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segunda-feira, 29 de junho de 2026

SÃO PEDRO E SANTA ANA

 

 

     Embora as festas em homenagem aos Santos, Antônio João e Pedro, se concentrem no mês de junho, entendo que o prenúncio das festas juninas tem início no dia de São José, 19 de março, visto que, esse é o principal dia para a plantação do milho, com vistas à colheita após três meses, já nas proximidades do São João. Aliás, nas culturas remotas, o domínio de se conhecer a relação entre o tempo, a plantação e a colheita, significava alta tecnologia. Essa consciência gerava poder e know-how, entre tribos que ainda não dominavam esse conhecimento. Muitas festas que se conhece em cada cultura, geralmente tem a ver com a produção, colheita, e fartura de uma determinada região, por exemplo, no Nordeste, a produção do milho em junho, como também a colheita da cevada e divulgação da cerveja, na Oktorberfest, em Santa Catarina, entre outras.

     Sendo assim, o dia 13 de junho é dedicado à Santo Antônio, que é conhecido como Santo Casamenteiro. Vale lembrar que, para todos esses Santos, o costume do povo é fazer simpatias para alcançar seus desejos e pedidos. Mas, o momento áureo das festas juninas, acontece efetivamente no dia 24 de junho, dia de São João, que, entre os demais, é o santo mais comemorado. Há quem diga que a festa do ano mais esperada pelo nordestino, é o São João. E ainda temos o dia 29 de junho, quando se comemora o dia de São Pedro. Pedro que era Simão e que Cristo mudou seu nome para Pedro, que deriva de pedra, e Pedro seria a primeira pedra da Igreja de Cristo. Praticamente 30 dias depois da festa de São Pedro, exatamente no dia 26 de julho, comemora-se o dia de Santa Ana, é um dia que também se acende fogueiras, solta-se fogos de artifícios em comemoração à Santa. Aqui fecha-se o ciclo das festas juninas.

     Independentemente de qualquer coisa, é interessante saber que muitas dessas festividades iniciam, por um lado, pelo cristianismo, e por outro, pelo comércio. Portanto, essas datas sempre foram comemoradas por remotas civilizações pagãs, principalmente em função do domínio da cultura de cereais, que era fundamental para que o homem pudesse se fixar em algum lugar e deixar a vida nômade. Cereal, que deriva da Deusa romana Ceres, e que na Grécia era conhecida por Deméter, que era a divindade da agricultura e da fecundidade da terra. O dia de São José, 19, se aproxima do equinócio quando o Sol segue paralelo à linha do equador, e que ocorre entre os dias 20 e 23 de março, o dia de São João, 24, é o dia do solstício de verão para o hemisfério norte, e acontece entre os dias 20 e 24, as populações antigas já comemoravam o Sol Invictus, período de fim do inverno e início do verão.

     O dia de Santa Aurélia comemora-se no dia 25, próximo ao equinócio de setembro, e no solstício de inverno, é quando acontece a festa de Natal. São Cosme e São Damião são celebrados em 26 de setembro. Vale lembrar também, a comemoração do dia de Santa Ana, que acontece em 26 de julho, período que ainda há festividades relacionadas com os santos de junho, época em que há comemorações e queima de fogos. Santa Ana é a padroeira dos mineradores, e não é à toa que a antiga Vila de Madre de Deus, foi denominada pela ICOMI, como cidade de Santana. Já que a ICOMI trabalhava com a extração do manganês.

   

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

FELIZ SÃO JOÃO

 

 

     Estamos em pleno São João, festividade tradicional no Brasil e principalmente na região nordeste. Festas joaninas ou juninas? Joanina deriva de João e é em homenagem a ele que assim se fala: festas joaninas. Junina deriva do mês de junho, visto que acontece nesse período do ano. É a principal festividade do ano e a mais comemorada no nordeste brasileiro.

     Os pagãos comemoravam essa data em função do solstício de inverno, no hemisfério Sul e solstício de verão no hemisfério norte. Solstício que deriva do latim solstitium, que significa “Sol parado”, antes de inverter sua trajetória de volta ao hemisfério Sul. É bom lembrar que hoje, dia 21, é o dia do solstício, por consequência, o hemisfério Norte terá o dia mais longo, e o hemisfério Sul terá o dia mais longo do ano.  Como a Europa situa-se no hemisfério norte, e praticamente maior parte do ano perdura o frio, os pagãos comemoravam a chegada do “Deus Sol Invictus”, ou seja, o sol invencível que chegava abrindo o verão para abrilhantar e esquentar aquele espaço geográfico.

          O culto ao Sol invicto continuou a ser base do paganismo oficial até a adesão do império romano ao cristianismo. Antes da sua conversão, até o imperador Constantino I, tinha o Sol Invicto como a sua cunhagem oficial. Quando aconteceu a ascensão do cristianismo, ficou decidido que a referida data seria para comemorar o santo “São João”. Com isso, a cultura europeia e de suas colônias, foi se adaptando gradativamente, como é o caso no novo mundo e do nordeste do Brasil.

     Mesmo sendo na atualidade uma dança popular, é bom lembrar que a quadrilha que era muito difundida na França, foi inicialmente dançada na corte francesa. Em seguida, no campo entre os agricultores e seus familiares. Com a descoberta do novo mundo, os costumes e a cultura europeia vieram juntos. Foi assim que se consagrou as quadrilhas mais antigas que traziam muitas palavras francesas e que foram ao longo do tempo sendo aportuguesadas aqui no Brasil.

       Alavantú, vem do francês “en avant tous” (todos para a frente); changê de damas e changê de cavalheiros, vem do verbo “changer” que significa trocar, neste caso, trocar de damas e trocar de cavalheiros. Anarriê, também é do françês “en arrière” (todos para trás); Otrefuá, do francês “autre fois”, que significa outra vez.

     O que não havia na quadrilha francesa e que foi adaptado pelo povo brasileiro, foi a encenação do casamento matuto, neste caso a quadrilha gira em torno desse casamento matuto na roça em que o noivo é obrigado a casar pelo pai da noiva, que com uma espingarda apontada para ele, o obriga definitivamente a aceitar o casamento.

     As festas juninas são comemoradas no dia 13, em homenagem a Santo Antônio, quando na véspera se comemora o dia dos namorados; o dia de São João, 24, é o dia mais comemorado, há fogueiras, queima de fogos e impera a comida derivada do milho, inclusive porque é período de colheita. Dia 29 comemora-se o São Pedro que também é muito lembrado nas pequenas cidades do interior. Ótimo São João a todos.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

TEATRO E MARABAIXO

 


     O culto a Dioniso, deus da uva e do vinho, com seu canto ditirâmbico, remonta há mais de mil anos antes de cristo, nele, havia dança, música, pessoas gritando e cantando e ingeria-se muito vinho. Acontecia em homenagem às vindimas (período da colheita da uva).  Havia ainda o corifeu, que puxava um refrão, enquanto as pessoas respondiam.

     Apesar da distância cronológica, da tecnologia e do mundo contemporâneo, há muita semelhança entre o canto ditirâmbico e o marabaixo. Os praticantes do marabaixo dançam ao som de caixas confeccionadas de madeira; dançam em círculo em torno dos caixeiros, da mesma forma que as pessoas dançavam em círculo a partir de determina música no entorno do deus Dioniso; respondem em coro o “ladrão” tirado pelo cantador, praticamente representando o papel do corifeu (que fazia o mesmo) no antigo culto grego.

     Muitas vezes esses “ladrões” transformam-se em desafios improvisados, o que nos remete à Odisseia e propriamente ao cordel, como também aos desafios dos emboladores de coco. Em sua tese de doutorado, intitulada: “Marabaixo, ladrão, gengibirra e rádio – Traduções de linguagens de textos culturais”, defendida em 2012, na Pontíficia Universidade Católica de São Paulo, (da qual fui arguidor) o Prof. Dr. Rostan Martins afirma que: “Alguns versos de ladrão contam gozações, reprovações ou alguns lapsos cometidos por uma autoridade ou pessoa da comunidade, reproduzem cenas hilariantes do cotidiano”. Isso demonstra a versatilidade da dança do marabaixo.

     O improviso é constante no marabaixo, o que também era muito utilizado no canto ditirâmbico, e foi exatamente a partir do improviso de Théspis (considerado o primeiro ator ocidental), quando gritou: “eu sou Dioniso”, que aquele culto iniciou sua transformação cultural revelando numa outra forma de manifestação conhecida por teatro.

     Acredita-se que o círculo é uma das formas mais perfeitas, e independente de área geográfica ou relação temporal/cronológica, sempre aparece em várias latitudes do planeta e nas mais diversificadas comunidades ancestrais, modernas e contemporâneas. Na Grécia clássica, o canto ditirâmbico acontecia em círculo; a ciranda também é em círculo; o coco de roda, o próprio nome já nos sugere sua forma; a maioria dos passos da quadrilha junina é em círculo; evidentemente, que o marabaixo também não poderia ficar de fora dessa regra secular. 

     De uma forma ou de outra, percebe-se que fatores religiosos também se encontram inseridos nessas manifestações, em cada latitude como também em cada seu momento histórico, e que consequentemente, merecem o respeito dos estudiosos, dos catedráticos, do povo e principalmente da própria comunidade em que essas manifestações se revelam. O marabaixo representa o símbolo da cultura amapaense. E foi esta dança que Luiz Gonzaga dançou e gravou: “Eita, seu mano que bom, ai! Que bom de dançar! Eita seu mano que bom, ai, que bom é o Macapá”, referindo-se à dança do marabaixo.

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

TEATRO E SEMIÓTICA

 

   

     Além de objetos reais, no palco não se utilizam apenas acessórios e cenários, que são meramente signos, no entanto, o público não capta essas coisas reais como se fossem reais. Por exemplo, se um personagem representando um homem rico, usa um anel de brilhante, o público o considera como um signo de grande riqueza e não se preocupa se a pedra é verdadeira ou falsa. Da mesma forma que no palco, tanto um refresco quanto um suco autêntico podem representar um suco.

     No teatro Chinês, o cenário é complementado em sua elaboração com elementos específicos ao desempenho do intérprete. Nesse tipo de teatro os mais importantes signos são a mesa e a cadeira, quase nunca ausentes do palco chinês. Por exemplo, se a mesa e a cadeira estão dispostas da maneira usual, então o cenário é um interior. Contudo, uma cadeira que se apresenta com o lado sobre o chão, significa um aterro ou fortificação; virada, simboliza uma colina ou montanha; de pé sobre a mesa, uma torre de cidadela.

     Os japoneses são mestres nessa maneira de criar um cenário.  Para criar um rio, basta apresentar um cartaz trazido à cena com a palavra “rio” escrita para sugerir o ambiente da cena a ser representada. Para Sábato Magaldi, “no espetáculo, o cenário e a vestimenta situam o ator no espaço, e são essenciais à caracterização da personagem.”

     O drama religioso da Idade Média teve em seu início o interior da igreja como cenário. Passou a ser apresentado no pórtico dos templos. Em seguida, os mistérios e moralidades passam a ser representados nas praças; a partir dai, pela necessidade cria-se o cenário simultâneo, em que diversas indicações, muito sumárias, se justapunham ao longo de um estrado. Um simples portão sugeria uma cidade, uma pequena elevação simbolizava uma montanha e assim por diante. No canto esquerdo do estrado, uma enorme boca de dragão servia para a passagem dos demônios e a ida para o inferno dos pecadores irremissíveis. Na parte direita, acima do chão, situava-se o paraíso, lugar de felicidade eterna.

     No teatro medieval, em função do sistema de palcos móveis que era geralmente construído sobre carretas, os cenário passaram a ser elaborados de materiais perecíveis, tais como tecido ou madeira, atendendo de certa forma as especificidades requeridas pelas peças encenadas. No teatro Elisabetano, passou-se a ter novamente a ideia do palco como uma estrutura fixa. Uma construção de madeira que servia de fundo para os vários ambientes. É muito simples para o público captar de forma emotiva e psicológica as ideias e mensagens que há num espetáculo, mas por outro lado, quem é especialista no assunto sabe muito bem que teatro é pura semiótica. Num espetáculo só se coloca em cena objetos que tenham total relação com o desenrolar da peça, qualquer objeto que não tenha essa relação estreita com o desenrolar da peça, deverá ser retirado de cena, para não atrapalhar na ação dos atores, como também no enredo da peça. Um espetáculo teatral é um resumo de símbolos que facilitam a compreensão do público em relação a história que está sendo contada.

 

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

HEGEL E BRECHT

 

                                               

 

     A poética marxista de Bertolt Brecht não se contrapõe a uma ou outra questão formal, mas sim, à verdadeira essência da poética idealista hegeliana, ao afirmar que o personagem não é “sujeito absoluto” e sim “objeto” de forças sociais.

     A análise lógica da ação dramática resume-se sempre numa oração simples com sujeito, predicado verbal e objeto direto, vejam a frase que segue: “Trump invadiu o Irã”. Aqui, o sujeito hegeliano é Trump, cujos movimentos interiores de seu espírito se exteriorizam de forma a ordenar a invasão do Irã. “Invadiu” é o predicado verbal e “Irã” é objeto direto.

     Na análise lógica da ação dramática segundo a poética marxista e o teatro épico de Brecth, a referida frase deveria conter uma oração principal e uma oração subordinada e nesta, o personagem “Trump” continuaria sendo sujeito. Sendo que o sujeito da oração principal seria outro, por exemplo: “Forças econômicas determinaram que o presidente Trump invadisse o Irã”. Como vemos, na poética brecthiana, ao contrário do que parece verdadeiro, são as forças econômicas que aturam forçando com que Trump tomasse tal decisão.

     A oração principal nesta poética será sempre uma inter-relação de forças econômicas. No entanto, o personagem não é livre completamente, mas sim, objeto-sujeito. Como podemos observar, na poética idealista o pensamento condiciona o ser social e na poética marxista o ser social é quem condiciona o pensamento.

    Enquanto que para Hegel, o espírito cria a ação dramática, para Brecth, a relação social do personagem é quem cria a ação dramática. Se por um lado, Hegel propõe o personagem como “sujeito absoluto”, por outro Brecth o propõe como “objeto”, como porta voz de forças econômicas e sociais.

     Diferentemente da dramaturgia, o teatro é completamente ação que, para Hegel deve ser conduzida a um determinado ponto onde possa ser restaurado o equilíbrio. O sistema de força tese-antítese deve ser levado a uma síntese, que em teatro só pode ser feito de duas maneiras: morte de um dos personagens irreconciliáveis (tragédia), ou arrependimento (drama) romântico ou social, segundo o sistema hegeliano. Em Brecth são considerados outros fatores de extrema importância para o desenrolar da trajetória do personagem. Poderemos observar essa situação em algumas obras deste último autor como: Mãe Coragem ou Os Fuzis da Senhora Carrar. Nesses espetáculos os personagens principais vão criando consciência de sua situação política e social, até definir sua trajetória enquanto ser social para poder enfrentar o sistema social ao qual está submetido.

     Portanto, é de fundamental importância que artistas das artes cênicas conheçam e entendam essas duas faces da moeda: o teatro dramático e o teatro épico, para poderem realizar suas montagens a partir de fundamentos teóricos e filosóficos e práticos, em busca da melhoria de suas montagens cênicas.