A poética marxista de Bertolt Brecht não
se contrapõe a uma ou outra questão formal, mas sim, à verdadeira essência da
poética idealista hegeliana, ao afirmar que o personagem não é “sujeito
absoluto” e sim “objeto” de forças sociais.
A análise lógica da ação dramática
resume-se sempre numa oração simples com sujeito, predicado verbal e objeto
direto, vejam a frase que segue: “Trump invadiu o Irã”. Aqui, o sujeito
hegeliano é Trump, cujos movimentos interiores de seu espírito se exteriorizam
de forma a ordenar a invasão do Irã. “Invadiu” é o predicado verbal e “Irã” é
objeto direto.
Na análise lógica da ação dramática
segundo a poética marxista e o teatro épico de Brecth, a referida frase deveria
conter uma oração principal e uma oração subordinada e nesta, o personagem
“Trump” continuaria sendo sujeito. Sendo que o sujeito da oração principal
seria outro, por exemplo: “Forças econômicas determinaram que o presidente
Trump invadisse o Irã”. Como vemos, na poética brecthiana, ao contrário do que
parece verdadeiro, são as forças econômicas que aturam forçando com que Trump
tomasse tal decisão.
A oração principal nesta poética será
sempre uma inter-relação de forças econômicas. No entanto, o personagem não é
livre completamente, mas sim, objeto-sujeito. Como podemos observar, na poética
idealista o pensamento condiciona o ser social e na poética marxista o ser
social é quem condiciona o pensamento.
Enquanto que para Hegel, o espírito cria a
ação dramática, para Brecth, a relação social do personagem é quem cria a ação
dramática. Se por um lado, Hegel propõe o personagem como “sujeito absoluto”,
por outro Brecth o propõe como “objeto”, como porta voz de forças econômicas e
sociais.
Diferentemente da dramaturgia, o teatro é
completamente ação que, para Hegel deve ser conduzida a um determinado ponto
onde possa ser restaurado o equilíbrio. O sistema de força tese-antítese deve
ser levado a uma síntese, que em teatro só pode ser feito de duas maneiras:
morte de um dos personagens irreconciliáveis (tragédia), ou arrependimento
(drama) romântico ou social, segundo o sistema hegeliano. Em Brecth são
considerados outros fatores de extrema importância para o desenrolar da
trajetória do personagem. Poderemos observar essa situação em algumas obras deste
último autor como: Mãe Coragem ou Os Fuzis da Senhora Carrar. Nesses
espetáculos os personagens principais vão criando consciência de sua situação
política e social, até definir sua trajetória enquanto ser social para poder
enfrentar o sistema social ao qual está submetido.
Portanto, é de fundamental importância que
artistas das artes cênicas conheçam e entendam essas duas faces da moeda: o
teatro dramático e o teatro épico, para poderem realizar suas montagens a
partir de fundamentos teóricos e filosóficos e práticos, em busca da melhoria
de suas montagens cênicas.