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domingo, 26 de julho de 2026

ETIMOLOGIA E TEATRO

 

 

     O teatro surgiu na Grécia antiga há quase três mil anos. Durante toda a história do homem há uma relação intrínseca entre a vida e a arte. Relacionaremos em seguida algumas palavras ligadas ao teatro e suas principais origens:

     A palavra TEATRO vem do Latim theatrum, do Grego theatron, que significava literalmente “lugar para olhar”, de theasthai, “olhar”, mais tron, sufixo que denota “lugar”. O sentido de “lugar onde transcorre a ação” se aplicou também aos feitos militares, daí o nome “teatro de operações” para uma área onde há luta armada.

     ANFITEATRO também vem do Latim amphiteatrum, do Grego amphiteatron, que significa “local de espetáculos duplo, com espectadores dispostos de ambos os lados do palco”, de amphí-, “dos dois lados”, mais theatron, local de onde se vê. Inicialmente os teatros possuíam assentos apenas no lado voltado para o palco, seguindo a arquitetura do teatro grego. É ainda o caso da maioria ou todos os nossos teatros atuais. Os atuais estádios de futebol são hoje os nossos verdadeiros anfiteatros.

     O termo COMÉDIA vem do Grego komoidia, “espetáculo divertido, comédia”, de komodios, “cantor em festas”, de komos, “festa, farra”, mais oidos, “poeta, cantor”.  Este termo passou por uma fase em que era usado para designar “poema narrativo”, o que é a razão de o livro “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, ter esse nome. 

     TRAGÉDIA deriva do Grego tragoidia, que significa “peça ou poema com final infeliz”. Aparentemente deriva de tragos, “bode”, mais oidea, “canção”. Ao pé da letra poderíamos dizer “a canção dos bodes”, e isso viria do drama satírico, onde os atores se vestiam de sátiros, com suas pernas cabeludas e chifres de bode. 

     Da mesma forma, DRAMA também deriva do Grego drama, “peça, ação, feito” (especialmente relativo a algum grande feito, fosse positivo ou negativo), vem de drao, “fazer, realizar, representar, lutar”.

     PLATEIA – ao que tudo indica, deriva do Grego platea, que significa “largo e plano”. Inicialmente designava o lugar onde ficavam os músicos e se estendeu depois, em prédios diferentes dos teatros gregos, à parte onde tomam assento os espectadores.

    PALCO – do Italiano palco, “estrado, tablado”, do Lombardo palko, “trave, viga”. Seu sentido se estendeu depois ao de “tablado sustentado por vigas” e mais tarde a “estrado ou palco designado para apresentações artísticas”.

     CENA – do Latim scaena, “palco, cena”, do Grego skena, de mesmo significado, originalmente “tenda, cabana”, relacionado a skia, “sombra”, pela noção de “algo que protege contra o sol”.

     Para quem trabalha na área do teatro conhece bem os termos acima, interessante é entender a origem dessas palavras, a partir daí passa-se a entender o porquê do uso corrente e atual das mesmas.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

EDIFÍCIOS TEATRAIS

 

                                              

 

     Atualmente poderíamos dizer que a cidade das bacabas conta com cinco teatros nos moldes do teatro italiano, sendo eles: Teatro das Bacabeiras, aliás, denominação muita bem escolhida, à qual rende homenagem a uma fruta de nossa região. Com 700 lugares o Teatro das Bacabeiras, é uma casa de espetáculos que veio preencher apenas uma lacuna como edifício teatral na cidade, visto que é um prédio voltado para um trabalho mais especificamente profissional, porque o seu próprio espaço físico dentro de suas dimensões (de médio porte) assim o determina.

     Portanto, atende a espetáculos ou shows no mais das vezes vindo de outras localidades, e, uma vez ou outra servindo de palco para alguns grupos, que por seu árduo trabalho de vários anos, conquistaram um certo público, como é o caso do Grupo Teatral Língua de Trapo, onde várias vezes apresentou seu trabalho naquela casa. É interessante revelar que um dos pecados cometidos na definição de seu espaço físico foi o fato de não constar nenhuma outra sala pequena para espetáculo, além do grande salão nobre. É de praxe na maioria dos teatros modernos, a inclusão de uma sala menor, pelo menos com 120 lugares, que se destina a espetáculos de pequeno porte. Além do Teatro das Bacabeiras, temos ainda, o Teatro do SESI; Teatro Municipal Fernando Canto, Teatro Marco Zero, no bairro do Perpétuo Socorro e ainda, o Cineteatro Sílvio Romero, em Santana.

     De todos, o que abre mais acesso aos grupos locais é na verdade, o menor de todos, que é o Teatro Marco Zero. O restante são edifícios que por sua volumetria, exigem que a pauta seja bastante elevada, de no mínino, 2 mil reais para grupos locais, o que torna de certa forma, inviável para artistas do lugar.  É notório que, pelo tamanho prejudicam consideravelmente o desenvolvimento das artes cênicas no Estado. Nessas condições se torna difícil para qualquer grupo amador, produzir seu espetáculo com recursos próprios, além de ter que arcar com despesas de pauta, quando a mesma não está dentro de sua realidade orçamentária. Sabe-se que, quem faz cultura nesse país, a produz com muito esforço, trabalho, dedicação e desejo pessoal. Algumas autoridades culturais ainda não estão informadas de que (80%) oitenta por cento do teatro nacional é resultado de um árduo trabalho, exclusivamente de grupos amadores.

     Dentro dessas condições, entre outras, apesar de ser um símbolo do povo amapaense, o Teatro das Bacabeiras, enquanto não possuir uma sala anexa, destinada para espetáculos de pequeno porte, pelo menos de 120 lugares, se distancia consideravelmente da realidade dos que produzem teatro em nosso Estado. Todos sabem que vez por outra se transforma em local de diversos eventos, como encontros (nacionais e internacionais), colação de grau, tríduos jurídicos, entre outros eventos.

    

 

 

domingo, 12 de julho de 2026

ENTRE MOUROS E CRISTÃOS

 

      Em função da morte de Dom José I, e com vistas à aclamação da Rainha D, Maria I, Lisboa dá ordens para que cada região do Império se dedique a organizar uma grande festa em homenagem à nova administradora do Império português. Para isso, a ordem foi a de que todas as colônias deveriam organizar oito dias de festas, que compreendesse o período entre 16 de novembro a 1º de dezembro do ano de 1777, para saudar a Rainha D. Maria I. Esta é a origem da primeira apresentação do drama entre Mouros e Cristãos em Mazagão Velho. Nessas festividades houve apresentação em carros alegóricos; batalhas entre naus; apresentação de óperas, e inclusive, a primeira apresentação da batalha entre mouros e cristãos na nova Mazagão.

     Até metade do século XVIII, pode-se afirmar que no Brasil, as atividades teatrais então existentes eram exclusivamente de cunho religioso e ocorria tanto nos conventos e educandários da ordem jesuíta, como nos adros das igrejas nos dias de festa. Certamente, foi a partir da segunda metade do século XVIII que as peças teatrais populares se tornaram mais presentes, sendo representadas com certa frequência em tablados montados nas ruas, em praças públicas e nos adros das igrejas.

     Desta forma, além de se construir alguns cenários efêmeros e carros alegóricos para abrilhantar as referidas festas religiosas, como praças e currais para corridas de touros e cavalhadas, também se armavam tablados nos adros das igrejas para encenação de autos, tragédias e comédias. Uma dessas festividades foi o Triunfo Eucarístico, encenado em Vila Rica – Minas Gerais, no ano de 1773, na inauguração da matriz de Nossa Senhora do Pilar, segundo a obra: O Cenário da Vida Urbana, de Maria Berthilde Moura Filha.

     Nos referidos casos, a representação teatral completava um programa que envolvia toda cidade. Décio de Almeida Prado enfoca em seu livro “História Concisa do Teatro Brasileiro”, que além das encenações havia cavalhadas, touradas, números musicais, fogos de artifício e carros alegóricos. Portanto, acredita-se na probabilidade de que fatos semelhantes tenham ocorrido no Amapá do século XVIII.

     Portanto, nos vem uma questão, como aconteceram as festividades em Mazagão Velho, em homenagem à aclamação da Rainha de Portugal? De acordo com documentos de época, percebe-se que as cerimônias iniciaram no dia 16 de novembro com uma missa solene e nesse mesmo dia à noite foi cantado o Tedeum, que são as palavras iniciais do hino de ação de graças. No sábado dia 22, após a celebração de uma missa, saiu pelas ruas da Vila de Mazagão um cortejo com carro alegórico com vinte figuras de meninas que cantavam acompanhadas por três rebecas e três violas. Neste carro alegórico também havia dez dançarinos mascarados, sendo que um deles recitava vários epílogos e obras poéticas. Depois do desfile desse carro alegórico pelas ruas da vila, a festa continuou com a representação de uma batalha naval entre duas naus; notadamente entre cristãos e mouros, sendo que no final os cristãos vencem a batalha. Percebe-se que nesse evento, houveram duas apresentações da batalha entre mouros e cristãos, a primeira em terra, e a segunda uma batalha naval entre duas naus, no rio Mazagão, no século XVIII.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

MURTA E DEVOÇÃO

 


     Falando-se de marabaixo, todo amapaense sabe do que se trata, ou já ouviu falar sobre essa dança que é muito significativa para a cultura do lugar. Sua dimensão ultrapassa questões: antropológicas, sociológicas, étnicas e culturais. Tornou-se a mais autêntica manifestação cultural do Amapá. Observando que em novembro de 2018, recebeu o título de patrimônio imaterial do Brasil, pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional - IPHAN. De outra parte, há uma questão de tamanha importância, que se trata da murta, a planta sagrada do marabaixo, que entre outras coisas, serve para envolver os mastros das bandeiras em devoção ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade.

     Na mitologia grega, a murta era consagrada a Afrodite, já em Roma, era Vênus quem recebia o título de Múrcia, denominação que a relacionava com a referida planta. Os gregos adornavam as noivas com grinaldas confeccionadas com murta. A madeira da murta, a mirra, era usada para incensar cerimônias religiosas tanto na época de Cristo, como também na Grécia antiga. Portanto, A murta tem seus vestígios em vários rituais da antiguidade, por exemplo, o culto às Deusas Deméter e Perséfone, na antiga Grécia, iniciava com uma procissão que partia de Atenas para Elêusis, na qual, os mystai, que eram os iniciados, caminhavam com um buquê de murta nas mãos, como se seguissem os passos das Deusas. A murta também era símbolo fundamental em várias cerimônias à Dioniso, Deus da uva, do vinho, da fertilidade e das festividades.

     A Murta simboliza o amor, pureza, proteção, renovação, paz, juventude e beleza. Deriva do hebraico Hadassad, chegando à versão portuguesa, Hadassa, e significa mirto ou murta na nossa língua mater. No antigo testamento na Bíblia, Hadassa, que era judia, mudou seu nome para Ester, para esconder sua identidade e casar com o Rei persa Assuero/Xerxes. Hadassa também está relacionada com estrela, em função da forma da flor. Com o nome científico de Myrtus communis, pertence a um gênero botânico com mais de uma espécie de plantas com flores, que fazem da família das myrtaceae, sendo nativas do sudoeste da Europa e do Norte da África.

      Também é conhecida em várias outras denominações como: hadassad, murta, mirta, marta, múrcia e mirto, sendo esta última relacionada à Vênus e ao matrimônio. Com várias propriedades, suas folhas possuem ação expectorante, antisséptica, sendo usadas para o tratamento da sinusite, tosse e bronquite entre outras enfermidades. Suas folhas também possuem compostos ativos, os quais, possuem propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianas, dermatológicos e até mesmo como auxiliar no combate ao envelhecimento. A planta em si, pode ultrapassar os 100 anos de idade. Além do Livro de Ester, na Bíblia, a murta é citada em várias passagens, como no livro de Zacarias, onde simboliza a restauração e a bênção divina, e ainda, no Livro de Neemias, relacionada à celebração da Festa dos Tabernáculos. Esses fatores, reforçam uma visão de renovação espiritual e proteção divina, sentimentos que também se refletem enraizados na devoção ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade, na atual dança do Marabaixo no Amapá.