A primeira vez que visitei Daniel de
Rocha e Tina Araújo, na sua residência no Bairro Perpétuo Socorro, percebi no quintal
uma espécie de um estranho projeto de um imenso galpão. Nesta conversa de quase
três décadas atrás, fui informado pelo jovem casal, de que ali estava a base
fundamental de um futuro teatro, o que se tornaria no que conhecemos hoje como:
Teatro Marco Zero. O que havia naquele pequeno terreno? A casa, uma grande estrutura
de ferro, coberto de telhas, um piso revestido de cimento e, num dos cantos,
encostada numa cerca de madeira, uma surrada e velha Kombi.
E esse era o cenário inicial do sonho
desses persistentes artistas..., construir um teatro no quintal de casa, sonho que
realmente virou realidade...! Virou realidade com muita luta, perseverança, trabalho,
dedicação, e muita paixão. E foi assim que surgiu o Teatro Marco Zero, o qual, já
é bastante conhecido no Amapá. Aliás, hoje, único teatro que abre suas portas
para os grupos locais, seja de música, de poesia, de dança, todos serão bem
recebidos no teatro marco zero: os artistas, os grupos de teatro e o público em
geral.
Como o nosso anfitrião, Teatro das
Bacabeiras, está, há bastante tempo hibernando, o único teatro que pode suprir
esta necessidade é exatamente o Teatro Marco Zero, que no dia 15 de julho,
recebeu a Companhia Arteatro de Roraima, que apresentou o espetáculo “Gotas de
Saberes”, o qual, busca socializar para o público, aspectos da ancestralidade
dos povos indígenas da etnia Macuxi. Para início de conversa, Gotas de Saberes
é um espetáculo que não depende exclusivamente de palco italiano, e esta, é uma
boa razão para quem pretende levar sua obra para os mais diversificados e
imprevistos espaços cênicos, como também para um grande público.
Diz-se de um espetáculo voltado para o
público infanto-juvenil, é o que está escrito no programa do mesmo, concordo
com tal definição, mas, por outro lado, percebo que o referido espetáculo,
alcança grande amplitude em termos de que a mensagem que se deseja revelar e
enviar ao público, adapta-se para qualquer faixa etária, principalmente para
aqueles que necessitam entender e respeitar os povos da floresta. Ao narrar a
história do povo originário da etnia Macuxi, o dramaturgo utiliza-se de versos
com métricas e rimas, o que dar maior sensação de beleza à peça.
A aglutinação do texto poético e da
encenação em si, somando-se a tudo isso, a desenvoltura das atrizes em cena
(Aravis e Silmara Costa), com a incumbência de representar sucessivamente
vários personagens; a mise en scène
nos lembra o teatro didático de Brecht. Por outro lado, com cenário
elucidativo, concentrando a cenografia em dezenas de objetos de cena, além de
instrumentos de percussão, dispostos à vista do público, o que de mais relevante
e expressivo nos parece, no referido espetáculo, é a sonoplastia ao vivo, e a
consequente relação harmônica musical entre os sons dos instrumentos, as vozes
e onomatopeias sussurradas pelas atrizes, com o determinado acompanhamento do
sonoplasta/ator (Márcio Sergino), que também é parte intrínseca da cena. A peça
gira em torno dos quarenta minutos, e isso, gera certa surpresa no público,
visto que, imbuído na contemplação dos sons da floresta, quando menos se espera
o mesmo finaliza, deixando um gosto de quero mais na plateia. Este espetáculo
foi selecionado pela Lei Rouanet Norte de incentivo à cultura.