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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

FUTURO INCERTO



     O entorno do marco zero do equador se tornou um dos principais pontos de encontro dos amapaenses como também de turistas que visitam nossa querida cidade. Naquele espaço urbano, em meio à linha do equador, o complexo do marco zero concentra três importantes monumentos: o Marco Zero do Equador; o Sambódromo complementando-se com a Cidade do Samba e o Estádio Milton de Souza Corrêa, conhecido popularmente como Estádio Zerão.
     Todos sabem que megaeventos e grandes shows musicais sempre acontecem no entorno do marco zero do equador. No sambódromo acontece um dos maiores eventos da cidade que é o desfile das escolas de samba no período de carnaval; e para que isso aconteça, torna-se prioritário grande movimentação no entorno daquela área urbana; área mais do que necessária para que cada evento, como o desfile das Escolas de Samba, por exemplo, tenha sucesso.
     Além do desfile de escolas de samba, durante os 365 dias do ano acontecem outros tantos eventos como o desfile das quadrilhas juninas entre vários shows de cantores famosos, tanto amapaenses como músicos conhecidos em todo o Brasil. Ademais os encontros religiosos que sempre escolhem aquela área urbana para louvarem ao senhor. Na Rua Ivaldo Veras também existe a Cidade do Samba que, por sua vez, serve como suporte ao Sambódromo em suas atividades culturais.
     O mês de setembro sempre é bastante movimentado com os desfiles dos dias 07 e 13 deste mês, quando aquela área se reveste de desfiles de escolas estaduais e municipais, exército, bombeiros e polícia militar, entre outras agremiações. Tanto no desfile das escolas de samba como no desfile do dia 07 de setembro a parte de trás do Zerão fica repleta de bandas de música das escolas, todas esperando seu momento para entrar em cena. Neste caso, o barulho é imenso na espera de desfilar no sambódromo.
     Lá também está localizado o Marco Zero do Equador, com várias festividades inserindo aqui as principais que são os Equinócios: equinócio da primavera, em março e equinócio de outono, em setembro. Na maioria dos casos, há danças e exposições, o que transforma aquele ambiente num grande local de encontro das pessoas que aqui habitam. Ainda há os solstícios que não são muito divulgados, mas que acontecem em junho e dezembro.
     Junte-se a tudo isso o Estádio Zerão, querido por todos aqueles que são amantes do futebol. Tudo que se relacione ao futebol acontece no Estádio Zerão, que é o único estádio do Brasil onde uma equipe situa-se no hemisfério Norte e a outra no hemisfério Sul. E o que dizer dos circos que sempre chegam à cidade de Macapá, o melhor espaço para se instalar um deles só poderia ser naquele espaço urbano, como sempre acontece.
     Após a inauguração do Hospital Universitário qual será o destino desses monumentos? Digo isto, porque, tendo em vista que o Hospital Universitário se transformará no maior centro de concentração da área da saúde no Amapá, então, dá pra imaginar que esses monumentos ficarão obsoletos. Penso que o sambódromo poderia ser transformado realmente numa escola ou centralizar órgãos do Estado; o Estádio Zerão poderia ser doado à Unifap para o Curso de Educação Física e ainda a Cidade do Samba deveria ser devolvida à Unifap visto que foi construída na área daquela instituição. Acredito que se tornará impossível manter eventos desses níveis, após a movimentação daquele Hospital.





segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

ANDANÇAS EM CARTÃO POSTAL



     Última terça-feira na biblioteca central da Universidade Federal do Amapá, aconteceu a abertura da exposição intitulada “Andanças em Cartão Postal”. Surgiu em função de minhas andanças com a prática teatral, nas décadas de 1970 e 1980 por várias cidades do Brasil.  Época em que celular e WhatsApp eram ficção científica. Naquele período, uma das formas mais difundidas de comunicação entre quem estava em viagem e seus familiares e amigos, era exatamente o envio de notícias em cartão postal.
     O cartão postal era fundamental para esta comunicação entre quem ficava e quem partia em viagem. Geralmente na parte da frente ficava a imagem de algum lugar interessante da cidade e na parte posterior a identificação do local. Havia espaço para se escrever algumas palavras e a colocação do endereço do destinatário. Eu mesmo escrevi vários para minha família.
     Como estudante e artista, eu não tinha oportunidade de comprar qualquer suvenir, no entanto tive a ideia de compra-los como lembrança. Assim, a cada cidade que visitava, sempre fazia questão de comprar um ou dois postais.  Fui criando uma coleção. Dia desses, encontrei no fundo do baú, mais de cem deles. Pensei em jogá-los no lixo, mas, relutei e resolvi socializa-los, expondo-os para um público amplo, principalmente para que os jovens possam ter uma ideia de como funcionava o WhatsApp do passado.
     Professora Doutora Sílvia Marques, curadora desta exposição, escreveu as seguintes palavras: Igualmente a ferramenta de guerra, os postais se tornaram meio de comunicação de massa que funcionou como dispositivo de manutenção do status quo, uma ferramenta de violência simbólica efetivada através da produção de um imaginário que legitimou o predomínio sociocultural da elite sobre o espaço urbano. Deixando claro a quem pertence a cidade, a exposição vem estabelecer diálogos de mão dupla que solapa o pensamento e a visão, para ver a intenção das imagens em favor e ao encontro da vida, a interpretação e intervenções coletiva e particular com espaço das cidades.
     Isso requer pensar não só a superfície impressa dos postais. Mas, mergulhar nas profundezas da cidade em seus deslocamentos de um diálogo temporal do que se desvelam em imagens. Como suporte, os postais abrem possibilidades com diferentes tipos de intervenções do olhar, de percepção, contemplação e compreensão de usos políticos e poéticos na urbe em outras significações.
     Nesse sentido, a exposição nos convoca a perceber as cidades como vias de acesso em seus pertencimentos analíticos de uso e convívio. E nessa dimensão, se aliam ao questionamento: quantas cidades há em mim, em você, em nós? Não podemos negar que transitamos cotidianamente entre ambientes marcados por uma tessitura áspera e, em muitos casos, excludente, os quais revelam a existência de áreas limiares, como becos, vielas, terrenos baldios, cruzamentos, escadarias, praças, entre outros lugares com grande poder simbólico. Para tanto, nessa exposição, os cartões postais, a princípio funcionam em montagens que contraditoriamente ao se revelar público se torna acervo íntimo e é investido na narração memória e invenção do coletivo.
    

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

VARINHA DE CONDÃO


VARINHA DE CONDÃO

     Quando se pensa em vara, talvez essa palavra não nos passe nenhum significado tão abrangente. No entanto, é uma palavra que todos sempre ouvem já que é muito utilizada no que diz respeito à jurisprudência.  Resume-se a cada uma das circunscrições judiciais presididas por um juiz de direito: e assim temos: vara da infância, vara da família, vara criminal, vara civil, vara judicial, entre outras. Essas varas representam a área de atuação de determinado juiz. 
     Essa palavra tem origem diversificada e aos poucos foi se se adaptando a várias situações do cotidiano. Do antigo Egito, existem registros mostrando sacerdotes segurando pequenos bastões. Durante vários momentos do registro de grupos humanos, se percebeu que o símbolo da vara se fez presente. Antropólogos acreditam que várias pinturas das cavernas da Idade da Pedra, mostram pessoas portando pequenas varas. Possivelmente representando os líderes desses grupos com suas varas que demonstrava seu poder.
     Moisés usava um grande cajado, sendo que muitos viajantes da época do êxodo, usavam varas para se apoiarem na caminhada nas areias do deserto. Pastores de ovelhas sempre tinham apoio numa vara, usavam o cajado para conduzir e controlar, o que era indispensável para manter seu rebanho unido. Antigamente os porcos eram tocados por uma vara, daí a expressão vara de porcos. Na mitologia grega, Zeus se apoiava num grande cajado com três pontas. Os faraós no Egito antigo não dispensavam um cajado, muitas vezes banhado a ouro.
     Desde muito tempo, magos e mágicos sempre se apoiaram numa vara, da mesma forma que se utiliza o maestro para direcionar sua orquestra sinfônica. Num tempo passado, professores só entravam em sala de aula com o apoio de uma vara. Na atualidade, o Papa se apresenta com um cajado sagrado. Na antiga Grécia a vara se transformou num símbolo da autoridade do juiz. Nessa época, o juiz era eleito pelo povo e devia trazê-la consigo sempre que andava pela Vila ou Cidade. Para cada juiz era determinada uma vara de cores diferentes: o Juiz de fora (vara branca); Juiz ordinário (vara vermelha) e assim por diante.
     Segundo a mitologia, a primeira Varinha Mágica pertencia ao deus Mercúrio, neste caso teria sido um presente do deus Apolo. Era toda confeccionada em ouro. Chamava-se “Caduceu”. Com o apoio dessa varinha, Mercúrio passou a possuir poderes mágicos. Esse deus era um mago e resolveu transformar sua varinha de ouro numa varinha de madeira. De toda forma, a primeira vara que revelou muito destaque apareceu na Odisseia de Homero. A Feiticeira Circe a usava para transformar homens em animais. Possivelmente, a varinha de condão teve origem na varinha de Mercúrio, como também na maga Circe, visto que demonstrava seus poderes a partir da varinha que empunha em suas mãos. Asclépio na Grécia e Esculápio em Roma, também usavam varas para curar enfermos.
     Condão deriva do latim condonare, de com, igual a “junto”, mais donare, “dar, ofertar, presentear”. Possui um atributo especial ou poder sobrenatural que pode exercer influência negativa ou positiva de cunho provavelmente mágica. Pode ser de madeira, marfim, ouro ou cristal.  A Varinha de Condão foi muito difundida a partir da Idade Média com o aparecimento das fadas. Claro, surgiu nas mãos das fadas boas e más, tanto para fazer o bem como o mal.
     Muito difundida na Idade Média, a varinha de condão se tornou bastante conhecida nos dias atuais, principalmente a partir dos contos de fadas. “Cinderela”, “Branca de Neve”, “A Bela Adormecida”, entre outros, são alguns dos clássicos infantis que se utilizam desse objeto de cena para ilustrar o enredo dessas clássicas estórias. Muitos contos de fadas como os citados, contam com a presença de fadas ou bruxas que usam varinhas mágicas.
     Na atualidade, podemos ver a varinha em As Crônicas de Nárnia. Também a encontramos no mundo de fantasia de Harry Potter. Comumente, as varinhas mágicas sempre aparecem em obras de ficção. Afinal, toda fada madrinha deve usar uma varinha com uma estrela mágica na ponta e isso é o que importa.


terça-feira, 11 de setembro de 2018

HONORATO JÚNIOR



          Manuel Honorato de Luz Barbosa Júnior é amapaense; filho de Manuel Honorato da Luz Barbosa e Maria Durvalina Pereira Barbosa. É acadêmico do Curso de Artes Visais da Unifap. Iniciou seu desejo de trabalhar com artes ainda criança, visto que já possuía a capacidade de registrar em desenho tudo o que estava em seu entorno.
     Sua vontade de trabalhar com quadrinhos surgiu no dia em que sua mãe o trouxe ao centro da cidade para andar no comércio e passando defronte a uma banca de revista, se encantou com uma revista em quadrinhos, diz ele: “- Eu achei bonito os traços, as cores, a Mônica, o Cebolinha. Mas o que me influenciou bastante mesmo foi a revista de Conan, que apresentava traços totalmente diferente das demais”.
     Para Honorato, o artista necessita sempre de um produtor ou de alguém que patrocine sua obra. Segundo ele: “- Nós realizamos um projeto, investimos em cima desse projeto, acreditamos em nossos projetos, mas no final temos que ter um patrocínio ou então o projeto pode fracassar, aliás, todos os projetos que eu fiz saiu mesmo foi do meu próprio bolso, então na minha concepção a principal dificuldade é o apoio cultural”.
     A família sempre esteve presente para apoiar o desejo de Honorato em querer desenhar, para isso comprava lápis grafite, lápis de cor, papel e revistas em quadrinhos. Já na escola era o mais conhecido da turma. A professora sempre o chamava para fazer algum desenho no quadro, para abrilhantar sua aula. Nas aulas de artes sempre era convocado pelos colegas para desenhar as tarefas escolares.
     Honorato trabalhou em várias áreas: já foi caixa de supermercado; embalador; vendedor; já trabalhou com vime; como auxiliar de contabilidade e como auxiliar de escritório. O certo é que em todos esses afazeres ele sempre percebeu a presença do desenho. Todo o tempo o desenho e as imagens estavam ali, onde ele passasse.
     Em seu trabalho artístico se volta mais especificamente para temas regionais e gosta de registrar o dia a dia do caboclo da Amazônia. Suas atividades artísticas se voltam para as caricaturas; tiras de jornal; ilustração para livros; charges; desenhos diversos e quadrinhos. Seus trabalhos de relevância são: já publicou charges para vários jornais do Amapá. Relativo aos quadrinhos, um trabalho de destaque são as imagens criadas para a revista em quadrinhos “Os Cabuçus” de circulação regional. Assinou as imagens das seguintes revistas: “Os Cabuçus – Edição nº 3; março de 2004”; “Combatendo o Mosquito da Dengue – Secretaria de Saúde do Estado do Amapá”; “Não Deixe a Malária pegar Você – FUNASA” e “APAExonado – APAE – Macapá”.
      Na obra infantil “Pablito e a Libélula”, publicada em 2013, Honorato Júnior foi o autor das Imagens. Também foi meu aluno no Curso de Artes Visuais. É um profissional muito capacitado para o que realiza atualmente em relação a desenhos e caricaturas, no Estado do Amapá.


terça-feira, 28 de agosto de 2018

COMPLEXO DA PRAÇA BARÃO: o point da cidade na década de 1950



     A implantação do Território Federal do Amapá na década de 1940 redimensionou as questões geográficas, políticas, econômicas e culturais de uma das áreas mais setentrionais do Brasil. Em se tratando de questões culturais, isto se dará mais propriamente no final da década de 1940, com a inauguração e implantação de vários setores da cultura como, por exemplo: a inauguração do Cine Teatro Territorial em 22 de julho de 1944; inauguração da Rádio Difusora de Macapá em 23 de julho de 1946; inauguração da Escola Barão do Rio Branco (primeira escola em alvenaria de Macapá), em 13 de setembro de 1946, onde começa a surgir dramatizações de peças por alunos, com apoio de professores. Inauguração do Novo Hotel em 13 de setembro de 1945, e a inauguração da Praça Barão do Rio Branco em 1º de janeiro de 1950.
     Em relação à inauguração da referida praça, o Comandante Cordeiro da Graça dá suas impressões com o artigo “Acreditando no Futuro do Brasil”, o qual consta no livro, “Confiança no Amapá: Impressões sobre o Territótrio”, de Janary Gentil Nunes, que foi publicado em 2012 em sua 2ª edição. No referido artigo, ele relata sobre aquela bela praça de esportes: “Assisti ao ato inaugural da praça “Barão do Rio Branco”. É uma praça pública bonita, larga, onde a juventude tem todos os esportes. Não seria possível desejar coisa melhor nem mais eficiente”.
     Tais fatores foram preponderantes para o desenvolvimento da cultura, da arte, das artes cênicas e especificamente do teatro. Portanto, é em função dessas ações cronológicas e sequenciais do governo Janary Nunes, que se percebe, que por um lado, fez crescer demasiadamente a cultura no Amapá e por outro, fez criar nos jovens um sentimento muito estreito em relação à arte. E é em função desses fatores que, na década de 1950 a produção cultural em relação à montagem de peças teatrais começa a surgir timidamente no âmbito do Ex-Território.
     Nesses termos, Nunes Pereira quando se refere às ações do governo Janary Nunes, em seu artigo “Opinião de Estudiosos: Evolução de um Território”, também publicado na obra “Confiança no Amapá: Impressões sobre o Territótrio”, afirma que: No campo cultural, por exemplo, ele não só atrai artistas e homens de ciência para que influam diretamente na formação da mentalidade do povo, porém procura amparar as tradições, os costumes que são típicos daquele povo, que constituem o seu patrimônio folclórico.
     Foi com a inauguração de vários prédios, tendo sido o primeiro o Cine Teatro Territorial (1944), seguido de: Novo Hotel (1945); Rádio Difusora de Macapá (1946); Escola Barão do Rio Branco (1946); Praça Barão do Rio Branco, (1950), que se consolidou um espaço urbano com vistas de progresso e futuro. A partir do ano de 1950, com a inauguração da Praça Barão do Rio Branco, aquele espaço passou a ter grande importância para a comunidade local, visto que ali se concentrava a cultura, representada pelo Cine Teatro; a comunicação (Rádio Difusora); a educação (Escola Barão); e o lazer (Praça Barão). Foi este espaço urbano que se transformou no principal point da cidade de Macapá entre as décadas de 1940/1950.



segunda-feira, 20 de agosto de 2018

TRAGÉDIA DE MIM



     Este é o título que eu daria ao espetáculo “A Mulher do Fim do Mundo” apresentado no último sábado, dia 11/08, pela Associação Cultural Casa Circo, no salão do SESC/Araxá. O trabalho traz uma série de elementos interessantes no que diz respeito, principalmente à concepção estética em relação ao teatro amapaense. Observo que se trata de um espetáculo que apresenta amplo universo de reflexões sobre o ângulo de juízo que gira em torno de questões culturais, sociais, econômicas, políticas, étnicas e psicológicas no que diz respeito à personagem da mulher em sociedade. Todavia, não me refiro aqui a questões de beleza imposta pelos mass media, que possui esse grande poder de definir e impor o que é belo e o que é feio, para determinada população.  
     Acompanho e conheço a trajetória dos artistas que compõem o referido espetáculo, consequentemente, este fato me deixa mais à vontade para escrever estas palavras e ponderar meus pensamentos: Jones Barsou (encenador); há bastante tempo vem se dedicando a personagens geralmente ligados ao circo, é um palhaço nato. Agora, se aventura com mais intensidade como encenador. Mas, este é sem sombra de dúvida, o métier do artista; o eterno construir/desconstruir/construir.
     Ana Caroline é atriz, bailarina, artista circense, formada em psicologia e atualmente é acadêmica do curso de Letras na UNIFAP. Há quatro anos que vem se dedicando às artes cênicas no Amapá. Marcos Sales é performer. Salientando que Jones Barsou e Marcos Sales são acadêmicos e foram meus alunos no Curso de Licenciatura em Teatro da UNIFAP.
     Com espaço de tempo de aproximadamente 40 minutos, o espetáculo é um monólogo com atuação da Ana Caroline, no qual, está implícita uma partitura coreográfica lógica e ilógica, de ações e movimentos sequenciais. Eu diria... Está muito mais para um monólogo corporal, coreográfico e performático do que dramatúrgico, tendo em vista que sua dinâmica e mutabilidade superam a fala da personagem. De preferência, este fato nos remete ao teatro e seu duplo de Antonin Artaud.
     Enfoca tema relacionado exclusivamente ao modo impositivo e imperativo de como as sociedades, em diversas latitudes, têm visto o gênero feminino ao longo dos séculos. Notadamente, a encenação coloca de forma abstrata (a partir de movimentos corporais) essas injunções, que por sua vez, suscitam no espectador reflexões substanciais sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea. Em função das vicissitudes da vida, a própria atriz, de forma idiossincrática e telúrica se insere nesta ambiguidade: por um lado, enquanto mulher (cidadã) e por outro, enquanto personagem (artista).
     A encenação também tem influências das ações físicas elaboradas por Stanislavski; pelo trabalho psicofísico do ator, de Grotowski; pela biomecânica de Meyerhold; pelo teatro dialético de Brecht; pela teoria do Teatro Antropológico de Eugênio Barba e ainda pelo método Laban. Percebo que o espetáculo está no caminho certo, mas que o mesmo ainda precisa ser degustado e aprofundado, pelo grupo, em relação ao ritmo e harmonia. Notadamente, isto se processará com o tempo e com as consequentes apresentações para públicos diversos.
     Ao evidenciar questões sociais sobre a mulher, o trabalho da Casa Circo, me evocou a Júlia Pastrana, nascida no México no século XIX. Era negra e possuía pelos grossos e sedosos por todo corpo; sofria de hipertricose. Era conhecida como a mulher macaco. Em função disso, seu marido a usou para apresentá-la em público, como símia. Inacreditavelmente, Theodore Lent, seu esposo, a explorou até mesmo depois de sua morte, quando resolveu mumificar o corpo de Júlia para continuar exibindo e lucrando financeiramente com o corpo mumificado.
     A Mulher do Fim do Mundo é uma montagem da Associação Cultural Casa Circo. Monólogo com Ana Caroline (interpretação), Jones Barsou (encenação e iluminação) e Marcos Sales (operação de som). Na minha concepção, é um espetáculo que faz emergir nova estética de montagem teatral no cenário do teatro amapaense, visto que traz em seu âmago, discussão, pesquisa e debate sobre o tema enfocado, pré-requisitos essenciais para a montagem de um bom espetáculo. Há muitas probabilidades que, daqui para diante, o mesmo seja transformado em referência para o teatro que será produzido no Amapá.
    O grupo foi selecionado para o Amazônia das Artes/SESC, e neste ano de 2018 já se apresentou em dez municípios da região Norte. É o primeiro espetáculo amapaense que conseguiu ser selecionado para um circuito nacional, e no próximo ano estará participando do Projeto Palco Giratório do SESC, quando se apresentará em várias capitais do país.
     Essa perspectiva de avanço teórico, artístico, prático e técnico do teatro amapaense vem de longe, com minha preocupação da implantação de um curso de Teatro no Amapá, o que aconteceu no ano de 2013. O primeiro experimento surgiu ainda com a turma 2014, e durante os últimos quatro anos do curso sempre houve apresentação de experimentos no final dos semestres. Até então, essa produção se limitava às paredes da universidade. Agora em 2018, após esses quatro anos, o grande público passa a conhecer e ver de perto a influência e contribuição do curso de Teatro da UNIFAP para com a cultura do Amapá. Espero ansioso para presenciar a chegada dos nossos egressos como professores das escolas do nosso Estado. Em relação ao espetáculo “A Mulher do Fim do Mundo”, este eu recomendo.


terça-feira, 14 de agosto de 2018

CAMINHOS DO TEATRO NA EDUCAÇÃO



     Desde as mais remotas épocas, o teatro sempre esteve presente no processo de educação da criança e do adolescente. A educação grega valorizava o teatro, a música, a dança e a literatura. Platão considerava o jogo fundamental na educação.
     Na antiga Grécia a criança era exercitada, durante seus primeiros anos, em jogos educativos, aptos para encaminhá-la a seu aperfeiçoamento como adulta. Esses jogos respeitavam de antemão, os anseios, desejos e instintos dessas crianças. O menino era admitido, desde pequeno como participante de manifestações religiosas e sociais, desenvolvidas em forma de espetáculo. Aristóteles, como Platão, deu grande destaque ao jogo na educação, considerando-o de máxima importância, pois acreditava que educar era preparar para a vida, proporcionando ao mesmo tempo prazer.
     Para os romanos, o teatro era uma imitação que teria um propósito educacional se pudesse ensinar lições morais. Condenado por um determinado período pela igreja, o teatro na Idade Média, através de representações sacras, mistérios, farsas e moralidades, atraía multidões de espectadores, inclusive as crianças. Carlos Magno, coroado rei do Sacro Império Romano, por volta do século IX, fundou escolas e monastérios por toda a Europa. Nesse ínterim, os trabalhos de Aristóteles foram novamente estudados e o teatro adaptou a filosofia aristotélica à fé católica, dando então, aprovação plena à representação, desde que ela fosse recreação pura.
     No final da Idade Média o ensino do teatro propagou-se pelas escolas da Europa, e consequentemente por cinco séculos, as encenações dos mistérios e moralidades propiciaram às massas sua educação. No Renascimento, surgiram numerosas academias, onde os estudiosos das obras clássicas encenavam peças latinas. Rabelais introduziu o teatro e a dança nas escolas inglesas, o estudo dos clássicos e as atividades artísticas, sobretudo as dramáticas, eram consideradas excelentes recursos para o aprendizado da linguagem.
     Mas somente no século XVI e XVII, com São Felipe Neri e os Jesuítas, a interpretação teatral passa a fazer parte dos planos de estudo na escola, atribuindo-se ao teatro precisa e elevada função educativa. Nos séculos XVI, XVII e XVIII, havia toda uma tradição do teatro na escola, na Europa, através da interpretação de dramas latinos, por alunos de diversos colégios, com o objetivo de sensibilizar os jovens à prática religiosa. Observo aqui, as características em relação à atualidade, pois esta era uma forma completamente diferente do teatro que se faz hoje nas escolas, cujo objetivo é a autoexpressão do aluno.
     Famosos dramaturgos da história do teatro iniciaram suas primeiras obras nas escolas, “Corneille”, por exemplo, passou sete anos no Colégio de Rouen, na França. Ali ele compôs diversas peças em latim e montou vários espetáculos dramáticos.Já “Molière”, estudou no Colégio Clermont. “Voltaire” compôs seus primeiros ensaios dramáticos quando ainda estudava nas escolas. Na Itália do século XIX o teatro educativo foi marcado pela preocupação exclusivamente pedagógica. De 1850 a 1910, grandes personalidades ocuparam-se do teatro para criança, colaborando na obra educativa.
     No Brasil, o teatro na escola teve novo impulso a partir da “Escola Nova”, e no limiar do século XXI a maioria das escolas de todo o mundo dedica espaços em seus currículos, especificamente ao teatro, tendo em vista sua importância para o desenvolvimento da personalidade global da criança e do adolescente.