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domingo, 1 de novembro de 2026

DIA DE FINADOS

 

 

     Para todos os dias do ano, existe um dia para cada situação, e amanhã será o dia dos mortos, de finados ou ainda, dos fiéis defuntos, sendo assim, é uma data celebrada em 2 de novembro, para homenagear, rezar e orar pelas pessoas falecidas. Data instituída pelo abade francês Odilo de Cluny. Portanto, é uma antiga celebração pagã, de mais de dois mil anos, quando já eram realizadas pelos Celtas. Vários povos apresentam maneiras diferentes de cultuar seus mortos. Enquanto em Roma os corpos eram cremados, no Egito eram embalsamados. Essa relação intrínseca entre o ser humano e a morte, é um reflexo da cultura em que se vivencia e se aprende seus dogmas e arquétipos.

     O halloween conhecido no Brasil como Dia das Bruxas, é uma festa de origem Celta, praticada há mais de 3.000 anos, e que acontece no dia 31 de outubro, à qual é muito difundida nos Estados Unidos, nos dias de hoje. Em algumas tribos indígenas, quando um membro da aldeia morre, enquanto a família fica reclusa, é a aldeia quem vai realizar o culto ao falecido, com todas as honrarias necessárias. Após sete dias, cria-se um boneco e é nesse momento que a família se reúne em torno do boneco, como se fosse seu parente, para velar seu falecido e então, realizar o sepultamento do mesmo. Como pode-se observar, tudo depende da cultura em você está inserido, e de como você ver o mundo que o cerca. Einstein já dizia: tudo aquilo que o homem ignora, não existe para ele. Por isso, o universo de cada um se resume ao tamanho de seu saber.

     Na questão processional dos antigos enterros, principalmente quando de pessoas mais importantes da sociedade, havia uma banda de música que acompanhava o féretro, tocando músicas fúnebres. Marcha fúnebre apresenta compasso quaternário ou binário, com andamento muito lento e pesado, imitando o ritmo de uma procissão, como a de um funeral. Por outro lado, essas famílias mais abastadas pagavam a um grupo de mulheres para que elas ficassem todo o tempo chorando perto do ataúde, eram as famosas profissionais conhecidas como carpideiras. Também existia uma roupa específica para enterrar o defunto, conhecida por mortalha e geralmente essa roupa tinha a cor roxa ou preta.

     Até a proclamação da república, quem administrava o nascimento e os óbitos era a Igreja Católica, portanto, era muito comum que existissem cemitérios atrás das igrejas católicas até final do século XIX, como se pode observar em Santa Cruz de Cabrália, Sul da Bahia, uma das primeiras igrejas do Brasil. A antiga Igreja de São José de Macapá, também possuía o seu cemitério, que se situava na região do formigueiro. Atualmente os cartórios que registram nascimento e óbito. Depois das igrejas, os cemitérios passaram aos cuidados das prefeituras municipais, sendo que nos dias de hoje, já existe uma infinidade de cemitérios de companhias ou grupos privados. Contudo, há várias formas de se despedir do ente querido: enterrar em cemitério de terra, em catacumbas de alvenaria como também há a possibilidade da cremação. Lembrando que os cemitérios não são visitados apenas no dia de finados, também há o costume da visitação no dia das mães e dia dos pais, respectivamente.    

 

domingo, 25 de outubro de 2026

SERVIDOR PÚBLICO

 

 

     Próxima quarta-feira, será o dia do Funcionário Público, esta data homenageia aqueles que se dedicam exclusivamente a atender ao público, foi criada na Era Vargas. O serviço público começou a ser regulamentado e foi posto em funcionamento por meio do decreto-lei nº 1.713, de 28 de outubro de 1939. Em seguida, o Presidente Getúlio Vargas decidiu criar uma data para comemorar o dia do funcionalismo público, e foi assim que surgiu o dia do Servidor Público. A criação dessa data foi determinada pelo decreto-lei nº 5.936, em 28 de outubro de 1943. Em artigo único, seu texto determina que: “O dia 28 de outubro será consagrado, em todo o País, ao “Servidor Público”. Interessante é que esta data, apesar de sua importância, não é considerada um feriado nacional, porém é tida como ponto facultativo, quando a União, os estados e municípios todos os anos, sempre a comemoram. 

     Em muitos casos, quem está fora do serviço público, não entende plenamente como ele funciona. Por outro lado, geralmente há um olhar diferente em relação ao serviço público, no que diz respeito, de como o servidor deve exercer suas funções. Em várias repartições públicas percebe-se aqueles mais dedicados que outros, visto que cada um traz dentro de suas perspectivas de vida, seus sonhos e seus ideais. Com 39 anos de serviço público dá para perceber esse pensamento, quando da entrada de novos servidores, que trazem perspectivas deturpadas do seu métier na amplitude pública. Em sua grande maioria, novos servidores públicos almejam tirar proveito do serviço público, ideia que não combina com os preceitos e com as leis destinadas voltadas para esse tipo de serviço.

     Ao pensar em se candidatar à um concurso público, o futuro servidor, precisa se inteirar de que ninguém faz o que quer e o que pensa nessa área profissional, visto que há regimentos, códigos de ética, resoluções, leis superiores, entre outros tantos documentos que regem este setor, os quais, consequentemente determinam o compromisso, os deveres e direitos dos funcionários públicos. Ou seja, há uma infinidade de leis que regem a vida profissional daquela pessoa que deveria servir e respeitar o público em geral. Se por um lado, em função de sua total dedicação às suas atividades laborais, o servidor pode receber uma Portaria de Elogio, por outro, em função de realizar algo, como por exemplo, macular o nome da instituição, ele também poderá responder a um Processo Administrativo Disciplinar, receber uma Portaria de Advertência e, até ser demitido da instituição pública.

     A própria sociedade em geral, parece que a todo custo, observa o serviço público como algo que não funciona, como uma grande máquina desgastada. Isto não deve ser generalizado, visto que muitas áreas do serviço público no Brasil, já demonstraram resultados excelentes para a população. E, muitas vezes, o setor que mais sofre com essas Fake News, é a própria Universidade e a educação em geral. A educação precisa ser vista como um dos pilares da sociedade, visto que um país sem cientistas é um país sem progresso. Os países mais ricos fomentam e investem pesado em pesquisa, em busca de um futuro melhor, e que também gere renda para o próprio país. É certo que as instituições públicas, sejam elas em nível federal, estadual ou municipal, e inclusive, o servidor público, fazem parte deste grande suporte para o crescimento da sociedade brasileira. Viva o Funcionário Público.

 

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

MISTER PROFESSOR

 


     Última quinta-feira comemorou-se o dia do professor, em função disso, faço aqui um relato da minha trajetória de 44 anos dedicados à educação desse país. Comecei a lecionar por uma necessidade econômica; o ano era 1982, já estava cursando a graduação em Educação Artística na Universidade Federal da Paraíba. Eu acabara de sair de um emprego de escriturário na famosa transportadora Dom Vital. Foi o momento em que tive que morar na casa universitária masculina, como também, sair em busca de uma escola para ministrar aulas de Educação Artística. Passei dois anos lecionando no Instituto Sólon de Lucena, na cidade de João Pessoa. Apesar de não ter tido garantido meus direitos trabalhistas, foi um momento de muita dedicação e aprendizagem.

     Em 1984, já numa escola mais organizada, pela primeira vez, tive minha carteira assinada como professor de artes, ao trabalhar no Colégio João Paulo II, também um estabelecimento da rede privada. Com a oportunidade de me dedicar aos afazeres da universidade, eu precisava pagar meu vale transporte como também as bandejas no restaurante universitário, e por isso, tive que dividir minha vida, entre a universidade e o trabalho. Tendo iniciado em 1980, e, levando-se em consideração o atraso que houve no desenvolvimento do meu curso de graduação, só tive condições de finalizá-lo no período de cinco anos. Neste caso, o ano de 1985, foi o grande momento da conclusão do curso e da minha colação de grau. E assim, conclui o Curso de Licenciatura em Educação Artística, com habilitação em Artes Cênicas.

     Como professor, os primeiros seis anos do início da minha carreira, vivenciei na escola da rede privada de ensino. Por isso, trabalhei como professor na rede particular, de 1982 a 1988. Muito me dediquei para estudar para concursos públicos na minha área, assim sendo, em 1986, fui aprovado em segundo lugar num concurso para professor da Prefeitura Municipal de João Pessoa, sendo que, tomei posse em dezembro de 1987. Ainda neste finalzinho do ano tive a honra de ser selecionado para cursar o Mestrado em Serviço Social, ainda na UFPB. De outra parte, me inscrevi em outro concurso público, desta vez, do Governo do Estado da Paraíba, o qual, também fui aprovado em segundo lugar.  

     Naquele período da minha vida, entre o final do ano de 1987, e início de 1988, realmente, eu tive um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo, tendo em vista que, em função das minhas conquistas, tive que deixar o ensino privado e passar para o ensino público, assumindo aulas na rede municipal e rede estadual de ensino, além de ingressar como aluno efetivo do Curso de Mestrado em Serviço Social. Nessa época, minha vida deu um giro de 360º, e, pensando no meu futuro, tive que dar conta de todos esses afazeres.

      Em 1993, me submeti a mais um concurso para trabalhar no Núcleo Pedagógico Integrado – NPI, da Universidade Federal do Pará. Portanto, outro momento semelhante também veio a acontecer no ano de 1994, quando noutro giro de 360º, fui aprovado em primeiro lugar, sendo que desta vez, em fevereiro de 1994, assumi minha vaga na UFPA. Foi o momento de deixar a velha Paraíba e me instalar em Belém do Pará. Não satisfeito com minha estada no Pará, resolvi me submeter a mais um concurso, desta vez, em setembro de 1994, na recém-fundada Universidade Federal do Amapá (à qual se tornou minha casa preferida), quando também obtive o primeiro lugar. Instituição onde permaneço há 32 anos, sendo que, o mais significante de todo o meu trabalho, aqui no Estado do Amapá, foi a implantação do Curso de Licenciatura em Teatro. Escolhi acertadamente a carreira do magistério.   

 

 

domingo, 11 de outubro de 2026

CÍRIO DE NAZARÉ

 


     No teatro grego antigo havia a organização de procissões, que se tornaram muito mais religiosas do que profanas. Essas procissões tinham caráter comum, onde todos os celebrantes se juntavam tendo à frente jovens que cantavam um hino improvisado, chamado “ditirambo”, e assim giravam em torno do altar do deus, agradecendo pela colheita da uva e pelo sexo que significava a fertilidade da vida. E foi exatamente desse coro, do contraste entre o espírito Dionisíaco e Apolíneo que nasceram a Tragédia e a Comédia. A tragédia tinha como principais características o terror e a piedade que despertava no público. Era constituída de cinco atos e voltava-se para o resgate da mitologia grega, com seus deuses, heróis e feitos. A comédia era dividida em duas partes com um intervalo. Tratava dos homens comuns e de sua vida cotidiana.

     Em seguida o coro separou-se do recitador, nesse momento crucial da história do teatro havia nascido o primeiro ator. Contudo, na procissão já se podia constatar três artes: o canto, a dança e a atuação. Nesse caso, à frente vinha o “Corifeu” – de onde surge a palavra Coro – vestido com pele de bode. Consequentemente todo o resto do grupo respondia ao ditirambo, atuando como um verdadeiro balé litúrgico, numa fusão do trágico e do cômico. Essa narrativa cantada sempre era realizada em terceira pessoa.

     E assim constituiu-se a Tragédia: o ator e o coro se respondem cantando, em seguida o ator fala e o coro canta e posteriormente o ator dialoga com o Corifeu, representante do coro. Vale salientar que nesse momento embrionário da Tragédia não havia atos nem intervalos, sendo a mesma, composta de partes dialogadas e partes faladas.

     Como muitas festividades que se conhece de povos antigos e contemporâneos, o Círio de Nazaré se insere nesse rol em que seu significado faz parte de uma comunidade que se debruça a louvar seu Deus. Neste caso, a Virgem de Nazaré. E passa a agradecer as lutas, conquistas e promessas alcançadas ao longo do tempo que se passou. Inclusive, e particularmente à vida. Agradecemos principalmente por estarmos vivos. E semelhantemente acontece no Círio de Nazaré, quando todos os anos, numa determinada época, o povo se reúne para louvar a sua Santa (Deusa) Virgem de Nazaré. É interessante saber que apesar da distância cronológica, momentos semelhantes existem entre essas duas manifestações religiosas, como por exemplo, o vigário assumindo o lugar do Corifeu, que, quando fala uma estrofe de uma oração, automaticamente o povo responde, representando nessa ocasião, o coro. Tal como: pároco – Viva Nossa Senhora de Nazaré!; povo em coro:  - Vivaaaaaaaa!!!

      Manifestações como estas, denota a declaração antropológica de que pertencemos àquele ou a este grupo ou comunidade. É nessa grande homenagem à nossa Senhora de Nazaré que uma multidão vai às ruas para agradecer à Santa ou para lhe ofertar promessas, muitas vezes em troca do sonho de galgar uma casa própria. E é nessa relação de fé e de caridade, que muitas vezes esses sonhos se realizam. Nesse caso, cria-se um elo muito forte, denso e emotivo em relação à imagem da Santa Virgem de Nazaré, que traz não só paz, mas que também serve como terapia e cura para muita gente. Com os atropelos da sociedade contemporânea que, na ânsia de enriquecer de qualquer forma, impõe cotidianamente na cabeça das pessoas, a necessidade do consumo desenfreado. E esse não é o caminho. Portanto, apelar para a Virgem de Nazaré é uma boa causa e faz bem à saúde e à alma.   

 

 

 

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

TEATRO E AUDITÓRIO

 

 

     Tendo como ponto de partida de que o Teatro das Bacabeiras, deve ser considerado como um edifício profissional; hoje em dia, o melhor caminho para os que trabalham com artes cênicas em nosso Estado é buscar espaços alternativos, os quais, encontramos em alguns locais da cidade. Entre os espaços alternativos para representações teatrais em nossa cidade temos: Auditório do SESC/Araxá, entre tantos outros vários palcos que se encontram em nossas escolas de ensino fundamental e médio; Fortaleza de São José de Macapá; Centro de Convenções Azevedo Picanço; Museu Sacaca; Auditório Multiuso da UNIFAP; Teatro do Céu das Artes, entre outros.

          A Fortaleza de São José de Macapá é um espaço que marca a cidade como referência de sua colonização portuguesa. Um dos espetáculos que vem sendo apresentado há 47 anos, naquele imenso espaço, é “Uma Cruz para Jesus”. É um espaço teatral, que, como cartão postal e prédio turístico, deveria manter algum tipo de representação teatral ligada ao tema sobre a luta de Cabralzinho e a história do Amapá, com o objetivo de, a partir do teatro, mostrar soldados com figurinos de época, com tochas, e fazer parte da programação diária daquele monumento.

     Outro espaço que também já presenciou várias apresentações foi o Centro Cultural do Estado do Amapá, inaugurado na década de 1990, por força da Lei Estadual nº 0212. Tempo depois, tornou-se Centro de Convenções João Batista de Azevedo Picanço e ainda Teatro Experimental em 2002. Quando inaugurado, este prédio era conhecido como Centro Cívico de Macapá. Ainda continua em atividade; é um espaço considerável para os grupos de teatro do Amapá. Infelizmente não existe, por parte dos órgãos de cultura, uma política permanente de aproveitamento desse espaço físico para fins artísticos.

     É bom lembrar, que na maioria dos casos, esses espaços não são mais que auditórios. Para podermos compreender mais profundamente esta relação, observaremos aqui, as principais diferenças entre Auditório e Teatro. Auditório origina-se do latim auditorium, que significa local onde se reúne os ouvintes. O termo está relacionado com audição, áudio, voz, som, ruído, sonorização, etc. Nesses termos, auditório é um lugar onde as pessoas vão para ouvir outras pessoas falarem. Esse é o principal objetivo do auditório: ouvir um emissor falar para um receptor. Já o teatro, cujo termo origina-se do grego theatron, significa lugar para olhar, ou lugar de onde se vê. Diferentemente do auditório, alguém vai ao teatro não só para ouvir, mas para ver e se emocionar ao assistir a um espetáculo teatral, que traz em seu bojo, um enredo e uma história com início, meio e fim. Com personagens fictícios sendo representados por atores, os quais possuem técnicas para a realização do referido espetáculo.  O que no auditório será discurso, no teatro será ação; Se no auditório há oradores, no teatro, são atores que representam personagens; os auditores ouvem, os espectadores observam; no auditório ouve-se o que diz, no teatro, observa-se o que se faz; o auditório é um lugar para narração de um discurso, enquanto que o teatro é um local para representação de uma peça teatral; os discursos, para o auditório, são os vetores principais da narração; a ação para o teatro, é o vetor principal do espetáculo; a ação para o auditório, não é mais que os acessórios do discurso, por outro lado, os discursos para o teatro, não são mais que os acessórios da ação. Dessa forma, pode-se observar que se faz necessário saber que todo teatro pode ser auditório, mas nem todo auditório pode ser teatro.

   

domingo, 27 de setembro de 2026

O ENIGMA DE ÉDIPO

 


     Édipo Rei, é um texto dramatúrgico de um dos mais importantes trágicos gregos da antiguidade. Sófocles, o escreveu e o encenou na Grécia Clássica, ou seja, no século V antes de Cristo. Todos sabem ou já ouviram falar sobre a história de Édipo, ele estava predestinado a matar seu pai e casar com sua própria mãe. A partir de estudos com base nesse texto, Freud conseguiu criar sua tese psicológica do “Complexo de Édipo”, que é o caso do filho que se apaixona pela própria mãe.

     O que não se conhece é onde Sófocles buscou inspiração para a elaboração do referido texto. Foi uma ideia genial, mas com certeza ele deve ter conhecido fatos semelhantes que aconteceram num período muito mais antigo do que aquele momento em que ele vivia na Grécia Clássica de sua época. 

     Há uma lenda de que na antiquíssima Babilônia, vivia um neto de Noé, chamado Cuxe, que se casou com Semíramis, e este casal gerou Ninrode. Esse último, foi um dos primeiros homens mais poderosos da terra. Ninrode era neto de Cam, que por sua vez, era filho de Noé. Em função de seu poder, Ninrode se rebela contra Deus e manda construir a torre de Babel. Com a morte de seu pai, terminou se casando com sua própria mãe, Semíramis.

     A história de Édipo não começa com ele, mas, muito antes. Inicia com Lábdaco, que era filho de Polidoro; Laio se torna filho de Lábdaco; e por fim, nasce Édipo, que é filho de Laio. Quando em sua juventude, enquanto Laio pernoitava no palácio do rei Pélops, envolveu-se numa paixão homossexual com Crisipo, que era filho daquele rei. Todavia Laio raptou Crisipo. Nessas idas e vindas, Crisipo comete suicídio. Irado, o rei Pélops amaldiçoou Laio. Maldição esta, que causaria sua infelicidade como também de seus descendentes.

     Com o apoio dos oráculos, a maldição de Pélops resumia-se na seguinte frase: Laio geraria um filho que mataria o próprio pai (no caso Laio) e casaria com a própria mãe. Em detrimento dessa maldição, Laio que era rei de Tebas e casado com Jocasta, se recusava a dar um filho à sua esposa legítima, com a perspectiva de que a maldição não caísse sobre ele.  Hera, esposa de Zeus (que era a deusa do casamento) concordou, e para punir Laio, enviou a Esfinge que ficou numa montanha próxima à cidade. Todos que por ali passavam se submetiam a perguntas feitas pela esfinge, e aos que não sabiam responder, eram devorados pela própria esfinge.

     Somente Édipo é que foi vencedor, quando a esfinge (que tinha busto de mulher e corpo de leão) lhe direcionou a seguinte pergunta: qual o animal que pela manhã anda de quatro, à tarde com duas pernas e à noite com três? E Édipo respondeu: o homem, que, quando novinho engatinha com os pés e mãos; quando adulto anda com duas pernas, e quando velhinho anda com três, porque se apoia numa bengala. Vencida, a esfinge se jogou da montanha e morreu no precipício. A partir daí a maldição se aprofundou e Édipo teve seu destino trágico cumprido.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

MOLIÈRE

 

 

     Jean Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière, nasceu na cidade de Paris em 15 de janeiro de 1622 e faleceu em 17 de fevereiro de 1673. Foi dramaturgo, ator e encenador. Ele teve um papel de destaque na dramaturgia francesa, quando era, de certa forma, muito dependente da temática da mitologia grega. Em suas obras, Molière também passou a criticar os costumes da época. Ele era filho de um artesão parisiense. Ficou órfão da mãe quando ainda era criança. Em 1633 entrou na prestigiada escola de Jesuítas do Collège de Clermont, onde completou a sua formação acadêmica em 1639.

     Quando completou 18 anos, seu pai lhe passou o título de “Tapissier de Roi” (Tapeceiro ordinário do rei), e o cargo associado de “valet de chambre”, ou seja, criado de quarto. Isto significa dizer que desde cedo teve contato com o rei. Em junho de 1643, juntamente com a sua amante Madeleine Béjart, seu cunhado e sua cunhada, fundou a companhia (trupe) de teatro L’Illustre Théâtre. E já em 1644, apresenta-se em Paris. Nessa época, passa a dirigir a referida companhia, que em 1645 entra em crise. Foi a partir desse momento que ele assumiu o pseudônimo de Molière, inspirado no nome de uma pequena aldeia do sul da França.

     Em Lyon, Madame Duparc, conhecida como La Marquise, juntou-se à companhia. Estabelece-se definitivamente no teatro do Petit-Bourbon, onde, a 18 de novembro de 1659, faz a estreia da peça Les Précieuses ridicules (As preciosas ridículas) uma das suas obras primas que criticava os maneirismos e modos da sociedade em que vivia. Para os mais interessados, há o filme “Marquise”, que trata exatamente sobre o teatro de Molière naquele período.

     Apesar de sua preferência pelo gênero trágico, Molière tornou-se famoso pelas suas farsas, geralmente de um só ato e apresentadas depois de uma tragédia. Algumas dessas farsas eram parcialmente escritas, sendo encenadas ao estilo da “commedia dell’arte”, com improvisação a partir de um canovaccio (esboço muito geral da peça). A “commedia del’arte” teve seu auge na Idade Média, na Itália. Se transformou no período mais importante do teatro de rua, na história do teatro.

     Sganarelle ou le Cocu Imaginaire de 1660, trazia à tona o tema das relações humanas, descrita com um certo grau de pessimismo. Isso tornar-se-ia evidente nas suas obras seguintes e fonte de inspiração de futuros dramaturgos, como por exemplo, Luigi Pirandello. Le Tartuffe (Tartufo) foi encenado em Versailles em 1664, tornando-se no maior escândalo da carreira de Molière. A descrição da hipocrisia geral das classes dominantes e, principalmente do clero, foi considerada ofensiva e imediatamente contestada. Em função de críticas da sociedade, o rei vê-se obrigado a suspender as apresentações desta peça. Em 1666, apresenta Le Misantrophe (O Misantropo), que é considerada uma das obras mais refinadas e com um conteúdo moral mais elevado das peças de Molière.

domingo, 13 de setembro de 2026

SÁTIROS E BUNDUS

 

         Sileno era o pai dos sátiros, foi ele quem educou o deus Dioniso. Tradicionalmente, os sátiros são os filhos das Náiades divinas, que eram ninfas de água doce, rios, lago, fontes e riachos. Sátiros eram híbridos provenientes da natureza, da floresta, portanto eram divindades mortais. Representavam na cultura grega, a força da natureza sem controle. Em grego, sátiro significa lascívia, e o símbolo da lascívia é o bode, por isso eles eram metade homens e metade bode, possuíam pernas, cauda e orelhas de bode. Além de chifres nas testas, tinham narizes achatados, barbas longas e lábios grossos, e eram demasiadamente cobertos de pelos. Viviam nos bosques e campos e defendiam a natureza, sendo assim, eram respeitados pelos pastores e camponeses. Derivados desses seres, hoje temos no Brasil, nossos protetores das florestas, como: Curupira, Saci-Pererê, Cobra Grande, Negrinho do Pastoreio, Mula sem Cabeça, lenda do Boitatá, Comadre Florzinha, lenda do Boto, lenda da Iara, entre outros.

     Frequentemente, os sátiros se relacionavam com as ninfas e mais comumente com as bacantes, que se juntavam a eles para acompanharem o cortejo e cultuarem o deus Dioniso. Eram seres de grande potência sexual e geralmente eram representados com imensos falos. Além de Dioniso, os sátiros também acompanhavam o deus Pã, que era o protetor dos pastores, dos bosques, dos rebanhos e campos. Segundo historiadores, seres parecidos como esses, já existiam no antigo Egito, como lá não tinha florestas, diferentemente da Grécia, eles habitavam os desertos. Foi por motivo da morte de Osíris, quando Isis ficou de luto, que a partir da sensibilidade do seu olfato, os primeiros a saberem desse acontecimento, foram os Pãs e os Sátiros. Por outro lado, enquanto na mitologia grega temos os sátiros, que seguem o deus Dioniso, da mesma forma temos na mitologia romana os faunos, que são os seguidores de Baco.

     Os sátiros eram personagens que sempre estavam presentes nos dramas satíricos. Quando havia, por exemplo, a apresentação de uma trilogia trágica, no final, eram apresentados um drama satírico. Isto se deu praticamente após a reforma de Prátinas, quando o drama satírico, se tornou obrigatório na tetralogia. Os sátiros representavam, a música, o vinho, a dança e a fertilidade do sexo. Da mesma forma que, na Grécia clássica havia os sátiros, homens vestidos de bode que dançavam e bebiam em louvor ao deus Dionísio. Na Roma antiga, havia os bundus, homens que louvavam o deus Baco. Dioníso na Grécia e Baco em Roma referem-se ao mesmo deus. Nesses festejos, conhecidos como dionisíacas ou bacanais, esses foliões consumiam vinho em demasia. Dessa forma, eles ficavam vagando sem rumo pelas ruas da cidade (como se fosse uma onda – unda) e não conseguiam encontrar o caminho de volta para casa. Daí eram chamados de bacca bundus, depois veio o latim vagabundus. E é desse étimo que deriva a palavra vagabundo, dessa forma aportuguesada.


domingo, 6 de setembro de 2026

POINT CULTURAL DÉCADA DE 1950

 

 

     A implantação do Território Federal do Amapá na década de 1940 redimensionou as questões geográficas, políticas, econômicas e culturais de uma das áreas mais setentrionais do Brasil. Em se tratando de questões culturais, isto se dará mais propriamente no final da década de 1940, com a inauguração e implantação de vários setores da cultura como, por exemplo: a inauguração do Cine Teatro Territorial em 22 de julho de 1944; inauguração da Rádio Difusora de Macapá em 23 de julho de 1946; inauguração da Escola Barão do Rio Branco (primeira escola em alvenaria de Macapá), em 13 de setembro de 1946, onde começa a surgir dramatizações de peças por alunos, com apoio de professores. Inauguração do Novo Hotel em 13 de setembro de 1945, e a inauguração da Praça Barão do Rio Branco em 1º de janeiro de 1950.

     Em relação à inauguração da referida praça, o Comandante Cordeiro da Graça dá suas impressões com o artigo “Acreditando no Futuro do Brasil”, o qual consta no livro, “Confiança no Amapá: Impressões sobre o Território”, de Janary Gentil Nunes, que foi publicado em 2012 em sua 2ª edição. No referido artigo, ele relata sobre aquela bela praça de esportes: “Assisti ao ato inaugural da praça “Barão do Rio Branco”. É uma praça pública bonita, larga, onde a juventude tem todos os esportes. Não seria possível desejar coisa melhor nem mais eficiente”.

     Tais fatores foram preponderantes para o desenvolvimento da cultura, da arte, das artes cênicas e especificamente do teatro. Portanto, é em função dessas ações cronológicas e sequenciais do governo Janary Nunes, que se percebe, que por um lado, fez crescer demasiadamente a cultura no Amapá e por outro, fez criar nos jovens um sentimento muito estreito em relação à arte. E é em função desses fatores que, na década de 1950 a produção cultural em relação à montagem de peças teatrais começa a surgir timidamente no âmbito do Ex-Território.

     Nesses termos, Nunes Pereira quando se refere às ações do governo Janary Nunes, em seu artigo “Opinião de Estudiosos: Evolução de um Território”, também publicado na obra “Confiança no Amapá: Impressões sobre o Territótrio”, afirma que: No campo cultural, por exemplo, ele não só atrai artistas e homens de ciência para que influam diretamente na formação da mentalidade do povo, porém procura amparar as tradições, os costumes que são típicos daquele povo, que constituem o seu patrimônio folclórico.

     Foi com a inauguração de vários prédios, tendo sido o primeiro, o Cine Teatro Territorial (1944), seguido de: Novo Hotel (1945); Rádio Difusora de Macapá (1946); Escola Barão do Rio Branco (1946); Praça Barão do Rio Branco, (1950), que se consolidou um espaço urbano com vistas de progresso e futuro. A partir do ano de 1950, com a inauguração da Praça Barão do Rio Branco, aquele espaço passou a ter grande importância para a comunidade local, visto que ali se concentrava a cultura, representada pelo Cineteatro; a comunicação (Rádio Difusora); a educação (Escola Barão); e o lazer (Praça Barão). Foi este espaço urbano que se transformou no principal point da cidade de Macapá entre as décadas de 1940/1950.

 

 

 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

LITERATURA TEATRAL AMAPAENSE

 


 

     Pouco se conhece sobre o Teatro no Amapá; em se falando de dramaturgia as informações se tornam ainda muito mais escassas.  Se faz necessário saber, que a primeira obra que trata sobre o teatro no Amapá, é de minha autoria e foi publicada no ano de 2011 com o título “Artes Cênicas no Amapá – Teoria, Textos e Palcos”. Surgiu a partir de vários artigos que escrevi, principalmente no Jornal A Gazeta. Esta obra, enfoca os espaços teatrais; produtores teatrais; análise crítica de espetáculos apresentados no Estado; novela amapaense; arte circense e humor. Foi resultado de pesquisa do Grupo de Pesquisa em Artes Cênicas e do Núcleo Amazônico de Estudos das Artes Cênicas da Universidade Federal do Amapá - UNIFAP.

     Prosseguindo com pesquisas voltadas para o teatro no Amapá, foi publicado em 2013 a obra “Teatro no Amapá: Artistas e Seu Tempo”, também de minha autoria, que foi resultado de realização de entrevistas com artistas de teatro que haviam montado espetáculos nas décadas de 60, 70 e 80, e que na atualidade não havia nenhum registro sobre seus trabalhos voltados para o teatro no Amapá. Outra obra publicada também em 2013, foi Curso de Teatro no Amapá: Concepções e Proposições para o Ensino Superior; e ainda, Arque Com Arte: Cultura, Arte e Educação no Amapá.

     Do que se tem notícia, a primeira obra sobre dramaturgia amapaense foi publicada em 2012, intitulada “Cênico em Contextos: peças teatrais” do ator e diretor de teatro Daniel de Rocha, na intenção de socializar seus textos e consequentemente sua dramaturgia. Na ocasião, ele publicou sete textos de sua autoria. A segunda obra que também trata do referido tema, intitula-se “Dramaturgia Amapaense”, de minha autoria (publicada em 2015) também resultado de pesquisa realizada pelo Grupo de Pesquisa em Artes Cênicas, da UNIFAP.

     Para contribuir com esse vazio documental, tanto em relação à história do teatro no Amapá, em 2021, foi a vez da obra, “História do Teatro do Amapá – do século XVIII à década de 1940. Por outro lado, à medida que se vai pesquisando, vai-se revelando o vigor de um teatro que necessita urgentemente ser registrado e se tornar patente em nossas bibliotecas. Aliás, a realidade de nossas bibliotecas públicas e particulares carecem de material que informe à comunidade em geral; ao pesquisador e às pessoas de teatro sobre tema tão específico.

     O que se apresenta aqui são dados esparsos que fui localizando e analisando ao longo dos anos. Na atualidade, o que se encontra em nível bibliográfico são abordagens isoladas. No entanto, há evidências de ter havido desde o século XVIII, grande número de atividades teatrais, que não se restringiu apenas à capital, Macapá, mas principalmente em função da representação da luta dos “Mouros e Cristãos” na Vila de Mazagão Velho, cujas primeiras apresentações aconteceram no ano de 1777. A previsão para este ano, será o lançamento da obra: História do Teatro do Amapá – de 1950 aos dias atuais.

 

 

domingo, 23 de agosto de 2026

ANTES DOS GREGOS

 

 

     Certamente, mesmo antes da Grécia, manifestações cênicas voltadas para culto a vários deuses já existiam em várias latitudes, principalmente no Egito e Antigo Oriente como comprova estudos históricos e arqueológicos. Nas cercanias do mar vermelho o rei deus do Egito era o único legislador e a mais alta autoridade aqui na terra, a ele realizava-se muitas homenagens que eram apresentadas com utilização da música, dança e diálogo dramático. Nesse período, a realeza era o único princípio ordenador das coisas. O Antigo Testamento enfoca essa época de sabedoria e vida luxuosa do Egito.

     Nabucodonosor promovia um festival do Ano Novo, cuja manifestação pouco se sabe. Na Mesopotâmia havia a manifestação do “casamento sagrado” que era um ritual mítico. Detectou-se na dança egípcia de Hator, momentos da utilização de pequenos diálogos. Ainda no Egito estudiosos encontraram em Abidos, vestígios do “Drama, Morte e Paixão de Osíris”. A cidade de Abidos era a Meca dos egípcios.

     Em várias manifestações aos deuses antigos, detectou-se indícios da presença de mimo, farsas, anões e atores mascarados que divertiam as cortes da época como se fossem verdadeiros bobos da corte no Oriente antigo. Além de Osíris e Isis, também eram cultuados vários outros deuses como Marduk e Mitra.

     Se por um lado, existia o culto aos deuses, por outro, também havia o culto aos mortos, e nessas manifestações funestas, era constante a presença de música e dança, banquetes procissões e oferendas, de acordo com achados arqueológicos em catacumbas e tumbas egípcias. Imagens pintadas e esculpidas revelam manifestações aos deuses: Rá, o deus do paraíso e a Osíris, o senhor dos mortos. Osíris era o deus que estava mais próximo do ser humano.

     Em 1882 o egiptólogo Gaston Maspero, em seus estudos, revelou o caráter dramático dos textos das pirâmides. De certa forma, havia nessas manifestações apresentação em primeira pessoa que sugeriam enganosamente um suposto diálogo que ainda não ainda não tinham sidos endossados por pesquisas recentes. Outra questão fundamental, era a presença de um público, situação que só vem a acontecer na democracia grega.

     Uma das questões do novo passo que deu o teatro na Grécia Antiga é o fato de que em Atenas já reinava um processo democrático, o que faltava no povo egípcio que não conhecia o conflito entre a vontade dos homens e a necessidade dos deuses. Quando Théspis fala – eu sou Dionísio – ele foi totalmente revolucionário, o que nunca iria acontecer na cultura egípcia porque seria total desavença em relação ao poder autocrático do Faraó. E por essas e outras questões, pode-se dizer que o teatro que conhecemos hoje, teve início na Grécia Clássica.

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

ÉPICO, LÍRICO E DRAMÁTICO

 

                               

 

 

     Trago aqui este esclarecimento em relação a essas estéticas para um melhor entendimento do aspecto das artes cênicas. Entre as formas poéticas temos a poesia épica; a poesia lírica e a poesia dramática. O poeta épico expressa a realidade ao contar como ocorreu tal ou qualquer batalha. Deve descrever a luta com o máximo possível de detalhes objetivos, sem se preocupar com a sua própria maneira particular de sentir esses fatos. No caso, um cavalo deve ser descrito como um cavalo e não como outra coisa, como também não deve usar imagens subjetivas. Aqui, a objetividade está em primeiro lugar.

     Já a poesia lírica, ao expressar sentimentos busca exatamente o contrário, o oposto da poesia épica, visto que expressa o mundo subjetivo, ou seja, os sentimentos, as contemplações e emoções. Em vez de recordar o desenvolvimento de uma ação, sua finalidade consiste em expressar o lado interior do ser humano.

    A poesia dramática, por sua vez, combina o princípio da objetividade (épica) com o princípio da subjetividade (lírica): o caráter objetivo da ação que é apresentado diante de nossos olhos e o caráter subjetivo dos motivos interiores que movem os personagens e seu destino.

   Enquanto que na poesia épica a ação e os personagens vivem um tempo distinto dos espectadores, na poesia dramática os espectadores são transportados à época e ao lugar onde ocorre a ação, e ambos estão no mesmo tempo e lugar. Por isso, a empatia, a relação emocional presente é possível apenas na poesia dramática e não na poesia épica.

     Para Hegel, a poesia épica é aquela que apresenta o mundo moral sob a forma de realidade exterior. Para ele tudo o que acontece é determinado por poderes morais, sejam divinos ou humanos.

     Brecht usa a expressão ‘teatro épico’ principalmente em contraposição à definição de ‘poesia épica’ que nos indica Hegel. Portanto, toda a poética de Brecht é basicamente, em resposta e uma contraproposta à poética idealista Hegeliana.

       Se por um lado a poesia épica mostra as ações determinadas pelo espírito, por outro, a poesia lírica nos revela os próprios movimentos desse espírito. Já a poesia dramática, por sua vez, nos mostra diante de nossos olhos, o espírito e as suas ações no mundo exterior.

     Se para Hegel, o espírito cria a ação dramática, Para Brecht a relação social do personagem é quem cria a ação dramática. Na poética Idealista o pensamento condiciona o ser social, e na poética marxista o ser social condiciona o pensamento.

 

 

 

domingo, 26 de julho de 2026

ETIMOLOGIA E TEATRO

 

 

     O teatro surgiu na Grécia antiga há quase três mil anos. Durante toda a história do homem há uma relação intrínseca entre a vida e a arte. Relacionaremos em seguida algumas palavras ligadas ao teatro e suas principais origens:

     A palavra TEATRO vem do Latim theatrum, do Grego theatron, que significava literalmente “lugar para olhar”, de theasthai, “olhar”, mais tron, sufixo que denota “lugar”. O sentido de “lugar onde transcorre a ação” se aplicou também aos feitos militares, daí o nome “teatro de operações” para uma área onde há luta armada.

     ANFITEATRO também vem do Latim amphiteatrum, do Grego amphiteatron, que significa “local de espetáculos duplo, com espectadores dispostos de ambos os lados do palco”, de amphí-, “dos dois lados”, mais theatron, local de onde se vê. Inicialmente os teatros possuíam assentos apenas no lado voltado para o palco, seguindo a arquitetura do teatro grego. É ainda o caso da maioria ou todos os nossos teatros atuais. Os atuais estádios de futebol são hoje os nossos verdadeiros anfiteatros.

     O termo COMÉDIA vem do Grego komoidia, “espetáculo divertido, comédia”, de komodios, “cantor em festas”, de komos, “festa, farra”, mais oidos, “poeta, cantor”.  Este termo passou por uma fase em que era usado para designar “poema narrativo”, o que é a razão de o livro “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, ter esse nome. 

     TRAGÉDIA deriva do Grego tragoidia, que significa “peça ou poema com final infeliz”. Aparentemente deriva de tragos, “bode”, mais oidea, “canção”. Ao pé da letra poderíamos dizer “a canção dos bodes”, e isso viria do drama satírico, onde os atores se vestiam de sátiros, com suas pernas cabeludas e chifres de bode. 

     Da mesma forma, DRAMA também deriva do Grego drama, “peça, ação, feito” (especialmente relativo a algum grande feito, fosse positivo ou negativo), vem de drao, “fazer, realizar, representar, lutar”.

     PLATEIA – ao que tudo indica, deriva do Grego platea, que significa “largo e plano”. Inicialmente designava o lugar onde ficavam os músicos e se estendeu depois, em prédios diferentes dos teatros gregos, à parte onde tomam assento os espectadores.

    PALCO – do Italiano palco, “estrado, tablado”, do Lombardo palko, “trave, viga”. Seu sentido se estendeu depois ao de “tablado sustentado por vigas” e mais tarde a “estrado ou palco designado para apresentações artísticas”.

     CENA – do Latim scaena, “palco, cena”, do Grego skena, de mesmo significado, originalmente “tenda, cabana”, relacionado a skia, “sombra”, pela noção de “algo que protege contra o sol”.

     Para quem trabalha na área do teatro conhece bem os termos acima, interessante é entender a origem dessas palavras, a partir daí passa-se a entender o porquê do uso corrente e atual das mesmas.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

EDIFÍCIOS TEATRAIS

 

                                              

 

     Atualmente poderíamos dizer que a cidade das bacabas conta com cinco teatros nos moldes do teatro italiano, sendo eles: Teatro das Bacabeiras, aliás, denominação muita bem escolhida, à qual rende homenagem a uma fruta de nossa região. Com 700 lugares o Teatro das Bacabeiras, é uma casa de espetáculos que veio preencher apenas uma lacuna como edifício teatral na cidade, visto que é um prédio voltado para um trabalho mais especificamente profissional, porque o seu próprio espaço físico dentro de suas dimensões (de médio porte) assim o determina.

     Portanto, atende a espetáculos ou shows no mais das vezes vindo de outras localidades, e, uma vez ou outra servindo de palco para alguns grupos, que por seu árduo trabalho de vários anos, conquistaram um certo público, como é o caso do Grupo Teatral Língua de Trapo, onde várias vezes apresentou seu trabalho naquela casa. É interessante revelar que um dos pecados cometidos na definição de seu espaço físico foi o fato de não constar nenhuma outra sala pequena para espetáculo, além do grande salão nobre. É de praxe na maioria dos teatros modernos, a inclusão de uma sala menor, pelo menos com 120 lugares, que se destina a espetáculos de pequeno porte. Além do Teatro das Bacabeiras, temos ainda, o Teatro do SESI; Teatro Municipal Fernando Canto, Teatro Marco Zero, no bairro do Perpétuo Socorro e ainda, o Cineteatro Sílvio Romero, em Santana.

     De todos, o que abre mais acesso aos grupos locais é na verdade, o menor de todos, que é o Teatro Marco Zero. O restante são edifícios que por sua volumetria, exigem que a pauta seja bastante elevada, de no mínino, 2 mil reais para grupos locais, o que torna de certa forma, inviável para artistas do lugar.  É notório que, pelo tamanho prejudicam consideravelmente o desenvolvimento das artes cênicas no Estado. Nessas condições se torna difícil para qualquer grupo amador, produzir seu espetáculo com recursos próprios, além de ter que arcar com despesas de pauta, quando a mesma não está dentro de sua realidade orçamentária. Sabe-se que, quem faz cultura nesse país, a produz com muito esforço, trabalho, dedicação e desejo pessoal. Algumas autoridades culturais ainda não estão informadas de que (80%) oitenta por cento do teatro nacional é resultado de um árduo trabalho, exclusivamente de grupos amadores.

     Dentro dessas condições, entre outras, apesar de ser um símbolo do povo amapaense, o Teatro das Bacabeiras, enquanto não possuir uma sala anexa, destinada para espetáculos de pequeno porte, pelo menos de 120 lugares, se distancia consideravelmente da realidade dos que produzem teatro em nosso Estado. Todos sabem que vez por outra se transforma em local de diversos eventos, como encontros (nacionais e internacionais), colação de grau, tríduos jurídicos, entre outros eventos.

    

 

 

domingo, 12 de julho de 2026

ENTRE MOUROS E CRISTÃOS

 

      Em função da morte de Dom José I, e com vistas à aclamação da Rainha D, Maria I, Lisboa dá ordens para que cada região do Império se dedique a organizar uma grande festa em homenagem à nova administradora do Império português. Para isso, a ordem foi a de que todas as colônias deveriam organizar oito dias de festas, que compreendesse o período entre 16 de novembro a 1º de dezembro do ano de 1777, para saudar a Rainha D. Maria I. Esta é a origem da primeira apresentação do drama entre Mouros e Cristãos em Mazagão Velho. Nessas festividades houve apresentação em carros alegóricos; batalhas entre naus; apresentação de óperas, e inclusive, a primeira apresentação da batalha entre mouros e cristãos na nova Mazagão.

     Até metade do século XVIII, pode-se afirmar que no Brasil, as atividades teatrais então existentes eram exclusivamente de cunho religioso e ocorria tanto nos conventos e educandários da ordem jesuíta, como nos adros das igrejas nos dias de festa. Certamente, foi a partir da segunda metade do século XVIII que as peças teatrais populares se tornaram mais presentes, sendo representadas com certa frequência em tablados montados nas ruas, em praças públicas e nos adros das igrejas.

     Desta forma, além de se construir alguns cenários efêmeros e carros alegóricos para abrilhantar as referidas festas religiosas, como praças e currais para corridas de touros e cavalhadas, também se armavam tablados nos adros das igrejas para encenação de autos, tragédias e comédias. Uma dessas festividades foi o Triunfo Eucarístico, encenado em Vila Rica – Minas Gerais, no ano de 1773, na inauguração da matriz de Nossa Senhora do Pilar, segundo a obra: O Cenário da Vida Urbana, de Maria Berthilde Moura Filha.

     Nos referidos casos, a representação teatral completava um programa que envolvia toda cidade. Décio de Almeida Prado enfoca em seu livro “História Concisa do Teatro Brasileiro”, que além das encenações havia cavalhadas, touradas, números musicais, fogos de artifício e carros alegóricos. Portanto, acredita-se na probabilidade de que fatos semelhantes tenham ocorrido no Amapá do século XVIII.

     Portanto, nos vem uma questão, como aconteceram as festividades em Mazagão Velho, em homenagem à aclamação da Rainha de Portugal? De acordo com documentos de época, percebe-se que as cerimônias iniciaram no dia 16 de novembro com uma missa solene e nesse mesmo dia à noite foi cantado o Tedeum, que são as palavras iniciais do hino de ação de graças. No sábado dia 22, após a celebração de uma missa, saiu pelas ruas da Vila de Mazagão um cortejo com carro alegórico com vinte figuras de meninas que cantavam acompanhadas por três rebecas e três violas. Neste carro alegórico também havia dez dançarinos mascarados, sendo que um deles recitava vários epílogos e obras poéticas. Depois do desfile desse carro alegórico pelas ruas da vila, a festa continuou com a representação de uma batalha naval entre duas naus; notadamente entre cristãos e mouros, sendo que no final os cristãos vencem a batalha. Percebe-se que nesse evento, houveram duas apresentações da batalha entre mouros e cristãos, a primeira em terra, e a segunda uma batalha naval entre duas naus, no rio Mazagão, no século XVIII.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

MURTA E DEVOÇÃO

 


     Falando-se de marabaixo, todo amapaense sabe do que se trata, ou já ouviu falar sobre essa dança que é muito significativa para a cultura do lugar. Sua dimensão ultrapassa questões: antropológicas, sociológicas, étnicas e culturais. Tornou-se a mais autêntica manifestação cultural do Amapá. Observando que em novembro de 2018, recebeu o título de patrimônio imaterial do Brasil, pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional - IPHAN. De outra parte, há uma questão de tamanha importância, que se trata da murta, a planta sagrada do marabaixo, que entre outras coisas, serve para envolver os mastros das bandeiras em devoção ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade.

     Na mitologia grega, a murta era consagrada a Afrodite, já em Roma, era Vênus quem recebia o título de Múrcia, denominação que a relacionava com a referida planta. Os gregos adornavam as noivas com grinaldas confeccionadas com murta. A madeira da murta, a mirra, era usada para incensar cerimônias religiosas tanto na época de Cristo, como também na Grécia antiga. Portanto, A murta tem seus vestígios em vários rituais da antiguidade, por exemplo, o culto às Deusas Deméter e Perséfone, na antiga Grécia, iniciava com uma procissão que partia de Atenas para Elêusis, na qual, os mystai, que eram os iniciados, caminhavam com um buquê de murta nas mãos, como se seguissem os passos das Deusas. A murta também era símbolo fundamental em várias cerimônias à Dioniso, Deus da uva, do vinho, da fertilidade e das festividades.

     A Murta simboliza o amor, pureza, proteção, renovação, paz, juventude e beleza. Deriva do hebraico Hadassad, chegando à versão portuguesa, Hadassa, e significa mirto ou murta na nossa língua mater. No antigo testamento na Bíblia, Hadassa, que era judia, mudou seu nome para Ester, para esconder sua identidade e casar com o Rei persa Assuero/Xerxes. Hadassa também está relacionada com estrela, em função da forma da flor. Com o nome científico de Myrtus communis, pertence a um gênero botânico com mais de uma espécie de plantas com flores, que fazem da família das myrtaceae, sendo nativas do sudoeste da Europa e do Norte da África.

      Também é conhecida em várias outras denominações como: hadassad, murta, mirta, marta, múrcia e mirto, sendo esta última relacionada à Vênus e ao matrimônio. Com várias propriedades, suas folhas possuem ação expectorante, antisséptica, sendo usadas para o tratamento da sinusite, tosse e bronquite entre outras enfermidades. Suas folhas também possuem compostos ativos, os quais, possuem propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianas, dermatológicos e até mesmo como auxiliar no combate ao envelhecimento. A planta em si, pode ultrapassar os 100 anos de idade. Além do Livro de Ester, na Bíblia, a murta é citada em várias passagens, como no livro de Zacarias, onde simboliza a restauração e a bênção divina, e ainda, no Livro de Neemias, relacionada à celebração da Festa dos Tabernáculos. Esses fatores, reforçam uma visão de renovação espiritual e proteção divina, sentimentos que também se refletem enraizados na devoção ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade, na atual dança do Marabaixo no Amapá. 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

SÃO PEDRO E SANTA ANA

 

 

     Embora as festas em homenagem aos Santos, Antônio João e Pedro, se concentrem no mês de junho, entendo que o prenúncio das festas juninas tem início no dia de São José, 19 de março, visto que, esse é o principal dia para a plantação do milho, com vistas à colheita após três meses, já nas proximidades do São João. Aliás, nas culturas remotas, o domínio de se conhecer a relação entre o tempo, a plantação e a colheita, significava alta tecnologia. Essa consciência gerava poder e know-how, entre tribos que ainda não dominavam esse conhecimento. Muitas festas que se conhece em cada cultura, geralmente tem a ver com a produção, colheita, e fartura de uma determinada região, por exemplo, no Nordeste, a produção do milho em junho, como também a colheita da cevada e divulgação da cerveja, na Oktorberfest, em Santa Catarina, entre outras.

     Sendo assim, o dia 13 de junho é dedicado à Santo Antônio, que é conhecido como Santo Casamenteiro. Vale lembrar que, para todos esses Santos, o costume do povo é fazer simpatias para alcançar seus desejos e pedidos. Mas, o momento áureo das festas juninas, acontece efetivamente no dia 24 de junho, dia de São João, que, entre os demais, é o santo mais comemorado. Há quem diga que a festa do ano mais esperada pelo nordestino, é o São João. E ainda temos o dia 29 de junho, quando se comemora o dia de São Pedro. Pedro que era Simão e que Cristo mudou seu nome para Pedro, que deriva de pedra, e Pedro seria a primeira pedra da Igreja de Cristo. Praticamente 30 dias depois da festa de São Pedro, exatamente no dia 26 de julho, comemora-se o dia de Santa Ana, é um dia que também se acende fogueiras, solta-se fogos de artifícios em comemoração à Santa. Aqui fecha-se o ciclo das festas juninas.

     Independentemente de qualquer coisa, é interessante saber que muitas dessas festividades iniciam, por um lado, pelo cristianismo, e por outro, pelo comércio. Portanto, essas datas sempre foram comemoradas por remotas civilizações pagãs, principalmente em função do domínio da cultura de cereais, que era fundamental para que o homem pudesse se fixar em algum lugar e deixar a vida nômade. Cereal, que deriva da Deusa romana Ceres, e que na Grécia era conhecida por Deméter, que era a divindade da agricultura e da fecundidade da terra. O dia de São José, 19, se aproxima do equinócio quando o Sol segue paralelo à linha do equador, e que ocorre entre os dias 20 e 23 de março, o dia de São João, 24, é o dia do solstício de verão para o hemisfério norte, e acontece entre os dias 20 e 24, as populações antigas já comemoravam o Sol Invictus, período de fim do inverno e início do verão.

     O dia de Santa Aurélia comemora-se no dia 25, próximo ao equinócio de setembro, e no solstício de inverno, é quando acontece a festa de Natal. São Cosme e São Damião são celebrados em 26 de setembro. Vale lembrar também, a comemoração do dia de Santa Ana, que acontece em 26 de julho, período que ainda há festividades relacionadas com os santos de junho, época em que há comemorações e queima de fogos. Santa Ana é a padroeira dos mineradores, e não é à toa que a antiga Vila de Madre de Deus, foi denominada pela ICOMI, como cidade de Santana. Já que a ICOMI trabalhava com a extração do manganês.

   

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

FELIZ SÃO JOÃO

 

 

     Estamos em pleno São João, festividade tradicional no Brasil e principalmente na região nordeste. Festas joaninas ou juninas? Joanina deriva de João e é em homenagem a ele que assim se fala: festas joaninas. Junina deriva do mês de junho, visto que acontece nesse período do ano. É a principal festividade do ano e a mais comemorada no nordeste brasileiro.

     Os pagãos comemoravam essa data em função do solstício de inverno, no hemisfério Sul e solstício de verão no hemisfério norte. Solstício que deriva do latim solstitium, que significa “Sol parado”, antes de inverter sua trajetória de volta ao hemisfério Sul. É bom lembrar que hoje, dia 21, é o dia do solstício, por consequência, o hemisfério Norte terá o dia mais longo, e o hemisfério Sul terá o dia mais longo do ano.  Como a Europa situa-se no hemisfério norte, e praticamente maior parte do ano perdura o frio, os pagãos comemoravam a chegada do “Deus Sol Invictus”, ou seja, o sol invencível que chegava abrindo o verão para abrilhantar e esquentar aquele espaço geográfico.

          O culto ao Sol invicto continuou a ser base do paganismo oficial até a adesão do império romano ao cristianismo. Antes da sua conversão, até o imperador Constantino I, tinha o Sol Invicto como a sua cunhagem oficial. Quando aconteceu a ascensão do cristianismo, ficou decidido que a referida data seria para comemorar o santo “São João”. Com isso, a cultura europeia e de suas colônias, foi se adaptando gradativamente, como é o caso no novo mundo e do nordeste do Brasil.

     Mesmo sendo na atualidade uma dança popular, é bom lembrar que a quadrilha que era muito difundida na França, foi inicialmente dançada na corte francesa. Em seguida, no campo entre os agricultores e seus familiares. Com a descoberta do novo mundo, os costumes e a cultura europeia vieram juntos. Foi assim que se consagrou as quadrilhas mais antigas que traziam muitas palavras francesas e que foram ao longo do tempo sendo aportuguesadas aqui no Brasil.

       Alavantú, vem do francês “en avant tous” (todos para a frente); changê de damas e changê de cavalheiros, vem do verbo “changer” que significa trocar, neste caso, trocar de damas e trocar de cavalheiros. Anarriê, também é do françês “en arrière” (todos para trás); Otrefuá, do francês “autre fois”, que significa outra vez.

     O que não havia na quadrilha francesa e que foi adaptado pelo povo brasileiro, foi a encenação do casamento matuto, neste caso a quadrilha gira em torno desse casamento matuto na roça em que o noivo é obrigado a casar pelo pai da noiva, que com uma espingarda apontada para ele, o obriga definitivamente a aceitar o casamento.

     As festas juninas são comemoradas no dia 13, em homenagem a Santo Antônio, quando na véspera se comemora o dia dos namorados; o dia de São João, 24, é o dia mais comemorado, há fogueiras, queima de fogos e impera a comida derivada do milho, inclusive porque é período de colheita. Dia 29 comemora-se o São Pedro que também é muito lembrado nas pequenas cidades do interior. Ótimo São João a todos.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

TEATRO E MARABAIXO

 


     O culto a Dioniso, deus da uva e do vinho, com seu canto ditirâmbico, remonta há mais de mil anos antes de cristo, nele, havia dança, música, pessoas gritando e cantando e ingeria-se muito vinho. Acontecia em homenagem às vindimas (período da colheita da uva).  Havia ainda o corifeu, que puxava um refrão, enquanto as pessoas respondiam.

     Apesar da distância cronológica, da tecnologia e do mundo contemporâneo, há muita semelhança entre o canto ditirâmbico e o marabaixo. Os praticantes do marabaixo dançam ao som de caixas confeccionadas de madeira; dançam em círculo em torno dos caixeiros, da mesma forma que as pessoas dançavam em círculo a partir de determina música no entorno do deus Dioniso; respondem em coro o “ladrão” tirado pelo cantador, praticamente representando o papel do corifeu (que fazia o mesmo) no antigo culto grego.

     Muitas vezes esses “ladrões” transformam-se em desafios improvisados, o que nos remete à Odisseia e propriamente ao cordel, como também aos desafios dos emboladores de coco. Em sua tese de doutorado, intitulada: “Marabaixo, ladrão, gengibirra e rádio – Traduções de linguagens de textos culturais”, defendida em 2012, na Pontíficia Universidade Católica de São Paulo, (da qual fui arguidor) o Prof. Dr. Rostan Martins afirma que: “Alguns versos de ladrão contam gozações, reprovações ou alguns lapsos cometidos por uma autoridade ou pessoa da comunidade, reproduzem cenas hilariantes do cotidiano”. Isso demonstra a versatilidade da dança do marabaixo.

     O improviso é constante no marabaixo, o que também era muito utilizado no canto ditirâmbico, e foi exatamente a partir do improviso de Théspis (considerado o primeiro ator ocidental), quando gritou: “eu sou Dioniso”, que aquele culto iniciou sua transformação cultural revelando numa outra forma de manifestação conhecida por teatro.

     Acredita-se que o círculo é uma das formas mais perfeitas, e independente de área geográfica ou relação temporal/cronológica, sempre aparece em várias latitudes do planeta e nas mais diversificadas comunidades ancestrais, modernas e contemporâneas. Na Grécia clássica, o canto ditirâmbico acontecia em círculo; a ciranda também é em círculo; o coco de roda, o próprio nome já nos sugere sua forma; a maioria dos passos da quadrilha junina é em círculo; evidentemente, que o marabaixo também não poderia ficar de fora dessa regra secular. 

     De uma forma ou de outra, percebe-se que fatores religiosos também se encontram inseridos nessas manifestações, em cada latitude como também em cada seu momento histórico, e que consequentemente, merecem o respeito dos estudiosos, dos catedráticos, do povo e principalmente da própria comunidade em que essas manifestações se revelam. O marabaixo representa o símbolo da cultura amapaense. E foi esta dança que Luiz Gonzaga dançou e gravou: “Eita, seu mano que bom, ai! Que bom de dançar! Eita seu mano que bom, ai, que bom é o Macapá”, referindo-se à dança do marabaixo.

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

TEATRO E SEMIÓTICA

 

   

     Além de objetos reais, no palco não se utilizam apenas acessórios e cenários, que são meramente signos, no entanto, o público não capta essas coisas reais como se fossem reais. Por exemplo, se um personagem representando um homem rico, usa um anel de brilhante, o público o considera como um signo de grande riqueza e não se preocupa se a pedra é verdadeira ou falsa. Da mesma forma que no palco, tanto um refresco quanto um suco autêntico podem representar um suco.

     No teatro Chinês, o cenário é complementado em sua elaboração com elementos específicos ao desempenho do intérprete. Nesse tipo de teatro os mais importantes signos são a mesa e a cadeira, quase nunca ausentes do palco chinês. Por exemplo, se a mesa e a cadeira estão dispostas da maneira usual, então o cenário é um interior. Contudo, uma cadeira que se apresenta com o lado sobre o chão, significa um aterro ou fortificação; virada, simboliza uma colina ou montanha; de pé sobre a mesa, uma torre de cidadela.

     Os japoneses são mestres nessa maneira de criar um cenário.  Para criar um rio, basta apresentar um cartaz trazido à cena com a palavra “rio” escrita para sugerir o ambiente da cena a ser representada. Para Sábato Magaldi, “no espetáculo, o cenário e a vestimenta situam o ator no espaço, e são essenciais à caracterização da personagem.”

     O drama religioso da Idade Média teve em seu início o interior da igreja como cenário. Passou a ser apresentado no pórtico dos templos. Em seguida, os mistérios e moralidades passam a ser representados nas praças; a partir dai, pela necessidade cria-se o cenário simultâneo, em que diversas indicações, muito sumárias, se justapunham ao longo de um estrado. Um simples portão sugeria uma cidade, uma pequena elevação simbolizava uma montanha e assim por diante. No canto esquerdo do estrado, uma enorme boca de dragão servia para a passagem dos demônios e a ida para o inferno dos pecadores irremissíveis. Na parte direita, acima do chão, situava-se o paraíso, lugar de felicidade eterna.

     No teatro medieval, em função do sistema de palcos móveis que era geralmente construído sobre carretas, os cenário passaram a ser elaborados de materiais perecíveis, tais como tecido ou madeira, atendendo de certa forma as especificidades requeridas pelas peças encenadas. No teatro Elisabetano, passou-se a ter novamente a ideia do palco como uma estrutura fixa. Uma construção de madeira que servia de fundo para os vários ambientes. É muito simples para o público captar de forma emotiva e psicológica as ideias e mensagens que há num espetáculo, mas por outro lado, quem é especialista no assunto sabe muito bem que teatro é pura semiótica. Num espetáculo só se coloca em cena objetos que tenham total relação com o desenrolar da peça, qualquer objeto que não tenha essa relação estreita com o desenrolar da peça, deverá ser retirado de cena, para não atrapalhar na ação dos atores, como também no enredo da peça. Um espetáculo teatral é um resumo de símbolos que facilitam a compreensão do público em relação a história que está sendo contada.

 

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

HEGEL E BRECHT

 

                                               

 

     A poética marxista de Bertolt Brecht não se contrapõe a uma ou outra questão formal, mas sim, à verdadeira essência da poética idealista hegeliana, ao afirmar que o personagem não é “sujeito absoluto” e sim “objeto” de forças sociais.

     A análise lógica da ação dramática resume-se sempre numa oração simples com sujeito, predicado verbal e objeto direto, vejam a frase que segue: “Trump invadiu o Irã”. Aqui, o sujeito hegeliano é Trump, cujos movimentos interiores de seu espírito se exteriorizam de forma a ordenar a invasão do Irã. “Invadiu” é o predicado verbal e “Irã” é objeto direto.

     Na análise lógica da ação dramática segundo a poética marxista e o teatro épico de Brecth, a referida frase deveria conter uma oração principal e uma oração subordinada e nesta, o personagem “Trump” continuaria sendo sujeito. Sendo que o sujeito da oração principal seria outro, por exemplo: “Forças econômicas determinaram que o presidente Trump invadisse o Irã”. Como vemos, na poética brecthiana, ao contrário do que parece verdadeiro, são as forças econômicas que aturam forçando com que Trump tomasse tal decisão.

     A oração principal nesta poética será sempre uma inter-relação de forças econômicas. No entanto, o personagem não é livre completamente, mas sim, objeto-sujeito. Como podemos observar, na poética idealista o pensamento condiciona o ser social e na poética marxista o ser social é quem condiciona o pensamento.

    Enquanto que para Hegel, o espírito cria a ação dramática, para Brecth, a relação social do personagem é quem cria a ação dramática. Se por um lado, Hegel propõe o personagem como “sujeito absoluto”, por outro Brecth o propõe como “objeto”, como porta voz de forças econômicas e sociais.

     Diferentemente da dramaturgia, o teatro é completamente ação que, para Hegel deve ser conduzida a um determinado ponto onde possa ser restaurado o equilíbrio. O sistema de força tese-antítese deve ser levado a uma síntese, que em teatro só pode ser feito de duas maneiras: morte de um dos personagens irreconciliáveis (tragédia), ou arrependimento (drama) romântico ou social, segundo o sistema hegeliano. Em Brecth são considerados outros fatores de extrema importância para o desenrolar da trajetória do personagem. Poderemos observar essa situação em algumas obras deste último autor como: Mãe Coragem ou Os Fuzis da Senhora Carrar. Nesses espetáculos os personagens principais vão criando consciência de sua situação política e social, até definir sua trajetória enquanto ser social para poder enfrentar o sistema social ao qual está submetido.

     Portanto, é de fundamental importância que artistas das artes cênicas conheçam e entendam essas duas faces da moeda: o teatro dramático e o teatro épico, para poderem realizar suas montagens a partir de fundamentos teóricos e filosóficos e práticos, em busca da melhoria de suas montagens cênicas.   

 

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

ATO DE ESCREVER

 

 

     Desde quando ingressei na universidade, no ano de 1980, com o objetivo de realizar o antigo curso de Educação Artística, comecei a me envolver com a produção cultural e especificamente ao teatro na capital da Paraíba. Isso aconteceu, em função dos espetáculos que eu já havia montado na cidade do interior. O movimento teatral era muito intenso na década de 1980, na capital da Paraíba. Foi nesse período que, sem nenhuma intenção, passei a escrever sobre os espetáculos que estavam em cartaz, nas três principais casas de espetáculos da cidade de João Pessoa. Num determinado, momento resolvi socializar meus escritos com os diretores desses espetáculos, passando o material escrito para que eles repassassem e pudessem discutir com os demais atores de cada grupo teatral. Época em que tudo era digitado em máquina de escrever.

     Essa corrente foi crescendo ao ponto em que vários diretores me convidavam para assistir aos seus espetáculos teatrais, na perspectiva de que eu escrevesse sobre cada montagem. E assim o fiz! Depois de certo tempo, em momentos esporádicos, eu já conseguia publicar alguns artigos meus, e isso aconteceu nos principais jornais diários da Paraíba, naquela década, como: Jornal O Norte, Jornal A União e Jornal o Correio da Paraíba. Isso foi formando um grupo de leitores e pessoas que apreciavam meus artigos. E foi assim, que certo dia, um desses diretores de teatro, que também era meu professor na universidade, me colocou uma proposta um tanto irrecusável. Ele estava devolvendo sua coluna semanal, e na ocasião me ofereceu para que eu pudesse mantê-la no semanário. E foi dessa forma, que iniciei a minha primeira coluna no Jornal O Combate, que era um hebdomadário.

     Passei alguns anos escrevendo e mantendo essa minha primeira coluna naquele jornal. Quando passei a residir em Macapá, inicialmente comecei a escrever para o Jornal do Dia, como também, Jornal Diário do Amapá, e ainda, Jornal O Liberal. Mas preferi ficar no Jornal A Gazeta, no qual, passei a escrever sequencialmente há 22 anos, ou seja, desde o ano de 2004. Gosto de escrever artigos dos mais variados temas, mas me detenho a escrever principalmente sobre a arte em geral e sobre o teatro em particular. Nesses últimos 22 anos esses artigos já me renderam dois livros: Artes Cênicas no Amapá – Teoria, Textos e Palcos; e Arque com Arte – Arque com Arte, Cultura, Arte e Educação no Amapá.

     Na sala de aula, busco incentivar meus alunos em relação à escrita. Mas, uma questão fundamental para quem deseja escrever, é a leitura constante e presistente.  A leitura é o principal pré-requisito para quem deseja escrever. Sendo que, essas duas atitudes estão intrinsecamente relacionadas. Comecei a escrever poesias aos 15 anos de idade. Li autores clássicos como: José de Alencar, Guimarães Rosa, Menotti del Picchia, Graça Aranha, Eça de Queiroz, José Lins do Rego, Aluísio Azevedo, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa, entre outros. Atenção: viver sem ler é perigoso, te obriga a crer no que te dizem. Segundo Einstein, tudo aquilo que o homem ignora, não existe para ele. Por isso, o universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber.