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domingo, 25 de maio de 2025

AINDA ESTOU AQUI

 


     Todos já ouviram falar sobre o filme que tem como título este artigo. Ainda Estou Aqui, é um filme de 2024, dirigido por Walter Salles, tendo como protagonista Fernanda Torres, no papel de Eunice Paiva e, Selton Mello como Rubens Paiva. A referida obra foi baseada na autobiografia homônima de 2015, escrita e publicada por Marcelo Rubens Paiva, como pode-se observar, o enredo revela a história da família Paiva, com enfoque no Marcelo Rubens Paiva e Eunice Paiva, sua esposa. Ainda Estou Aqui, foi lançado em novembro de 2024. Em razão do filme enfocar questões relacionadas à ditadura militar, que se deu entre o período de 1964 a 1985, do século XX, evidenciando as mais diversas consequências de desagregação do núcleo familiar, sofreu um boicote da direita brasileira. Apesar disso, virou um sucesso de bilheteria, e já alcançou um público de mais de seis milhões de espectadores.

     Foi distribuído no mercado internacional com o título I’m Still Here e, em março deste ano, fez história quando conquistou o prêmio de melhor filme internacional no Oscar, nos Estados Unidos. Consequentemente, em vários países da Europa e do mundo, o filme foi automaticamente traduzido para que o globo conhecesse um pouco dessa fase obscura que aconteceu no Brasil no século XX. Embora a mídia nacional e internacional tenha tido colocado em tela, tal acontecimento, à vista disso, e possivelmente pelo fato de ter conquistado o Oscar, é notório que grande parte da população se sensibilizou em assistir ao referido filme. Destarte, decido trazer à tona, semelhantes acontecimentos artísticos de décadas passadas, que, pelo fato de não terem tido o regozijo de galgar um Oscar, e de não terem sido largamente divulgados pela mídia, não lograram o êxito do filme em tela. Direcionarei meu olhar para dois trabalhos cinematográficos, de tamanha importância e que devem ser citados neste debate. 

     Em primeiro caso, citarei o filme Cabra Marcado para Morrer, de 1984, dirigido por Eduardo Coutinho. É um filme documentário brasileiro, que também mostra os estragos de um governo autocrático frente às Ligas Camponesas, que eram órgãos representativos dos agricultores brasileiros. Por sua vez, este filme também é uma narrativa semidocumental, sobre a vida do agricultor João Pedro Teixeira, um líder camponês da Paraíba, assassinado no ano de 1962 e, principalmente da viúva, Elizabeth Teixeira, que participou efetivamente das gravações. O enredo mostra a vida dos camponeses sendo expulsos da terra pelos coronéis e donos de usinas. O filme estava sendo produzido pelos Centros Populares de Cultura da União Nacional de Estudantes. Em função do golpe militar, as filmagens foram interrompidas em 1964. Desde esse período, a viúva, Elizabeth Teixeira, separada de seus filhos, vivera na clandestinidade. O referido filme também galgou alguns prêmios como, por exemplo, o de melhor documentário, no VI Festival do Cinema Latino-americano, em Havana-Cuba.

     O segundo caso, trata-se do filme, A Hora da Estrela, de 1985, sendo este, um drama, dirigido por Suzana Amaral. Aqui, o roteiro foi uma adaptação do romance homônimo de Clarice Lispector. O papel principal, (Macabéa), foi assumido pela atriz paraibana Marcélia Cartaxo, e num Festival de Cinema de Berlim, ainda em 1985, ela tornou-se a primeira atriz brasileira a ganhar o troféu, Uso de Prata. Após treze anos, em 1998, foi que Fernanda Montenegro galgou o Urso de Prata, no mesmo Festival, com o filme Central do Brasil. Hoje, quando se remete ao prêmio Urso de Prata, a população logo se lembra de Fernanda Montenegro. É preciso estarmos atentos para as informações que nos são dirigidas.

 

terça-feira, 20 de maio de 2025

Teatro na Sala de Aula

 


     Quando se fala em teatro, a grande maioria das pessoas, pensa logo em ator, atrizes, cinema e novelas de televisão. O teatro não se resume apenas a esses fatores, em tempos passados foi o principal lugar para a educação das crianças, dos jovens e dos adultos, e é por isso que ele está na escola. Com o teatro se aprende a desenvolver-se a si próprio, no teatro você vai realizar um auto trabalho, tendo em vista que vai reaprender a andar, olhar, falar, gesticular, melhorar a dicção, saber falar em público, deixar de ser introspectivo para ser expansivo.    

     Em relação ao teatro na sala de aula, observamos que vários filósofos em diversas épocas da história, destacaram a importância do ensino das artes na sala de aula através do jogo de expressão. Para Montaine, “jogos de criança não são esportes e deveriam ser sua mais séria ocupação”. Leibniz, apoiava o teatro na sala de aula com a condição que fosse instrutivo”. Para Rousseau, cujo pensamento influenciou profundamente as teorias de Fröebel, Pestalozzi, Montessori e Dewey, a primeira fase da educação da criança deveria ser quase inteiramente baseada em jogos.

     O teatro na escola, é aquele realizado no âmbito da escola e dependendo do objetivo do professor, pode ser levado de escola para escola. Portanto, não se faz necessário levar um grupo de alunos para representar uma peça num palco de teatro, visto que isto implica uma série de variáveis. Tendo como ponto de partida a faixa etária, e sabendo-se que boa parte dos nossos alunos é leiga no que diz respeito à arte de representar, temos que levar em consideração que, para a apresentação de algum trabalho no palco propriamente dito, é necessário conhecer algumas técnicas como: domínio de espaço; dicção e tom de voz compatível com o espaço interno do teatro; ritmo; preparação física e mental; domínio da maquilagem; conhecer sobre dramaturgia; iluminação; sonoplastia; expressão corporal, entre outras técnicas com as quais nos deparamos ao encenar um espetáculo.

     Ao levar para o palco de um teatro um grupo que não domina tais técnicas, ao invés de motivar o referido grupo para esta arte, o professor com sua atitude infantil e irresponsável poderá desmotivar seus alunos, visto que triplica a responsabilidade expondo tal grupo à crítica teatral em geral. De outra parte, ao levar seus alunos para outras escolas, o professor estará orientando melhor seus afazeres, em função de que a mensagem será bem recebida por partes dos outros colegas que, por sua vez, possuem um nível de conhecimento que se iguala aos iniciantes atores. São diversos os temas para dramatização: histórias tradicionais; mitos; fatos acontecidos na comunidade, entre outros. Finalizamos afirmando que o teatro na educação é muito amplo, sendo realizado em qualquer lugar, na sala de aula, na escola, numa associação de bairro, numa rua, numa casa, no hall da biblioteca, num tablado, auditório e até mesmo no próprio edifício teatral.      

terça-feira, 13 de maio de 2025

À Minha Mãe

 


     Hoje, segundo domingo do mês de maio é comemorado o dia das mães, dia de muita importância para as famílias como um todo; momento em que a população brasileira homenageia as mães. Também é um período muito significativo para as transações comerciais, em função da grande procura de presentes para as homenageadas. É um domingo muito especial, para quem tem a oportunidade de estar pessoalmente com sua querida mamãe.  

     Minha mãe tem uma longa história de vida; como meus avós eram agricultores, foi criada em terras alheias e sítios inóspitos, nas cercanias da cidade de João Pessoa-PB, mas, apesar disso, conseguiu concluir o ensino primário. Mesmo com sua vida pacata, gostava de estudar e dava muito valor ao conhecimento. Só deixou a zona rural, depois que casou e foi morar numa pequenina cidade com o nome de Cabedelo, na Paraíba.

     Enquanto seu esposo trabalhava na Rede Ferroviária Federal, ela se limitou aos quatro recantos da casa, e por um longo período de tempo, se dedicou especificamente, às responsabilidades das atividades domésticas, preparando a comida e cuidando dos filhos: sete no total. Quando começou a surgir momentos difíceis e crises na economia doméstica, resolveu, de certa forma, se desvencilhar de tudo isso, e passou a costurar. Era exímia costureira.

     A partir deste trabalho, ajudou nas despesas domésticas, e, direta e indiretamente, a todos de casa. Tinha vários clientes, na vizinhança e de outros recantos da cidade. O mais interessante, era que morávamos defronte a um grande espaço aberto, que se tornou o local onde se armavam os circos que chegavam à pacata cidade. Resultado: os artistas desses circos, também contratavam minha mãe, como costureira. Enquanto o circo estivesse na cidade, ela criava, costurava, modificava, fazia de tudo, para aproveitar e reaproveitar todos os figurinos daqueles artistas mambembes. Lembrando que esses circos eram armados literalmente defronte da nossa casa.

     Esse momento foi fundamental para minha vida: porquê? Porque, todas as vezes que ela entregava uma roupa pronta, ao pessoal do circo, por um lado, eles a pagavam em moeda corrente do país, e por outro, também a presenteava com alguns ingressos para ter acesso aos espetáculos do próprio circo. E ela recebia ingressos para adultos e para crianças. Esses fatos, interferiram beneficamente em minha vida, tendo em vista que, todos os finais de semana, passava a assistir aos espetáculos matinées dos circos, quando sempre terminavam com uma dramatização clássica, como “chapeuzinho vermelho”; “Cinderela”, “Branca de Neve e os Sete Anões”, entre outras histórias infantis. Daí, me vem toda a relação que tenho com o teatro, com a educação, com minha profissão como professor de teatro; como também, com a arte em geral.

     Hoje, no seu dia, aproveito, parabenizando-a e celebrando não só este dia das mães, como também seu aniversário de noventa e cinco anos, que comemorará no próximo dia 25 deste mês. Mesmo sendo agricultora, nunca deixou de me incentivar aos estudos, e isto foi de fundamental importância para o meu desenvolvimento profissional. Sempre dizia que o estudo era o melhor caminho para o pobre, e para quem gostaria de conseguir ser gente, um dia na vida. À minha mãe, Hilda Palhano, agradeço de todo meu coração, tudo o quanto ela me incentivou para que eu pudesse conquistar meus sonhos e organizar minha vida, como cidadão. A vida que tenho hoje e o profissional que sou, agradeço à minha mãe. Felicidades pelo seu dia e, parabéns pelos seus noventa e cinco anos. Parabéns a todas as mães do Amapá e do Brasil.

 

 

segunda-feira, 5 de maio de 2025

MISTÉRIOS DE ELÊUSIS

 


     Elêusis é uma localidade da Grécia que fica cerca de 23 quilômetros de Atenas, onde se celebravam os ritos de iniciação ao culto das deusas agrícolas, Deméter e sua filha Perséfone, (Ceres e Proserpina para os romanos). Os Mistérios de Elêusis giram em torno do mais famoso ritual religioso secreto da Grécia antiga, realizado entre os séculos 6 a.C. e 4 d.C., eram cerimônias de iniciação e apresentavam vários ritos, que teriam que ser seguidos exclusivamente pelos novos participantes, os quais, tinham a obrigação de guardar os segredos dessas iniciações.

     Segundo a lenda, Perséfone, filha de Deméter, enquanto colhia flores no vale do Nisa, foi raptada por Hades, rei do tártaro. Na mitologia grega, tártaro é a personificação do mundo inferior, ou seja, o mundo dos mortos. A partir dessa situação inesperada, e com grande tristeza em ter perdido sua filha, Deméter, que era a Deusa da agricultura, resolveu deixar de cuidar das plantações. Consequentemente começou a escassez de todo o tipo de cereal e alimento, fazendo com que a população começasse a passar fome. Zeus, que havia permitido seu irmão Hades, roubar Perséfone, resolveu reparar seu erro, decidindo que a mesma deveria voltar à terra por um período de seis meses para poder visitar sua mãe, sendo assim, os outros seis meses passaria com seu esposo, Hades.

     Os Mistérios de Elêusis giravam especificamente, em volta desse psicodrama. Destarte, o período de seis meses que Perséfone passava no Olimpo, simbolizavam a primavera e o verão, período em que favorece a agricultura, e os seis meses que passava com Hades, representavam o outono e o inverno, temporada em que o solo ficava infecundo. Esses rituais se dividiam em dois: os grandes e os pequenos mistérios. Enquanto os Grandes Mistérios eram realizados no equinócio da primavera, aproximadamente no dia 21 de março, os Pequenos Mistérios sucediam no equinócio de outono, por volta de 23 de setembro.

     As festividades começavam com uma procissão que partia de Atenas, no período matutino, em direção a Elêusis. Havia nesse cortejo, um espaço dedicado a Dioniso, quando os mystai (candidatos a iniciados), tomavam uma bebida alucinógena, feita especialmente para a cerimônia, onde na ocasião, eles carregavam uma estátua do Deus Dioniso, dando viva ao Deus do vinho. Ciceona, era uma bebida fermentada, psicoativa; dizem, ser uma bebida favorita dos camponeses gregos. Esses mistérios sempre eram comemorados no início da primavera, que significava o retorno de Perséfone, e assim, ela trazia sementes novas e o renascer de toda vida vegetal, ou seja, o ressurgir das plantas, a colheita e a vida na terra.  Lançar novas sementes que brotam novos frutos, significa no mito, uma espécie de morte e ressureição. Presumivelmente, pessoas idôneas e grandes personalidades importantes da sociedade grega, foram iniciados nos Mistérios de Elêusis, como: Aristóteles, Cícero, Pitágoras, Aristófanes, Plutarco, Platão, Alcebíades, Sócrates, Demóstenes e Sófocles, entre outros. 

 

segunda-feira, 28 de abril de 2025

MANIA DIVINA

 


     Ouvindo “Amante Latino” de Rabito, com versão de Antônio Carlos e interpretada por Sidney Magal, música que galgou estrondoso sucesso no ano de 1977, e que depois foi transformada em filme no ano de 1979, comecei a estudar a referida letra e, consequentemente, a fazer algumas reflexões em relação à mensagem que a mesma poderia enviar ao público em geral. De acordo com o seu conhecimento, cada indivíduo fará sua própria leitura de uma referida música, ou de qualquer imagem que o rodeia. Já dizia Einstein: “Tudo aquilo que o homem ignora, não existe para ele. Por isso, o universo de cada um, se resume ao tamanho do seu saber”. A propósito, quando jovem de 16 anos, eu também vivi essa época e em muito ouvia e curtia os sucessos de Sidney Magal. Observemos a seguir, uma parte da letra da música Amante Latino: sou como você já sabe, amante latino/Eu gosto das mulheres da noite e do vinho/Levo a vida sorrindo e sempre cantando/Eu não esquento a cabeça e nem vivo chorando/E assim nos amaremos até sair o sol/E encontrarás comigo o fogo do amor.

     Várias leituras poderiam ser feitas em função desta letra, mas, na minha concepção, tenho o olhar voltado para uma grande festa, ou seja, um bacanal que tem sua relação com Dioniso, antigo deus grego. Salientando que esse trecho da música, se torna um refrão que sempre será repetido ao longo do tempo da gravação. A partir do artista que criou o personagem chamado Sidney Magal, a música em si, era muito mais dirigida às mulheres do que aos homens, portanto, ele invoca todas as mulheres para passar juntos, uma noite regada ao vinho, da mesma forma como faz o deus Dioniso na peça As Bacantes, quando convoca todas as mulheres tebanas para participarem do seu culto durante a noite nas altas montanhas gregas, festividades estas, que tinham por base o vinho. E isso fica explícito quando o autor afirma: eu gosto das mulheres, da noite e do vinho.  

     O culto ao deus Dioniso, acontecia sempre à noite em montanhas e florestas, com muito vinho, junto aos seus seguidores que eram as bacantes ou mênades, como também pelos sátiros que eram os protetores das florestas. Tal assunto, está presente em várias tragédias gregas. Era festividade de muitos delírios, alegria e bebida. Este trecho da letra: levo a vida sorrindo e sempre cantando/Eu não esquento a cabeça e não vivo chorando, denota o sentimento dionisíaco, de um estado de delírio e liberdade, visto que nesses bacanais a relação sexual era liberada e realizada ao ar livre, culminando com o êxtase dos ritos, nessa mania divina. Eram momentos de orgia, que revelam a ideia de dualidade onde a sanidade e a loucura são opostos que caminham juntos.

     A última frase da música: e assim nos amaremos até sair o sol/E encontrarás comigo o fogo do amor, vai de encontro à necessidade das bacantes em participar desses cultos, frente à repressão grega contra o sexo feminino, uma espécie de buscar nos cultos a Dioniso o que a própria sociedade grega não as oferecia, um verdadeiro bálsamo, visto que amar até o nascer do sol, era um dos principais objetivos do culto dionisíaco. Naquele rito, certamente, todos encontrariam o fogo do amor, que significava uma fuga às rígidas regras daquela sociedade do quinto século Antes de Cristo.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

TEATRO DOS JESUÍTAS

 


     As atividades com teatro no Brasil têm início com o padre José de Anchieta, o qual, é caracterizado historicamente como símbolo, tendo em vista que na colonização e aculturação dos nativos, os jesuítas utilizaram principalmente o teatro, como forma pedagógica para catequizar os que aqui já habitavam. Embora o padre jesuíta fizesse parte de um sistema que destruía tudo de novo e diferente do pensamento europeu, para prevalecer a ordem a que pertencia, uma questão culturalmente positiva, foi a utilização do teatro nesse período. 

     Como soldado fiel à catequese ele conseguiu seus objetivos, encenando peças simples, com versos tupis de fácil compreensão, conquistando assim, os indígenas. Nesses autos, Anchieta aproveita a tendência natural dos silvícolas para a representação, música e dança. Em sua dramaturgia ele renomeava as personagens de acordo com sua ideologia religiosa, por exemplo, ao diabo ele determinava o nome de tribos inimigas. De qualquer forma, ele era bem objetivo nas suas ações, embora em suas representações, se utilizasse de linguagens simples para os povos da época, por outro lado, quando se comunicava com Portugal, escrevia com melhor vocabulário aumentando o nível da escrita.

     No século XVII, a política brasileira era omissa e com vários problemas. Nesse período também começaram a surgir crises internas na Companhia de Jesus. Preocupado com a educação dos índios com ideologia religiosa, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas do Brasil, o que fez com que padre Anchieta retornasse a Portugal. Embora discutível, essa ação religiosa com os índios, a verdade é que o teatro foi um forte instrumento para a catequização dos primeiros moradores dessas terras. A premissa dos jesuítas era de que: um exemplo vale mais do que um discurso. Ainda no século XVII, Manoel Botelho, um baiano de cultura europeizada, se destaca por fazer um teatro profano com leve desenvolvimento popular.

     Já no século XVIII, surge Antônio José da Silva ou Antônio José, o Judeu, que foi para Portugal aos oito anos de idade e adquiriu formação portuguesa, ele destacou-se como um bom autor, a ponto de suas peças serem aceitas em outros países. Alguns de seus textos: “Europa do Século XVIII”, “Dom Quixote”, e “As Guerras do Alecrim e da Manjerona”. Nesse período, começou a se desenvolver as Casas de Óperas. Em seus escritos sobre teatro, padre Ventura, desenvolveu alguns trabalhos juntos aos mulatos.

     Em função das questões políticas, se por um lado ele teve que expulsar os jesuítas do Brasil, por outro lado, Marquês de Pombal, demonstrou grande interesse com a produção teatral da época, e se tornou um grande animador, visto que considerava a representação como um veículo de formação do povo. Ele iniciou o reconhecimento dos artistas de teatro, e criou algumas normas para reger atores e atrizes e profissionais da área, quando criou a norma de que: “o ator não pode ser preso a caminho do teatro”, por outro lado, no mesmo documento também constava que: “se o ator não comparecer ao teatro para se apresentar para o público será preso”.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

UMA CRUZ PARA JESUS

 

 

     Neste domingo de ramos inicia-se a Semana Santa. E no final desta semana teremos a apresentação do espetáculo Uma Cruz Para Jesus. Com uma vida dedicada ao teatro do Amapá, o ator e diretor de teatro Amadeu Lobato merece meus cumprimentos e minhas felicitações, em função de sua persistência e dedicação exclusiva à sua tradicional montagem do espetáculo “Uma Cruz para Jesus”, que neste ano de 2025, está completando seus 46 anos em cartaz. É bom lembrar que, no Brasil, são poucos os grupos de teatro que permanecem tanto tempo em cartaz, como exemplo, José Pimentel que passou mais de 40 anos representando a Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém, Pernambuco.

     A primeira apresentação que aconteceu no ano de 1979, teve apoio da Igreja Católica, e consequentemente, nesses quarenta e cinco anos à frente, como diretor da Companhia Teatro de Arena, Amadeu Lobato transformou seu trabalho num espetáculo ontológico e clássico do Amapá. Uma peça em que não se paga ingresso, onde o acesso é livre para o público em geral, sem discriminação de cor, etnia, religião e classe social. Todos podem assistir ao referido espetáculo, e para isso, basta se dirigir na sexta-feira santa, ao teatro ao ar livre que existe na lateral norte da Fortaleza de São José de Macapá, no centro da cidade. 

      Para aqueles que acompanham essa trajetória, basta imaginar que são 46 anos de resistência em relação ao fazer teatral nas terras tucujus. Amadeu Lobato é nosso grande Mestre do teatro amapaense e transformou seu espetáculo numa considerável escola de teatro ao ar livre, visto que significativa parte dos artistas do Amapá, pela primeira vez, subiram ao palco, nesta escola. Também não é para menos, sua peça coloca em cena, todos os anos, mais de cem atores e atrizes, concentrados num espetáculo de um pouco mais de uma hora, na área externa da Fortaleza.

     Mas o que muito me chama atenção é a falta de apoio dos órgãos públicos e até mesmo dos empresários para um melhor apoio para o desenvolvimento do referido espetáculo. Em Oeiras, cidade do interior e antiga capital do Piauí, também há um grupo que encena a Paixão de Cristo, e diferentemente do Amapá, o espetáculo de Oeiras, todos os anos é transmitido ao vivo para todo o Estado do Piauí. Em muito me admira que, com vários canais de televisão aqui no Amapá, e durante todo esse tempo, nunca, nenhum deles se propôs a fazer uma transmissão ao vivo para o Estado do Amapá, da peça Uma Cruz para Jesus, essa produção local que merece esse olhar.

     Em outras capitais de Estados como Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, para esse tipo de espetáculo há editais específicos com apoio financeiro, em que todos os profissionais da área ganham uma bolsa durante sua participação de montagem e apresentação do mesmo, do figurante ao ator principal que geralmente é um ator conhecido nacionalmente e que é contratado pelo Estado para representar o papel de Cristo, durante as apresentações da Semana Santa. Que Uma Cruz para Jesus alcance mais uma vez o sucesso que merece.