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segunda-feira, 28 de julho de 2025

GOTAS DE SABERES

 

 

          A primeira vez que visitei Daniel de Rocha e Tina Araújo, na sua residência no Bairro Perpétuo Socorro, percebi no quintal uma espécie de um estranho projeto de um imenso galpão. Nesta conversa de quase três décadas atrás, fui informado pelo jovem casal, de que ali estava a base fundamental de um futuro teatro, o que se tornaria no que conhecemos hoje como: Teatro Marco Zero. O que havia naquele pequeno terreno? A casa, uma grande estrutura de ferro, coberto de telhas, um piso revestido de cimento e, num dos cantos, encostada numa cerca de madeira, uma surrada e velha Kombi.

     E esse era o cenário inicial do sonho desses persistentes artistas..., construir um teatro no quintal de casa, sonho que realmente virou realidade...! Virou realidade com muita luta, perseverança, trabalho, dedicação, e muita paixão. E foi assim que surgiu o Teatro Marco Zero, o qual, já é bastante conhecido no Amapá. Aliás, hoje, único teatro que abre suas portas para os grupos locais, seja de música, de poesia, de dança, todos serão bem recebidos no teatro marco zero: os artistas, os grupos de teatro e o público em geral.

     Como o nosso anfitrião, Teatro das Bacabeiras, está, há bastante tempo hibernando, o único teatro que pode suprir esta necessidade é exatamente o Teatro Marco Zero, que no dia 15 de julho, recebeu a Companhia Arteatro de Roraima, que apresentou o espetáculo “Gotas de Saberes”, o qual, busca socializar para o público, aspectos da ancestralidade dos povos indígenas da etnia Macuxi. Para início de conversa, Gotas de Saberes é um espetáculo que não depende exclusivamente de palco italiano, e esta, é uma boa razão para quem pretende levar sua obra para os mais diversificados e imprevistos espaços cênicos, como também para um grande público.

      Diz-se de um espetáculo voltado para o público infanto-juvenil, é o que está escrito no programa do mesmo, concordo com tal definição, mas, por outro lado, percebo que o referido espetáculo, alcança grande amplitude em termos de que a mensagem que se deseja revelar e enviar ao público, adapta-se para qualquer faixa etária, principalmente para aqueles que necessitam entender e respeitar os povos da floresta. Ao narrar a história do povo originário da etnia Macuxi, o dramaturgo utiliza-se de versos com métricas e rimas, o que dar maior sensação de beleza à peça.

     A aglutinação do texto poético e da encenação em si, somando-se a tudo isso, a desenvoltura das atrizes em cena (Aravis e Silmara Costa), com a incumbência de representar sucessivamente vários personagens; a mise en scène nos lembra o teatro didático de Brecht. Por outro lado, com cenário elucidativo, concentrando a cenografia em dezenas de objetos de cena, além de instrumentos de percussão, dispostos à vista do público, o que de mais relevante e expressivo nos parece, no referido espetáculo, é a sonoplastia ao vivo, e a consequente relação harmônica musical entre os sons dos instrumentos, as vozes e onomatopeias sussurradas pelas atrizes, com o determinado acompanhamento do sonoplasta/ator (Márcio Sergino), que também é parte intrínseca da cena. A peça gira em torno dos quarenta minutos, e isso, gera certa surpresa no público, visto que, imbuído na contemplação dos sons da floresta, quando menos se espera o mesmo finaliza, deixando um gosto de quero mais na plateia. Este espetáculo foi selecionado pela Lei Rouanet Norte de incentivo à cultura.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

SACERDOTISA DA PESQUISA

 

   

    Na minha tenra juventude, eu fazia parte do grupo de jovens da igreja católica, aliás, vivência que me trouxe muito conhecimento teológico como também, minha relação como o divino, além de sinceras e grandes amizades. Cada paróquia tem seu padre ou sacerdote. Naquele período, o padre responsável pela paróquia do lugar chamava-se Padre Antônio Kemps, originário da Europa. Ele veio da Bélgica para uma pequena cidade do interior da Paraíba, com uma grande missão: coordenar a paroquia da cidade. Como um verdadeiro sacerdote, viveu o restante da sua vida naquela pequena cidade, cumprindo o seu dever como religioso e desempenhando suas funções religiosas e rituais sagrados em prol daquela comunidade.

     A palavra sacerdote deriva do latim “sacerdos, dotis”, sendo uma combinação de sacer – de sagrado, e dotis – dote, dom. Significa, aquele que oferece coisas sagradas, como também, está relacionado à função de realizar rituais e oferendas sagradas. Simplificando: são aquelas pessoas que em toda sua vida, se dedicam a um objetivo comum, uma missão, ou algo desse gênero. Com certeza, ao longo do tempo esse termo evoluiu designando várias situações, sendo usado na atualidade sobre quaisquer circunstâncias. Se alguém se dedica diuturnamente em determinada atividade, pode-se dizer, ele é um verdadeiro sacerdote. Isto significa dizer que, dependendo da sua dedicação e empenho em relação ao que você realiza durante sua vida, este fazer também pode ser reconhecido como um sacerdócio.

     E é em função de dedicações como as citadas acima, que venho aqui fazer minha homenagem à arqueóloga e pesquisadora Niède Guidon, a quem defino como sacerdotisa da pesquisa. Ela era professora da Universidade de São Paulo, e em 1963 soube da primeira notícia das pinturas que existiam no sul do Piauí, quando gerenciava uma exposição no Museu Paulista da USP, no qual, ela trabalhava naquele momento. Infelizmente ela não teve a oportunidade de conhecer a região piauiense, tendo em vista que, em função do golpe militar, teve que se exilar na França. Depois de passar vários anos fora do Brasil, somente em 1973, que ela, de férias, conseguiu fazer sua primeira visita a São Raimundo Nonato. Porém, ela criou a Missão Arqueológica Franco-Brasileira, e com apoio do governo francês, em 1978, começou suas primeiras escavações.

     Já em 1979, conseguiu criar o Parque Nacional da Serra da Capivara, abrangendo uma área protegida pela UNESCO. Foi diretora-presidente da Fundação Museu do Homem Americano, também sediado em São Raimundo Nonato. Tornou-se famosa no mundo, com sua tese científica de que o homem se instalou na América do Sul, vindo provavelmente de barco, da África, há mais de trinta e dois mil anos. Como se pode observar, em função de uma vida dedicada às suas pesquisas arqueológicas naquela região, a sacerdotisa Niède Guidon foi a principal responsável pela preservação, desenvolvimento e progresso de São Raimundo Nonato, no Piauí. Deixando esse grande legado, e esse exemplo de sacerdotisa da arqueologia, faleceu em 4 de junho de 2025.  

segunda-feira, 14 de julho de 2025

CAVALO E CAVALEIRA

 


     A música Crina Negra apresenta uma poesia muito sugestiva, a mesma, foi composta por Robertinho do Recife, em homenagem e dedicada à cantora Amelinha, que entre as décadas de 1970 e 1980, era muito famosa e flertada pelos que a rodeavam. Infelizmente, por algum motivo, Amelinha não conseguiu gravar a referida canção. A composição ficou por mais de uma década em banho-maria, quando em 1992, foi gravada pela Banda Patrulha, nas vozes dos intérpretes e vocalistas Leco Maia e Cátia Guima. A referida música já está com 33 anos, mas sempre é sucesso absoluto no período junino.

     Embora, perante os olhos do observador, a arte pareça algo simples e fácil de realizar, aos olhos do artista não é tão corriqueiro assim. Essa questão é fato, principalmente em função da compreensão do leigo sobre a produção artística. Quem assiste a um espetáculo de dança, que apresenta bastante leveza na coreografia dos dançarinos, não imagina, o trabalho, a persistência, o esforço e a dedicação desses artistas que estão entre a arte e o desporto. Da mesma forma, num espetáculo teatral, numa apresentação musical, num vernissage, ou seja, em qualquer área da arte.

     A questão é que, em qualquer área da arte, todo artista realiza um esforço fenomenal, para que sua obra pareça ser natural aos olhos do público, mas, não é bem assim...! Na verdade, são dias e meses de preparação para que o trabalho esteja totalmente pronto para o dia da estreia. Além disso, a arte apresenta um leque amplo de juízo de valor, onde qualquer um terá sua opinião própria perante os valores estéticos que presencia, levando-se em consideração de que o leigo, na maioria dos casos, vai em busca de diversão e entretenimento.

     Outra questão é que, cada obra de arte apresenta sua peculiaridade, sendo que, muitas vezes, o público em geral não consegue discernir o que está implícito na mesma. Portanto, como exemplo, faremos uma rápida análise da letra da música Crina Negra. Iniciaremos pela primeira estrofe, que diz: Meu cavalo é forte, faz mil léguas sem cansar/Na batida dum chicote/No galope a beira-mar/Meu cavalo alazão saiu no clarão da lua/Meu famoso garanhão, cavalgando toda nua. Como se percebe, a letra começa a relatar um sugestivo passeio de uma cavaleira nua, montada no seu alazão. Em seguida, a próxima estrofe descreve o seguinte: Eu sou cavaleira, sou mulher guerreira/Em cima do crina negra, me dá uma tremedeira/Uma suadeira que me faz arrepiar/Uma louca gemedeira, ui-ui-ui ai-ai-ai-ai. Esta estrofe, complementa a primeira, no sentido de propor uma ambiguidade conotativa na relação íntima da cavaleira com o seu cavalo, principalmente com a sensação de suadeira e tremedeira, juntamente com as onomatopeias, ui-ui-ui, ai-ai-ai-ai, alucinadamente ecoadas pela cavaleira.

     Em suma, é uma letra que, metaforicamente, além de assinalar uma possível relação amorosa, ou mesmo uma vivência de prazer e êxtase entre cavaleira e seu cavalo, por outro lado, também reconhece e caracteriza certas habilidades e conquistas por parte do gênero feminino ao longo da história social, como: força e liberdade, conquista do voto, emprego, espaço na política, empoderamento e sensualidade de uma mulher guerreira. É uma música que apresenta uma fusão entre o espírito selvagem da relação da mulher com a natureza, como tanto pregava Dioniso, o deus grego da arte e da liberdade.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

CORPO DE CRISTO

 


     Salve a Companhia Teatro de Arena do Amapá, que no dia 19 de junho, apresentou pela primeira vez, seu novo espetáculo, intitulado Corpo de Cristo. Diferentemente do tradicional, “Uma Cruz Para Jesus”, desta vez, o espetáculo aconteceu no espaço interno da Fortaleza de São José de Macapá. A Companhia Teatro de Arena, como todos sabem, tem uma tradição de montar espetáculos com temas religiosos. Para os que acompanham sua trajetória, basta afirmar que são 46 anos de resistência em relação ao fazer teatral nas terras tucujus. Próximo a completar cinco décadas à frente de sua Companhia Teatral, Amadeu Lobato segue firme como diretor. Não obstante, acredito que já está na hora de se preparar um sucessor para que no futuro seja dado prosseguimento a esse grande e sublime desafio.

     Uma questão sui generis é que Amadeu Lobato transformou seu trabalho num espetáculo ontológico e clássico do Amapá. Agora, uma segunda peça em que não se paga ingresso, onde o acesso é livre para o público em geral, sem discriminação de cor, etnia, religião e classe social. Todos podem assistir ao referido espetáculo. Por outro lado, ele (Amadeu), transformou seu espetáculo numa considerável escola de teatro ao ar livre, visto que significativa parte dos artistas do Amapá se iniciaram nesta escola. Além disso, é um trabalho totalmente inclusivo, gerando integração absoluta de pessoas que possuem necessidades especiais, e que em relação a esse tema, não há qualquer barreira para quem deseja participar dos espetáculos da Cia de Arena.

     No caso, da produção cênica, “Corpo de Cristo”, há professores e alunos do curso de teatro da UNIFAP, que fazem parte do elenco como: Marina Brito, Carla Thaís, Heiron Mascarenhas, Brenda Lobato, Renan Cunha, Giulia Dominike, Laurene Morais, Eliete Galvão, entre outros. Situação que gera substanciais trocas de conhecimento entre os acadêmicos e os demais artistas do elenco. Levando-se em consideração que havia diversos artistas iniciantes em cena, centrarei minhas observações em relação ao próprio tema da peça. Tendo como ponto de partida o título da obra: “O Corpo de Cristo – Ele ressuscitou”, há de se esperar que o enredo dramatúrgico esteja direcionado e evidencie o sofrimento, o martírio, as angústias e os dissabores, pelos quais padecem o próprio corpo de Cristo.

     A cena que mais sensibiliza o público se dá quando Cristo está caído, com o corpo abatido, sem forças de carregar sua cruz, mas está envolto com o total apoio de sua mãe que o consola, sob a tênue leveza da música interpretada por Nathanhe Rogelle. Esta cena específica gerou um silêncio no público presente, e quando os espectadores silenciam completamente, é sinal de que a cena está cumprindo seu objetivo. E essa calma total, ao ver a cena, gera na plateia, respeito, comoção, tristeza, compaixão e terror e, em consequência, a catarse. Portanto, para que esta montagem busque novos indícios de melhoras na mise en scène, com foco dramático no corpo de Cristo, sugiro que a cena da remoção de Cristo da Cruz, seja delicada, com mais sutileza e elegância, e com a presença daqueles que vivenciaram tal fato, como os discípulos José de Arimatéia e Nicodemos, como também, Maria mãe de Jesus, Maria Madalena e Salomé.

     Observo a necessidade de mais duas cenas que poderiam ser introduzidas na referida montagem: primeiro, a cena em que Cristo ressuscitado aparece à Maria Madalena, ela que foi a primeira pessoa que testemunhou a ressureição; primeira pessoa a ver Cristo ressuscitado. A segunda cena, seria sobre São Tomé, o apóstolo incrédulo, que precisava ver para crer, o apóstolo só acreditou da ressurreição do Senhor, depois de tocar a chagas de Cristo. No entanto, ele arrependeu-se amargamente e chorou, ao conferir com seus próprios olhos, as chagas abertas de Cristo. Já a última cena, a ascensão de Cristo aos céus, poderia ser abrilhantada com gelo seco, iluminação mais intensa, fogos de artifício e, se possível, um drone com um foco de luz em elevação incessante.