com mais um rito e participei de um milenar ritual que sempre me conforta, que foi me dirigir a uma casa de espetáculos, desta vez, o Teatro Municipal de Macapá, para contemplar a peça teatral intitulada, “Travessias Amazônicas”, do Projeto Travessias Amazônicas, que vem sendo concretizado pelo Movimento Cultural Desclassificáveis, que tem à frente meu amigo, artista, ator e diretor Paulo Alfaia. Ele, que vem há muitos anos, sedimentando seu trabalho a partir de investigações artísticas aprofundadas, e, em consequência, contribuindo imensamente com a prática teatral no estado do Amapá.

     Como em todas suas experiências criativas e artísticas, o Mestre Alfaia, não mede esforços em relação aos desafios que terá que enfrentar ao se deparar no caminho do desconhecido, o que sempre nos apresenta uma mise en scène. Num de seus espetáculos, “Curupira, Um Ser Inesquecível”, que desde 2008, vem sendo apresentado no Amapá, ele focaliza sua preocupação em estudar a Amazônia brasileira, com um olhar para as lendas e os mistérios da imensa floresta, na perspectiva da proteção e valorização da cultura local. Espetáculo atemporal que ainda hoje vem sendo apresentado tanto no Amapá como em outras latitudes.

       Lendas e Mitos como o Curupira, tem sua origem com os Faunos, no antigo Egito; com os Pãs e os Sátiros, na Grécia Clássica, e com os Faunos também em Roma. Sem dúvida, a associação entre o Curupira e os Sátiros é muito próxima, e talvez, tenha sido em função disso, que o Curupira tenha resolvido sussurrar no ouvido de Paulo Alfaia, para que ele transcendesse e desbravasse novas travessias amazônicas, independente de fronteiras terrestres, florestais, políticas, culturais ou sociais. O mais interessante é que Paulo Alfaia, ao entender a mensagem do seu avatar, idealizou e concretizou o Projeto Travessias Amazônicas, até chegar à montagem do espetáculo com o mesmo título.

     “Travessias Amazônicas” é um espetáculo de arena que traz em sua dramaturgia questões políticas, sociais, religiosas e antropológicas, entre fronteiras políticas e terrestres, criadas pelo homem moderno. Tem por base, pesquisa e criação da obra “Un Rien de Pays”, do dramaturgo guianense Élie Stephenson. Surgiu a partir de residências artísticas e estéticas, num intercâmbio cultural entre o Movimento Cultural Desclassificáveis – Amapá - Brasil, e Théâtre de Macouria e Conservatório L’Encre, estabelecidos em Cayenne, Guiana Francesa.

     A sonoplastia, que poderia ser ao vivo durante todo o espetáculo, criando assim um veio estético do início ao final da encenação, repentinamente é pressionada por sonoplastia mecânica, o que, a mon avis, interfere negativamente no desenrolar da peça. Por sua vez, além de não ajudar muito no espetáculo, a iluminação tem muito do improviso. E aqui não é um problema do espetáculo em si, mas, uma ineficiência do próprio edifício teatral, que não possui aparato de iluminação à altura de sua estrutura física. É urgente a necessidade de um aparato de iluminação de boa qualidade, tanto para o palco de arena como para o palco à italiana.

     Já os figurinos precisam ser estudados de forma mais apurada, e que enfoquem principalmente, questões das culturas dos lados: Sul e Norte do rio Oiapoque, brasileira e francesa, respectivamente. Quanto às projeções que enfocam imagens variadas, que se coadunam com o tema da peça, mesmo que não seja novidade, são bem-vindas. Lembrando que o diretor alemão Erwin Piscator, já na década de 1920, é considerado na história do teatro, como o primeiro a explorar em seus espetáculos, projeções cinematográficas, de maneira orgânica e política.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

FICÇÃO E REALIDADE

 

                                    

 

 

     A empatia é a relação emocional que se estabelece entre o público e os personagens de um determinado espetáculo, que pode ser teatral, novela ou cinematográfico, e que provoca fundamentalmente a delegação de poderes do público em relação aos personagens, ou seja, tudo o que acontece com o personagem em cena, parece acontecer também com o espectador, tendo em vista que tudo o que pensa o personagem, o público pensa conjuntamente com ele, segundo sua trama e trajetória.

     Para Aristóteles, a empatia consiste numa relação emocional que se relaciona de duas emoções básicas: a piedade e o terror. Piedade que nos liga a um personagem que sofre um destino imerecido, como é o caso de “Édipo Rei”. Terror que se refere ao fato de que o personagem sofre as consequências de possuir uma falha (trágica e social), que nós igualmente a possuímos.

     No caso de um herói como o super-homem, por exemplo, o espectador assume uma atitude passiva, acompanhando paralelamente suas ações e delegando poderes ao seu ídolo. Nesse tumulto de paixões e ações humanas que constituem a obra dramática, sucede o repouso, este repouso refere-se à empatia propriamente dita.

     Para Brecht, uma peça de teatro não deve terminar em repouso, numa trajetória diferenciada de Aristóteles, ela (a peça) deve mostrar os caminhos pelos quais se desequilibra a sociedade e, por outro lado, indica a busca de uma atitude e ação em relação a esse fato. Um teatro que pretende educar os transformadores da sociedade não pode terminar em repouso, não deve restabelecer o equilíbrio, mas usar da dialética para buscar um denominador comum.

     Enquanto Hegel defende uma inquieta sonolência ao final do espetáculo, Brecht deseja que o espetáculo seja o início da ação, em função disso no teatro brechtiano cada cena torna-se independente uma da outra, evidenciando: início, meio e fim. Neste caso específico, o equilíbrio deve ser buscado com a transformação da sociedade.

     A empatia consiste em justapor duas pessoas (uma fictícia = personagem, e outra real = espectador). Nesse universo, de forma sutil, a empatia faz com que o espectador seja guiado pelo personagem, levando o homem a abdicar em favor da imagem e dos poderes de seu personagem preferido, semelhante ao que acontece entre a torcida e os jogadores de futebol e a relação do homem com seus deuses.

     Assim, o espectador (público), que se encontra numa situação vital e real, elege psicologicamente seu personagem em favor de seus atos e suas atitudes. Esta relação é estritamente psicológica. Já com o personagem é diferente, visto que o mesmo ao estar numa situação fictícia e irreal, em definitivo, conquista empaticamente o público.

     Isto significa dizer que a justaposição desses dois universos (real e fictício) produz igualmente outros efeitos agressivos, isto é, o espectador vivencia a ficção e incorpora valores da ficção naquele momento que pensa ser real. Assim o homem real e vivo assume como realidade e como vida o que lhe é apresentado na obra de arte, sem perceber que arte é pura ficção.

 

 

 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

MEIO DO MUNDO

 

 

     O entorno do marco zero do equador se tornou um dos principais pontos de encontro dos amapaenses como também de turistas que visitam nossa querida cidade. Naquele espaço urbano, em meio à linha do equador, o complexo do marco zero concentra três importantes monumentos: o Marco Zero do Equador; o Sambódromo complementando-se com a Cidade do Samba e o Estádio Milton de Souza Corrêa, conhecido popularmente como Estádio Zerão.

     Todos sabem que megaeventos e grandes shows musicais sempre acontecem no entorno do marco zero do equador. No sambódromo acontece um dos maiores eventos da cidade que é o desfile das escolas de samba no período de carnaval; e para que isso aconteça, torna-se prioritário grande movimentação no entorno daquela área urbana; área mais do que necessária para que cada evento, como o desfile das Escolas de Samba, por exemplo, tenha sucesso.

     Além do desfile de escolas de samba, durante os 365 dias do ano acontecem outros tantos eventos como o desfile das quadrilhas juninas entre vários shows de cantores famosos, tanto amapaenses como músicos conhecidos em todo o Brasil. Ademais, os encontros religiosos que sempre escolhem aquela área urbana para louvarem ao senhor. Na Rua Ivaldo Veras também existe a Cidade do Samba que, por sua vez, serve como suporte ao Sambódromo em suas atividades culturais.

     O mês de setembro sempre é bastante movimentado com os desfiles dos dias 07 e 13 deste mês, quando aquela área se reveste de desfiles de escolas estaduais e municipais, exército, bombeiros e polícia militar, entre outras agremiações. Tanto no desfile das escolas de samba como no desfile do dia 07 de setembro a parte de trás do Zerão fica repleta de bandas de música das escolas, todas esperando seu momento para entrar em cena. Neste caso, o barulho é imenso na espera de desfilar no sambódromo.

     Lá também está localizado o Marco Zero do Equador, com várias festividades inserindo aqui as principais que são os Equinócios: equinócio da primavera, em março e equinócio de outono, em setembro. Na maioria dos casos, há danças e exposições, o que transforma aquele ambiente num grande local de encontro das pessoas que aqui habitam. Ainda há os solstícios que não são muito divulgados, mas que acontecem em junho e dezembro.

     Junte-se a tudo isso o Estádio Zerão, querido por todos aqueles que são amantes do futebol. Tudo que se relacione ao futebol acontece no Estádio Zerão, que é o único estádio do Brasil onde uma equipe situa-se no hemisfério Norte e a outra no hemisfério Sul. E o que dizer dos circos que sempre chegam à cidade de Macapá, estão sendo instalados em novos espaços. Aquele espaço urbano completou-se depois da inauguração da Praça do Meio do Mundo. Ótimo local para relaxar um pouco.

 

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

ARTE E DRAMA

 

                                 

     Na arte dramática as palavras deixam de ser signos arbitrários para converterem-se em signos maturados de objetos arbitrários. Cada letra é um signo e ao juntarmos esses signos, deveremos seguir alguns códigos e regras juntando-as e formando as palavras que por sua vez são relacionadas a determinados objetos ou sensações.

     Aqui se pode encontrar a grande diferença entre dramaturgia e encenação. Se por um lado, a dramaturgia refere-se à literatura propriamente dita, por outro, a encenação por sua vez, está estritamente ligada ao movimento e à ação. Portanto, estamos enfocando aqui duas obras completamente distintas. A dramaturgia é literatura; a encenação é ação, é teatro.

     Na poesia dramática, o mais importante está nos gestos, ou seja, no movimento e na ação, como também nas palavras criadas para explicar esses gestos. O drama é a representação de uma ação concluída e não o começo de uma ação, como acontece com a poesia lírica. Se há signos linguísticos para a literatura, também há signos para a encenação de uma peça teatral, obviamente.

     O drama exige unicamente a unidade de ação; a unidade de tempo e de lugar. Paralelamente, o ator tem que saber e entender essas três dimensões. Quem sou eu? O que estou fazendo? E em qual momento histórico me encontro e em qual espaço geográfico estou realizando determinada ação?

     A arte é a imitação da realidade e cada obra de arte alcança seu autêntico espaço estritamente por meio do seu conteúdo e de sua estrutura visível, que se insere no seu ritmo intrínseco evocado por dominantes espaciais e temporais.

     Quando um ator se apresenta diante de um público ou fala diretamente (como no teatro dialético) esses recursos estilísticos não só modificam o espaço, mas toda a relação do significando com o significante. Certamente, que hoje se faz muito mais esforço para alcançar a relativa autonomia do teatro contemporâneo, sua funcionalidade e sua praticidade. Já não mais parece ser como um fragmento ilusório de vida, casualmente presenciado pelos espectadores.

     E a perfeição técnica não é mais um padrão de qualidade artística e sim pura e simplesmente o resultado da habilidade profissional em um terreno artístico determinado. Penso, porém, que as obras de arte plenamente originais são aquelas que conservam certo grau de excelência e atributos individuais dos artistas. No caso, a originalidade poderia ser equivalente a uma individualidade excepcionalmente criativa.