Contatos

palhanojp@gmail.com - palhano@unifap.br

segunda-feira, 8 de junho de 2026

TEATRO E SEMIÓTICA

 

   

     Além de objetos reais, no palco não se utilizam apenas acessórios e cenários, que são meramente signos, no entanto, o público não capta essas coisas reais como se fossem reais. Por exemplo, se um personagem representando um homem rico, usa um anel de brilhante, o público o considera como um signo de grande riqueza e não se preocupa se a pedra é verdadeira ou falsa. Da mesma forma que no palco, tanto um refresco quanto um suco autêntico podem representar um suco.

     No teatro Chinês, o cenário é complementado em sua elaboração com elementos específicos ao desempenho do intérprete. Nesse tipo de teatro os mais importantes signos são a mesa e a cadeira, quase nunca ausentes do palco chinês. Por exemplo, se a mesa e a cadeira estão dispostas da maneira usual, então o cenário é um interior. Contudo, uma cadeira que se apresenta com o lado sobre o chão, significa um aterro ou fortificação; virada, simboliza uma colina ou montanha; de pé sobre a mesa, uma torre de cidadela.

     Os japoneses são mestres nessa maneira de criar um cenário.  Para criar um rio, basta apresentar um cartaz trazido à cena com a palavra “rio” escrita para sugerir o ambiente da cena a ser representada. Para Sábato Magaldi, “no espetáculo, o cenário e a vestimenta situam o ator no espaço, e são essenciais à caracterização da personagem.”

     O drama religioso da Idade Média teve em seu início o interior da igreja como cenário. Passou a ser apresentado no pórtico dos templos. Em seguida, os mistérios e moralidades passam a ser representados nas praças; a partir dai, pela necessidade cria-se o cenário simultâneo, em que diversas indicações, muito sumárias, se justapunham ao longo de um estrado. Um simples portão sugeria uma cidade, uma pequena elevação simbolizava uma montanha e assim por diante. No canto esquerdo do estrado, uma enorme boca de dragão servia para a passagem dos demônios e a ida para o inferno dos pecadores irremissíveis. Na parte direita, acima do chão, situava-se o paraíso, lugar de felicidade eterna.

     No teatro medieval, em função do sistema de palcos móveis que era geralmente construído sobre carretas, os cenário passaram a ser elaborados de materiais perecíveis, tais como tecido ou madeira, atendendo de certa forma as especificidades requeridas pelas peças encenadas. No teatro Elisabetano, passou-se a ter novamente a ideia do palco como uma estrutura fixa. Uma construção de madeira que servia de fundo para os vários ambientes. É muito simples para o público captar de forma emotiva e psicológica as ideias e mensagens que há num espetáculo, mas por outro lado, quem é especialista no assunto sabe muito bem que teatro é pura semiótica. Num espetáculo só se coloca em cena objetos que tenham total relação com o desenrolar da peça, qualquer objeto que não tenha essa relação estreita com o desenrolar da peça, deverá ser retirado de cena, para não atrapalhar na ação dos atores, como também no enredo da peça. Um espetáculo teatral é um resumo de símbolos que facilitam a compreensão do público em relação a história que está sendo contada.

 

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

HEGEL E BRECHT

 

                                               

 

     A poética marxista de Bertolt Brecht não se contrapõe a uma ou outra questão formal, mas sim, à verdadeira essência da poética idealista hegeliana, ao afirmar que o personagem não é “sujeito absoluto” e sim “objeto” de forças sociais.

     A análise lógica da ação dramática resume-se sempre numa oração simples com sujeito, predicado verbal e objeto direto, vejam a frase que segue: “Trump invadiu o Irã”. Aqui, o sujeito hegeliano é Trump, cujos movimentos interiores de seu espírito se exteriorizam de forma a ordenar a invasão do Irã. “Invadiu” é o predicado verbal e “Irã” é objeto direto.

     Na análise lógica da ação dramática segundo a poética marxista e o teatro épico de Brecth, a referida frase deveria conter uma oração principal e uma oração subordinada e nesta, o personagem “Trump” continuaria sendo sujeito. Sendo que o sujeito da oração principal seria outro, por exemplo: “Forças econômicas determinaram que o presidente Trump invadisse o Irã”. Como vemos, na poética brecthiana, ao contrário do que parece verdadeiro, são as forças econômicas que aturam forçando com que Trump tomasse tal decisão.

     A oração principal nesta poética será sempre uma inter-relação de forças econômicas. No entanto, o personagem não é livre completamente, mas sim, objeto-sujeito. Como podemos observar, na poética idealista o pensamento condiciona o ser social e na poética marxista o ser social é quem condiciona o pensamento.

    Enquanto que para Hegel, o espírito cria a ação dramática, para Brecth, a relação social do personagem é quem cria a ação dramática. Se por um lado, Hegel propõe o personagem como “sujeito absoluto”, por outro Brecth o propõe como “objeto”, como porta voz de forças econômicas e sociais.

     Diferentemente da dramaturgia, o teatro é completamente ação que, para Hegel deve ser conduzida a um determinado ponto onde possa ser restaurado o equilíbrio. O sistema de força tese-antítese deve ser levado a uma síntese, que em teatro só pode ser feito de duas maneiras: morte de um dos personagens irreconciliáveis (tragédia), ou arrependimento (drama) romântico ou social, segundo o sistema hegeliano. Em Brecth são considerados outros fatores de extrema importância para o desenrolar da trajetória do personagem. Poderemos observar essa situação em algumas obras deste último autor como: Mãe Coragem ou Os Fuzis da Senhora Carrar. Nesses espetáculos os personagens principais vão criando consciência de sua situação política e social, até definir sua trajetória enquanto ser social para poder enfrentar o sistema social ao qual está submetido.

     Portanto, é de fundamental importância que artistas das artes cênicas conheçam e entendam essas duas faces da moeda: o teatro dramático e o teatro épico, para poderem realizar suas montagens a partir de fundamentos teóricos e filosóficos e práticos, em busca da melhoria de suas montagens cênicas.   

 

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

ATO DE ESCREVER

 

 

     Desde quando ingressei na universidade, no ano de 1980, com o objetivo de realizar o antigo curso de Educação Artística, comecei a me envolver com a produção cultural e especificamente ao teatro na capital da Paraíba. Isso aconteceu, em função dos espetáculos que eu já havia montado na cidade do interior. O movimento teatral era muito intenso na década de 1980, na capital da Paraíba. Foi nesse período que, sem nenhuma intenção, passei a escrever sobre os espetáculos que estavam em cartaz, nas três principais casas de espetáculos da cidade de João Pessoa. Num determinado, momento resolvi socializar meus escritos com os diretores desses espetáculos, passando o material escrito para que eles repassassem e pudessem discutir com os demais atores de cada grupo teatral. Época em que tudo era digitado em máquina de escrever.

     Essa corrente foi crescendo ao ponto em que vários diretores me convidavam para assistir aos seus espetáculos teatrais, na perspectiva de que eu escrevesse sobre cada montagem. E assim o fiz! Depois de certo tempo, em momentos esporádicos, eu já conseguia publicar alguns artigos meus, e isso aconteceu nos principais jornais diários da Paraíba, naquela década, como: Jornal O Norte, Jornal A União e Jornal o Correio da Paraíba. Isso foi formando um grupo de leitores e pessoas que apreciavam meus artigos. E foi assim, que certo dia, um desses diretores de teatro, que também era meu professor na universidade, me colocou uma proposta um tanto irrecusável. Ele estava devolvendo sua coluna semanal, e na ocasião me ofereceu para que eu pudesse mantê-la no semanário. E foi dessa forma, que iniciei a minha primeira coluna no Jornal O Combate, que era um hebdomadário.

     Passei alguns anos escrevendo e mantendo essa minha primeira coluna naquele jornal. Quando passei a residir em Macapá, inicialmente comecei a escrever para o Jornal do Dia, como também, Jornal Diário do Amapá, e ainda, Jornal O Liberal. Mas preferi ficar no Jornal A Gazeta, no qual, passei a escrever sequencialmente há 22 anos, ou seja, desde o ano de 2004. Gosto de escrever artigos dos mais variados temas, mas me detenho a escrever principalmente sobre a arte em geral e sobre o teatro em particular. Nesses últimos 22 anos esses artigos já me renderam dois livros: Artes Cênicas no Amapá – Teoria, Textos e Palcos; e Arque com Arte – Arque com Arte, Cultura, Arte e Educação no Amapá.

     Na sala de aula, busco incentivar meus alunos em relação à escrita. Mas, uma questão fundamental para quem deseja escrever, é a leitura constante e presistente.  A leitura é o principal pré-requisito para quem deseja escrever. Sendo que, essas duas atitudes estão intrinsecamente relacionadas. Comecei a escrever poesias aos 15 anos de idade. Li autores clássicos como: José de Alencar, Guimarães Rosa, Menotti del Picchia, Graça Aranha, Eça de Queiroz, José Lins do Rego, Aluísio Azevedo, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa, entre outros. Atenção: viver sem ler é perigoso, te obriga a crer no que te dizem. Segundo Einstein, tudo aquilo que o homem ignora, não existe para ele. Por isso, o universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber.

  

segunda-feira, 18 de maio de 2026

SALVE BACABEIRAS

 


     Ultimamente vem acontecendo em nossa cidade, uma polêmica em função do anúncio de que o Teatro das Bacabeiras teria seu nome modificado, mudado ou complementado. Dessa forma, deixaria de ser Teatro das Bacabeiras, para Teatro das Bacabeiras Amadeu Lobato. É bom lembrar que historicamente, o Teatro das Bacabeiras surgiu em função da luta do povo amapaense, por um lado, pessoas influentes na sociedade local como: o poeta Alcy Araújo, professor Antônio Munhoz Lopes, professora Zaide Soledade entre tantos outros, por outro lado, a classe teatral que vinha produzindo suas peças durante a década de 1980, e que também lutavam para que o Amapá construísse sua casa de espetáculos. Entre esses artistas, podemos citar aqui, o próprio Amadeu Lobato, Sol Pelaes, Richene Amim, Jackson Amaral, Disney Silva, Andréa Lopes, Waldez Mourão, entre outros, e nem por isso, nenhum desses ilustres nomes foram contemplados para serem gravados no frontispício daquele edifício teatral.

     Ele nasceu mesmo, como Cineteatro das Bacabeiras, e depois de certo tempo, passou a ser simplesmente Teatro das Bacabeiras, representando a cultura, o povo amapaense, os artistas e a região amazônica, deixando de ser composto e particular, para se transformar em simples e universal. Se olharmos para o passado distante, da história do teatro do Amapá, são muitos os nomes que poderiam ser lembrados, principalmente a partir de 1948, quando surge o Teatro do Estudante do Amapá com célebres artistas como: Mário Quirino da Silva, Papaléo Paes, Lizete Aimoré, Nazí Gomes, Raimundo Barata, Ida Aimoré, Vilela Monteiro; do Teatro de Amadores do Amapá, que surgiu no ano de 1960, como: Sebastião Ramalho da Silva, Ester da Silva Virgolino, Ivaldo Veras, Luiz Ribeiro de Almeida, Creuza Bordalo, Aracy de Mont’Alverne, Hilkias Alves de Araújo, entre outros.

     Nesses últimos 31 anos acompanhei pari passu o trabalho de Amadeu Lobato, e observo que ele possuía características relacionadas à grande elenco, prestigiado público e espaços abertos. É de praxe que suas encenações e montagens, costumeiramente foram voltadas para a rua, para locais abertos, para grandes espaços ao ar livre, e principalmente em teatros de arena, somando-se a isso, sua saga de 46 anos de montagem do espetáculo Uma Cruz para Jesus, que a todo momento foi representado em espaço aberto, como o teatro de arena. Já o palco italiano foi só um detalhe durante sua vida dedicada ao teatro amapaense.

     Esclareço aqui, que não sou contra a possível mudança ou reajuste do nome Teatro das Bacabeiras, para Teatro das Bacabeiras Amadeu Lobato, sem sombra de dúvidas, mas durante o percurso de sua vida artística, fica claro que o teatro à italiana nunca foi a casa de Amadeu Lobato, neste caso, seria mais sensato homenageá-lo nomeando o espaço externo norte da Fortaleza de São José de Macapá, onde por muitos anos ele apresentou a peça Uma Cruz para Jesus, de TEATRO DE ARENA AMADEU LOBATO.  

segunda-feira, 11 de maio de 2026

DIA DAS MÃES

 

 

     Hoje, segundo domingo do mês de maio é comemorado o dia das mães, dia de muita importância para as famílias como um todo; momento em que a população brasileira homenageia as mães. Também é um período muito significativo para as transações comerciais, em função da grande procura de presentes para as homenageadas. É um domingo muito especial, para quem tem a oportunidade de estar pessoalmente com sua querida mamãe.  

     Minha mãe tem uma longa história de vida; como meus avós eram agricultores, foi criada em terras alheias e sítios inóspitos, nas cercanias da cidade de João Pessoa, mas, apesar disso, conseguiu concluir o ensino primário. Mesmo com sua vida pacata, gostava de estudar e dava muito valor ao conhecimento. Só deixou a zona rural, depois que casou e foi morar numa pequenina cidade com o nome de Cabedelo, na Paraíba.

     Enquanto seu esposo trabalhava na Rede Ferroviária Federal, ela se limitou aos quatro recantos da casa, e por um longo período de tempo, se dedicou especificamente, às responsabilidades das atividades domésticas, preparando a comida e cuidando dos filhos: sete no total. Quando começou a surgir momentos difíceis e crises na economia doméstica, resolveu, de certa forma, se desvencilhar de tudo isso, e passou a costurar. Era exímia costureira.

     A partir desse trabalho, ajudou nas despesas domésticas, e, direta e indiretamente, a todos de casa. Tinha vários clientes, na vizinhança e de outros recantos da cidade. O mais interessante, era que morávamos defronte a um grande espaço aberto, que se tornou o local onde se armavam os circos que chegavam à pacata cidade. Resultado: os artistas desses circos, também contratavam minha mãe, como costureira. Enquanto o circo estivesse na cidade, ela criava, costurava, modificava, fazia de tudo, para aproveitar e reaproveitar todos os figurinos daqueles artistas mambembes. 

     Esse momento foi fundamental para minha vida: porquê? Porque, todas as vezes que ela entregava uma roupa pronta, ao pessoal do circo, por um lado, eles a pagavam em moeda corrente do país, e por outro, também a presenteava com alguns ingressos para ter acesso aos espetáculos do próprio circo. E ela recebia ingressos para adultos e para crianças. Esses fatos, interferiram beneficamente em minha vida, tendo em vista que, todos os finais de semana, passava a assistir aos espetáculos matinées dos circos, quando sempre terminavam com uma dramatização clássica, como “chapeuzinho vermelho”; “Cinderela”, “Branca de Neve e os Sete Anões”, entre outras histórias infantis. Em função disso, me vem toda a relação que tenho com o teatro, com a educação, com minha profissão como professor de teatro; como também, com a arte em geral.

     Mesmo sendo agricultora, nunca deixou de me incentivar aos estudos, e isto foi de fundamental importância para o meu desenvolvimento profissional. Sempre dizia que o estudo era o melhor caminho para o pobre, e para quem gostaria de conseguir ser gente um dia na vida. À minha mãe, Hilda Palhano (in memorian), agradeço de todo meu coração, tudo o quanto ela me incentivou para que eu pudesse conquistar meus sonhos e organizar minha vida, como cidadão. A vida que tenho hoje e o profissional que sou, agradeço à minha mãe. Parabéns a todas as mães do Amapá e do Brasil.

domingo, 3 de maio de 2026

JOVINO DINOÁ

 


     Localizada em Macapá, todos conhecem a famosa rua Jovino Dinoá, extensa artéria que corta diversos bairros do centro da cidade. Importante via com mão única, que tem seu início no bairro do Araxá, na zona sul, e se estende até a Av. Piauí, no bairro do Pacoval, com placas sinalizadas com velocidade máxima de 60 km/h. Rua muito utilizada por moradores da zona sul, para quem segue em direção à FAB.

     Jovino de Albuquerque Dinoá nasceu em 10 de setembro de 1883, na cidade de Cabaceiras – Paraíba, hoje conhecida como a Roliúde Nordestina, visto que vários filmes já foram gravados naquela cidade, inclusive o Auto da compadecida, de Ariano Suassuna.  Ele era filho do casal, Jovino Limeira Dinoá e Ângela Leopoldina de Albuquerque Dinoá. Seu pai, nasceu em 25 de janeiro de 1838, também na cidade de Cabaceiras, e é considerado o primeiro prefeito da antiga cidade de João Pessoa, quando foi nomeado para esta função, pelo então, presidente do estado, Álvaro Lopes Machado, ato publicado no Jornal A União, do dia 14 de fevereiro de 1896. Em sua gestão, foram implantados os primeiros bondes de tração animal, na cidade de João Pessoa – Paraíba. Inclusive, Jovino Limeira Dinoá, seu pai, faleceu em Macapá, quando de visita a seu filho, em 30 de agosto de 1910, com 72 anos.

     Seu filho, Jovino de Albuquerque Dinoá, mudou-se para o extremo norte do Brasil, e em 1899, já era funcionário dos Correios de Belém do Pará. Era Casado com Joana Pantoja Dinoá, de tradicional família do Pará. Em função de publicação no Jornal Diário da União, de 18 de julho de 1912, transferiu-se para Macapá, que na época pertencia ao estado do Pará, para exercer a função de Coletor das Rendas Federais em Macapá. Cargo que exerceu até dezembro de 1936, quando se aposentou, por decreto publicado no Diário Oficial de 10 de dezembro de 1936.

     Jovino Dinoá, deixou seu legado e grande contribuição para a sociedade amapaense; foi Tenente-Coronel da Guarda Nacional, como professor e intelectual exerceu atividades de ensino, teve papel fundamental na comunicação da região. Em parceria com Padre Júlio Maria Lombaerd, em 1915, fundou o jornal “O Correio de Macapá”, que é considerado o segundo jornal mais antigo da região, no qual, discutia assuntos relacionado à história de Macapá e à sociedade amapaense. Figura muito ativa na sociedade do início do século XX, em 1911, esteve envolvido em processos judiciais com o comerciante Leão Zagury.

     Coronel Jovino de Albuquerque Dinoá foi ilustre personagem histórico das terras tucujus, foi ele quem integrou em 1934, a comissão organizadora do primeiro Círio de Nazaré de Macapá. Ele sempre será lembrado como um dos intelectuais e "filhos da terra" que contribuíram para a identidade e história de MacapáSeu legado está por aí, em vários recantos de nossa cidade. Seus préstimos estão presentes em nossos dias, a partir dessa grande homenagem que é a rua Jovino Dinoá.  

segunda-feira, 27 de abril de 2026

TRAVESSIAS AMAZÔNICAS

 

 

     Na última segunda-feira, dia 20, cumpri com mais um rito e participei de um milenar ritual que sempre me conforta, que foi me dirigir a uma casa de espetáculos, desta vez, o Teatro Municipal de Macapá, para contemplar a peça teatral intitulada, “Travessias Amazônicas”, do Projeto Travessias Amazônicas, que vem sendo concretizado pelo Movimento Cultural Desclassificáveis, que tem à frente meu amigo, artista, ator e diretor Paulo Alfaia. Ele, que vem há muitos anos, sedimentando seu trabalho a partir de investigações artísticas aprofundadas, e, em consequência, contribuindo imensamente com a prática teatral no estado do Amapá.

     Como em todas suas experiências criativas e artísticas, o Mestre Alfaia, não mede esforços em relação aos desafios que terá que enfrentar ao se deparar no caminho do desconhecido, o que sempre nos apresenta uma mise en scène. Num de seus espetáculos, “Curupira, Um Ser Inesquecível”, que desde 2008, vem sendo apresentado no Amapá, ele focaliza sua preocupação em estudar a Amazônia brasileira, com um olhar para as lendas e os mistérios da imensa floresta, na perspectiva da proteção e valorização da cultura local. Espetáculo atemporal que ainda hoje vem sendo apresentado tanto no Amapá como em outras latitudes.

       Lendas e Mitos como o Curupira, tem sua origem com os Faunos, no antigo Egito; com os Pãs e os Sátiros, na Grécia Clássica, e com os Faunos também em Roma. Sem dúvida, a associação entre o Curupira e os Sátiros é muito próxima, e talvez, tenha sido em função disso, que o Curupira tenha resolvido sussurrar no ouvido de Paulo Alfaia, para que ele transcendesse e desbravasse novas travessias amazônicas, independente de fronteiras terrestres, florestais, políticas, culturais ou sociais. O mais interessante é que Paulo Alfaia, ao entender a mensagem do seu avatar, idealizou e concretizou o Projeto Travessias Amazônicas, até chegar à montagem do espetáculo com o mesmo título.

     “Travessias Amazônicas” é um espetáculo de arena que traz em sua dramaturgia questões políticas, sociais, religiosas e antropológicas, entre fronteiras políticas e terrestres, criadas pelo homem moderno. Tem por base, pesquisa e criação da obra “Un Rien de Pays”, do dramaturgo guianense Élie Stephenson. Surgiu a partir de residências artísticas e estéticas, num intercâmbio cultural entre o Movimento Cultural Desclassificáveis – Amapá - Brasil, e Théâtre de Macouria e Conservatório L’Encre, estabelecidos em Cayenne, Guiana Francesa.

     A sonoplastia, que poderia ser ao vivo durante todo o espetáculo, criando assim um veio estético do início ao final da encenação, repentinamente é pressionada por sonoplastia mecânica, o que, a mon avis, interfere negativamente no desenrolar da peça. Por sua vez, além de não ajudar muito no espetáculo, a iluminação tem muito do improviso. E aqui não é um problema do espetáculo em si, mas, uma ineficiência do próprio edifício teatral, que não possui aparato de iluminação à altura de sua estrutura física. É urgente a necessidade de um aparato de iluminação de boa qualidade, tanto para o palco de arena como para o palco à italiana.

     Já os figurinos precisam ser estudados de forma mais apurada, e que enfoquem principalmente, questões das culturas dos lados: Sul e Norte do rio Oiapoque, brasileira e francesa, respectivamente. Quanto às projeções que enfocam imagens variadas, que se coadunam com o tema da peça, mesmo que não seja novidade, são bem-vindas. Lembrando que o diretor alemão Erwin Piscator, já na década de 1920, é considerado na história do teatro, como o primeiro a explorar em seus espetáculos, projeções cinematográficas, de maneira orgânica e política.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

FICÇÃO E REALIDADE

 

                                    

 

 

     A empatia é a relação emocional que se estabelece entre o público e os personagens de um determinado espetáculo, que pode ser teatral, novela ou cinematográfico, e que provoca fundamentalmente a delegação de poderes do público em relação aos personagens, ou seja, tudo o que acontece com o personagem em cena, parece acontecer também com o espectador, tendo em vista que tudo o que pensa o personagem, o público pensa conjuntamente com ele, segundo sua trama e trajetória.

     Para Aristóteles, a empatia consiste numa relação emocional que se relaciona de duas emoções básicas: a piedade e o terror. Piedade que nos liga a um personagem que sofre um destino imerecido, como é o caso de “Édipo Rei”. Terror que se refere ao fato de que o personagem sofre as consequências de possuir uma falha (trágica e social), que nós igualmente a possuímos.

     No caso de um herói como o super-homem, por exemplo, o espectador assume uma atitude passiva, acompanhando paralelamente suas ações e delegando poderes ao seu ídolo. Nesse tumulto de paixões e ações humanas que constituem a obra dramática, sucede o repouso, este repouso refere-se à empatia propriamente dita.

     Para Brecht, uma peça de teatro não deve terminar em repouso, numa trajetória diferenciada de Aristóteles, ela (a peça) deve mostrar os caminhos pelos quais se desequilibra a sociedade e, por outro lado, indica a busca de uma atitude e ação em relação a esse fato. Um teatro que pretende educar os transformadores da sociedade não pode terminar em repouso, não deve restabelecer o equilíbrio, mas usar da dialética para buscar um denominador comum.

     Enquanto Hegel defende uma inquieta sonolência ao final do espetáculo, Brecht deseja que o espetáculo seja o início da ação, em função disso no teatro brechtiano cada cena torna-se independente uma da outra, evidenciando: início, meio e fim. Neste caso específico, o equilíbrio deve ser buscado com a transformação da sociedade.

     A empatia consiste em justapor duas pessoas (uma fictícia = personagem, e outra real = espectador). Nesse universo, de forma sutil, a empatia faz com que o espectador seja guiado pelo personagem, levando o homem a abdicar em favor da imagem e dos poderes de seu personagem preferido, semelhante ao que acontece entre a torcida e os jogadores de futebol e a relação do homem com seus deuses.

     Assim, o espectador (público), que se encontra numa situação vital e real, elege psicologicamente seu personagem em favor de seus atos e suas atitudes. Esta relação é estritamente psicológica. Já com o personagem é diferente, visto que o mesmo ao estar numa situação fictícia e irreal, em definitivo, conquista empaticamente o público.

     Isto significa dizer que a justaposição desses dois universos (real e fictício) produz igualmente outros efeitos agressivos, isto é, o espectador vivencia a ficção e incorpora valores da ficção naquele momento que pensa ser real. Assim o homem real e vivo assume como realidade e como vida o que lhe é apresentado na obra de arte, sem perceber que arte é pura ficção.

 

 

 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

MEIO DO MUNDO

 

 

     O entorno do marco zero do equador se tornou um dos principais pontos de encontro dos amapaenses como também de turistas que visitam nossa querida cidade. Naquele espaço urbano, em meio à linha do equador, o complexo do marco zero concentra três importantes monumentos: o Marco Zero do Equador; o Sambódromo complementando-se com a Cidade do Samba e o Estádio Milton de Souza Corrêa, conhecido popularmente como Estádio Zerão.

     Todos sabem que megaeventos e grandes shows musicais sempre acontecem no entorno do marco zero do equador. No sambódromo acontece um dos maiores eventos da cidade que é o desfile das escolas de samba no período de carnaval; e para que isso aconteça, torna-se prioritário grande movimentação no entorno daquela área urbana; área mais do que necessária para que cada evento, como o desfile das Escolas de Samba, por exemplo, tenha sucesso.

     Além do desfile de escolas de samba, durante os 365 dias do ano acontecem outros tantos eventos como o desfile das quadrilhas juninas entre vários shows de cantores famosos, tanto amapaenses como músicos conhecidos em todo o Brasil. Ademais, os encontros religiosos que sempre escolhem aquela área urbana para louvarem ao senhor. Na Rua Ivaldo Veras também existe a Cidade do Samba que, por sua vez, serve como suporte ao Sambódromo em suas atividades culturais.

     O mês de setembro sempre é bastante movimentado com os desfiles dos dias 07 e 13 deste mês, quando aquela área se reveste de desfiles de escolas estaduais e municipais, exército, bombeiros e polícia militar, entre outras agremiações. Tanto no desfile das escolas de samba como no desfile do dia 07 de setembro a parte de trás do Zerão fica repleta de bandas de música das escolas, todas esperando seu momento para entrar em cena. Neste caso, o barulho é imenso na espera de desfilar no sambódromo.

     Lá também está localizado o Marco Zero do Equador, com várias festividades inserindo aqui as principais que são os Equinócios: equinócio da primavera, em março e equinócio de outono, em setembro. Na maioria dos casos, há danças e exposições, o que transforma aquele ambiente num grande local de encontro das pessoas que aqui habitam. Ainda há os solstícios que não são muito divulgados, mas que acontecem em junho e dezembro.

     Junte-se a tudo isso o Estádio Zerão, querido por todos aqueles que são amantes do futebol. Tudo que se relacione ao futebol acontece no Estádio Zerão, que é o único estádio do Brasil onde uma equipe situa-se no hemisfério Norte e a outra no hemisfério Sul. E o que dizer dos circos que sempre chegam à cidade de Macapá, estão sendo instalados em novos espaços. Aquele espaço urbano completou-se depois da inauguração da Praça do Meio do Mundo. Ótimo local para relaxar um pouco.

 

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

ARTE E DRAMA

 

                                 

     Na arte dramática as palavras deixam de ser signos arbitrários para converterem-se em signos maturados de objetos arbitrários. Cada letra é um signo e ao juntarmos esses signos, deveremos seguir alguns códigos e regras juntando-as e formando as palavras que por sua vez são relacionadas a determinados objetos ou sensações.

     Aqui se pode encontrar a grande diferença entre dramaturgia e encenação. Se por um lado, a dramaturgia refere-se à literatura propriamente dita, por outro, a encenação por sua vez, está estritamente ligada ao movimento e à ação. Portanto, estamos enfocando aqui duas obras completamente distintas. A dramaturgia é literatura; a encenação é ação, é teatro.

     Na poesia dramática, o mais importante está nos gestos, ou seja, no movimento e na ação, como também nas palavras criadas para explicar esses gestos. O drama é a representação de uma ação concluída e não o começo de uma ação, como acontece com a poesia lírica. Se há signos linguísticos para a literatura, também há signos para a encenação de uma peça teatral, obviamente.

     O drama exige unicamente a unidade de ação; a unidade de tempo e de lugar. Paralelamente, o ator tem que saber e entender essas três dimensões. Quem sou eu? O que estou fazendo? E em qual momento histórico me encontro e em qual espaço geográfico estou realizando determinada ação?

     A arte é a imitação da realidade e cada obra de arte alcança seu autêntico espaço estritamente por meio do seu conteúdo e de sua estrutura visível, que se insere no seu ritmo intrínseco evocado por dominantes espaciais e temporais.

     Quando um ator se apresenta diante de um público ou fala diretamente (como no teatro dialético) esses recursos estilísticos não só modificam o espaço, mas toda a relação do significando com o significante. Certamente, que hoje se faz muito mais esforço para alcançar a relativa autonomia do teatro contemporâneo, sua funcionalidade e sua praticidade. Já não mais parece ser como um fragmento ilusório de vida, casualmente presenciado pelos espectadores.

     E a perfeição técnica não é mais um padrão de qualidade artística e sim pura e simplesmente o resultado da habilidade profissional em um terreno artístico determinado. Penso, porém, que as obras de arte plenamente originais são aquelas que conservam certo grau de excelência e atributos individuais dos artistas. No caso, a originalidade poderia ser equivalente a uma individualidade excepcionalmente criativa.

 

segunda-feira, 30 de março de 2026

TRIBUTO A AMADEU LOBATO

 

 

     Neste domingo de ramos inicia-se a Semana Santa. E no final desta semana teremos a apresentação do espetáculo Uma Cruz Para Jesus. E as apresentações desse ano serão em homenagem ao grande ator e diretor Amadeu Lobato, que nos deixou recentemente. Ele, que dedicou toda sua via ao teatro amapaense, estando à frente do espetáculo “Uma Cruz para Jesus”, nesses últimos 46 anos. Desta vez, a encenação completará 47 anos, de pura resistência teatral, à qual, tem à frente Natanhe Rogely, e como sempre, será apresentada na área externa da Fortaleza de São José de Macapá.

          A primeira apresentação que aconteceu no ano de 1979, teve apoio da Igreja Católica, e consequentemente, nesses quarenta e seis anos à frente, como diretor da Companhia Teatro de Arena, Amadeu Lobato transformou seu trabalho num espetáculo ontológico e clássico do Amapá. Uma peça em que não se paga ingresso, onde o acesso é livre para o público em geral, sem discriminação de cor, etnia, religião e classe social. Todos podem assistir ao referido espetáculo, e para isso, basta se dirigir na sexta-feira santa, ao teatro ao ar livre que existe na lateral norte da Fortaleza de São José de Macapá, no centro da cidade. 

      Para aqueles que acompanham essa trajetória, basta imaginar que são 47 anos de resistência em relação ao fazer teatral nas terras tucujus. Amadeu Lobato é nosso grande homenageado, em função desse legado que nos deixou... uma verdadeira escola de teatro ao ar livre, visto que significativa parte dos artistas do Amapá, pela primeira vez, subiram ao palco, neste espetáculo. Também não é para menos, sua peça coloca em cena, todos os anos, mais de cem atores e atrizes, concentrados num espetáculo de um pouco mais de uma hora, na área externa da Fortaleza.

     Mas o que muito me chama atenção é a falta de apoio dos órgãos públicos e até mesmo dos empresários para um melhor apoio para o desenvolvimento do referido espetáculo. Em Oeiras, cidade do interior e antiga capital do Piauí, também há um grupo que encena a Paixão de Cristo, e diferentemente do Amapá, o espetáculo de Oeiras, todos os anos é transmitido ao vivo para todo o Estado do Piauí. Em muito me admira que, com vários canais de televisão aqui no Amapá, e durante todo esse tempo, nunca, nenhum deles se propôs a fazer uma transmissão ao vivo para o Estado do Amapá, da peça Uma Cruz para Jesus, essa produção local que merece esse olhar.

     Em outras capitais de Estados como Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, para esse tipo de espetáculo há editais específicos com apoio financeiro, em que todos os profissionais da área ganham uma bolsa durante sua participação de montagem e apresentação do mesmo, do figurante ao ator principal que geralmente é um ator conhecido nacionalmente e que é contratado pelo Estado para representar o papel de Cristo, durante as apresentações da Semana Santa. Que Uma Cruz para Jesus alcance mais uma vez o sucesso que merece. 

 

terça-feira, 24 de março de 2026

DIA INTERNACIONAL DO TEATRO

 

 

     Na próxima sexta-feira, 27 de março, será comemorado o dia internacional do teatro.     Todos sabem que o teatro é uma arte exclusivamente coletiva, visto que é resultado da união de várias artes, como: dança, música, canto, fala, movimento, literatura, artes visuais, arquitetura, circo, mímica, pantomima, cinema, entre outras. Todavia, na manifestação teatral, encontramos várias formas de expressão: expressão gestual; expressão verbal; expressão visual; expressão musical e expressão escrita. Mas há uma inquietação essencial, no que diz respeito aos principais elementos que constituíram a base fundamental do teatro grego.

     Em relação a essa questão, fica claro que esse alicerce remoto gira em torno de duas artes distintas: a música e a dança; como também poderia ter sido a fala, levando-se em consideração a atitude de Téspis, quando, pela primeira vez, falou no Culto a Dioniso, em primeira pessoa, a seguinte frase: “- Eu sou Dioniso”. Além de ser considerado o primeiro ator, com esse gesto e esse ato, ele também é considerado como o impulsionador da literatura ocidental. No entanto, há muitas controvérsias...!  Enquanto alguns autores defendem a dança, como princípio fundamental da origem do teatro, outros defendem a música. Sabe-se que muitos povos primitivos já praticavam a dança em suas manifestações comemorativas e religiosas, em seu livro “O Teatro Grego”, António Freire afirma que: “As primeiras sociedades primitivas acreditavam que a dança imitativa influenciava os fatos necessários à sobrevivência através de poderes sobrenaturais, por isso alguns historiadores assinalam a origem do teatro a partir desse ritual. ”

     Etimologicamente o termo teatro deriva do latim theatrum e do grego theatron, que dá ao vocábulo o sentido de miradouro, praticamente, lugar de onde se vê, lugar para olhar, de theasthai, “olhar”, mais – tron, sufixo que denota “lugar”. Entendendo-se dessa maneira, que o sentido primitivo da palavra “teatro”, estava relacionado estritamente com a ideia da visão, lugar de contemplação. Esse verbete, que significava o prédio onde são realizados espetáculos, posteriormente, se tornou mais amplo e a ter maior alcance, com vários sentidos conotativos, designando peças, produção, preparação de uma peça teatral em geral, edifício, entre outros.

     Sem embargo, esse teatro do qual conhecemos na atualidade, originou-se basicamente de três festividades gregas, às quais, apresentavam características especificas com seus cultos e seus mistérios: a) dos mistérios de Delos; b) dos mistérios de Elêusis; e c) dos mistérios do culto ao deus Dioniso. Tanto em Delos quanto em Elêusis, sempre havia comemorações e festividades dedicadas a Dioniso. Todavia, acredita-se que, segundo estudos históricos e antropológicos já realizados, o culto ao deus Dioniso, é a mais provável hipótese e o principal vetor do surgimento do teatro. 

     Em função dessas atividades teatrais persistirem até nossos dias, foi que em 1961, o Instituto Internacional do Teatro da UNESCO, órgão das Nações Unidas, voltado para a educação, ciência e cultura, resolveu criar uma data dedicada às atividades culturais ligadas à representação, durante o seu IX Congresso Mundial, em Viena, Áustria. Portanto, em função da inauguração do Teatro das Nações, em Paris, França, em 27 de março de 1962, tem sido celebrado o Dia Internacional do Teatro. A data 27 de março, assinala também a inauguração das temporadas internacionais no referido teatro.

 

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

DIREITA E ESQUERDA

 

 

     Por que quando se trata de política, todos enfocam dois pólos distintos, ou seja, direita e esquerda? Esses termos passam a ter sentido na política, a partir de 1789, com a Revolução Francesa, em função da forma física e espacial da então, Assembleia Nacional Constituinte, daquele momento. Durante a Revolução Francesa, os dois principais grupos políticos que fizeram parte do referido processo, foram os jacobinos e os girondinos, momento em que ainda não havia essa dicotomia política. Portanto, logo após a Queda da Bastilha, foi preciso instituir a primeira sessão da Assembleia Nacional Constituinte, e ficou decidido que os jacobinos sentariam à esquerda do Presidente da referida Assembleia, e os girondinos sentariam à direita.

     Acontece que os jacobinos eram grupos progressistas e desejavam mudanças radicais como a extinção da monarquia, mudanças sociais e maior igualdade social. Eram defensores da execução do rei Luís XVI, como também da centralização do poder, os quais, utilizaram medidas violentas para garantir a revolução que era liderada por Robespierre. Historicamente defendem intervenção estatal para proteção social e redução das desigualdades. Por outro lado, os girondinos, os quais, sentaram à direita do Presidente da referida Assembleia, defendiam a manutenção da monarquia, com a perspectiva de que depois surgisse uma república moderada, com a permanência da propriedade privada e descentralização política. Defendiam tradições, hierarquias sociais e liberais econômicos. Também eram contra a radicalização e a influência popular nas políticas sociais.

     Como se percebe, inicialmente, esses termos surgiram em função de um espaço físico, mas, com o passar dos tempos, evoluiu para outros significados, como por exemplo, ideias opostas em função de ideologias políticas. Dessa forma, com a popularização desses termos, a política consolidou-se em direita e esquerda, como termos ideológicos, que passaram a definir o partido de direita, conservador moderado, que deseja que a ordem vigore, e o partido da esquerda, progressista radical, que deseja mudanças radicais na sociedade. Essas expressões vigoram até a atualidade nas sociedades contemporâneas. Entretanto, mais termos foram surgindo ao longo do tempo, como: centro, centro-esquerda, entre outros.

    No Brasil, podemos citar as seguintes correntes: a direita, que foca em liberdade individual, livre mercado, propriedade privada e a manutenção das hierarquias sociais; a esquerda, que prioriza a igualdade social, justiça social, e maior intervenção do estado na economia, com uma visão progressista que inclui o apoio às minorias e a cooperação internacional; o centro, que busca equilíbrio conciliando pautas de mercado sem ideologia radical; e o centro-esquerda, que combina valores igualitários com pragmatismo, defendendo justiça social num sistema livre de mercado.

segunda-feira, 9 de março de 2026

LÉLIO SILVA

 

 

     Todos já ouviram falar da unidade de saúde Lélio Silva. Ele era médico muito conhecido no Amapá desde a década de 1940. Em 16 de fevereiro de 1950 houve um naufrágio no rio Cassiporé em função da pororoca, em que faleceu o Dr. Lélio Gonçalves da Silva, que na ocasião era Diretor e médico do Posto Misto do Oiapoque.  A equipe de saúde que estava atendendo ribeirinhos do rio Cassiporé, estava se organizando para retornar à Macapá. De acordo com as notícias, o médico preferiu esperar passar a pororoca, porém, o piloto o barco, decidiu sair mais rápido para chegar mais cedo a Macapá.

     Na embarcação, estava o médico, mais dois senhores e uma enfermeira muito conceituada na região. O problema é que num determinado local tiveram que enfrentar a pororoca, na ocasião, o piloto não conseguiu dominar a embarcação e infelizmente, o barco foi para o fundo do rio.  Este foi o naufrágio, no qual, faleceu o Dr. Lélio Silva. Em homenagem à sua dedicação na área da saúde no Amapá, colocaram seu nome numa das unidades de saúde do município de Macapá.

     Apesar de boa parte da população já ter ouvido falar sobre Dr. Lélio Silva, acontece que este evento também foi transformado em texto dramatúrgico. Essa outra homenagem foi realizada por um conhecido radialista; pelo rádio ator Paulo Roberto, que na época trabalhava na rádio difusora de Macapá. Este fato pode ser localizado no Jornal Amapá, Ano 6, número 269, Macapá, 06 de maio de 1950, onde enfoca que: inspirado na dedicação e espírito de sacrífico do jovem e pranteado clínico, o conhecido rádio-ator Paulo Roberto, organizou e transmitiu através do seu popular programa <<Obrigado Doutor>>, que a Rádio Nacional irradia todas as terças-feiras, às 20 horas, a peça intitulada << A Tragédia do Amapá>>.     

     O referido programa intitulado “Obrigado Doutor” tinha como patrocínio o Leite de Magnésia da Phillips. Dr. Lélio Silva era médico. O texto foi escrito em sua homenagem pelo rádio ator Paulo Roberto que exercia suas atividades na Rádio Nacional, que na atualidade é conhecida como Rádio Difusora de Macapá.

     Embora tenhamos conhecimento da apresentação dos “Mouros e Cristãos” em Mazagão Velho, que apesar de ter sido apresentada por mais de dois séculos, considera-se ainda como literatura oral, tendo em vista que não há um texto propriamente dito, mas sim, um roteiro. No caso do texto “A Tragédia do Amapá”, resta dizer que, até que novos pesquisadores localizem outros textos anteriores, cronologicamente considero este, como o primeiro texto dramatúrgico do Amapá, que apesar de ainda não ter sido transformado em espetáculo, se tornou rádio novela na década de 1950. Em relação a isso, venho pesquisando e trabalhando para juntar esse quebra-cabeça, visto que esse texto foi publicado por partes no Jornal Amapá, naquela época, desta forma, o meu objetivo é conseguir juntar essas partes para chegar ao texto completo.

 

terça-feira, 3 de março de 2026

TEATRO DE AMADORES DO AMAPÁ

 


     Desde o ponto de partida da montagem de “Pluft, o Fantasminha” pela União de Estudantes Secundaristas do Amapá, com direção de Cláudio Barradas, em 1959, o teatro do Amapá conquistou sua progressiva e crescente ascensão. No início da década de 1960, o teatro em nossa região, tem novo impulso, quando do surgimento de um dos mais importantes grupos de teatro da época. Isto fica evidente, com a fundação do Teatro de Amadores do Amapá, em 10 de setembro de 1960. Como um verdadeiro mecenas, o poeta Alcy Araújo, que tinha sido um dos principais incentivadores da arte no período Janary, já na década de 1960 passou a fazer parte do Teatro de Amadores do Amapá. Sobre Alcy Araújo, localizei citação no Jornal A Gazeta, no suplemento camarim, página F4, que foi publicado em homenagem ao poeta, de 5 de agosto de 2012.  Alcy Araújo amava todas as artes. Era um apaixonado pelo teatro. Tanto que foi por iniciativa dele que os amapaenses puderam assistir a peça “Deus lhe Pague”, aliás esta foi a primeira peça teatral trazida para o Amapá. Foi apresentada no Cine Territorial. Alcy fazia parte do “Teatro de Amadores do Amapá”, fundado em 1960. O Teatro das Bacabeiras existe por causa dessa luta. Durante anos Alcy tentou convencer os governantes da necessidade do Amapá possuir um teatro, fez estudos, projetos e tudo o mais. Até que conseguiu e aí está o Teatro das Bacabeiras.

     Fundado em 10 de setembro de 1960, segundo os Estatutos do Teatro de Amadores do Amapá, o mesmo era composto pelas seguintes personalidades: Sebastião Ramalho da Silva (Diretor Geral); Miracy Maurício Neves (1º secretário); Ronele Sousa (2º secretário); João Baptista T. de Arruda (1º tesoureiro); Ester da Silva Virgolino (2º tesoureiro); Mário Quirino da Silva (diretor de cena); Luiz Ribeiro de Almeida (diretor social); Ivaldo Veras (diretor de patrimônio). O Conselho Fiscal era composto por: Tereza Torres, Mário Simões Pires, Mário Barbosa e Clodoaldo Nascimento. Compunham o Conselho Consultivo: Creuza Bordalo, Aracy de Mont’Alverne, João Telles e Antônio Munhoz Lopes. Entre os sócios fundadores estavam: Sebastião Ramalho da Silva (economista, brasileiro, solteiro, pernambucano); Dr. Antônio Munhoz Lopes (advogado, brasileiro, paraense, solteiro); Hilkias Alves de Araújo (brasileiro, casado, mecanógrafo); Zildekias Alves de Araújo (brasileiro, solteiro, comerciário); Eunice Costa (desquitada, brasileira, técnica em alimentação); Hodias Alves de Araújo (brasileiro, solteiro, estudante); Eduardo de Lyra Ferreira (casado, brasileiro, industriário); Erilo de Lyra Ferreira (brasileiro, solteiro, industriário); Vicente de Paula Pereira de Sousa Filho (brasileiro, comerciante, casado); Raimundo Nonato Paes de Freitas (brasileiro, solteiro, estudante); Terezinha de Jesus Torres (brasileira, solteira, professora); Raimundo Donato dos Santos (brasileiro, casado, professor); Lygia Maria da Silva Cruz (brasileira, solteira, professora); Clívia Nascimento (brasileira, solteira, professora).

 

 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

BRUXISMO

  

     Na década de 1970, do século passado, quando entrei na 5ª série ginasial, pela primeira vez, passei a estudar uma língua estrangeira, no caso, a língua francesa, isso porque me colocaram numa sala onde a turma iria estudar a referida língua. Não houve escolha de minha parte, mas, vale ressaltar que naquela ocasião, a escola pública oferecia duas línguas estrangeiras: o francês e o inglês. O fato é que, passei a estudar e a gostar da língua francesa. Paralelamente, também comecei a estudar a língua portuguesa, e com a passagem do tempo, percebi que foi a língua francesa que me motivou e me fez abrir os olhos para o constante estudo da língua portuguesa. 

     O português é uma língua riquíssima, e entre tantos outros detalhes enfocarei neste artigo, o termo bruxismo, que tanto é mencionado pelos profissionais da odontologia. Bruxismo é uma expressão relacionada ao ato de apertar e ranger os dentes. É um distúrbio, frequentemente ligado ao estresse e ansiedade, que causa desgastes nos dentes, entre outras reações doentias. Alguns dos sintomas são: dores faciais, de cabeça e ouvido, dentes sensíveis ou amolecidos. Bruxismo é um termo que vem do grego brýchein ou brygmós, que significa “ranger os dentes”. A palavra bruxismo, apesar da semelhança fonética, não tem nenhuma relação com bruxas. Esta associação pode estar ligada mais a uma confusão popular, sendo na verdade, uma coincidência que leva a pensamentos sobre o sobrenatural, mas é um problema de saúde física e psicológica. 

     Por outro lado, a palavra “bruxa”, tem origem pré-romana, e a confusão surge por semelhança fonética, mas não há ligação etimológica com o termo médico. De toda forma, há dois vocábulos que podem ser usados: bruxismo é mais relacionado quando acontece à noite, e briquismo, quando a pessoa está acordada e refere-se especificamente ao hábito diurno. Na antiguidade, personagens citados pelo escritor romano Horácio, já descreviam mulheres com poderes ocultos, ritualísticos e verdadeiras sacerdotisas de deuses. Canídia, Medeia e Circe, podem ter sido as matriarcas de todas as feiticeiras que as sucederam.

     Já em relação à questão fonética, a pronúncia correta é bru-ksismo (com som de KS, similar a sexo e taxi). Em relação à forma popular com som de “CH” (bru-chi-smo), seja muito comum e usada por todos no uso diário, em vista disso, passa a ser aceita no cotidiano das pessoas. Mas, a forma tecnicamente correta é BruKSismo, sendo que o “X” na palavra bruxismo se torna um dos únicos vocábulos do alfabeto que apresenta o fonema de duas locuções juntas, neste caso, os sons da letra K e do S.

     Bruxismo com o fonema CH, também pode parecer crença em bruxas. Por outro lado, a palavra “bruxa”, tratando-se do português é incerta e duvidosa, mas, o melhor entendimento é de que, ela tenha raízes célticas e que provém de um radical dessa língua: brixt ou bricht, que significa encantamento ou feitiço. Já o termo witch deriva do germânico wit, que significa sabedoria, e bruxa tem origem na região ibérica, e apresenta conotações de saber oculto ou curandeirismo.

    

   

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

EU E A CIDADE

 

 

          Na última quarta-feira, dia 04 de fevereiro, a cidade de Macapá completou seus 268 anos com muitas festividades que aconteceram no seu aniversário. Quando aqui cheguei em novembro de 1994 a cidade tinha apenas 236 anos. Coloquei os pés nessas terras para me submeter a concurso público na Universidade Federal do Amapá. Com a Universidade recém fundada, participei do seu segundo concurso público para professor do magistério superior. Era uma cidade horizontal, com faixa de trezentos mil habitantes e com a maioria de suas casas de madeira. Condição que chamou extremamente minha atenção.    

     Nada conhecia sobre este recanto de Brasil, tudo era novo, eu ainda não tinha nenhuma referência sobre este espaço geográfico. Trabalhava em Belém, no Núcleo Pedagógico Integrado da UFPA, mas desejava ir mais longe. Cheguei aqui com a cara e a coragem de um nordestino desbravador e passei a ser pioneiro em relação aos estudos e pesquisas na área das artes cênicas. Iniciei as primeiras pesquisas científicas sobre o Teatro do Amapá e continuo estudando e pesquisando este mesmo tema.

     Aos poucos, fui enamorando esta pequena cidade, que paulatinamente foi me conquistando com o passar dos anos. Hoje tenho muito orgulho de Macapá. De todo o processo que acompanhei ao ver esta cidade crescer, juntamente com o desenvolvimento da própria Universidade Federal do Amapá, que, há trinta e um dois anos, se tornou minha casa, meu ninho, meu aconchego.

     Macapá está de Parabéns nesses seus 268 anos. É verdade que há muito o que se comemorar. Nessas três últimas décadas, a cidade cresceu em todos os sentidos: alargamento de avenidas, criação de museus, asfaltamento, iluminação pública, entre outros fatores. O centro da cidade, por exemplo, ficou completamente revitalizado com a Fortaleza de São José de Macapá, onde todo o espaço urbano do centro da cidade foi se transformando num complexo turístico deveras importante. A recuperação do entorno do canal da Mendonça Júnior, a Rodovia Duca Serra que virou uma grande avenida.

     Muitos espaços que vem sendo construídos e definidos ao longo dos anos, como a Rua Tancredo Neves, com seu Parque Lineaer, que transformou a entrada da cidade, de quem vem do interior ou da Guiana Francesa. Tiro o chapéu para esta bela avenida ampla, arborizada, com ciclovias, sinalização e passarelas para pedestres, que envolve vários bairros da zona norte. Espaço urbano que há 30 anos havia apenas uma pequena via e alguns bairros como, Jardim da Felicidade e Boné Azul. Macapá é uma cidade tranquila, me sinto bem neste recanto do Brasil. Aqui que me realizei profissionalmente e venho fazendo minha parte. Este ano de 2026, estarei lançando mais uma obra para contribuir com esta cidade e este Estado que me acolheu de braços abertos. A obra intitula-se “História do Teatro do Amapá – De 1950 aos Dias Atuais”.

     Macapá foi me envolvendo, aos poucos, e também fui me amalgamando a esta pequena cidade joia da Amazônia. Morar neste lugar é ter o prazer de todos os dias ter a chance de apreciar esta bela paisagem que se encontra de braços abertos para todos, que é o rio Amazonas. Particularmente, este rio me encanta. Sou grato por estar em Macapá e ela estar em mim, por osmose se deu nossa relação, eu e a cidade, a cidade e eu. 

 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A MÃO DO CANGAPÉ

 

 

     Com o objetivo de promover eventos artísticos e contribuir para o desenvolvimento e inclusão de crianças, adolescentes e jovens, foi fundada no ano de 2005, no bairro do Araxá, a “Associação Cultural Companhia Cangapé”. Mesmo antes da formação desta companhia, o grupo já vinha se dedicando ao teatro e ao circo, visto que passaram por alguns grupos teatrais do município. A companhia Cangapé já vem há 21 anos contribuindo na área da arte, cultura e trabalho social no bairro do Araxá, que é uma área geográfica da cidade de Macapá, com grande vulnerabilidade social.

     Mas não pensem que foi tão fácil! Inicialmente, a companhia não tinha endereço fixo, foi quando Washington Silva e Alice Araújo, adquiriram uma pequena casa, à qual seria sua moradia, no bairro do Araxá. Acontece, que tiveram que enfrentar um sério problema, tendo em vista que a companhia já vinha com um trabalho bastante profícuo e não possuía um lugar fixo, para que se tornasse uma referência na arte no Amapá. Sendo assim, foi necessário longo debate para se decidir o que se faria com o imóvel recém-comprado. Desta feita, ficou decidido que aquela casa seria transformada na sede da companhia. Com essa determinada decisão, a única saída para o casal foi alugar uma casa, ao lado do prédio onde seria instalada a Sede do grupo.

     A Companhia Cangapé realiza um sério trabalho no bairro do Araxá, tendo como ponto de partida a arte, centralizando principalmente no circo e no teatro. Por outro lado, promove projetos de cunho estritamente social, voltados para crianças e jovens daquela comunidade, a partir de oficinas as mais variadas, como: oficina de palhaço, malabaristas e de perna de pau, entre outras, onde a comunidade tem total acesso a essas atividades artísticas. Em função da capacidade de elaborar projetos, a companhia já foi contemplada com vários prêmios e financiamentos, como “Criança Esperança”; “Prêmio Funarte Petrobrás Cultural e Saúde”; “Prêmio Funarte Carequinha de Estímulo ao Circo”, entre outros”.

     Foram muitos os espetáculos encenados por essa companhia, como: “Se Deixar Ela Canta”; “Projeto Corda Bamba no Equador”; “Circo de Retalho”, entre tantos outros. Vale salientar que boa parte dos que fazem hoje a Companhia Cangapé, já possui curso superior, seja na área do teatro, artes visuais, ou até mesmo outros cursos na área de humanas.  Em função de toda essa dedicação e trabalho social e comunitário, atualmente a Companhia Cangapé já é referência na área da cultura, tanto no bairro do Araxá como também no Estado do Amapá.

     No dia 21 de janeiro do ano em curso, mais um evento foi protagonizado pela companhia Cangapé. Dessa vez, a III Mostra Circo em Cena, que foi resultado da primeira etapa do projeto Corda Bamba no Equador, como resultado de oficinas artísticas de circo e dança. O Cangapé vem estendendo sua mão aos jovens do bairro do Araxá, no sentido de abrir portas e janelas para um futuro melhor para esses adolescentes. Vários desses alunos já tiveram e terão oportunidade de frequentar a Escola Nacional de Circo, não fosse a mão do Cangapé, eles não teriam oportunidades como essa, como exemplos nessa última temporada, temos: Jardel Lobato e Laise Costa.

 

 

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

ENCANTO DOS ALAGADOS

 

ENCANTO DOS ALAGADOS

 

     Numa sociedade, mesmo que seja democrática, há seus limites impostos pela própria máquina social. Há coisas, que não andam, e muitas vezes não existem, mas, se passa uma ideia de que tudo anda bem. A humanidade consegue construir todo tipo de ponte, canal, túneis que passam sob o mar, mas, por que o mundo ainda não conseguiu evitar a fome? Por que tantos países pobres e outros tão ricos? E por que, infelizmente, tantos outros se aproveitam de determinadas situações para usurpar a população. 

     O que tenho a dizer é que, entre tantos problemas que as situações da vida nos colocam, e com tanta gente que possui pensamento egoísta, felizmente, nesse meio termo, há aqueles, os altruístas, os paladinos, os heróis, os anjos, os protetores e os mecenas da arte, aqueles poucos que dedicam suas vidas para contribuir, da forma que podem, para com seus semelhantes. Entre aqueles que trafegam no caminho do bem, do social e da sociabilidade, temos o artista, ator, diretor, produtor cultural e líder comunitário, Wenner George, mais conhecido como Romário.

     Ele é o principal fundador do Centro de Experimentação Artística e Cultural Encanto dos Alagados, também conhecido como “Encanto dos Alagados”, que se localiza no Bairro do Muca. Tudo começou com uma indenização que ele recebeu. Procurou uma comunidade que não tinha acesso aos bens culturais e resolveu implantar seu ousado projeto em meio às palafitas do Muca. Transformou sua nova morada num Centro Cultural que promove todo tipo de manifestação artística, como, contação de histórias, apresentações teatrais e circenses, e já possui uma biblioteca com mais de mil livros infanto-juvenis, para proporcionar acesso à leitura às crianças daquela comunidade.

          Se algum dia você quiser se encantar, vá ao encanto dos alagados, lá você vai encontrar música, poesia, teatro, contação de histórias, dramatização, além de uma biblioteca com mais de mil livros à disposição daquela comunidade e dos que visitam aquele espaço repleto de arte. Projetos dessa natureza merece motivação dos órgãos públicos de cultura. A sociedade precisa de pessoas como Romário, que promove a partir da arte, maiores esperanças nas pessoas daquela comunidade.

    O projeto vai além das fronteiras, tendo em vista que, diferente das outras bibliotecas, o projeto socializa ainda mais os exemplares, em função de que ao retirar emprestado um livro, a criança poderá leva-lo para casa e devolve-lo quando concluir a leitura completa da obra, isto implica dizer, que ao mesmo tempo em que a criança se educa, também se responsabiliza em cuidar e devolver a obra para a biblioteca. Encanto dos Alagados é um projeto que demonstra o propósito daqueles cidadãos que desejam contribuir efetivamente com a sociedade amapaense. Wenner George é um batalhador, é um gentleman, se dedica com afinco ao seu projeto, contribuindo nos cantos e recantos alagados da cidade de Macapá.   

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

PARA JOCA MONTEIRO

 

 

     Joca Monteiro, é dramaturgo, diretor de teatro, ator, palhaço, professor, ilustrador, brincante escritor e editor independente. É um artista que vem há bastante tempo, se dedicando a escrever livros, em sua maioria coloridos, que trazem enredos ligados às questões telúricas. Na baixada Pará, desenvolve um trabalho não só em nível artístico, mas também de política social, onde muito contribui com os moradores mais carentes daquele bairro. Ele também se dedica a ajudar aquela comunidade, como aconteceu arrecadando e distribuindo cestas básicas para as famílias do lugar, principalmente no período da Covid-19. Além de contador de histórias, ele escreve, confecciona, publica seus livros e ainda por cima, conta para o leitor toda a história contida na própria obra. 

     Num mundo que impõe o consumismo como metodologia de vida, que gera nas pessoas uma corrida desenfreada em busca de emprego, saúde, educação e moradia. Num momento em que centenas de brasileiros se encontram na linha de insegurança alimentar. Tempo, em que inadvertidamente se destrói a natureza com o desmatamento desenfreado, principalmente na Amazônia. Se torna muito difícil falarmos de livros. 

    Mas, antes dos livros há aqueles que estão nas coxias, são os autores, aqueles que escrevem essas obras. Se é difícil escrever e publicar; imaginem um autor que escreve, confecciona, publica seus livros e ainda por cima, conta para o leitor toda a história contida no próprio livro. Será que existe algum autor assim? Claro que existe! Ele é conhecido como Joca Monteiro e mora na Baixada Pará, onde realiza um excelente trabalho, não só como autor e como artista, mas também desenvolve um trabalho de política social comunitária, onde em muito contribui para com os moradores do lugar.

     Um livro na biblioteca é apenas um objeto, realmente, ele passa a ser livro quando é retirado da estante e passa a ser lido por alguém. Nosso autor, vai mais além, ele escreve, edita e ainda conta a história para seu cliente. Além de escritor independente, Joca Monteiro é; ator, dramaturgo, palhaço, professor, contador de histórias, ilustrador, editor e brincante da Amazônia. 

     Joca Monteiro é um excelente contador, quem já presenciou algumas de suas apresentações como contador de história, sabe muito bem disso. Afora os livros, ele se dedica a escrever para teatro. Alguns grupos teatrais, aqui em Macapá, já montaram seus textos. Eu mesmo, quando participava da comissão de avaliação de projetos de montagem para teatro, da FUNARTE, tive a honra de ler o projeto de montagem do espetáculo “Um Véu Para Dagmar”, onde, na ocasião, o referido texto foi selecionado e aprovado. Seu trabalho não se limita apenas à arte pela arte, é um trabalho artístico, econômico, político e social. Durante a pandemia do coronavirus, foi ele (Joca), quem teve a decisão de fazer campanha pedindo contribuição de alimentos para ajudar as pessoas mais carentes da Baixada Pará.  Joca Monteiro é um artista sui generis, que merece o reconhecimento dos órgãos públicos de cultura do Amapá.

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

AMADEU LOBATO

 


     No ano de 1979 surge o espetáculo Uma Cruz Para Jesus, uma ideia do ator e diretor Amadeu Lobato. Neste ano de 2026 seria o quadragésimo sétimo ano de sua ininterrupta apresentação na área externa da Fortaleza de São José de Macapá, mas o destino quis que Amadeu Lobato nos deixasse, nesse início de ano.  Ele, que sempre Amava a Deus, como seu próprio nome revela, com sua imponente e grandiosa montagem do espetáculo uma Cruz Para Jesus. Era um espetáculo que acontecia anualmente na cidade de Macapá, que tem como cenário os muros da Fortaleza de São José.

     Uma Cruz para Jesus é sinônimo de persistência, trabalho e dedicação. Sou testemunha ocular de várias apresentações em que todos os trabalhos de produção refletiam objetivamente um esforço comum e isolado do grupo, em função de que, em certos momentos, havia total ausência dos órgãos de cultura como também do comércio, entre outros setores da sociedade amapaense. Mas com todas essas dificuldades o grupo nunca desistiu de apresentar o seu espetáculo. Mesmo no período de reforma da Fortaleza não falhava com as apresentações, ora do lado interno, ora no lado externo daquele edifício secular.

      Ao longo do tempo, o espetáculo Uma Cruz Para Jesus vem conquistando seu espaço e sensibilizando de vez por toda, nossa sociedade e nossos gestores. É um espetáculo tradicional em nossa cidade, além do que influenciou e motivou outros grupos, fez surgir novas sementes e se expandiu por vários bairros da cidade.

     Seguramente poderíamos listar aqui as principais influências de Uma Cruz para Jesus, nestes seus 46 anos de atividades ininterruptas na cidade de Macapá. É em função deste espetáculo que há vários grupos se apresentando nos bairros: no Pacoval, a comunidade representa a peça O Cordeiro de Deus nas ruas, culminando o espetáculo no campo de futebol do Kourou; a Paixão, também foi apresentada por um bom tempo, por outro grupo, no sambódromo; no Bairro Perpétuo Socorro é apresentado o espetáculo Filho de Maria; o Grupo Teatral Santa Inês, com a peça teatral Paixão e Morte de Cristo, com direção de Silvano Santos. Relativo a essa programação da Semana da Santa, ainda temos, o Movimento Cultural Desclassificáveis, que sempre apresenta, Cristo por Elas; Grupo Teatral Marco Zero, que vem com A Saga de Cristo; Grupo Imagem & Cia, com Preâmbulo da Paixão, sob direção de Cris Ferreira e produção de Débora Bararuá;  Quimera Cia de Teatro, com O Cordeiro de Deus, direção de Rosa Rente; Trupecênica, com Cristo ReiO Espargir do Amor; As Faces de Cristo, da Cia Cangapé, sob direção de Emerson Rodrigues; Os Milagres de Jesus – Grupo Maré; e no bairro Novo Horizonte Saga de Cristo, entre outros.                                            

     Uma Cruz Para Jesus, é um espetáculo que demonstra a vitalidade e persistência do teatro amapaense. Tem como suporte seu idealizador, dramaturgo e artista de teatro Amadeu Lobato. O espetáculo apresentado ao ar livre no entorno da Fortaleza de São José de Macapá, utiliza-se de vários cenários e vários planos, inclusive o plano vertical quando é apresentada a cena de Adão e Eva, sobre a muralha daquela fortificação mais do que centenária. Em função de sua dedicação e seu trabalho, Amadeu Lobato virou escola e se transformou no ícone de um dos maiores teatros ao ar livre do Estado do Amapá.