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segunda-feira, 22 de junho de 2026

FELIZ SÃO JOÃO

 

 

     Estamos em pleno São João, festividade tradicional no Brasil e principalmente na região nordeste. Festas joaninas ou juninas? Joanina deriva de João e é em homenagem a ele que assim se fala: festas joaninas. Junina deriva do mês de junho, visto que acontece nesse período do ano. É a principal festividade do ano e a mais comemorada no nordeste brasileiro.

     Os pagãos comemoravam essa data em função do solstício de inverno, no hemisfério Sul e solstício de verão no hemisfério norte. Solstício que deriva do latim solstitium, que significa “Sol parado”, antes de inverter sua trajetória de volta ao hemisfério Sul. É bom lembrar que hoje, dia 21, é o dia do solstício, por consequência, o hemisfério Norte terá o dia mais longo, e o hemisfério Sul terá o dia mais longo do ano.  Como a Europa situa-se no hemisfério norte, e praticamente maior parte do ano perdura o frio, os pagãos comemoravam a chegada do “Deus Sol Invictus”, ou seja, o sol invencível que chegava abrindo o verão para abrilhantar e esquentar aquele espaço geográfico.

          O culto ao Sol invicto continuou a ser base do paganismo oficial até a adesão do império romano ao cristianismo. Antes da sua conversão, até o imperador Constantino I, tinha o Sol Invicto como a sua cunhagem oficial. Quando aconteceu a ascensão do cristianismo, ficou decidido que a referida data seria para comemorar o santo “São João”. Com isso, a cultura europeia e de suas colônias, foi se adaptando gradativamente, como é o caso no novo mundo e do nordeste do Brasil.

     Mesmo sendo na atualidade uma dança popular, é bom lembrar que a quadrilha que era muito difundida na França, foi inicialmente dançada na corte francesa. Em seguida, no campo entre os agricultores e seus familiares. Com a descoberta do novo mundo, os costumes e a cultura europeia vieram juntos. Foi assim que se consagrou as quadrilhas mais antigas que traziam muitas palavras francesas e que foram ao longo do tempo sendo aportuguesadas aqui no Brasil.

       Alavantú, vem do francês “en avant tous” (todos para a frente); changê de damas e changê de cavalheiros, vem do verbo “changer” que significa trocar, neste caso, trocar de damas e trocar de cavalheiros. Anarriê, também é do françês “en arrière” (todos para trás); Otrefuá, do francês “autre fois”, que significa outra vez.

     O que não havia na quadrilha francesa e que foi adaptado pelo povo brasileiro, foi a encenação do casamento matuto, neste caso a quadrilha gira em torno desse casamento matuto na roça em que o noivo é obrigado a casar pelo pai da noiva, que com uma espingarda apontada para ele, o obriga definitivamente a aceitar o casamento.

     As festas juninas são comemoradas no dia 13, em homenagem a Santo Antônio, quando na véspera se comemora o dia dos namorados; o dia de São João, 24, é o dia mais comemorado, há fogueiras, queima de fogos e impera a comida derivada do milho, inclusive porque é período de colheita. Dia 29 comemora-se o São Pedro que também é muito lembrado nas pequenas cidades do interior. Ótimo São João a todos.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

TEATRO E MARABAIXO

 


     O culto a Dioniso, deus da uva e do vinho, com seu canto ditirâmbico, remonta há mais de mil anos antes de cristo, nele, havia dança, música, pessoas gritando e cantando e ingeria-se muito vinho. Acontecia em homenagem às vindimas (período da colheita da uva).  Havia ainda o corifeu, que puxava um refrão, enquanto as pessoas respondiam.

     Apesar da distância cronológica, da tecnologia e do mundo contemporâneo, há muita semelhança entre o canto ditirâmbico e o marabaixo. Os praticantes do marabaixo dançam ao som de caixas confeccionadas de madeira; dançam em círculo em torno dos caixeiros, da mesma forma que as pessoas dançavam em círculo a partir de determina música no entorno do deus Dioniso; respondem em coro o “ladrão” tirado pelo cantador, praticamente representando o papel do corifeu (que fazia o mesmo) no antigo culto grego.

     Muitas vezes esses “ladrões” transformam-se em desafios improvisados, o que nos remete à Odisseia e propriamente ao cordel, como também aos desafios dos emboladores de coco. Em sua tese de doutorado, intitulada: “Marabaixo, ladrão, gengibirra e rádio – Traduções de linguagens de textos culturais”, defendida em 2012, na Pontíficia Universidade Católica de São Paulo, (da qual fui arguidor) o Prof. Dr. Rostan Martins afirma que: “Alguns versos de ladrão contam gozações, reprovações ou alguns lapsos cometidos por uma autoridade ou pessoa da comunidade, reproduzem cenas hilariantes do cotidiano”. Isso demonstra a versatilidade da dança do marabaixo.

     O improviso é constante no marabaixo, o que também era muito utilizado no canto ditirâmbico, e foi exatamente a partir do improviso de Théspis (considerado o primeiro ator ocidental), quando gritou: “eu sou Dioniso”, que aquele culto iniciou sua transformação cultural revelando numa outra forma de manifestação conhecida por teatro.

     Acredita-se que o círculo é uma das formas mais perfeitas, e independente de área geográfica ou relação temporal/cronológica, sempre aparece em várias latitudes do planeta e nas mais diversificadas comunidades ancestrais, modernas e contemporâneas. Na Grécia clássica, o canto ditirâmbico acontecia em círculo; a ciranda também é em círculo; o coco de roda, o próprio nome já nos sugere sua forma; a maioria dos passos da quadrilha junina é em círculo; evidentemente, que o marabaixo também não poderia ficar de fora dessa regra secular. 

     De uma forma ou de outra, percebe-se que fatores religiosos também se encontram inseridos nessas manifestações, em cada latitude como também em cada seu momento histórico, e que consequentemente, merecem o respeito dos estudiosos, dos catedráticos, do povo e principalmente da própria comunidade em que essas manifestações se revelam. O marabaixo representa o símbolo da cultura amapaense. E foi esta dança que Luiz Gonzaga dançou e gravou: “Eita, seu mano que bom, ai! Que bom de dançar! Eita seu mano que bom, ai, que bom é o Macapá”, referindo-se à dança do marabaixo.

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

TEATRO E SEMIÓTICA

 

   

     Além de objetos reais, no palco não se utilizam apenas acessórios e cenários, que são meramente signos, no entanto, o público não capta essas coisas reais como se fossem reais. Por exemplo, se um personagem representando um homem rico, usa um anel de brilhante, o público o considera como um signo de grande riqueza e não se preocupa se a pedra é verdadeira ou falsa. Da mesma forma que no palco, tanto um refresco quanto um suco autêntico podem representar um suco.

     No teatro Chinês, o cenário é complementado em sua elaboração com elementos específicos ao desempenho do intérprete. Nesse tipo de teatro os mais importantes signos são a mesa e a cadeira, quase nunca ausentes do palco chinês. Por exemplo, se a mesa e a cadeira estão dispostas da maneira usual, então o cenário é um interior. Contudo, uma cadeira que se apresenta com o lado sobre o chão, significa um aterro ou fortificação; virada, simboliza uma colina ou montanha; de pé sobre a mesa, uma torre de cidadela.

     Os japoneses são mestres nessa maneira de criar um cenário.  Para criar um rio, basta apresentar um cartaz trazido à cena com a palavra “rio” escrita para sugerir o ambiente da cena a ser representada. Para Sábato Magaldi, “no espetáculo, o cenário e a vestimenta situam o ator no espaço, e são essenciais à caracterização da personagem.”

     O drama religioso da Idade Média teve em seu início o interior da igreja como cenário. Passou a ser apresentado no pórtico dos templos. Em seguida, os mistérios e moralidades passam a ser representados nas praças; a partir dai, pela necessidade cria-se o cenário simultâneo, em que diversas indicações, muito sumárias, se justapunham ao longo de um estrado. Um simples portão sugeria uma cidade, uma pequena elevação simbolizava uma montanha e assim por diante. No canto esquerdo do estrado, uma enorme boca de dragão servia para a passagem dos demônios e a ida para o inferno dos pecadores irremissíveis. Na parte direita, acima do chão, situava-se o paraíso, lugar de felicidade eterna.

     No teatro medieval, em função do sistema de palcos móveis que era geralmente construído sobre carretas, os cenário passaram a ser elaborados de materiais perecíveis, tais como tecido ou madeira, atendendo de certa forma as especificidades requeridas pelas peças encenadas. No teatro Elisabetano, passou-se a ter novamente a ideia do palco como uma estrutura fixa. Uma construção de madeira que servia de fundo para os vários ambientes. É muito simples para o público captar de forma emotiva e psicológica as ideias e mensagens que há num espetáculo, mas por outro lado, quem é especialista no assunto sabe muito bem que teatro é pura semiótica. Num espetáculo só se coloca em cena objetos que tenham total relação com o desenrolar da peça, qualquer objeto que não tenha essa relação estreita com o desenrolar da peça, deverá ser retirado de cena, para não atrapalhar na ação dos atores, como também no enredo da peça. Um espetáculo teatral é um resumo de símbolos que facilitam a compreensão do público em relação a história que está sendo contada.

 

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

HEGEL E BRECHT

 

                                               

 

     A poética marxista de Bertolt Brecht não se contrapõe a uma ou outra questão formal, mas sim, à verdadeira essência da poética idealista hegeliana, ao afirmar que o personagem não é “sujeito absoluto” e sim “objeto” de forças sociais.

     A análise lógica da ação dramática resume-se sempre numa oração simples com sujeito, predicado verbal e objeto direto, vejam a frase que segue: “Trump invadiu o Irã”. Aqui, o sujeito hegeliano é Trump, cujos movimentos interiores de seu espírito se exteriorizam de forma a ordenar a invasão do Irã. “Invadiu” é o predicado verbal e “Irã” é objeto direto.

     Na análise lógica da ação dramática segundo a poética marxista e o teatro épico de Brecth, a referida frase deveria conter uma oração principal e uma oração subordinada e nesta, o personagem “Trump” continuaria sendo sujeito. Sendo que o sujeito da oração principal seria outro, por exemplo: “Forças econômicas determinaram que o presidente Trump invadisse o Irã”. Como vemos, na poética brecthiana, ao contrário do que parece verdadeiro, são as forças econômicas que aturam forçando com que Trump tomasse tal decisão.

     A oração principal nesta poética será sempre uma inter-relação de forças econômicas. No entanto, o personagem não é livre completamente, mas sim, objeto-sujeito. Como podemos observar, na poética idealista o pensamento condiciona o ser social e na poética marxista o ser social é quem condiciona o pensamento.

    Enquanto que para Hegel, o espírito cria a ação dramática, para Brecth, a relação social do personagem é quem cria a ação dramática. Se por um lado, Hegel propõe o personagem como “sujeito absoluto”, por outro Brecth o propõe como “objeto”, como porta voz de forças econômicas e sociais.

     Diferentemente da dramaturgia, o teatro é completamente ação que, para Hegel deve ser conduzida a um determinado ponto onde possa ser restaurado o equilíbrio. O sistema de força tese-antítese deve ser levado a uma síntese, que em teatro só pode ser feito de duas maneiras: morte de um dos personagens irreconciliáveis (tragédia), ou arrependimento (drama) romântico ou social, segundo o sistema hegeliano. Em Brecth são considerados outros fatores de extrema importância para o desenrolar da trajetória do personagem. Poderemos observar essa situação em algumas obras deste último autor como: Mãe Coragem ou Os Fuzis da Senhora Carrar. Nesses espetáculos os personagens principais vão criando consciência de sua situação política e social, até definir sua trajetória enquanto ser social para poder enfrentar o sistema social ao qual está submetido.

     Portanto, é de fundamental importância que artistas das artes cênicas conheçam e entendam essas duas faces da moeda: o teatro dramático e o teatro épico, para poderem realizar suas montagens a partir de fundamentos teóricos e filosóficos e práticos, em busca da melhoria de suas montagens cênicas.   

 

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

ATO DE ESCREVER

 

 

     Desde quando ingressei na universidade, no ano de 1980, com o objetivo de realizar o antigo curso de Educação Artística, comecei a me envolver com a produção cultural e especificamente ao teatro na capital da Paraíba. Isso aconteceu, em função dos espetáculos que eu já havia montado na cidade do interior. O movimento teatral era muito intenso na década de 1980, na capital da Paraíba. Foi nesse período que, sem nenhuma intenção, passei a escrever sobre os espetáculos que estavam em cartaz, nas três principais casas de espetáculos da cidade de João Pessoa. Num determinado, momento resolvi socializar meus escritos com os diretores desses espetáculos, passando o material escrito para que eles repassassem e pudessem discutir com os demais atores de cada grupo teatral. Época em que tudo era digitado em máquina de escrever.

     Essa corrente foi crescendo ao ponto em que vários diretores me convidavam para assistir aos seus espetáculos teatrais, na perspectiva de que eu escrevesse sobre cada montagem. E assim o fiz! Depois de certo tempo, em momentos esporádicos, eu já conseguia publicar alguns artigos meus, e isso aconteceu nos principais jornais diários da Paraíba, naquela década, como: Jornal O Norte, Jornal A União e Jornal o Correio da Paraíba. Isso foi formando um grupo de leitores e pessoas que apreciavam meus artigos. E foi assim, que certo dia, um desses diretores de teatro, que também era meu professor na universidade, me colocou uma proposta um tanto irrecusável. Ele estava devolvendo sua coluna semanal, e na ocasião me ofereceu para que eu pudesse mantê-la no semanário. E foi dessa forma, que iniciei a minha primeira coluna no Jornal O Combate, que era um hebdomadário.

     Passei alguns anos escrevendo e mantendo essa minha primeira coluna naquele jornal. Quando passei a residir em Macapá, inicialmente comecei a escrever para o Jornal do Dia, como também, Jornal Diário do Amapá, e ainda, Jornal O Liberal. Mas preferi ficar no Jornal A Gazeta, no qual, passei a escrever sequencialmente há 22 anos, ou seja, desde o ano de 2004. Gosto de escrever artigos dos mais variados temas, mas me detenho a escrever principalmente sobre a arte em geral e sobre o teatro em particular. Nesses últimos 22 anos esses artigos já me renderam dois livros: Artes Cênicas no Amapá – Teoria, Textos e Palcos; e Arque com Arte – Arque com Arte, Cultura, Arte e Educação no Amapá.

     Na sala de aula, busco incentivar meus alunos em relação à escrita. Mas, uma questão fundamental para quem deseja escrever, é a leitura constante e presistente.  A leitura é o principal pré-requisito para quem deseja escrever. Sendo que, essas duas atitudes estão intrinsecamente relacionadas. Comecei a escrever poesias aos 15 anos de idade. Li autores clássicos como: José de Alencar, Guimarães Rosa, Menotti del Picchia, Graça Aranha, Eça de Queiroz, José Lins do Rego, Aluísio Azevedo, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa, entre outros. Atenção: viver sem ler é perigoso, te obriga a crer no que te dizem. Segundo Einstein, tudo aquilo que o homem ignora, não existe para ele. Por isso, o universo de cada um, se resume no tamanho do seu saber.

  

segunda-feira, 18 de maio de 2026

SALVE BACABEIRAS

 


     Ultimamente vem acontecendo em nossa cidade, uma polêmica em função do anúncio de que o Teatro das Bacabeiras teria seu nome modificado, mudado ou complementado. Dessa forma, deixaria de ser Teatro das Bacabeiras, para Teatro das Bacabeiras Amadeu Lobato. É bom lembrar que historicamente, o Teatro das Bacabeiras surgiu em função da luta do povo amapaense, por um lado, pessoas influentes na sociedade local como: o poeta Alcy Araújo, professor Antônio Munhoz Lopes, professora Zaide Soledade entre tantos outros, por outro lado, a classe teatral que vinha produzindo suas peças durante a década de 1980, e que também lutavam para que o Amapá construísse sua casa de espetáculos. Entre esses artistas, podemos citar aqui, o próprio Amadeu Lobato, Sol Pelaes, Richene Amim, Jackson Amaral, Disney Silva, Andréa Lopes, Waldez Mourão, entre outros, e nem por isso, nenhum desses ilustres nomes foram contemplados para serem gravados no frontispício daquele edifício teatral.

     Ele nasceu mesmo, como Cineteatro das Bacabeiras, e depois de certo tempo, passou a ser simplesmente Teatro das Bacabeiras, representando a cultura, o povo amapaense, os artistas e a região amazônica, deixando de ser composto e particular, para se transformar em simples e universal. Se olharmos para o passado distante, da história do teatro do Amapá, são muitos os nomes que poderiam ser lembrados, principalmente a partir de 1948, quando surge o Teatro do Estudante do Amapá com célebres artistas como: Mário Quirino da Silva, Papaléo Paes, Lizete Aimoré, Nazí Gomes, Raimundo Barata, Ida Aimoré, Vilela Monteiro; do Teatro de Amadores do Amapá, que surgiu no ano de 1960, como: Sebastião Ramalho da Silva, Ester da Silva Virgolino, Ivaldo Veras, Luiz Ribeiro de Almeida, Creuza Bordalo, Aracy de Mont’Alverne, Hilkias Alves de Araújo, entre outros.

     Nesses últimos 31 anos acompanhei pari passu o trabalho de Amadeu Lobato, e observo que ele possuía características relacionadas à grande elenco, prestigiado público e espaços abertos. É de praxe que suas encenações e montagens, costumeiramente foram voltadas para a rua, para locais abertos, para grandes espaços ao ar livre, e principalmente em teatros de arena, somando-se a isso, sua saga de 46 anos de montagem do espetáculo Uma Cruz para Jesus, que a todo momento foi representado em espaço aberto, como o teatro de arena. Já o palco italiano foi só um detalhe durante sua vida dedicada ao teatro amapaense.

     Esclareço aqui, que não sou contra a possível mudança ou reajuste do nome Teatro das Bacabeiras, para Teatro das Bacabeiras Amadeu Lobato, sem sombra de dúvidas, mas durante o percurso de sua vida artística, fica claro que o teatro à italiana nunca foi a casa de Amadeu Lobato, neste caso, seria mais sensato homenageá-lo nomeando o espaço externo norte da Fortaleza de São José de Macapá, onde por muitos anos ele apresentou a peça Uma Cruz para Jesus, de TEATRO DE ARENA AMADEU LOBATO.  

segunda-feira, 11 de maio de 2026

DIA DAS MÃES

 

 

     Hoje, segundo domingo do mês de maio é comemorado o dia das mães, dia de muita importância para as famílias como um todo; momento em que a população brasileira homenageia as mães. Também é um período muito significativo para as transações comerciais, em função da grande procura de presentes para as homenageadas. É um domingo muito especial, para quem tem a oportunidade de estar pessoalmente com sua querida mamãe.  

     Minha mãe tem uma longa história de vida; como meus avós eram agricultores, foi criada em terras alheias e sítios inóspitos, nas cercanias da cidade de João Pessoa, mas, apesar disso, conseguiu concluir o ensino primário. Mesmo com sua vida pacata, gostava de estudar e dava muito valor ao conhecimento. Só deixou a zona rural, depois que casou e foi morar numa pequenina cidade com o nome de Cabedelo, na Paraíba.

     Enquanto seu esposo trabalhava na Rede Ferroviária Federal, ela se limitou aos quatro recantos da casa, e por um longo período de tempo, se dedicou especificamente, às responsabilidades das atividades domésticas, preparando a comida e cuidando dos filhos: sete no total. Quando começou a surgir momentos difíceis e crises na economia doméstica, resolveu, de certa forma, se desvencilhar de tudo isso, e passou a costurar. Era exímia costureira.

     A partir desse trabalho, ajudou nas despesas domésticas, e, direta e indiretamente, a todos de casa. Tinha vários clientes, na vizinhança e de outros recantos da cidade. O mais interessante, era que morávamos defronte a um grande espaço aberto, que se tornou o local onde se armavam os circos que chegavam à pacata cidade. Resultado: os artistas desses circos, também contratavam minha mãe, como costureira. Enquanto o circo estivesse na cidade, ela criava, costurava, modificava, fazia de tudo, para aproveitar e reaproveitar todos os figurinos daqueles artistas mambembes. 

     Esse momento foi fundamental para minha vida: porquê? Porque, todas as vezes que ela entregava uma roupa pronta, ao pessoal do circo, por um lado, eles a pagavam em moeda corrente do país, e por outro, também a presenteava com alguns ingressos para ter acesso aos espetáculos do próprio circo. E ela recebia ingressos para adultos e para crianças. Esses fatos, interferiram beneficamente em minha vida, tendo em vista que, todos os finais de semana, passava a assistir aos espetáculos matinées dos circos, quando sempre terminavam com uma dramatização clássica, como “chapeuzinho vermelho”; “Cinderela”, “Branca de Neve e os Sete Anões”, entre outras histórias infantis. Em função disso, me vem toda a relação que tenho com o teatro, com a educação, com minha profissão como professor de teatro; como também, com a arte em geral.

     Mesmo sendo agricultora, nunca deixou de me incentivar aos estudos, e isto foi de fundamental importância para o meu desenvolvimento profissional. Sempre dizia que o estudo era o melhor caminho para o pobre, e para quem gostaria de conseguir ser gente um dia na vida. À minha mãe, Hilda Palhano (in memorian), agradeço de todo meu coração, tudo o quanto ela me incentivou para que eu pudesse conquistar meus sonhos e organizar minha vida, como cidadão. A vida que tenho hoje e o profissional que sou, agradeço à minha mãe. Parabéns a todas as mães do Amapá e do Brasil.