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domingo, 26 de julho de 2026

ETIMOLOGIA E TEATRO

 

 

     O teatro surgiu na Grécia antiga há quase três mil anos. Durante toda a história do homem há uma relação intrínseca entre a vida e a arte. Relacionaremos em seguida algumas palavras ligadas ao teatro e suas principais origens:

     A palavra TEATRO vem do Latim theatrum, do Grego theatron, que significava literalmente “lugar para olhar”, de theasthai, “olhar”, mais tron, sufixo que denota “lugar”. O sentido de “lugar onde transcorre a ação” se aplicou também aos feitos militares, daí o nome “teatro de operações” para uma área onde há luta armada.

     ANFITEATRO também vem do Latim amphiteatrum, do Grego amphiteatron, que significa “local de espetáculos duplo, com espectadores dispostos de ambos os lados do palco”, de amphí-, “dos dois lados”, mais theatron, local de onde se vê. Inicialmente os teatros possuíam assentos apenas no lado voltado para o palco, seguindo a arquitetura do teatro grego. É ainda o caso da maioria ou todos os nossos teatros atuais. Os atuais estádios de futebol são hoje os nossos verdadeiros anfiteatros.

     O termo COMÉDIA vem do Grego komoidia, “espetáculo divertido, comédia”, de komodios, “cantor em festas”, de komos, “festa, farra”, mais oidos, “poeta, cantor”.  Este termo passou por uma fase em que era usado para designar “poema narrativo”, o que é a razão de o livro “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, ter esse nome. 

     TRAGÉDIA deriva do Grego tragoidia, que significa “peça ou poema com final infeliz”. Aparentemente deriva de tragos, “bode”, mais oidea, “canção”. Ao pé da letra poderíamos dizer “a canção dos bodes”, e isso viria do drama satírico, onde os atores se vestiam de sátiros, com suas pernas cabeludas e chifres de bode. 

     Da mesma forma, DRAMA também deriva do Grego drama, “peça, ação, feito” (especialmente relativo a algum grande feito, fosse positivo ou negativo), vem de drao, “fazer, realizar, representar, lutar”.

     PLATEIA – ao que tudo indica, deriva do Grego platea, que significa “largo e plano”. Inicialmente designava o lugar onde ficavam os músicos e se estendeu depois, em prédios diferentes dos teatros gregos, à parte onde tomam assento os espectadores.

    PALCO – do Italiano palco, “estrado, tablado”, do Lombardo palko, “trave, viga”. Seu sentido se estendeu depois ao de “tablado sustentado por vigas” e mais tarde a “estrado ou palco designado para apresentações artísticas”.

     CENA – do Latim scaena, “palco, cena”, do Grego skena, de mesmo significado, originalmente “tenda, cabana”, relacionado a skia, “sombra”, pela noção de “algo que protege contra o sol”.

     Para quem trabalha na área do teatro conhece bem os termos acima, interessante é entender a origem dessas palavras, a partir daí passa-se a entender o porquê do uso corrente e atual das mesmas.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

EDIFÍCIOS TEATRAIS

 

                                              

 

     Atualmente poderíamos dizer que a cidade das bacabas conta com cinco teatros nos moldes do teatro italiano, sendo eles: Teatro das Bacabeiras, aliás, denominação muita bem escolhida, à qual rende homenagem a uma fruta de nossa região. Com 700 lugares o Teatro das Bacabeiras, é uma casa de espetáculos que veio preencher apenas uma lacuna como edifício teatral na cidade, visto que é um prédio voltado para um trabalho mais especificamente profissional, porque o seu próprio espaço físico dentro de suas dimensões (de médio porte) assim o determina.

     Portanto, atende a espetáculos ou shows no mais das vezes vindo de outras localidades, e, uma vez ou outra servindo de palco para alguns grupos, que por seu árduo trabalho de vários anos, conquistaram um certo público, como é o caso do Grupo Teatral Língua de Trapo, onde várias vezes apresentou seu trabalho naquela casa. É interessante revelar que um dos pecados cometidos na definição de seu espaço físico foi o fato de não constar nenhuma outra sala pequena para espetáculo, além do grande salão nobre. É de praxe na maioria dos teatros modernos, a inclusão de uma sala menor, pelo menos com 120 lugares, que se destina a espetáculos de pequeno porte. Além do Teatro das Bacabeiras, temos ainda, o Teatro do SESI; Teatro Municipal Fernando Canto, Teatro Marco Zero, no bairro do Perpétuo Socorro e ainda, o Cineteatro Sílvio Romero, em Santana.

     De todos, o que abre mais acesso aos grupos locais é na verdade, o menor de todos, que é o Teatro Marco Zero. O restante são edifícios que por sua volumetria, exigem que a pauta seja bastante elevada, de no mínino, 2 mil reais para grupos locais, o que torna de certa forma, inviável para artistas do lugar.  É notório que, pelo tamanho prejudicam consideravelmente o desenvolvimento das artes cênicas no Estado. Nessas condições se torna difícil para qualquer grupo amador, produzir seu espetáculo com recursos próprios, além de ter que arcar com despesas de pauta, quando a mesma não está dentro de sua realidade orçamentária. Sabe-se que, quem faz cultura nesse país, a produz com muito esforço, trabalho, dedicação e desejo pessoal. Algumas autoridades culturais ainda não estão informadas de que (80%) oitenta por cento do teatro nacional é resultado de um árduo trabalho, exclusivamente de grupos amadores.

     Dentro dessas condições, entre outras, apesar de ser um símbolo do povo amapaense, o Teatro das Bacabeiras, enquanto não possuir uma sala anexa, destinada para espetáculos de pequeno porte, pelo menos de 120 lugares, se distancia consideravelmente da realidade dos que produzem teatro em nosso Estado. Todos sabem que vez por outra se transforma em local de diversos eventos, como encontros (nacionais e internacionais), colação de grau, tríduos jurídicos, entre outros eventos.

    

 

 

domingo, 12 de julho de 2026

ENTRE MOUROS E CRISTÃOS

 

      Em função da morte de Dom José I, e com vistas à aclamação da Rainha D, Maria I, Lisboa dá ordens para que cada região do Império se dedique a organizar uma grande festa em homenagem à nova administradora do Império português. Para isso, a ordem foi a de que todas as colônias deveriam organizar oito dias de festas, que compreendesse o período entre 16 de novembro a 1º de dezembro do ano de 1777, para saudar a Rainha D. Maria I. Esta é a origem da primeira apresentação do drama entre Mouros e Cristãos em Mazagão Velho. Nessas festividades houve apresentação em carros alegóricos; batalhas entre naus; apresentação de óperas, e inclusive, a primeira apresentação da batalha entre mouros e cristãos na nova Mazagão.

     Até metade do século XVIII, pode-se afirmar que no Brasil, as atividades teatrais então existentes eram exclusivamente de cunho religioso e ocorria tanto nos conventos e educandários da ordem jesuíta, como nos adros das igrejas nos dias de festa. Certamente, foi a partir da segunda metade do século XVIII que as peças teatrais populares se tornaram mais presentes, sendo representadas com certa frequência em tablados montados nas ruas, em praças públicas e nos adros das igrejas.

     Desta forma, além de se construir alguns cenários efêmeros e carros alegóricos para abrilhantar as referidas festas religiosas, como praças e currais para corridas de touros e cavalhadas, também se armavam tablados nos adros das igrejas para encenação de autos, tragédias e comédias. Uma dessas festividades foi o Triunfo Eucarístico, encenado em Vila Rica – Minas Gerais, no ano de 1773, na inauguração da matriz de Nossa Senhora do Pilar, segundo a obra: O Cenário da Vida Urbana, de Maria Berthilde Moura Filha.

     Nos referidos casos, a representação teatral completava um programa que envolvia toda cidade. Décio de Almeida Prado enfoca em seu livro “História Concisa do Teatro Brasileiro”, que além das encenações havia cavalhadas, touradas, números musicais, fogos de artifício e carros alegóricos. Portanto, acredita-se na probabilidade de que fatos semelhantes tenham ocorrido no Amapá do século XVIII.

     Portanto, nos vem uma questão, como aconteceram as festividades em Mazagão Velho, em homenagem à aclamação da Rainha de Portugal? De acordo com documentos de época, percebe-se que as cerimônias iniciaram no dia 16 de novembro com uma missa solene e nesse mesmo dia à noite foi cantado o Tedeum, que são as palavras iniciais do hino de ação de graças. No sábado dia 22, após a celebração de uma missa, saiu pelas ruas da Vila de Mazagão um cortejo com carro alegórico com vinte figuras de meninas que cantavam acompanhadas por três rebecas e três violas. Neste carro alegórico também havia dez dançarinos mascarados, sendo que um deles recitava vários epílogos e obras poéticas. Depois do desfile desse carro alegórico pelas ruas da vila, a festa continuou com a representação de uma batalha naval entre duas naus; notadamente entre cristãos e mouros, sendo que no final os cristãos vencem a batalha. Percebe-se que nesse evento, houveram duas apresentações da batalha entre mouros e cristãos, a primeira em terra, e a segunda uma batalha naval entre duas naus, no rio Mazagão, no século XVIII.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

MURTA E DEVOÇÃO

 


     Falando-se de marabaixo, todo amapaense sabe do que se trata, ou já ouviu falar sobre essa dança que é muito significativa para a cultura do lugar. Sua dimensão ultrapassa questões: antropológicas, sociológicas, étnicas e culturais. Tornou-se a mais autêntica manifestação cultural do Amapá. Observando que em novembro de 2018, recebeu o título de patrimônio imaterial do Brasil, pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional - IPHAN. De outra parte, há uma questão de tamanha importância, que se trata da murta, a planta sagrada do marabaixo, que entre outras coisas, serve para envolver os mastros das bandeiras em devoção ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade.

     Na mitologia grega, a murta era consagrada a Afrodite, já em Roma, era Vênus quem recebia o título de Múrcia, denominação que a relacionava com a referida planta. Os gregos adornavam as noivas com grinaldas confeccionadas com murta. A madeira da murta, a mirra, era usada para incensar cerimônias religiosas tanto na época de Cristo, como também na Grécia antiga. Portanto, A murta tem seus vestígios em vários rituais da antiguidade, por exemplo, o culto às Deusas Deméter e Perséfone, na antiga Grécia, iniciava com uma procissão que partia de Atenas para Elêusis, na qual, os mystai, que eram os iniciados, caminhavam com um buquê de murta nas mãos, como se seguissem os passos das Deusas. A murta também era símbolo fundamental em várias cerimônias à Dioniso, Deus da uva, do vinho, da fertilidade e das festividades.

     A Murta simboliza o amor, pureza, proteção, renovação, paz, juventude e beleza. Deriva do hebraico Hadassad, chegando à versão portuguesa, Hadassa, e significa mirto ou murta na nossa língua mater. No antigo testamento na Bíblia, Hadassa, que era judia, mudou seu nome para Ester, para esconder sua identidade e casar com o Rei persa Assuero/Xerxes. Hadassa também está relacionada com estrela, em função da forma da flor. Com o nome científico de Myrtus communis, pertence a um gênero botânico com mais de uma espécie de plantas com flores, que fazem da família das myrtaceae, sendo nativas do sudoeste da Europa e do Norte da África.

      Também é conhecida em várias outras denominações como: hadassad, murta, mirta, marta, múrcia e mirto, sendo esta última relacionada à Vênus e ao matrimônio. Com várias propriedades, suas folhas possuem ação expectorante, antisséptica, sendo usadas para o tratamento da sinusite, tosse e bronquite entre outras enfermidades. Suas folhas também possuem compostos ativos, os quais, possuem propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianas, dermatológicos e até mesmo como auxiliar no combate ao envelhecimento. A planta em si, pode ultrapassar os 100 anos de idade. Além do Livro de Ester, na Bíblia, a murta é citada em várias passagens, como no livro de Zacarias, onde simboliza a restauração e a bênção divina, e ainda, no Livro de Neemias, relacionada à celebração da Festa dos Tabernáculos. Esses fatores, reforçam uma visão de renovação espiritual e proteção divina, sentimentos que também se refletem enraizados na devoção ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade, na atual dança do Marabaixo no Amapá. 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

SÃO PEDRO E SANTA ANA

 

 

     Embora as festas em homenagem aos Santos, Antônio João e Pedro, se concentrem no mês de junho, entendo que o prenúncio das festas juninas tem início no dia de São José, 19 de março, visto que, esse é o principal dia para a plantação do milho, com vistas à colheita após três meses, já nas proximidades do São João. Aliás, nas culturas remotas, o domínio de se conhecer a relação entre o tempo, a plantação e a colheita, significava alta tecnologia. Essa consciência gerava poder e know-how, entre tribos que ainda não dominavam esse conhecimento. Muitas festas que se conhece em cada cultura, geralmente tem a ver com a produção, colheita, e fartura de uma determinada região, por exemplo, no Nordeste, a produção do milho em junho, como também a colheita da cevada e divulgação da cerveja, na Oktorberfest, em Santa Catarina, entre outras.

     Sendo assim, o dia 13 de junho é dedicado à Santo Antônio, que é conhecido como Santo Casamenteiro. Vale lembrar que, para todos esses Santos, o costume do povo é fazer simpatias para alcançar seus desejos e pedidos. Mas, o momento áureo das festas juninas, acontece efetivamente no dia 24 de junho, dia de São João, que, entre os demais, é o santo mais comemorado. Há quem diga que a festa do ano mais esperada pelo nordestino, é o São João. E ainda temos o dia 29 de junho, quando se comemora o dia de São Pedro. Pedro que era Simão e que Cristo mudou seu nome para Pedro, que deriva de pedra, e Pedro seria a primeira pedra da Igreja de Cristo. Praticamente 30 dias depois da festa de São Pedro, exatamente no dia 26 de julho, comemora-se o dia de Santa Ana, é um dia que também se acende fogueiras, solta-se fogos de artifícios em comemoração à Santa. Aqui fecha-se o ciclo das festas juninas.

     Independentemente de qualquer coisa, é interessante saber que muitas dessas festividades iniciam, por um lado, pelo cristianismo, e por outro, pelo comércio. Portanto, essas datas sempre foram comemoradas por remotas civilizações pagãs, principalmente em função do domínio da cultura de cereais, que era fundamental para que o homem pudesse se fixar em algum lugar e deixar a vida nômade. Cereal, que deriva da Deusa romana Ceres, e que na Grécia era conhecida por Deméter, que era a divindade da agricultura e da fecundidade da terra. O dia de São José, 19, se aproxima do equinócio quando o Sol segue paralelo à linha do equador, e que ocorre entre os dias 20 e 23 de março, o dia de São João, 24, é o dia do solstício de verão para o hemisfério norte, e acontece entre os dias 20 e 24, as populações antigas já comemoravam o Sol Invictus, período de fim do inverno e início do verão.

     O dia de Santa Aurélia comemora-se no dia 25, próximo ao equinócio de setembro, e no solstício de inverno, é quando acontece a festa de Natal. São Cosme e São Damião são celebrados em 26 de setembro. Vale lembrar também, a comemoração do dia de Santa Ana, que acontece em 26 de julho, período que ainda há festividades relacionadas com os santos de junho, época em que há comemorações e queima de fogos. Santa Ana é a padroeira dos mineradores, e não é à toa que a antiga Vila de Madre de Deus, foi denominada pela ICOMI, como cidade de Santana. Já que a ICOMI trabalhava com a extração do manganês.

   

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

FELIZ SÃO JOÃO

 

 

     Estamos em pleno São João, festividade tradicional no Brasil e principalmente na região nordeste. Festas joaninas ou juninas? Joanina deriva de João e é em homenagem a ele que assim se fala: festas joaninas. Junina deriva do mês de junho, visto que acontece nesse período do ano. É a principal festividade do ano e a mais comemorada no nordeste brasileiro.

     Os pagãos comemoravam essa data em função do solstício de inverno, no hemisfério Sul e solstício de verão no hemisfério norte. Solstício que deriva do latim solstitium, que significa “Sol parado”, antes de inverter sua trajetória de volta ao hemisfério Sul. É bom lembrar que hoje, dia 21, é o dia do solstício, por consequência, o hemisfério Norte terá o dia mais longo, e o hemisfério Sul terá o dia mais longo do ano.  Como a Europa situa-se no hemisfério norte, e praticamente maior parte do ano perdura o frio, os pagãos comemoravam a chegada do “Deus Sol Invictus”, ou seja, o sol invencível que chegava abrindo o verão para abrilhantar e esquentar aquele espaço geográfico.

          O culto ao Sol invicto continuou a ser base do paganismo oficial até a adesão do império romano ao cristianismo. Antes da sua conversão, até o imperador Constantino I, tinha o Sol Invicto como a sua cunhagem oficial. Quando aconteceu a ascensão do cristianismo, ficou decidido que a referida data seria para comemorar o santo “São João”. Com isso, a cultura europeia e de suas colônias, foi se adaptando gradativamente, como é o caso no novo mundo e do nordeste do Brasil.

     Mesmo sendo na atualidade uma dança popular, é bom lembrar que a quadrilha que era muito difundida na França, foi inicialmente dançada na corte francesa. Em seguida, no campo entre os agricultores e seus familiares. Com a descoberta do novo mundo, os costumes e a cultura europeia vieram juntos. Foi assim que se consagrou as quadrilhas mais antigas que traziam muitas palavras francesas e que foram ao longo do tempo sendo aportuguesadas aqui no Brasil.

       Alavantú, vem do francês “en avant tous” (todos para a frente); changê de damas e changê de cavalheiros, vem do verbo “changer” que significa trocar, neste caso, trocar de damas e trocar de cavalheiros. Anarriê, também é do françês “en arrière” (todos para trás); Otrefuá, do francês “autre fois”, que significa outra vez.

     O que não havia na quadrilha francesa e que foi adaptado pelo povo brasileiro, foi a encenação do casamento matuto, neste caso a quadrilha gira em torno desse casamento matuto na roça em que o noivo é obrigado a casar pelo pai da noiva, que com uma espingarda apontada para ele, o obriga definitivamente a aceitar o casamento.

     As festas juninas são comemoradas no dia 13, em homenagem a Santo Antônio, quando na véspera se comemora o dia dos namorados; o dia de São João, 24, é o dia mais comemorado, há fogueiras, queima de fogos e impera a comida derivada do milho, inclusive porque é período de colheita. Dia 29 comemora-se o São Pedro que também é muito lembrado nas pequenas cidades do interior. Ótimo São João a todos.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

TEATRO E MARABAIXO

 


     O culto a Dioniso, deus da uva e do vinho, com seu canto ditirâmbico, remonta há mais de mil anos antes de cristo, nele, havia dança, música, pessoas gritando e cantando e ingeria-se muito vinho. Acontecia em homenagem às vindimas (período da colheita da uva).  Havia ainda o corifeu, que puxava um refrão, enquanto as pessoas respondiam.

     Apesar da distância cronológica, da tecnologia e do mundo contemporâneo, há muita semelhança entre o canto ditirâmbico e o marabaixo. Os praticantes do marabaixo dançam ao som de caixas confeccionadas de madeira; dançam em círculo em torno dos caixeiros, da mesma forma que as pessoas dançavam em círculo a partir de determina música no entorno do deus Dioniso; respondem em coro o “ladrão” tirado pelo cantador, praticamente representando o papel do corifeu (que fazia o mesmo) no antigo culto grego.

     Muitas vezes esses “ladrões” transformam-se em desafios improvisados, o que nos remete à Odisseia e propriamente ao cordel, como também aos desafios dos emboladores de coco. Em sua tese de doutorado, intitulada: “Marabaixo, ladrão, gengibirra e rádio – Traduções de linguagens de textos culturais”, defendida em 2012, na Pontíficia Universidade Católica de São Paulo, (da qual fui arguidor) o Prof. Dr. Rostan Martins afirma que: “Alguns versos de ladrão contam gozações, reprovações ou alguns lapsos cometidos por uma autoridade ou pessoa da comunidade, reproduzem cenas hilariantes do cotidiano”. Isso demonstra a versatilidade da dança do marabaixo.

     O improviso é constante no marabaixo, o que também era muito utilizado no canto ditirâmbico, e foi exatamente a partir do improviso de Théspis (considerado o primeiro ator ocidental), quando gritou: “eu sou Dioniso”, que aquele culto iniciou sua transformação cultural revelando numa outra forma de manifestação conhecida por teatro.

     Acredita-se que o círculo é uma das formas mais perfeitas, e independente de área geográfica ou relação temporal/cronológica, sempre aparece em várias latitudes do planeta e nas mais diversificadas comunidades ancestrais, modernas e contemporâneas. Na Grécia clássica, o canto ditirâmbico acontecia em círculo; a ciranda também é em círculo; o coco de roda, o próprio nome já nos sugere sua forma; a maioria dos passos da quadrilha junina é em círculo; evidentemente, que o marabaixo também não poderia ficar de fora dessa regra secular. 

     De uma forma ou de outra, percebe-se que fatores religiosos também se encontram inseridos nessas manifestações, em cada latitude como também em cada seu momento histórico, e que consequentemente, merecem o respeito dos estudiosos, dos catedráticos, do povo e principalmente da própria comunidade em que essas manifestações se revelam. O marabaixo representa o símbolo da cultura amapaense. E foi esta dança que Luiz Gonzaga dançou e gravou: “Eita, seu mano que bom, ai! Que bom de dançar! Eita seu mano que bom, ai, que bom é o Macapá”, referindo-se à dança do marabaixo.

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

TEATRO E SEMIÓTICA

 

   

     Além de objetos reais, no palco não se utilizam apenas acessórios e cenários, que são meramente signos, no entanto, o público não capta essas coisas reais como se fossem reais. Por exemplo, se um personagem representando um homem rico, usa um anel de brilhante, o público o considera como um signo de grande riqueza e não se preocupa se a pedra é verdadeira ou falsa. Da mesma forma que no palco, tanto um refresco quanto um suco autêntico podem representar um suco.

     No teatro Chinês, o cenário é complementado em sua elaboração com elementos específicos ao desempenho do intérprete. Nesse tipo de teatro os mais importantes signos são a mesa e a cadeira, quase nunca ausentes do palco chinês. Por exemplo, se a mesa e a cadeira estão dispostas da maneira usual, então o cenário é um interior. Contudo, uma cadeira que se apresenta com o lado sobre o chão, significa um aterro ou fortificação; virada, simboliza uma colina ou montanha; de pé sobre a mesa, uma torre de cidadela.

     Os japoneses são mestres nessa maneira de criar um cenário.  Para criar um rio, basta apresentar um cartaz trazido à cena com a palavra “rio” escrita para sugerir o ambiente da cena a ser representada. Para Sábato Magaldi, “no espetáculo, o cenário e a vestimenta situam o ator no espaço, e são essenciais à caracterização da personagem.”

     O drama religioso da Idade Média teve em seu início o interior da igreja como cenário. Passou a ser apresentado no pórtico dos templos. Em seguida, os mistérios e moralidades passam a ser representados nas praças; a partir dai, pela necessidade cria-se o cenário simultâneo, em que diversas indicações, muito sumárias, se justapunham ao longo de um estrado. Um simples portão sugeria uma cidade, uma pequena elevação simbolizava uma montanha e assim por diante. No canto esquerdo do estrado, uma enorme boca de dragão servia para a passagem dos demônios e a ida para o inferno dos pecadores irremissíveis. Na parte direita, acima do chão, situava-se o paraíso, lugar de felicidade eterna.

     No teatro medieval, em função do sistema de palcos móveis que era geralmente construído sobre carretas, os cenário passaram a ser elaborados de materiais perecíveis, tais como tecido ou madeira, atendendo de certa forma as especificidades requeridas pelas peças encenadas. No teatro Elisabetano, passou-se a ter novamente a ideia do palco como uma estrutura fixa. Uma construção de madeira que servia de fundo para os vários ambientes. É muito simples para o público captar de forma emotiva e psicológica as ideias e mensagens que há num espetáculo, mas por outro lado, quem é especialista no assunto sabe muito bem que teatro é pura semiótica. Num espetáculo só se coloca em cena objetos que tenham total relação com o desenrolar da peça, qualquer objeto que não tenha essa relação estreita com o desenrolar da peça, deverá ser retirado de cena, para não atrapalhar na ação dos atores, como também no enredo da peça. Um espetáculo teatral é um resumo de símbolos que facilitam a compreensão do público em relação a história que está sendo contada.

 

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

HEGEL E BRECHT

 

                                               

 

     A poética marxista de Bertolt Brecht não se contrapõe a uma ou outra questão formal, mas sim, à verdadeira essência da poética idealista hegeliana, ao afirmar que o personagem não é “sujeito absoluto” e sim “objeto” de forças sociais.

     A análise lógica da ação dramática resume-se sempre numa oração simples com sujeito, predicado verbal e objeto direto, vejam a frase que segue: “Trump invadiu o Irã”. Aqui, o sujeito hegeliano é Trump, cujos movimentos interiores de seu espírito se exteriorizam de forma a ordenar a invasão do Irã. “Invadiu” é o predicado verbal e “Irã” é objeto direto.

     Na análise lógica da ação dramática segundo a poética marxista e o teatro épico de Brecth, a referida frase deveria conter uma oração principal e uma oração subordinada e nesta, o personagem “Trump” continuaria sendo sujeito. Sendo que o sujeito da oração principal seria outro, por exemplo: “Forças econômicas determinaram que o presidente Trump invadisse o Irã”. Como vemos, na poética brecthiana, ao contrário do que parece verdadeiro, são as forças econômicas que aturam forçando com que Trump tomasse tal decisão.

     A oração principal nesta poética será sempre uma inter-relação de forças econômicas. No entanto, o personagem não é livre completamente, mas sim, objeto-sujeito. Como podemos observar, na poética idealista o pensamento condiciona o ser social e na poética marxista o ser social é quem condiciona o pensamento.

    Enquanto que para Hegel, o espírito cria a ação dramática, para Brecth, a relação social do personagem é quem cria a ação dramática. Se por um lado, Hegel propõe o personagem como “sujeito absoluto”, por outro Brecth o propõe como “objeto”, como porta voz de forças econômicas e sociais.

     Diferentemente da dramaturgia, o teatro é completamente ação que, para Hegel deve ser conduzida a um determinado ponto onde possa ser restaurado o equilíbrio. O sistema de força tese-antítese deve ser levado a uma síntese, que em teatro só pode ser feito de duas maneiras: morte de um dos personagens irreconciliáveis (tragédia), ou arrependimento (drama) romântico ou social, segundo o sistema hegeliano. Em Brecth são considerados outros fatores de extrema importância para o desenrolar da trajetória do personagem. Poderemos observar essa situação em algumas obras deste último autor como: Mãe Coragem ou Os Fuzis da Senhora Carrar. Nesses espetáculos os personagens principais vão criando consciência de sua situação política e social, até definir sua trajetória enquanto ser social para poder enfrentar o sistema social ao qual está submetido.

     Portanto, é de fundamental importância que artistas das artes cênicas conheçam e entendam essas duas faces da moeda: o teatro dramático e o teatro épico, para poderem realizar suas montagens a partir de fundamentos teóricos e filosóficos e práticos, em busca da melhoria de suas montagens cênicas.   

 

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

ATO DE ESCREVER

 

 

     Desde quando ingressei na universidade, no ano de 1980, com o objetivo de realizar o antigo curso de Educação Artística, comecei a me envolver com a produção cultural e especificamente ao teatro na capital da Paraíba. Isso aconteceu, em função dos espetáculos que eu já havia montado na cidade do interior. O movimento teatral era muito intenso na década de 1980, na capital da Paraíba. Foi nesse período que, sem nenhuma intenção, passei a escrever sobre os espetáculos que estavam em cartaz, nas três principais casas de espetáculos da cidade de João Pessoa. Num determinado, momento resolvi socializar meus escritos com os diretores desses espetáculos, passando o material escrito para que eles repassassem e pudessem discutir com os demais atores de cada grupo teatral. Época em que tudo era digitado em máquina de escrever.

     Essa corrente foi crescendo ao ponto em que vários diretores me convidavam para assistir aos seus espetáculos teatrais, na perspectiva de que eu escrevesse sobre cada montagem. E assim o fiz! Depois de certo tempo, em momentos esporádicos, eu já conseguia publicar alguns artigos meus, e isso aconteceu nos principais jornais diários da Paraíba, naquela década, como: Jornal O Norte, Jornal A União e Jornal o Correio da Paraíba. Isso foi formando um grupo de leitores e pessoas que apreciavam meus artigos. E foi assim, que certo dia, um desses diretores de teatro, que também era meu professor na universidade, me colocou uma proposta um tanto irrecusável. Ele estava devolvendo sua coluna semanal, e na ocasião me ofereceu para que eu pudesse mantê-la no semanário. E foi dessa forma, que iniciei a minha primeira coluna no Jornal O Combate, que era um hebdomadário.

     Passei alguns anos escrevendo e mantendo essa minha primeira coluna naquele jornal. Quando passei a residir em Macapá, inicialmente comecei a escrever para o Jornal do Dia, como também, Jornal Diário do Amapá, e ainda, Jornal O Liberal. Mas preferi ficar no Jornal A Gazeta, no qual, passei a escrever sequencialmente há 22 anos, ou seja, desde o ano de 2004. Gosto de escrever artigos dos mais variados temas, mas me detenho a escrever principalmente sobre a arte em geral e sobre o teatro em particular. Nesses últimos 22 anos esses artigos já me renderam dois livros: Artes Cênicas no Amapá – Teoria, Textos e Palcos; e Arque com Arte – Arque com Arte, Cultura, Arte e Educação no Amapá.

     Na sala de aula, busco incentivar meus alunos em relação à escrita. Mas, uma questão fundamental para quem deseja escrever, é a leitura constante e presistente.  A leitura é o principal pré-requisito para quem deseja escrever. Sendo que, essas duas atitudes estão intrinsecamente relacionadas. Comecei a escrever poesias aos 15 anos de idade. Li autores clássicos como: José de Alencar, Guimarães Rosa, Menotti del Picchia, Graça Aranha, Eça de Queiroz, José Lins do Rego, Aluísio Azevedo, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa, entre outros. Atenção: viver sem ler é perigoso, te obriga a crer no que te dizem. Segundo Einstein, tudo aquilo que o homem ignora, não existe para ele. Por isso, o universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber.

  

segunda-feira, 18 de maio de 2026

SALVE BACABEIRAS

 


     Ultimamente vem acontecendo em nossa cidade, uma polêmica em função do anúncio de que o Teatro das Bacabeiras teria seu nome modificado, mudado ou complementado. Dessa forma, deixaria de ser Teatro das Bacabeiras, para Teatro das Bacabeiras Amadeu Lobato. É bom lembrar que historicamente, o Teatro das Bacabeiras surgiu em função da luta do povo amapaense, por um lado, pessoas influentes na sociedade local como: o poeta Alcy Araújo, professor Antônio Munhoz Lopes, professora Zaide Soledade entre tantos outros, por outro lado, a classe teatral que vinha produzindo suas peças durante a década de 1980, e que também lutavam para que o Amapá construísse sua casa de espetáculos. Entre esses artistas, podemos citar aqui, o próprio Amadeu Lobato, Sol Pelaes, Richene Amim, Jackson Amaral, Disney Silva, Andréa Lopes, Waldez Mourão, entre outros, e nem por isso, nenhum desses ilustres nomes foram contemplados para serem gravados no frontispício daquele edifício teatral.

     Ele nasceu mesmo, como Cineteatro das Bacabeiras, e depois de certo tempo, passou a ser simplesmente Teatro das Bacabeiras, representando a cultura, o povo amapaense, os artistas e a região amazônica, deixando de ser composto e particular, para se transformar em simples e universal. Se olharmos para o passado distante, da história do teatro do Amapá, são muitos os nomes que poderiam ser lembrados, principalmente a partir de 1948, quando surge o Teatro do Estudante do Amapá com célebres artistas como: Mário Quirino da Silva, Papaléo Paes, Lizete Aimoré, Nazí Gomes, Raimundo Barata, Ida Aimoré, Vilela Monteiro; do Teatro de Amadores do Amapá, que surgiu no ano de 1960, como: Sebastião Ramalho da Silva, Ester da Silva Virgolino, Ivaldo Veras, Luiz Ribeiro de Almeida, Creuza Bordalo, Aracy de Mont’Alverne, Hilkias Alves de Araújo, entre outros.

     Nesses últimos 31 anos acompanhei pari passu o trabalho de Amadeu Lobato, e observo que ele possuía características relacionadas à grande elenco, prestigiado público e espaços abertos. É de praxe que suas encenações e montagens, costumeiramente foram voltadas para a rua, para locais abertos, para grandes espaços ao ar livre, e principalmente em teatros de arena, somando-se a isso, sua saga de 46 anos de montagem do espetáculo Uma Cruz para Jesus, que a todo momento foi representado em espaço aberto, como o teatro de arena. Já o palco italiano foi só um detalhe durante sua vida dedicada ao teatro amapaense.

     Esclareço aqui, que não sou contra a possível mudança ou reajuste do nome Teatro das Bacabeiras, para Teatro das Bacabeiras Amadeu Lobato, sem sombra de dúvidas, mas durante o percurso de sua vida artística, fica claro que o teatro à italiana nunca foi a casa de Amadeu Lobato, neste caso, seria mais sensato homenageá-lo nomeando o espaço externo norte da Fortaleza de São José de Macapá, onde por muitos anos ele apresentou a peça Uma Cruz para Jesus, de TEATRO DE ARENA AMADEU LOBATO.  

segunda-feira, 11 de maio de 2026

DIA DAS MÃES

 

 

     Hoje, segundo domingo do mês de maio é comemorado o dia das mães, dia de muita importância para as famílias como um todo; momento em que a população brasileira homenageia as mães. Também é um período muito significativo para as transações comerciais, em função da grande procura de presentes para as homenageadas. É um domingo muito especial, para quem tem a oportunidade de estar pessoalmente com sua querida mamãe.  

     Minha mãe tem uma longa história de vida; como meus avós eram agricultores, foi criada em terras alheias e sítios inóspitos, nas cercanias da cidade de João Pessoa, mas, apesar disso, conseguiu concluir o ensino primário. Mesmo com sua vida pacata, gostava de estudar e dava muito valor ao conhecimento. Só deixou a zona rural, depois que casou e foi morar numa pequenina cidade com o nome de Cabedelo, na Paraíba.

     Enquanto seu esposo trabalhava na Rede Ferroviária Federal, ela se limitou aos quatro recantos da casa, e por um longo período de tempo, se dedicou especificamente, às responsabilidades das atividades domésticas, preparando a comida e cuidando dos filhos: sete no total. Quando começou a surgir momentos difíceis e crises na economia doméstica, resolveu, de certa forma, se desvencilhar de tudo isso, e passou a costurar. Era exímia costureira.

     A partir desse trabalho, ajudou nas despesas domésticas, e, direta e indiretamente, a todos de casa. Tinha vários clientes, na vizinhança e de outros recantos da cidade. O mais interessante, era que morávamos defronte a um grande espaço aberto, que se tornou o local onde se armavam os circos que chegavam à pacata cidade. Resultado: os artistas desses circos, também contratavam minha mãe, como costureira. Enquanto o circo estivesse na cidade, ela criava, costurava, modificava, fazia de tudo, para aproveitar e reaproveitar todos os figurinos daqueles artistas mambembes. 

     Esse momento foi fundamental para minha vida: porquê? Porque, todas as vezes que ela entregava uma roupa pronta, ao pessoal do circo, por um lado, eles a pagavam em moeda corrente do país, e por outro, também a presenteava com alguns ingressos para ter acesso aos espetáculos do próprio circo. E ela recebia ingressos para adultos e para crianças. Esses fatos, interferiram beneficamente em minha vida, tendo em vista que, todos os finais de semana, passava a assistir aos espetáculos matinées dos circos, quando sempre terminavam com uma dramatização clássica, como “chapeuzinho vermelho”; “Cinderela”, “Branca de Neve e os Sete Anões”, entre outras histórias infantis. Em função disso, me vem toda a relação que tenho com o teatro, com a educação, com minha profissão como professor de teatro; como também, com a arte em geral.

     Mesmo sendo agricultora, nunca deixou de me incentivar aos estudos, e isto foi de fundamental importância para o meu desenvolvimento profissional. Sempre dizia que o estudo era o melhor caminho para o pobre, e para quem gostaria de conseguir ser gente um dia na vida. À minha mãe, Hilda Palhano (in memorian), agradeço de todo meu coração, tudo o quanto ela me incentivou para que eu pudesse conquistar meus sonhos e organizar minha vida, como cidadão. A vida que tenho hoje e o profissional que sou, agradeço à minha mãe. Parabéns a todas as mães do Amapá e do Brasil.

domingo, 3 de maio de 2026

JOVINO DINOÁ

 


     Localizada em Macapá, todos conhecem a famosa rua Jovino Dinoá, extensa artéria que corta diversos bairros do centro da cidade. Importante via com mão única, que tem seu início no bairro do Araxá, na zona sul, e se estende até a Av. Piauí, no bairro do Pacoval, com placas sinalizadas com velocidade máxima de 60 km/h. Rua muito utilizada por moradores da zona sul, para quem segue em direção à FAB.

     Jovino de Albuquerque Dinoá nasceu em 10 de setembro de 1883, na cidade de Cabaceiras – Paraíba, hoje conhecida como a Roliúde Nordestina, visto que vários filmes já foram gravados naquela cidade, inclusive o Auto da compadecida, de Ariano Suassuna.  Ele era filho do casal, Jovino Limeira Dinoá e Ângela Leopoldina de Albuquerque Dinoá. Seu pai, nasceu em 25 de janeiro de 1838, também na cidade de Cabaceiras, e é considerado o primeiro prefeito da antiga cidade de João Pessoa, quando foi nomeado para esta função, pelo então, presidente do estado, Álvaro Lopes Machado, ato publicado no Jornal A União, do dia 14 de fevereiro de 1896. Em sua gestão, foram implantados os primeiros bondes de tração animal, na cidade de João Pessoa – Paraíba. Inclusive, Jovino Limeira Dinoá, seu pai, faleceu em Macapá, quando de visita a seu filho, em 30 de agosto de 1910, com 72 anos.

     Seu filho, Jovino de Albuquerque Dinoá, mudou-se para o extremo norte do Brasil, e em 1899, já era funcionário dos Correios de Belém do Pará. Era Casado com Joana Pantoja Dinoá, de tradicional família do Pará. Em função de publicação no Jornal Diário da União, de 18 de julho de 1912, transferiu-se para Macapá, que na época pertencia ao estado do Pará, para exercer a função de Coletor das Rendas Federais em Macapá. Cargo que exerceu até dezembro de 1936, quando se aposentou, por decreto publicado no Diário Oficial de 10 de dezembro de 1936.

     Jovino Dinoá, deixou seu legado e grande contribuição para a sociedade amapaense; foi Tenente-Coronel da Guarda Nacional, como professor e intelectual exerceu atividades de ensino, teve papel fundamental na comunicação da região. Em parceria com Padre Júlio Maria Lombaerd, em 1915, fundou o jornal “O Correio de Macapá”, que é considerado o segundo jornal mais antigo da região, no qual, discutia assuntos relacionado à história de Macapá e à sociedade amapaense. Figura muito ativa na sociedade do início do século XX, em 1911, esteve envolvido em processos judiciais com o comerciante Leão Zagury.

     Coronel Jovino de Albuquerque Dinoá foi ilustre personagem histórico das terras tucujus, foi ele quem integrou em 1934, a comissão organizadora do primeiro Círio de Nazaré de Macapá. Ele sempre será lembrado como um dos intelectuais e "filhos da terra" que contribuíram para a identidade e história de MacapáSeu legado está por aí, em vários recantos de nossa cidade. Seus préstimos estão presentes em nossos dias, a partir dessa grande homenagem que é a rua Jovino Dinoá.  

segunda-feira, 27 de abril de 2026

TRAVESSIAS AMAZÔNICAS

 

 

     Na última segunda-feira, dia 20, cumpri com mais um rito e participei de um milenar ritual que sempre me conforta, que foi me dirigir a uma casa de espetáculos, desta vez, o Teatro Municipal de Macapá, para contemplar a peça teatral intitulada, “Travessias Amazônicas”, do Projeto Travessias Amazônicas, que vem sendo concretizado pelo Movimento Cultural Desclassificáveis, que tem à frente meu amigo, artista, ator e diretor Paulo Alfaia. Ele, que vem há muitos anos, sedimentando seu trabalho a partir de investigações artísticas aprofundadas, e, em consequência, contribuindo imensamente com a prática teatral no estado do Amapá.

     Como em todas suas experiências criativas e artísticas, o Mestre Alfaia, não mede esforços em relação aos desafios que terá que enfrentar ao se deparar no caminho do desconhecido, o que sempre nos apresenta uma mise en scène. Num de seus espetáculos, “Curupira, Um Ser Inesquecível”, que desde 2008, vem sendo apresentado no Amapá, ele focaliza sua preocupação em estudar a Amazônia brasileira, com um olhar para as lendas e os mistérios da imensa floresta, na perspectiva da proteção e valorização da cultura local. Espetáculo atemporal que ainda hoje vem sendo apresentado tanto no Amapá como em outras latitudes.

       Lendas e Mitos como o Curupira, tem sua origem com os Faunos, no antigo Egito; com os Pãs e os Sátiros, na Grécia Clássica, e com os Faunos também em Roma. Sem dúvida, a associação entre o Curupira e os Sátiros é muito próxima, e talvez, tenha sido em função disso, que o Curupira tenha resolvido sussurrar no ouvido de Paulo Alfaia, para que ele transcendesse e desbravasse novas travessias amazônicas, independente de fronteiras terrestres, florestais, políticas, culturais ou sociais. O mais interessante é que Paulo Alfaia, ao entender a mensagem do seu avatar, idealizou e concretizou o Projeto Travessias Amazônicas, até chegar à montagem do espetáculo com o mesmo título.

     “Travessias Amazônicas” é um espetáculo de arena que traz em sua dramaturgia questões políticas, sociais, religiosas e antropológicas, entre fronteiras políticas e terrestres, criadas pelo homem moderno. Tem por base, pesquisa e criação da obra “Un Rien de Pays”, do dramaturgo guianense Élie Stephenson. Surgiu a partir de residências artísticas e estéticas, num intercâmbio cultural entre o Movimento Cultural Desclassificáveis – Amapá - Brasil, e Théâtre de Macouria e Conservatório L’Encre, estabelecidos em Cayenne, Guiana Francesa.

     A sonoplastia, que poderia ser ao vivo durante todo o espetáculo, criando assim um veio estético do início ao final da encenação, repentinamente é pressionada por sonoplastia mecânica, o que, a mon avis, interfere negativamente no desenrolar da peça. Por sua vez, além de não ajudar muito no espetáculo, a iluminação tem muito do improviso. E aqui não é um problema do espetáculo em si, mas, uma ineficiência do próprio edifício teatral, que não possui aparato de iluminação à altura de sua estrutura física. É urgente a necessidade de um aparato de iluminação de boa qualidade, tanto para o palco de arena como para o palco à italiana.

     Já os figurinos precisam ser estudados de forma mais apurada, e que enfoquem principalmente, questões das culturas dos lados: Sul e Norte do rio Oiapoque, brasileira e francesa, respectivamente. Quanto às projeções que enfocam imagens variadas, que se coadunam com o tema da peça, mesmo que não seja novidade, são bem-vindas. Lembrando que o diretor alemão Erwin Piscator, já na década de 1920, é considerado na história do teatro, como o primeiro a explorar em seus espetáculos, projeções cinematográficas, de maneira orgânica e política.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

FICÇÃO E REALIDADE

 

                                    

 

 

     A empatia é a relação emocional que se estabelece entre o público e os personagens de um determinado espetáculo, que pode ser teatral, novela ou cinematográfico, e que provoca fundamentalmente a delegação de poderes do público em relação aos personagens, ou seja, tudo o que acontece com o personagem em cena, parece acontecer também com o espectador, tendo em vista que tudo o que pensa o personagem, o público pensa conjuntamente com ele, segundo sua trama e trajetória.

     Para Aristóteles, a empatia consiste numa relação emocional que se relaciona de duas emoções básicas: a piedade e o terror. Piedade que nos liga a um personagem que sofre um destino imerecido, como é o caso de “Édipo Rei”. Terror que se refere ao fato de que o personagem sofre as consequências de possuir uma falha (trágica e social), que nós igualmente a possuímos.

     No caso de um herói como o super-homem, por exemplo, o espectador assume uma atitude passiva, acompanhando paralelamente suas ações e delegando poderes ao seu ídolo. Nesse tumulto de paixões e ações humanas que constituem a obra dramática, sucede o repouso, este repouso refere-se à empatia propriamente dita.

     Para Brecht, uma peça de teatro não deve terminar em repouso, numa trajetória diferenciada de Aristóteles, ela (a peça) deve mostrar os caminhos pelos quais se desequilibra a sociedade e, por outro lado, indica a busca de uma atitude e ação em relação a esse fato. Um teatro que pretende educar os transformadores da sociedade não pode terminar em repouso, não deve restabelecer o equilíbrio, mas usar da dialética para buscar um denominador comum.

     Enquanto Hegel defende uma inquieta sonolência ao final do espetáculo, Brecht deseja que o espetáculo seja o início da ação, em função disso no teatro brechtiano cada cena torna-se independente uma da outra, evidenciando: início, meio e fim. Neste caso específico, o equilíbrio deve ser buscado com a transformação da sociedade.

     A empatia consiste em justapor duas pessoas (uma fictícia = personagem, e outra real = espectador). Nesse universo, de forma sutil, a empatia faz com que o espectador seja guiado pelo personagem, levando o homem a abdicar em favor da imagem e dos poderes de seu personagem preferido, semelhante ao que acontece entre a torcida e os jogadores de futebol e a relação do homem com seus deuses.

     Assim, o espectador (público), que se encontra numa situação vital e real, elege psicologicamente seu personagem em favor de seus atos e suas atitudes. Esta relação é estritamente psicológica. Já com o personagem é diferente, visto que o mesmo ao estar numa situação fictícia e irreal, em definitivo, conquista empaticamente o público.

     Isto significa dizer que a justaposição desses dois universos (real e fictício) produz igualmente outros efeitos agressivos, isto é, o espectador vivencia a ficção e incorpora valores da ficção naquele momento que pensa ser real. Assim o homem real e vivo assume como realidade e como vida o que lhe é apresentado na obra de arte, sem perceber que arte é pura ficção.

 

 

 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

MEIO DO MUNDO

 

 

     O entorno do marco zero do equador se tornou um dos principais pontos de encontro dos amapaenses como também de turistas que visitam nossa querida cidade. Naquele espaço urbano, em meio à linha do equador, o complexo do marco zero concentra três importantes monumentos: o Marco Zero do Equador; o Sambódromo complementando-se com a Cidade do Samba e o Estádio Milton de Souza Corrêa, conhecido popularmente como Estádio Zerão.

     Todos sabem que megaeventos e grandes shows musicais sempre acontecem no entorno do marco zero do equador. No sambódromo acontece um dos maiores eventos da cidade que é o desfile das escolas de samba no período de carnaval; e para que isso aconteça, torna-se prioritário grande movimentação no entorno daquela área urbana; área mais do que necessária para que cada evento, como o desfile das Escolas de Samba, por exemplo, tenha sucesso.

     Além do desfile de escolas de samba, durante os 365 dias do ano acontecem outros tantos eventos como o desfile das quadrilhas juninas entre vários shows de cantores famosos, tanto amapaenses como músicos conhecidos em todo o Brasil. Ademais, os encontros religiosos que sempre escolhem aquela área urbana para louvarem ao senhor. Na Rua Ivaldo Veras também existe a Cidade do Samba que, por sua vez, serve como suporte ao Sambódromo em suas atividades culturais.

     O mês de setembro sempre é bastante movimentado com os desfiles dos dias 07 e 13 deste mês, quando aquela área se reveste de desfiles de escolas estaduais e municipais, exército, bombeiros e polícia militar, entre outras agremiações. Tanto no desfile das escolas de samba como no desfile do dia 07 de setembro a parte de trás do Zerão fica repleta de bandas de música das escolas, todas esperando seu momento para entrar em cena. Neste caso, o barulho é imenso na espera de desfilar no sambódromo.

     Lá também está localizado o Marco Zero do Equador, com várias festividades inserindo aqui as principais que são os Equinócios: equinócio da primavera, em março e equinócio de outono, em setembro. Na maioria dos casos, há danças e exposições, o que transforma aquele ambiente num grande local de encontro das pessoas que aqui habitam. Ainda há os solstícios que não são muito divulgados, mas que acontecem em junho e dezembro.

     Junte-se a tudo isso o Estádio Zerão, querido por todos aqueles que são amantes do futebol. Tudo que se relacione ao futebol acontece no Estádio Zerão, que é o único estádio do Brasil onde uma equipe situa-se no hemisfério Norte e a outra no hemisfério Sul. E o que dizer dos circos que sempre chegam à cidade de Macapá, estão sendo instalados em novos espaços. Aquele espaço urbano completou-se depois da inauguração da Praça do Meio do Mundo. Ótimo local para relaxar um pouco.

 

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

ARTE E DRAMA

 

                                 

     Na arte dramática as palavras deixam de ser signos arbitrários para converterem-se em signos maturados de objetos arbitrários. Cada letra é um signo e ao juntarmos esses signos, deveremos seguir alguns códigos e regras juntando-as e formando as palavras que por sua vez são relacionadas a determinados objetos ou sensações.

     Aqui se pode encontrar a grande diferença entre dramaturgia e encenação. Se por um lado, a dramaturgia refere-se à literatura propriamente dita, por outro, a encenação por sua vez, está estritamente ligada ao movimento e à ação. Portanto, estamos enfocando aqui duas obras completamente distintas. A dramaturgia é literatura; a encenação é ação, é teatro.

     Na poesia dramática, o mais importante está nos gestos, ou seja, no movimento e na ação, como também nas palavras criadas para explicar esses gestos. O drama é a representação de uma ação concluída e não o começo de uma ação, como acontece com a poesia lírica. Se há signos linguísticos para a literatura, também há signos para a encenação de uma peça teatral, obviamente.

     O drama exige unicamente a unidade de ação; a unidade de tempo e de lugar. Paralelamente, o ator tem que saber e entender essas três dimensões. Quem sou eu? O que estou fazendo? E em qual momento histórico me encontro e em qual espaço geográfico estou realizando determinada ação?

     A arte é a imitação da realidade e cada obra de arte alcança seu autêntico espaço estritamente por meio do seu conteúdo e de sua estrutura visível, que se insere no seu ritmo intrínseco evocado por dominantes espaciais e temporais.

     Quando um ator se apresenta diante de um público ou fala diretamente (como no teatro dialético) esses recursos estilísticos não só modificam o espaço, mas toda a relação do significando com o significante. Certamente, que hoje se faz muito mais esforço para alcançar a relativa autonomia do teatro contemporâneo, sua funcionalidade e sua praticidade. Já não mais parece ser como um fragmento ilusório de vida, casualmente presenciado pelos espectadores.

     E a perfeição técnica não é mais um padrão de qualidade artística e sim pura e simplesmente o resultado da habilidade profissional em um terreno artístico determinado. Penso, porém, que as obras de arte plenamente originais são aquelas que conservam certo grau de excelência e atributos individuais dos artistas. No caso, a originalidade poderia ser equivalente a uma individualidade excepcionalmente criativa.

 

segunda-feira, 30 de março de 2026

TRIBUTO A AMADEU LOBATO

 

 

     Neste domingo de ramos inicia-se a Semana Santa. E no final desta semana teremos a apresentação do espetáculo Uma Cruz Para Jesus. E as apresentações desse ano serão em homenagem ao grande ator e diretor Amadeu Lobato, que nos deixou recentemente. Ele, que dedicou toda sua via ao teatro amapaense, estando à frente do espetáculo “Uma Cruz para Jesus”, nesses últimos 46 anos. Desta vez, a encenação completará 47 anos, de pura resistência teatral, à qual, tem à frente Natanhe Rogely, e como sempre, será apresentada na área externa da Fortaleza de São José de Macapá.

          A primeira apresentação que aconteceu no ano de 1979, teve apoio da Igreja Católica, e consequentemente, nesses quarenta e seis anos à frente, como diretor da Companhia Teatro de Arena, Amadeu Lobato transformou seu trabalho num espetáculo ontológico e clássico do Amapá. Uma peça em que não se paga ingresso, onde o acesso é livre para o público em geral, sem discriminação de cor, etnia, religião e classe social. Todos podem assistir ao referido espetáculo, e para isso, basta se dirigir na sexta-feira santa, ao teatro ao ar livre que existe na lateral norte da Fortaleza de São José de Macapá, no centro da cidade. 

      Para aqueles que acompanham essa trajetória, basta imaginar que são 47 anos de resistência em relação ao fazer teatral nas terras tucujus. Amadeu Lobato é nosso grande homenageado, em função desse legado que nos deixou... uma verdadeira escola de teatro ao ar livre, visto que significativa parte dos artistas do Amapá, pela primeira vez, subiram ao palco, neste espetáculo. Também não é para menos, sua peça coloca em cena, todos os anos, mais de cem atores e atrizes, concentrados num espetáculo de um pouco mais de uma hora, na área externa da Fortaleza.

     Mas o que muito me chama atenção é a falta de apoio dos órgãos públicos e até mesmo dos empresários para um melhor apoio para o desenvolvimento do referido espetáculo. Em Oeiras, cidade do interior e antiga capital do Piauí, também há um grupo que encena a Paixão de Cristo, e diferentemente do Amapá, o espetáculo de Oeiras, todos os anos é transmitido ao vivo para todo o Estado do Piauí. Em muito me admira que, com vários canais de televisão aqui no Amapá, e durante todo esse tempo, nunca, nenhum deles se propôs a fazer uma transmissão ao vivo para o Estado do Amapá, da peça Uma Cruz para Jesus, essa produção local que merece esse olhar.

     Em outras capitais de Estados como Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, para esse tipo de espetáculo há editais específicos com apoio financeiro, em que todos os profissionais da área ganham uma bolsa durante sua participação de montagem e apresentação do mesmo, do figurante ao ator principal que geralmente é um ator conhecido nacionalmente e que é contratado pelo Estado para representar o papel de Cristo, durante as apresentações da Semana Santa. Que Uma Cruz para Jesus alcance mais uma vez o sucesso que merece. 

 

terça-feira, 24 de março de 2026

DIA INTERNACIONAL DO TEATRO

 

 

     Na próxima sexta-feira, 27 de março, será comemorado o dia internacional do teatro.     Todos sabem que o teatro é uma arte exclusivamente coletiva, visto que é resultado da união de várias artes, como: dança, música, canto, fala, movimento, literatura, artes visuais, arquitetura, circo, mímica, pantomima, cinema, entre outras. Todavia, na manifestação teatral, encontramos várias formas de expressão: expressão gestual; expressão verbal; expressão visual; expressão musical e expressão escrita. Mas há uma inquietação essencial, no que diz respeito aos principais elementos que constituíram a base fundamental do teatro grego.

     Em relação a essa questão, fica claro que esse alicerce remoto gira em torno de duas artes distintas: a música e a dança; como também poderia ter sido a fala, levando-se em consideração a atitude de Téspis, quando, pela primeira vez, falou no Culto a Dioniso, em primeira pessoa, a seguinte frase: “- Eu sou Dioniso”. Além de ser considerado o primeiro ator, com esse gesto e esse ato, ele também é considerado como o impulsionador da literatura ocidental. No entanto, há muitas controvérsias...!  Enquanto alguns autores defendem a dança, como princípio fundamental da origem do teatro, outros defendem a música. Sabe-se que muitos povos primitivos já praticavam a dança em suas manifestações comemorativas e religiosas, em seu livro “O Teatro Grego”, António Freire afirma que: “As primeiras sociedades primitivas acreditavam que a dança imitativa influenciava os fatos necessários à sobrevivência através de poderes sobrenaturais, por isso alguns historiadores assinalam a origem do teatro a partir desse ritual. ”

     Etimologicamente o termo teatro deriva do latim theatrum e do grego theatron, que dá ao vocábulo o sentido de miradouro, praticamente, lugar de onde se vê, lugar para olhar, de theasthai, “olhar”, mais – tron, sufixo que denota “lugar”. Entendendo-se dessa maneira, que o sentido primitivo da palavra “teatro”, estava relacionado estritamente com a ideia da visão, lugar de contemplação. Esse verbete, que significava o prédio onde são realizados espetáculos, posteriormente, se tornou mais amplo e a ter maior alcance, com vários sentidos conotativos, designando peças, produção, preparação de uma peça teatral em geral, edifício, entre outros.

     Sem embargo, esse teatro do qual conhecemos na atualidade, originou-se basicamente de três festividades gregas, às quais, apresentavam características especificas com seus cultos e seus mistérios: a) dos mistérios de Delos; b) dos mistérios de Elêusis; e c) dos mistérios do culto ao deus Dioniso. Tanto em Delos quanto em Elêusis, sempre havia comemorações e festividades dedicadas a Dioniso. Todavia, acredita-se que, segundo estudos históricos e antropológicos já realizados, o culto ao deus Dioniso, é a mais provável hipótese e o principal vetor do surgimento do teatro. 

     Em função dessas atividades teatrais persistirem até nossos dias, foi que em 1961, o Instituto Internacional do Teatro da UNESCO, órgão das Nações Unidas, voltado para a educação, ciência e cultura, resolveu criar uma data dedicada às atividades culturais ligadas à representação, durante o seu IX Congresso Mundial, em Viena, Áustria. Portanto, em função da inauguração do Teatro das Nações, em Paris, França, em 27 de março de 1962, tem sido celebrado o Dia Internacional do Teatro. A data 27 de março, assinala também a inauguração das temporadas internacionais no referido teatro.

 

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

DIREITA E ESQUERDA

 

 

     Por que quando se trata de política, todos enfocam dois pólos distintos, ou seja, direita e esquerda? Esses termos passam a ter sentido na política, a partir de 1789, com a Revolução Francesa, em função da forma física e espacial da então, Assembleia Nacional Constituinte, daquele momento. Durante a Revolução Francesa, os dois principais grupos políticos que fizeram parte do referido processo, foram os jacobinos e os girondinos, momento em que ainda não havia essa dicotomia política. Portanto, logo após a Queda da Bastilha, foi preciso instituir a primeira sessão da Assembleia Nacional Constituinte, e ficou decidido que os jacobinos sentariam à esquerda do Presidente da referida Assembleia, e os girondinos sentariam à direita.

     Acontece que os jacobinos eram grupos progressistas e desejavam mudanças radicais como a extinção da monarquia, mudanças sociais e maior igualdade social. Eram defensores da execução do rei Luís XVI, como também da centralização do poder, os quais, utilizaram medidas violentas para garantir a revolução que era liderada por Robespierre. Historicamente defendem intervenção estatal para proteção social e redução das desigualdades. Por outro lado, os girondinos, os quais, sentaram à direita do Presidente da referida Assembleia, defendiam a manutenção da monarquia, com a perspectiva de que depois surgisse uma república moderada, com a permanência da propriedade privada e descentralização política. Defendiam tradições, hierarquias sociais e liberais econômicos. Também eram contra a radicalização e a influência popular nas políticas sociais.

     Como se percebe, inicialmente, esses termos surgiram em função de um espaço físico, mas, com o passar dos tempos, evoluiu para outros significados, como por exemplo, ideias opostas em função de ideologias políticas. Dessa forma, com a popularização desses termos, a política consolidou-se em direita e esquerda, como termos ideológicos, que passaram a definir o partido de direita, conservador moderado, que deseja que a ordem vigore, e o partido da esquerda, progressista radical, que deseja mudanças radicais na sociedade. Essas expressões vigoram até a atualidade nas sociedades contemporâneas. Entretanto, mais termos foram surgindo ao longo do tempo, como: centro, centro-esquerda, entre outros.

    No Brasil, podemos citar as seguintes correntes: a direita, que foca em liberdade individual, livre mercado, propriedade privada e a manutenção das hierarquias sociais; a esquerda, que prioriza a igualdade social, justiça social, e maior intervenção do estado na economia, com uma visão progressista que inclui o apoio às minorias e a cooperação internacional; o centro, que busca equilíbrio conciliando pautas de mercado sem ideologia radical; e o centro-esquerda, que combina valores igualitários com pragmatismo, defendendo justiça social num sistema livre de mercado.

segunda-feira, 9 de março de 2026

LÉLIO SILVA

 

 

     Todos já ouviram falar da unidade de saúde Lélio Silva. Ele era médico muito conhecido no Amapá desde a década de 1940. Em 16 de fevereiro de 1950 houve um naufrágio no rio Cassiporé em função da pororoca, em que faleceu o Dr. Lélio Gonçalves da Silva, que na ocasião era Diretor e médico do Posto Misto do Oiapoque.  A equipe de saúde que estava atendendo ribeirinhos do rio Cassiporé, estava se organizando para retornar à Macapá. De acordo com as notícias, o médico preferiu esperar passar a pororoca, porém, o piloto o barco, decidiu sair mais rápido para chegar mais cedo a Macapá.

     Na embarcação, estava o médico, mais dois senhores e uma enfermeira muito conceituada na região. O problema é que num determinado local tiveram que enfrentar a pororoca, na ocasião, o piloto não conseguiu dominar a embarcação e infelizmente, o barco foi para o fundo do rio.  Este foi o naufrágio, no qual, faleceu o Dr. Lélio Silva. Em homenagem à sua dedicação na área da saúde no Amapá, colocaram seu nome numa das unidades de saúde do município de Macapá.

     Apesar de boa parte da população já ter ouvido falar sobre Dr. Lélio Silva, acontece que este evento também foi transformado em texto dramatúrgico. Essa outra homenagem foi realizada por um conhecido radialista; pelo rádio ator Paulo Roberto, que na época trabalhava na rádio difusora de Macapá. Este fato pode ser localizado no Jornal Amapá, Ano 6, número 269, Macapá, 06 de maio de 1950, onde enfoca que: inspirado na dedicação e espírito de sacrífico do jovem e pranteado clínico, o conhecido rádio-ator Paulo Roberto, organizou e transmitiu através do seu popular programa <<Obrigado Doutor>>, que a Rádio Nacional irradia todas as terças-feiras, às 20 horas, a peça intitulada << A Tragédia do Amapá>>.     

     O referido programa intitulado “Obrigado Doutor” tinha como patrocínio o Leite de Magnésia da Phillips. Dr. Lélio Silva era médico. O texto foi escrito em sua homenagem pelo rádio ator Paulo Roberto que exercia suas atividades na Rádio Nacional, que na atualidade é conhecida como Rádio Difusora de Macapá.

     Embora tenhamos conhecimento da apresentação dos “Mouros e Cristãos” em Mazagão Velho, que apesar de ter sido apresentada por mais de dois séculos, considera-se ainda como literatura oral, tendo em vista que não há um texto propriamente dito, mas sim, um roteiro. No caso do texto “A Tragédia do Amapá”, resta dizer que, até que novos pesquisadores localizem outros textos anteriores, cronologicamente considero este, como o primeiro texto dramatúrgico do Amapá, que apesar de ainda não ter sido transformado em espetáculo, se tornou rádio novela na década de 1950. Em relação a isso, venho pesquisando e trabalhando para juntar esse quebra-cabeça, visto que esse texto foi publicado por partes no Jornal Amapá, naquela época, desta forma, o meu objetivo é conseguir juntar essas partes para chegar ao texto completo.

 

terça-feira, 3 de março de 2026

TEATRO DE AMADORES DO AMAPÁ

 


     Desde o ponto de partida da montagem de “Pluft, o Fantasminha” pela União de Estudantes Secundaristas do Amapá, com direção de Cláudio Barradas, em 1959, o teatro do Amapá conquistou sua progressiva e crescente ascensão. No início da década de 1960, o teatro em nossa região, tem novo impulso, quando do surgimento de um dos mais importantes grupos de teatro da época. Isto fica evidente, com a fundação do Teatro de Amadores do Amapá, em 10 de setembro de 1960. Como um verdadeiro mecenas, o poeta Alcy Araújo, que tinha sido um dos principais incentivadores da arte no período Janary, já na década de 1960 passou a fazer parte do Teatro de Amadores do Amapá. Sobre Alcy Araújo, localizei citação no Jornal A Gazeta, no suplemento camarim, página F4, que foi publicado em homenagem ao poeta, de 5 de agosto de 2012.  Alcy Araújo amava todas as artes. Era um apaixonado pelo teatro. Tanto que foi por iniciativa dele que os amapaenses puderam assistir a peça “Deus lhe Pague”, aliás esta foi a primeira peça teatral trazida para o Amapá. Foi apresentada no Cine Territorial. Alcy fazia parte do “Teatro de Amadores do Amapá”, fundado em 1960. O Teatro das Bacabeiras existe por causa dessa luta. Durante anos Alcy tentou convencer os governantes da necessidade do Amapá possuir um teatro, fez estudos, projetos e tudo o mais. Até que conseguiu e aí está o Teatro das Bacabeiras.

     Fundado em 10 de setembro de 1960, segundo os Estatutos do Teatro de Amadores do Amapá, o mesmo era composto pelas seguintes personalidades: Sebastião Ramalho da Silva (Diretor Geral); Miracy Maurício Neves (1º secretário); Ronele Sousa (2º secretário); João Baptista T. de Arruda (1º tesoureiro); Ester da Silva Virgolino (2º tesoureiro); Mário Quirino da Silva (diretor de cena); Luiz Ribeiro de Almeida (diretor social); Ivaldo Veras (diretor de patrimônio). O Conselho Fiscal era composto por: Tereza Torres, Mário Simões Pires, Mário Barbosa e Clodoaldo Nascimento. Compunham o Conselho Consultivo: Creuza Bordalo, Aracy de Mont’Alverne, João Telles e Antônio Munhoz Lopes. Entre os sócios fundadores estavam: Sebastião Ramalho da Silva (economista, brasileiro, solteiro, pernambucano); Dr. Antônio Munhoz Lopes (advogado, brasileiro, paraense, solteiro); Hilkias Alves de Araújo (brasileiro, casado, mecanógrafo); Zildekias Alves de Araújo (brasileiro, solteiro, comerciário); Eunice Costa (desquitada, brasileira, técnica em alimentação); Hodias Alves de Araújo (brasileiro, solteiro, estudante); Eduardo de Lyra Ferreira (casado, brasileiro, industriário); Erilo de Lyra Ferreira (brasileiro, solteiro, industriário); Vicente de Paula Pereira de Sousa Filho (brasileiro, comerciante, casado); Raimundo Nonato Paes de Freitas (brasileiro, solteiro, estudante); Terezinha de Jesus Torres (brasileira, solteira, professora); Raimundo Donato dos Santos (brasileiro, casado, professor); Lygia Maria da Silva Cruz (brasileira, solteira, professora); Clívia Nascimento (brasileira, solteira, professora).