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segunda-feira, 15 de março de 2021

PARABÉNS UNIFAP

 

 

     A UNIFAP, foi fundada em função da Constituição de 1988, que determinou o fim dos Territórios Federais e sua consequente transformação em Estados, por outro lado, a maioria dos jovens do Amapá eram obrigados a se deslocar para a cidade de Belém do Pará, em busca de realizarem seus cursos profissionalizantes. Muitos desses jovens do Amapá que tiveram que ir estudar em Belém, se tornaram professores efetivos da UNIFAP.

     A Universidade Federal do Amapá ainda era quase um embrião, mas já havia nascido, quando assumi a função de professor daquela instituição de ensino superior. Fundada em 1990, e este ano comemorando seu trigésimo primeiro aniversário, tive a oportunidade de praticamente, acompanhar todo esse processo de amadurecimento da nossa UNIFAP. A primeira vez que estive no Amapá foi em setembro de 1994, para me submeter à concurso público para o cargo de professor do magistério superior, para exercer minhas funções no antigo Curso de Educação Artística, aliás, primeiro curso desta universidade, que foi reconhecido pelo Ministério da Educação e Cultura.

          Naquela ocasião, a instituição estava engatinhando, apenas com quatro anos de sua fundação. Possuía em torno de seis prédios, nove cursos de graduação, e aproximadamente 2.800 alunos regularmente matriculados, e já estava na gestão de Antônio Gomes de Oliveira, terceiro Reitor pró-tempore, que havia assumido o cargo no ano de 1993, período que foi concluído em 1997. Antes dele, houve a primeira gestão de Maria Alves de Sá, de 1990 a 1992, e ainda, a segunda gestão que foi de Laíse do Amparo Braga, que assumiu no período de 1992 a 1993. Ao mesmo tempo em que foi implantada, a instituição permaneceu no mesmo espaço físico do antigo Núcleo de Ensino de Macapá, hoje conhecido como antigo NEM, que fazia parte do projeto de interiorização da Universidade Federal do Pará.

     Foi muito importante a contribuição de vários colegas professores e funcionários ligados ao antigo território federal do Amapá. Uma quantidade considerável de professores do antigo território ministrou aulas nos momentos embrionários da nossa instituição, sem eles, teria sido muito difícil chegarmos ao trigésimo primeiro aniversário da UNIFAP. Uma dessas pessoas foi a professora Nazaré Trindade, primeira Coordenadora do antigo Curso de Educação Artística.

     O primeiro concurso para professores aconteceu em 1993 e o segundo se deu no ano de 1994, do qual, fui candidato, galgando o primeiro lugar naquele certame. Sem sombra de dúvidas, nesses últimos 31 anos, a UNIFAP cresceu e muito, principalmente a partir do ano de 2006, quando o governo federal investiu pesado na educação de todo o país, suprindo as necessidades das universidades, especialmente na pesquisa, ensino e extensão, espaços físicos e criação de novos cursos.  Notadamente, é de fundamental importância a presença dessa instituição de ensino superior no Amapá, nos dias de hoje. Aqui deixo meu enaltecimento e meus parabéns à UNIFAP.  

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

SER SEXAGENÁRIO


 

 

     Não é fácil! Não é fácil chegar aos sessenta anos de idade. De toda forma, estou muito feliz de ter chegado a esse patamar da vida. É um caminho muito longo, em diversos sentidos. Sem esquecer que nessa imensa caminhada, muitos colegas ficaram para trás...! Muitos amigos se foram! Olhando para trás, percebo que a vida se transforma numa constante luta pela sobrevivência. Isso se percebe desde criança, quando passamos a acompanhar nossos pais na luta diária, no cotidiano.

     Eu nasci em Nova Cruz, pequena cidade do Rio Grande do Norte. Meu pai já havia trabalhado de pedreiro, no Rio de Janeiro. Retornou e conseguiu um emprego efetivo na Rede Ferroviária do Nordeste. Naquela época, jovem, quando conseguia emprego, a primeira coisa que fazia era arranjar uma namorada e casar. Já casado com minha mãe, trabalhou na cidade de Cabedelo na Paraíba, depois foi transferido para a cidade de Nova Cruz – RN, onde nasci. Meu pai trabalhava oito horas por dia, saía pela manhã e só voltava para casa à noite.

     Quanto à minha mãe, como doméstica, dedicou sua vida à família. Era um período em que a mulher fazia tudo em casa, cozinhar, passar, lavar roupa, cuidar dos filhos. Eletrodomésticos? Ninguém sabia o que era isso! Até o ferro de passar tinha como combustível, o carvão vegetal. Além de tudo isso, ela era uma exímia costureira, e nas horas vagas costurava roupas, para também contribuir com os recursos financeiros da família. Portanto, em função da família, trabalhava diuturnamente.

     Quanto a mim, passei a vida buscando conquistar meus objetivos. Para isso, como uma fera, tive que enfrentar as vicissitudes da vida e da sociedade contemporânea. O primeiro passo foi o estudo. Não tenho nada, mas o que tenho, conquistei em função de toda uma vida dedicada ao estudo. Meus pais me ensinaram, e eu segui seus conselhos, eles diziam:  - para ser alguém na vida é preciso estudar! E foi exatamente isso o que fiz, continuo e continuarei fazendo, durante toda minha existência.

     São muitos os estágios que temos que enfrentar, até para entrar no curso ginasial, havia uma prova de admissão, como se fosse um pequeno ENEM, depois o vestibular, para entrar no curso superior. Em seguida, Mestrado, Doutorado e Pós-Doc. É uma vida inteira, dedicada aos estudos. No mais das vezes, o jovem não entende e não compreende essas necessidades que a vida nos impõe, mas é a nossa selva de pedra que a cada dia nos exige mais empenho e determinação para almejar nosso futuro.

     Agora, já com sessenta anos de idade e perto da aposentadoria, com quarenta e seis anos dedicados à arte e especificamente ao teatro, e ainda com trinta e nove anos dedicados à educação e pesquisa, sou uma pessoa feliz. E digo ainda! faria tudo outro vez. Hoje, tenho a honra de ter tido uma vida completamente dedicada à arte e à educação. Tenho certeza de que não me arrependo de nada que fiz durante minha vida passada. Aos sessenta, estou preparado para o futuro.

     

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

OS MISTÉRIOS DE DELOS

 

     A palavra mistério tem origem no latim mysterium. Refere-se a tudo cuja causa é oculta, desconhecida, incompreensível, inexplicável; enigma. O que a ninguém deve ser dito; confidência e segredo. Até os dias de hoje, qualquer entidade iniciática, possui suas crenças e seus mistérios que não podem ser revelados pelos seus membros.

     Muitos estudos e escavações arqueológicas revelaram que os primeiros assentamentos na ilha de Delos, remontam ao ano 3.000 a.C., sendo que aproximadamente em torno de 1.000 a.C., há vestígios de que o local foi habitado pelos povos jônicos. Faz parte do arquipélago das chamadas Ilhas Cicládicas, no Mar Egeu, entre a Grécia e a Ásia Menor, e localiza-se geograficamente no centro desse círculo. Seu território apresenta 5 quilômetros de extensão no sentido Norte/Sul e 1/5 km de extensão, no sentido Leste/ Oeste.

     Por que tanto se fala nos mistérios de Delos? Exatamente em função de que lá, havia uma grande quantidade de cultos e adoração a vários deuses gregos, cada um com seus mistérios. Na ilha de Delos, havia: o Heraion - santuário de Hera, a primeira esposa de Zeus; além de vários templos: o santuário de Apollo – Deus do Sol; o santuário de Ártemis – Deusa da Lua; o templo de Leto – Deusa do anoitecer, entre outros. Nesses locais sempre havia, o templo, que era mais simples, e o santuário que era o espaço sagrado, denominado de Períbolo; espaço de terreno que havia em torno dos templos, limitava o espaço sagrado e eram decorados com estátuas e monumentos votivos.

     Não obstante, apesar da quantidade de santuários que havia em Delos, pela grandiosidade do ádito, ela era considerada a ilha de Apollo. E ainda, porque, de acordo com a mitologia grega, Apollo e sua irmã gêmea, Ártemis, nasceram em Delos. Essa adoração ao Deus Apollo chegou ao seu esplendor, no século IV a.C., tornando-se uma das mais populares do mundo grego. Da mesma forma de outros deuses, também havia um festival especifico dedicado a Apollo. A “Delia”, era um evento que reunia as cidades pertencentes à Liga de Delos e acontecia a cada quatro anos, em torno do santuário, com corridas de cavalos entre outras atividades. Todo o futuro da Grécia era confiado a Apollo, por esse motivo, Delos era tida como uma ilha sagrada.

     Diz-se que Apollo nascera de 7 meses, por isso, seus festivais e oferendas com sacrifícios, sempre aconteciam no dia 7 de cada mês. Quando se afirma que algo é apolíneo, ou seja, típico de Apolo, trata-se referir-se à ordem, clareza, razão, calma, sonho, predição, visão ou ainda, dimensão solar. O Deus era cultuado com peãs – peã é um hino originalmente cantado a Apollo, são canções sérias e ordenadas e de natureza alegre, com melodia que expressava esperança e confiança. Sua origem remete pelo fato de Apollo tê-la cantado, após a vitória sobre píton.

     Levando-se em consideração de que a ilha era sagrada, por consequência, em Delos era proibido: as mulheres dar à luz; as pessoas adoecerem ou morrerem. Nesses casos, os habitantes tinham que ser transferidos para a ilha de Rineia, mais conhecida como a necrópoles de Delos. Após a guerra contra os Persas, a ilha se tornou o local de encontro da Liga de Delos, fundada em 478 a.C., que reunia aliados de Atenas e Esparta, onde decidiam as estratégias de lutas contra invasões estrangeiras.

    

 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

OS MISTÉRIOS DE ELÊUSIS

  

     Elêusis é uma localidade da Grécia que fica cerca de 23 quilômetros de Atenas, onde se celebravam os ritos de iniciação ao culto das deusas agrícolas, Deméter e sua filha Perséfone, (Ceres e Proserpina para os romanos). Os Mistérios de Elêusis giram em torno do mais famoso ritual religioso secreto da Grécia antiga, realizado entre os séculos 6 a.C. e 4 d.C., eram cerimônias de iniciação e apresentavam vários ritos, que teriam que ser seguidos exclusivamente pelos novos participantes, os quais, tinham a obrigação de guardar os segredos dessas iniciações.

     Segundo a lenda, Perséfone, filha de Deméter, enquanto colhia flores no vale do Nisa, foi raptada por Hades, rei do tártaro. Na mitologia grega, tártaro é a personificação do mundo inferior, ou seja, o mundo dos mortos. A partir dessa situação inesperada, e com grande tristeza em ter perdido sua filha, Deméter, que era a Deusa da agricultura, resolveu deixar de cuidar das plantações. Consequentemente começou a escassez de todo o tipo de cereal e alimento, fazendo com que a população começasse a passar fome. Zeus, que havia permitido seu irmão Hades, roubar Perséfone, resolveu reparar seu erro, decidindo que a mesma deveria voltar à terra por um período de seis meses para poder visitar sua mãe, sendo assim, os outros seis meses passaria com seu esposo, Hades.

     Os Mistérios de Elêusis giravam especificamente, em volta desse psicodrama. Destarte, o período de seis meses que Perséfone passava no Olimpo, simbolizavam a primavera e o verão, período em que favorece a agricultura, e os seis meses que passava com Hades, representavam o outono e o inverno, temporada em que o solo ficava infecundo. Esses rituais se dividiam em dois: os grandes e os pequenos mistérios. Enquanto os Grandes Mistérios eram realizados no equinócio da primavera, aproximadamente no dia 21 de março, os Pequenos Mistérios sucediam no equinócio de outono, por volta de 23 de setembro.

     As festividades começavam com uma procissão que partia de Atenas, no período matutino, em direção a Elêusis. Havia nesse cortejo, um espaço dedicado a Dioniso, quando os mystai (candidatos a iniciados), tomavam uma bebida alucinógena, feita especialmente para a cerimônia, onde na ocasião, eles carregavam uma estátua do Deus Dioniso, dando viva ao Deus do vinho. Ciceona, era uma bebida fermentada, psicoativa; dizem, ser uma bebida favorita dos camponeses gregos. Esses mistérios sempre eram comemorados no início da primavera, que significava o retorno de Perséfone, e assim, ela trazia sementes novas e o renascer de toda vida vegetal, ou seja, o ressurgir das plantas, a colheita e a vida na terra.  Lançar novas sementes que brotam novos frutos, significa no mito, uma espécie de morte e ressureição. 

     Presumivelmente, pessoas idôneas e grandes personalidades importantes da sociedade grega, foram iniciados nos Mistérios de Elêusis, como: Aristóteles, Cícero, Pitágoras, Aristófanes, Plutarco, Platão, Alcebíades, Sócrates, Demóstenes e Sófocles, entre outros. 

 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

A JORNADA DO HERÓI

 

     Basicamente, se olharmos para todo herói, iremos perceber que há muita coisa de semelhante, principalmente no que diz respeito a sua trajetória, a sua história; visto que todos eles seguem o mesmo enredo, o mesmo caminho ou a mesma saga. Quem já assistiu um filme de western ou bang-bang, sabe disso! Inicia-se quando, geralmente, nasce numa família muito humilde. Possui força sobre-humana precoce; e de acordo com seu desenvolvimento, consegue rápida ascensão ao poder, além de muita notoriedade. Torna-se defensor da justiça e cheio de virtudes, e na sua trajetória final, ou morre ou se torna herói reconhecido pelo seu povo.

     O herói geralmente, sai do seu mundo comum, passa por um mundo diferente e desconhecido, e retorna ao seu mundo comum, como verdadeiro herói. Como isso acontece? Vejamos: primeiramente há um chamado para a aventura, uma mensagem ou um convite de alguém, na verdade um desafio que ele deverá aceitar, ou não. Aqui, ele ainda está em seu mundo cotidiano. Para sua difícil decisão, sai em busca de alguém mais sábio, um oráculo, talvez! Em busca de conselhos e ajuda. Em função de sua decisão, segue seu rumo, cruzando o portal do seu mundo normal, seguro e tranquilo, e adentrando num mundo especial, desconhecido e cheio de provações e aventuras.

     Já no mundo completamente misterioso, o herói terá que passar por testes e provações; e este é o momento em que muitas situações adversas possivelmente irão acontecer, como, por exemplo, escapar de uma armadilha, descobrir o enigma e matar um monstro. Lembremos da saga de Ulisses no seu retorno a Ítaca; em Édipo Rei, quando mata a esfinge, ou ainda os 12 trabalhos de Hércules. E aí, chega a hora de encarar a maior provação, que se torna o maior temor do herói, mas que inevitavelmente ele terá que enfrentar tais situações. Este é o mais difícil momento do herói, tendo em vista, que ele, enfrentará a morte, e poderá matar o monstro ou até mesmo morrer.

     Ao vencer todas as suas provações, com certeza, o herói exige um prêmio, uma recompensa, algum tesouro, ou poder, como aconteceu com Édipo, que se tornou rei de Tebas. No desfecho de sua caminhada, o povo se curva respeitosamente diante do herói e o transforma em rei ou pessoa importante. Portanto, há várias formas de se decidir o desfecho final. Então, chega o momento do herói sair do seu mundo especial, e retornar ao seu mundo normal, já como herói reconhecido. Acontece que, depois de toda essa aventura, ele retorna a seu mundo normal, rejuvenescido e com uma nova vida. Foi preciso todo esse desenlace para que o mesmo se torna-se um herói. Seu gesto, sua decisão e sua atitude o transformaram em herói.  

     Em função de que todas as tramas foram resolvidas, o herói volta ao seu mundo cotidiano, mas com um nível mais elevado, já não é mais o mesmo, deixando de ser algo comum para ser um herói. Isso também acontece com o personagem Flick, herói do filme “Vida de Inseto”, Édipo, na peça “Édipo Rei”, de Sófocles, como também fica muito claro no personagem “Ulisses” da “Odisseia”, e ainda, vamos encontrar esses heróis em muitos filmes populares. Esta é a jornada do herói.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

O INÍCIO DO COMEÇO

 

     Pouco se conhece sobre o Teatro no Amapá; em se falando de dramaturgia as informações se tornam ainda muito mais escassas.  Faz-se necessário saber que a primeira obra que trata sobre o teatro no Amapá, é de minha autoria e foi publicada no ano de 2011 com o título “Artes Cênicas no Amapá – Teoria, Textos e Palcos”. Surgiu a partir de vários artigos (como este) que escrevi neste meio de comunicação. O objetivo desta obra foi a de revelar os espaços teatrais; produtores teatrais; análise crítica de espetáculos apresentados no Estado; novela amapaense; arte circense e humor. É resultado de estudos do Grupo de Pesquisa em Artes Cênicas da Universidade Federal do Amapá - UNIFAP.

     Prosseguindo com pesquisas voltadas para o teatro no Amapá, foi publicada em 2013 a obra “Teatro no Amapá: Artistas e Seu Tempo”, também de minha autoria, que foi resultado de realização de entrevistas com artistas de teatro que haviam montado espetáculos nas décadas de 60, 70 e 80, e que na atualidade não havia nenhum registro sobre seus trabalhos voltados para o teatro no Amapá.

     Do que se tem notícia, a primeira obra sobre dramaturgia amapaense foi publicada em 2012, intitulada: “Cênico em Contextos: peças teatrais” do ator e diretor de teatro Daniel de Rocha, na intenção de socializar seus textos e consequentemente sua dramaturgia. Na ocasião, ele publicou sete textos de sua autoria. A segunda obra que também trata do referido tema, intitula-se “Dramaturgia Amapaense”, de minha autoria (publicada em 2015) também resultado de pesquisa realizada pelo Grupo de Pesquisa em Artes Cênicas e Núcleo Amazônico de Estudos das Artes Cênicas da UNIFAP.

     De fato, há um vazio documental tanto em relação à história do teatro no Amapá, como também ao que diz respeito à sua dramaturgia. Por outro lado, à medida que se vai pesquisando, vai-se revelando o vigor de um teatro que necessita urgentemente ser registrado e se tornar patente em nossas bibliotecas. Aliás, a realidade de nossas bibliotecas públicas e particulares carece de material que informe à comunidade em geral; ao pesquisador e às pessoas de teatro sobre tema tão específico.

     Volto-me há duas décadas a mergulhar no que há de melhor sobre o teatro amapaense. Ao longo dos anos venho localizando dados esparsos, analisando-os paulatinamente e arquivando-os. Na atualidade, o que se encontra em nível bibliográfico são abordagens isoladas e citações como. No entanto, há evidências de ter havido desde o século XVIII, grande número de atividades teatrais, que não se restringiu apenas à capital, Macapá, mas principalmente em função da representação da luta dos “Mouros e Cristãos” na Vila de Mazagão Velho, cujas primeiras apresentações aconteceram no ano de 1777.

          No momento estou com a obra “História do Teatro do Amapá: Do Século XVIII à Década de 1940”, que já está no prelo, e escrevendo a segunda parte dessa história, que vai da década de 1950 aos dias atuais. Além disso estou analisando material para ainda mais dois livros sobre nosso teatro. Ainda há muito o que se pesquisar, isto é apenas o início do começo. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

O HERÓI TRÁGICO

 


     Em sua obra intitulada “Poética”, Aristóteles realizou profunda análise do drama trágico, do período clássico grego. Contudo, muita coisa ainda reverbera na sociedade contemporânea. Enquanto a tragédia tratava de homens idôneos, cultos e nobres, cujas ações refletiam suas atitudes morais e de boa virtude, por outro lado, a comédia tratava do cotidiano das pessoas e do povo simples. Mas o nosso foco neste artigo, será mesmo, relacionar o destino do herói da tragédia grega, com nossos heróis da atualidade.

     Tendo como ponto de partida, uma análise na perspectiva psicológica da trajetória dramática: ascensão, apogeu e queda do herói; quero tratar aqui, da verossimilhança que há entre o destino do protagonista da tragédia grega e o destino de heróis da atualidade. Conheci o Clécio, há 26 anos, ele muito jovem, era aluno do Curso de Geografia da UNIFAP, onde, no Diretório Central dos Estudantes, já estava dando os primeiros passos da sua, sem dúvida, brilhante carreira política.

     Desde então, tornou-se um político de esquerda; e ainda garoto, teve experiências em vários cargos públicos de relevância. Como reflexo da dedicação e insistência do seu trabalho, conquistou uma cadeira de vereador na Câmara Municipal de Macapá. Em função de sua dedicação à política, conseguiu ser reeleito e galgar duas gestões, ou seja, permaneceu oito anos na pasta como vereador. Seguiu eminente sua carreira política, e se tornou prefeito da cidade de Macapá, por duas gestões, (estimulou sua hamartia, ou seja, sua falha trágica e impureza do papel que exercia), seguiu seu caminho ascendente de herói, para a felicidade, sempre acompanhado empaticamente pelos seus fiéis eleitores escudeiros.

     Como todo herói, passou a contribuir imensamente para com a cidade e com as camadas mais vulneráveis da sociedade amapaense, e a cada ano que se passava, conquistava ainda mais seu perseverante público. Porém, da mesma forma que o herói da tragédia grega, se viu diante de uma difícil situação, quando se percebeu obrigado a enfrentá-la e resolvê-la. Diante do conflito interno do nosso herói, o mesmo decide apagar da memória e esquecer seu compromisso político, já construído em sua discussão dialética com base numa ideologia de esquerda, e passa, peremptoriamente, a apoiar um candidato de extrema direita, nas eleições para prefeito de Macapá, no ano de 2020.

     Aqui se dá o que se define como Peripécia, ou seja, momento em que surge um ponto de reversão na trajetória do nosso herói. Diante desse conflito, o público lamenta o fim do personagem cuja vontade de bem agir revelava seu bom caráter. Neste momento crucial, o eleitor já deseja a queda do herói, transformando-o em bode expiatório, quando concretiza tal ação com o depósito na urna eleitoral, de voto contrário. Ocasião em que, o personagem e o espectador iniciam o caminho inverso, da felicidade à desgraça. Aterrorizado pela compaixão e pelo terror, gerados pela tragédia, acontece a catarse, quando o eleitor se purifica de sua harmatia. Como resultado final de sua catástrofe, o herói sofre, de forma violenta, as consequências do reconhecimento de sua falha trágica (anagnorisis), enfrentando sua própria desgraça com sua inevitável queda.