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segunda-feira, 18 de maio de 2015

O CURSO DE TEATRO DA UNIFAP E A II SEMANA ACADÊMICA



     Em 1994 quando aqui cheguei para realizar prova de concurso público para professor do Magistério Superior, trouxe comigo uma missão: a de implantar o Curso de Licenciatura em Teatro na Universidade Federal do Amapá. Ao longo das últimas três décadas muitos foram os eixos que nortearam a reflexão da formação docente na área do teatro. Porém, atualmente o que centraliza os entendimentos é a qualificação em nível de ensino superior que perpassa pela emergente necessidade de ampliar a discussão acerca das reflexões e possibilidades didáticas e pedagógicas que o espaço acadêmico provoca na contemporaneidade e as circunstâncias e convergências reflexivas, sensorial e estética que abriga a linguagem teatral, sobretudo na promoção e formação dos sujeitos de modo geral.
     Para o curso de Teatro da UNIFAP alinhei três eixos para propor a elaboração do Plano Político Pedagógico: primeiro: compreensão do espaço de formação como produtor de saberes em vista a articulação entre investigadores da ciência educativa, estética e teatral; segundo: aspectos históricos e culturais do espaço do teatro nas sociedades; e terceiro: interesse com as demandas contemporâneas, enfoques midiáticos e tecnológicos que a teatralidade cênica intervém a partir de sua concepção epistemológica.
     Em busca de efetiva articulação busquei nas percepções de formação e produção teatral um redimensionamento amplo, entremeadas pela cognição, processos científicos de experimentação, sobretudo balizados por um sentido e sentimento estético em perspectivas plurais da construção de conhecimentos/saberes. Esperando que assim os espaços da universidade e os momentos articulados desse espaço/tempo possam desterritorializar modos de aprender e modos de ensinar aceitando momentos entre o pensar e o realizar.
     Assim, elaborar atitudes participativas, ouvindo o clamor da comunidade amapaense que há muito tempo esperava um curso dessa competência é de todo modo perceber e compreender aqueles que escolheram a licenciatura em teatro como futuros professores intelectuais, contínuos pesquisadores e produtores de cultura.
     É com este entendimento: filosóficos, conceitual, sobretudo de um sentimento humanístico que a organização desses eixos norteou o projeto. Por outro lado, atende a complexidade que a sociedade contemporânea vive, onde exige e requer outros trânsitos para se perceber, entender, aprender, ensinar e fazer teatro no espaço da formação docente. Aqui faço, uma ressalva acerca desses trânsitos, assumindo novos desafios conceituais, atentando para que o ensino superior de teatro seja desvinculado das ideias de aprendizagens e ensino como mera transmissão de conhecimento.
     Escolher, persistir e seguir tais concepções é acolher desafios que não paralisam o pensar, nem a ação acadêmica, ao contrário, ganham força e dinamizam o processo de (re) pensar as licenciaturas, consolidando a qualidade da formação de professores em teatro. Contudo, e continuamente deverei rever metas e estabelecer tanto quanto forem necessárias; ideias e percepções que mesmo na provisoriedade ajudem a construir outras aprendizagens.
     O Curso de teatro da UNIFAP foi aprovado pelo Conselho Superior em 12 de novembro de 2013. A primeira turma iniciou em março de 2014. Neste ano realizamos a I Semana Acadêmica do Curso de Teatro; o I Seminário Científico em Artes Cênicas, lançamentos de Livros, Ciclos de Palestras entre outros eventos. Atualmente estamos com duas turmas. Próximo concurso público para professor, teremos sete vagas para o curso de teatro. Estão sendo encaminhados e estudados a construção de dois teatros; um em estilo italiano e outro de arena.
     Estamos promovendo no período de 18 a 22 do mês em curso, a II Semana Acadêmica do Curso de Teatro com vasta programação: no dia 18 às 09h, palestra, “O Setor de Cultura do SESC”, com Genário Dunas; às 10:30 apresentação do espetáculo “Os Magníficos” com a Companhia Sem Teto; no dia 19 acontecerá a mesa redonda Perspectivas do Ensino do Teatro no Amapá com participação de convidados da SEED, SEMED, SECULT, FUMCULT e Rede Particular de Ensino; dia 20 a programação continuará às 9h com Workshop  “Contação de História”, com o ator e contador de histórias Joca Monteiro; dia 21: Palestra “Amadeu Lobato e a Formação de Atores no Amapá”, com o diretor de teatro Amadeu Lobato;  em seguida a palestra “O Reggae, origem e vertentes” com o Dj Duffnaldo; dia 22; Palestra com o diretor Paulo Alfaia sobre “A Experiência do Grupo Desclassificáveis; em seguida a apresentação do espetáculo “Cabaré, Anjos em Crise.com”.

     O II Encontro Acadêmico do Curso de Teatro será aberto a alunos de graduação e à comunidade em geral com direito a certificado. Este evento é uma realização do Curso de Teatro com apoio do Grupo de Pesquisa em Artes Cênicas/UNIFAP e do Núcleo Amazônico de Estudos das Artes Cênicas/NACE/UNIFAP. A comissão organizadora é composta pelo Prof. Dr. Romualdo Palhano e pelos acadêmicos: Aninha Martins, Larissa Macedo, Carla Thais, Jayne Alves e Jhou Santos. 

domingo, 3 de maio de 2015

DISNEY SILVA - De Artista a Secretário de Cultura


     Disney Furtado da Silva é um caboclo do Norte que tem dedicado sua vida à arte e à cultura do Estado do Amapá. É carnavalesco, produtor cultural, dramaturgo, ator e diretor de teatro. Escreveu entre outros, o famoso texto “Bar Caboclo”, que o transformou em espetáculo muito conhecido dos amapaenses. Seu primeiro contato com as artes cênicas foi em 1978, quando iniciou sua carreira no extinto grupo de teatro do SESC/AP, do qual, participou pelo menos por dois anos seguidos até a extinção do próprio grupo. Nessa época, também participou de oficinas promovidas pelo antigo MOBRAL.
     Cinco anos mais tarde, (em 1983), juntamente com alguns amigos como: Raimundo Conceição, Jackson Amaral, Sol Pelaes, Rechene Amim, Marcio Bacelar, entre outros, fundou o Grupo Língua de Trapo que ainda continua em plena atividade. No referido grupo, participou como ator das seguintes peças: “Repiquete”, de Francisco Carlos; “Paixão de Ajuricaba”, de Márcio Souza, entre outros.
     Intensa é sua contribuição com a cultura, com a arte e principalmente com o teatro no Amapá. Ao longo de sua carreia, além do Língua de Trapo ajudou a fundar outros como, por exemplo, o “Grupo de Teatro da Secretaria de Promoção Social” do governo do Estado, quando participou das encenações de “Pluft O Fantasminha” de Maria Clara Machado e ainda “Beatles e a Revolução Social”.
     Sua experiência na vida prática dedicada ao teatro o ajudou no seu amadurecimento e com este suporte resolveu escrever peças e se tornar também dramaturgo. E é ai que surge seu primeiro texto, o renomado “Bar Caboclo” que foi apresentado pela primeira vez em 1991. Depois do sucesso da montagem desse espetáculo, resolveu definitivamente escrever e encenar seus próprios textos.
     E foram sendo escritos e encenados: “Seu Pinto, Uma Filosofia de Vida”; “No Tempo da Ditadura”; “Pecado”; “Triângulo”; “Os Cabuçús no Bar Caboclo”; “Do Oiapoque para o Brasil, A História Que Ninguém Viu”; “Nazareno, O Revolucionário”; “O Bug do Zé Lixão”, além dos infantis “A Turma da Fanfarra”; “Surpresa de Pompom” e “A Casa Mal Assombrada”.
      Disney Silva é amapaense, servidor público do quadro do Ex-Território Federal do Amapá. Tem formação em Marketing e Comunicação pela Faculdade SEAMA e Administração e Marketing pela FAMAP. Foi Diretor do Teatro das Bacabeiras e Vice Presidente da Confederação Brasileira de Teatro – CBT. É Ex-Presidente da Federação Amapaense de Teatro Amador – FATA. Há mais de 25 anos é carnavalesco e já contribuiu com as seguintes escolas de samba: Maracatu da Favela; Grêmio Recreativo Império de Samba Cidade de Macapá; Unidos do Buritizal; Embaixada de Samba da Cidade de Macapá, campeã no ano de 2007 e Piratas da Batucada, campeã em 2012.      No Amapá, promoveu o I e II Festival de Teatro no Meio do Mundo e o Festival Nacional de Teatro, que aconteceu em 2008.
     Há mais de 40 anos que Disney Silva vem se dedicando ao teatro e à cultura no Amapá. Entre os espetáculos montados pelo Grupo Língua de Trapo poderíamos destacar: “Pecado”; “A Saga de Seu Pinto” e “Bar Caboclo”.  “Pecado” (que esteve em cartaz no ano de 1998) é um texto que focaliza-se especialmente no pecado religioso. No espetáculo, o tema poderia ter sido mais explorado pelo autor. Segue a mesma linha do “Bar Caboclo”, mas consegue conquistar a atenção do público.
     “A Saga de Seu Pinto” (em cartaz em 2007) era um espetáculo de sessenta minutos em que o texto nos remete a problemas conjugais criados, rejeitados e ao mesmo tempo aceitos no subsolo e na escuridão moral da sociedade burguesa contemporânea. É ligeiramente popular em função de sua linguagem clara e elementar. Portanto, encontra-se pleno de mexericos, intrigas e bisbilhotices, e tenta enfocar problemas psicológicos e emocionais de relacionamentos amorosos desgastados pelo tempo.
     Não se pode discutir que seu trabalho mais famoso é o espetáculo “Bar Caboclo” com texto do mesmo nome. Mesmo tendo sido produzido antes, há vinte anos que vem sendo apresentado, inclusive é um dos únicos trabalhos de teatro do Estado que consegue lotar o Teatro das Bacabeiras. O texto foi criado a partir de pesquisas sobre um bar que realmente existiu nas docas da antiga cidade de Macapá. Era um dos mais famosos prostíbulos da década de 1960 e localizava-se na esquina da Avenida Mendonça Junior com a Rua São José.
     Constitui-se de um espetáculo de expressão para nossa sociedade, visto que resgata esse famoso bar que outrora existira em nossa cidade. O texto não enaltece heróis, como é de costume, mas revela a vida de pessoas simples, quietas e discriminadas pela sociedade como pobres, prostitutas, lésbicas, loucas, gays, gigolôs, anciãos, idosos, crianças e negros.

     Um exemplo disso está na própria personagem “Chicona”. Vários desses adjetivos está nesse exemplo típico de mulher negra, anciã, prostituta, gorda e pobre. Apesar de se direcionar ao Bar Caboclo, o texto traz à tona discussões relacionadas às questões sociais e antropológicas referentes à inclusão social. Por isso, o mesmo continua atualizado, visto que esta é uma das questões que tanto se discute nos dias de hoje. Disney Silva é um cara batalhador e dedicado às artes em nosso meio, e foi em função do seu trabalho que passou de Artista a Secretário de Cultura do Estado do Amapá.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

AS FACES DE CRISTO - Conforme a Maré


                                      
     A Companhia Cangapé idealizou e concretizou o projeto da encenação de “As Faces de Cristo”, que versa sobre a quaresma. A quaresma é o período de 40 dias que inicia na quarta-feira de cinzas e vai até o domingo de páscoa. É nesse espaço de tempo o momento em que católicos e ortodoxos se dedicam à penitência. O espetáculo foi apresentado no dia 17 de maio do ano em curso, uma sexta-feira. O início estava marcado para as 19:30h, todavia, como é de costume foi preciso esperar o tempo passar um pouco para que a maré pudesse baixar.
     Na montagem deste espetáculo apresentado ao ar livre e dentro do rio Amazonas, a Companhia Cangapé objetivou experimentar novas possibilidades estéticas de representação cênica não tradicional. O espetáculo foi encenado próximo à rotatória do bairro Santa Inês, em Macapá. Apesar da neblina que caía sequencialmente, o espetáculo aconteceu normalmente, inclusive conquistando o público e curiosos que por ali passavam e paravam para assistir ao espetáculo.
     Desde que foi fundada, a companhia Cangapé vem circulando por vários gêneros e estéticas cênicas, como: teatro, dança e circo e agora volta-se para este trabalho que é mais uma ousadia do grupo. Torna-se evidente em suas atividades a forte presença do circo. Contudo, nota-se esta presença fundamental que também é marcante na montagem de “As Faces de Cristo”.
          No geral, o espetáculo se desenvolveu bem, inclusive conquistando um público considerado, que se espalhou pelo menos por cento e cinquenta metros no muro de arrimo entre a cidade de Macapá e o rio Amazonas. Como é uma nova linguagem, ou seja, um espetáculo que apresenta maiores proporções no que diz respeito ao espaço, número de atores e figurantes, iluminação, sonoplastia e visualidades cenográficas; alguns detalhes se fazem necessários para que a relação entre o teatro, a imagem, os olhos de quem realiza e os olhos de quem vê se coadunam gerando sensação de harmonia para a formação do quadro cênico.
     Entretanto, levando-se em consideração as técnicas teatrais e circenses e os aspectos semiológicos das artes cênicas em geral, enfocarei aqui, algumas sugestões para que sejam observadas pelo grupo. Quanto mais distante do público, consequentemente o espaço cênico exigirá maior amplidão dos atores, do cenário e da cena em geral, para dar lugar e significado à representação, diante das pessoas que assistem efetivamente a um espetáculo. Os gregos já faziam isso há 2.500 anos antes de Cristo quando colocavam batas com listras verticais em seu vestuário para criarem ilusão de ótica e se tornarem mais altos perante os olhos do público.
     Outra questão gira em torno da boa utilização do espaço e nuances oferecidas pelo próprio rio. Várias cenas poderiam acontecer tendo como ponto de partida os espelhos d’água que são naturalmente oferecidos pelo rio, gerando nas cenas bela plasticidade, quando as mesmas passam a refletir na própria água. No espaço geográfico do rio Amazonas ficam expostas pequenas ilhas e pequenas poças d’água que devem ser utilizadas como fonte de beleza natural da peça.
     Algumas cenas foram apresentadas sendo encobertas pelas bandeiras brancas que representavam barcos e que foram utilizadas como parte do cenário. Em determinados momentos a visão do público era prejudicada em função dessas bandeiras. Nesse caso, as cenas deveriam ser localizadas à frente das referidas bandeiras, para uma melhor visão do público. Desta forma, permaneceriam em cena, visto que estavam num plano mais alto que os próprios atores. Isto seria bom para dar melhor brilho ao cenário, delimitação do mesmo e principalmente contribuiria demasiadamente para o visual plástico da encenação.
     Em relação à iluminação, se faz necessário mais pontos de luz em direção ao leito do rio, enquanto que no cenário propriamente dito, o número de tochas deveria ser quadruplicados para gerar melhor sensação de plasticidade. Assim, teríamos consequentemente mais iluminação das cenas. Nesse tipo de espetáculo, geralmente os atores não andam, caminham rápido ou correm. Contudo, para que seus corpos possam ficar mais elásticos, deverão exagerar nos gestos e movimentos. Em função da distância, esses movimentos parecerão normais aos olhos do público.
     O grupo tem que insistir nesse espetáculo. Entendo que “As Faces de Cristo” deveria entrar para o calendário da Companhia Cangapé e ser apresentado todos os anos no leito do rio Amazonas. O trabalho foi uma realização da Cia quem tem à frente Washington Silva, Mauro Santos, Alice Araújo, Cleber Luiz e Keila Moreira. O espetáculo teve apoio do Coletivo de Artistas Produtores e Técnicos em Teatro do Estado do Amapá – CAPTTA; Secretaria de Estado da Cultura – SECULT e do Conselho de Cultura – CONSEC.

     Valeu a ideia, a ousadia e a persistência da Companhia Cangapé. Todos os atores que se dedicaram ao espetáculo estão de parabéns, “As Faces de Cristo” foi uma boa oportunidade para quem presenciou o evento. Todos sabem que em nossa região tudo depende da maré. Na Amazônia é assim, até o teatro acontece conforme a maré. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

BI TRINDADE - O MENINO DO LAGUINHO

    
    Reconhecido como artista de primeira linha, na década de 1970, Bi Trindade exerceu grande influência no que diz respeito às artes no Amapá, digo, às artes em geral. Sim! Visto que ele era um artista versátil: ator, escritor, poeta, músico, professor, além de ser tradutor de várias composições da Música Popular amapaense para o idioma francês.
     Como tantos outros artistas da década de 1970, o teatro surgiu na vida de Bi Trindade no bairro do Laguinho, principalmente no Grupo Telhado. Também não poderia deixar de ser, foi contemporâneo de Osvaldo Simões, Consolação Corte, Juvenal Canto entre outros jovens da época.
     É considerável afirmar que na década de 1970, com a criação do Grupo Telhado; com a criação do Grupo Pilão e com vários eventos artísticos, como feiras de artes, promovidos por esse grupo de pessoas. Foram os jovens do Laguinho que conseguiram transformar o seu bairro no maior centro cultural do Estado do Amapá, naquele momento histórico.
       O Telhado foi um grupo de teatro que em muito contribuiu para a formação de atores do Amapá, visto que o grupo trabalhava observando a arte como um sério métier. Lembra Bi, que o grupo conseguiu assinar convênio com o Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL. Em função do seu trabalho, o grupo conquistou e teve à sua disposição o Cineteatro Territorial, para realizar seus ensaios e suas apresentações.
     Mas, o telhado não só se dedicava à arte pela arte. Como grupo de vanguarda se preocupava tanto com o trabalho artístico, no caso a mise em scéne, como em debater com a sociedade local suas angústias, suas emoções e seus problemas político e sociais. Bi Trindade participou em espetáculos como: “Antônio, Meu Santo” e “A Mulher que Casou 18 Vezes” e “O Menino do Laguinho”.
     “A Mulher que Casou 18 Vezes” além de ter sido um bonito espetáculo, nela Bi representou dois personagens e ainda trabalhou na música. Foi uma adaptação de cordel, que deixava o público sempre à vontade porque era de fácil compreensão. Além disso a peça deixou para ele a experiência de viajar pelos cinco municípios amapaenses que existiam na época: Macapá, Porto Grande, Ferreira Gomes, Calçoene, Amapá e Oiapoque.
     Além do Grupo Telhado, Bi participou de outros grupos de igrejas como São Benedito e Jesus de Nazaré. Em 1977, na igreja São Benedito, padre José solicitou que o grupo apresentasse a via sacra ao vivo pelas ruas do bairro laguinho. O trajeto ficou assim determinado: saída da referida igreja, seguindo por ruas do Pacoval; depois, passando em frente à igreja Nossa Senhora Aparecida, em seguida voltando pela rua Eliezer Levy e boêmios do Laguinho, para finalizar com a crucificação de Cristo que acontecia na Igreja São Benedito.
     No trajeto, o povo do Laguinho seguia a Via Sacra como se fossem verdadeiros figurantes. Seguiam como verdadeiros romeiros, como se estivessem seguindo o próprio Cristo. Nessa apresentação aconteceu um fato sui gêneris no teatro do Amapá, é quando Bi tornou-se pela primeira vez na história do teatro o primeiro cristo negro numa montagem sobre a vida de cristo, no Amapá.
     Outro legado que Bi Trindade trouxe desse período, foi não só o fato de ter sido bom ator, mas de ter se tornado um dos melhores intérpretes de música amapaense. Por todo esse tempo ele transitou entre o teatro e a música, sendo também um dos fundadores do Grupo Pilão. Muitas vezes era ator e compositor das músicas das peças, caso que aconteceu na montagem “O Menino do Laguinho”.
     A peça “O Menino do Laguinho”, cujo diretor era Pedro Tavares, foi pensada pelo grupo de forma coletiva, portanto, não houve um autor específico. Nesse espetáculo, Bi Trindade representava um personagem que ensinava um cego. O Menino do Laguinho serviu como ponto de partida para Bi em função de que foi o primeiro trabalho que participou, exaltando o lugar em que morava e suas origens. O espetáculo exaltava a problemática do amapaense, focando o menino do laguinho.
     Na década de 1980 foi parceiro de Celso Dias quando participou no Grupo de Teatro do SESC/Amapá. Nessa época, o SESC foi um dos grandes motivadores da arte no Amapá. O fato de ter se dedicado ao teatro em muito contribuiu para exerce o magistério como professor de francês.
     Iniciou como cantor, imitando artistas como Wilson Simonal e Toni Tornado e foi um dos fundadores do Grupo Pilão, do qual se tornou compositor e cantor efetivo. Por outro lado, para ele, o teatro foi uma saída em busca de entretenimento, para ocupar a mente, para se divertir e para levar alegria para outras pessoas. Fato é que o Grupo Telhado na década de 1970, foi um movimento de mobilização que teve sua importância na formação cultural de muitos jovens no Estado do Amapá. E foi no Telhado, que Bi Trindade se considerava o próprio Menino do Laguinho.


segunda-feira, 30 de março de 2015

OSVALDO SIMÕES E O TEATRO NO AMAPÁ



     Francisco Osvaldo Simões Filho é personalidade do teatro amapaense. Embora poucas pessoas saibam, em muito ele contribuiu com o teatro no Estado do Amapá, principalmente entre as décadas de 1970 e 1980. Na época da ditadura militar foi um dos principais atores que se dedicou na luta pela liberdade de expressão no Amapá.
    O mesmo iniciou sua carreira no teatro amapaense quando ainda não havia nos limites da cidade de Macapá a ideia de apresentações em espaços públicos como teatro e tablados que aqui existiam na década de 1970, como por exemplo, o palco da Rádio Educadora e da Rádio Difusora. Portanto, até a década de 1970 não havia grupos específicos com o intuito de se apresentarem nesses espaços. O que se tinha conhecimento até esse período era a apresentação de grupos no interior das igrejas e escolas espalhadas pela cidade.
     O próprio sistema ditatorial, determinava aquele momento histórico e fazia com que pequenos grupos se refugiassem principalmente no interior das igrejas.  E foi assim que muitos jovens buscaram seu refúgio realizando pequenos dramas e esquetes no interior das paróquias, único local que os apoiava intencionalmente. Vale lembrar que nesse período a cidade contava apenas com três espaços dignos de apresentação de espetáculos teatrais: os palcos das emissoras: Rádio Educativa (que pertencia à diocese) e Rádio Difusora (que pertencia ao governo do ex-Território), além do Cine Teatro Territorial que encontrava-se fechado naquele período.
     Sem sombra de dúvidas, na década de 1970, o bairro do Laguinho foi quem mais representou o desejo de liberdade no Amapá. Expoente na maioria das vezes no que diz respeito aos movimentos artísticos que aconteceram naquele período. Não só em relação especificamente ao teatro, mas à própria cultura como um todo. Como não poderia deixar de ser, o artista Osvaldo Simões vem do Laguinho, juntamente com um grupo de jovens com o desejo de contribuir com a arte que se fazia no Amapá, naquele período.
     Como o bairro do Laguinho tornou-se pequeno, o grupo, ávido de liberdade e cultura, passou a se encontrar no centro da cidade. Faziam parte dessa trupe: Osvaldo Simões, Maria Benigna, Eduardo Canto, Consolação Corte entre outros. “O Juiz de Paz na Roça” de Martins Pena, foi o primeiro texto em que Osvaldo participou como ator. O que era uma leitura dramática com o tempo transformou-se num espetáculo, que ficou em cartaz entre 1971 e 1972. Esta peça foi apresentada em locais alternativos nas cidades de Macapá e Santana.

     “Bonequinha de Pano” foi o segundo espetáculo que Osvaldo Simões trabalhou, sendo que nesta ocasião o grupo conseguiu apoio do SESI, que o estimulou com a doação do figurino do espetáculo. Foi a partir desse trabalho que o grupo passou a discutir um nome para determinar o próprio grupo, que ficou mais conhecido como “Telhado”. O Grupo de Teatro Telhado foi onde Osvaldo Simões vivenciou suas mais brilhantes experiências na área do teatro no Amapá. No entendimento de que a arte amapaense estava descoberta, foi assim que a turma de jovens decidiu colocar o nome do grupo de “Telhado”, com o objetivo dar uma cobertura na arte amapaense naquele momento. E Osvaldo Simões fez história como integrante do  Grupo de Teatro Telhado. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

I SEMANA ACADÊMICA DO CURSO DE TEATRO


     Após a aprovação do Curso de Teatro pelo Conselho Superior da UNIFAP que aconteceu em 12 de novembro de 2013, o referido curso vem promovendo vários eventos: de 09 a 11 de abril foi promovida a Semana do Calouro; no dia 07 de maio ocorreu o “Ciclo de Palestras em Artes Cênicas” paralelamente ao lançamento da obra “Teatro no Amapá: Artistas e seu Tempo”, este último evento contou com a presença de várias personalidades que contribuíram para o teatro no Amapá: Professora Zaide Soledade, Professor Guilherme Jarbas, ator Carlos Lobato, ator e músico Fernando Canto, ator Celso Dias, diretor de teatro Amadeu Lobato, diretor e ator Carlos Lima, ator de diretor Daniel de Rocha e ator e diretor e professor Jackson Amaral.
     De 27 a 30 deste mês de maio, o Curso de Teatro estará promovendo com o apoio do SESC/Amapá, a “I SEMANA ACADÊMICA DO CURSO DE TEATRO” com o tema: Contaminações entre Teatro e Dança. No dia 27 haverá a apresentação do espetáculo “Anáguas” pela “Companhia Oxente de atividades Culturais” da Paraíba. É um espetáculo cuja trama se dá na relação de três mulheres que lutam cada uma à sua maneira para manterem-se fiéis aos seus princípios e para isso são capazes de passar por cima de seus próprios egos. A história revela conflitos, desarmonia, egoísmo, e desavenças entre as personagens. Após o espetáculo haverá debate com o público presente.
     No dia 28 a programação será voltada para a oficina de “Concepção e Construção de Figurino” que será ministrada pela professora e atriz Tainá Macedo; Tainá é arte educadora com Licenciatura em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Paraíba. É uma das mais conceituadas figurinistas da Paraíba. No dia 29 acontecerá a oficina de “Danças Populares” que será ministrada pelo ator e professor José Maciel da Silva e conjuntamente pela atriz e professora Margarida Santos. Maciel é Educador físico e especialista em Representação Teatral. Margarida Santos é graduada em Educação Artística com habilitação em Artes Cênicas e especialista na área do teatro. As referidas oficinas acontecerão de 08:00 às 12:00 no Departamento de Letras e Artes da Universidade Federal do Amapá.
     Concluindo a programação no dia 30 com a palestra da atriz e professora Mestra Palmira Rodrigues Palhano com o título “Teatro na Educação”. Palmira é graduada em Educação Artística com habilitação em Artes Cênicas, é Mestra em Educação e doutoranda em Ciências Sociais. Atualmente é professora de Teatro do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba – Campus I.

     Este evento é uma realização da Coordenação do Curso de Teatro da UNIFAP com apoio do SESC/Amapá; do Grupo de Pesquisa em Artes Cênicas (UNIFAP) e do Núcleo Amazônico de Estudos das Artes Cênicas da UNIFAP. Tem apoio ainda da Comissão organizadora que são acadêmicos do Curso de Teatro: Adriana Rodrigues, Ana Patrícia, Dayse Amaral, Dorivana Martins, Larissa Macedo, Maurício Macial, Naianne Martins José Neto e Veerney Nunes. O evento é aberto ao público.

quarta-feira, 26 de março de 2014

DIA INTERNACIONAL DO TEATRO - 27 DE MARÇO


     Do ponto de vista histórico e com os elementos que conhecemos na atualidade, poderíamos dizer que o teatro surgiu na Antiga Grécia, embora pesquisas recentes venham demonstrar que muito antes, os egípcios, os indianos e os chineses já o praticavam. Portanto, não se pode negar que a cultura oriental é muito sedimentada, mas embora o Oriente realizasse teatro antes dos gregos, essa prática acontecia primitivamente em forma de rituais religiosos.
     Percebe-se, porém que a Grécia Antiga herdou esses rituais, entretanto não podemos negar que foi justamente nesse país que os primitivos rituais foram, ao longo dos anos se transformando, tomando novas formas como festividades e atividades culturais até determinar os cultos teatrais como forma de representação e arte, à qual conhecemos hoje.
     O teatro, do qual falo na atualidade na atualidade, originou-se basicamente de três festividades: a) dos mistérios de Delos; b) da louvação às divindades Quintelanas – Elêusis, Demótes e Proserpina; e c) do culto a Dionísio. Sendo que esta última versão é a mais provável, segundo estudos históricos e antropológicos já realizados.
     Sabe-se que uma vez ao ano, justamente por ocasião das vindimas, prestava-se homenagem ao Deus Dionísio; Deus da uva e do vinho; da embriaguez e da fertilidade. Geralmente nesses cultos sacrificava-se um animal, mais praticamente um bode que, por sua vez, significa TRAGOS em grego, de onde surge etimologicamente a palavra Tragédia.
     Comumente, ao som da música de flautas, as bacantes dançavam em honra ao Deus Dionísio, juntando-se aos Sátiros, também dançarinos, que vestidos a caráter imitavam bodes, cujos animais, para a cultura grega da época significavam os companheiros do Deus. Depois de algumas horas, já embriagados, entregavam-se com entusiasmo a esse frenesi, esse culto, a esse verdadeiro espetáculo. Nessas condições, o teatro tem notadamente origem religiosa e campestre.
     Com o passar do tempo, o próximo passo foi a organização de procissões, que se tornaram muito mais religiosas do que profanas. Essas procissões tinham caráter comum, onde todos os celebrantes se juntavam tendo à frente jovens que cantavam um hino improvisado, chamado “ditirambo”, e assim giravam em torno do altar do Deus, agradecendo pela colheita da uva e pelo sexo que significava a fertilidade da vida. E foi exatamente desse coro, do contraste entre o espírito Dionisíaco e Apolíneo que nasceram a Tragédia e a Comédia. A tragédia tinha como principais características o terror e a piedade que despertava no público. Era constituída de cinco atos e voltava-se para o resgate da mitologia grega, com seus deuses, heróis e feitos. A comédia era dividida em duas partes com um intervalo. Tratava dos homens comuns e de sua vida cotidiana.
     Em seguida o coro separou-se do recitador, nesse momento crucial da história do teatro havia nascido o primeiro ator. Contudo, na procissão já se podia constatar três artes: o canto, a dança e a atuação. Nesse caso, à frente vinha o “Corifeu” – de onde surge a palavra Coro – vestido com pele de bode. Consequentemente todo o resto do grupo respondia ao ditirambo, atuando como um verdadeiro balé litúrgico, numa fusão do trágico e do cômico. Essa narrativa cantada era sempre feita em terceira pessoa. Em 534 a.C. Théspis, um corifeu que participava da festa, representou pela primeira vez Dionísio, transformando essa narrativa em primeira pessoa e dando origem à platéia.
     E assim constituiu-se a Tragédia: o ator e o coro se respondem cantando, em seguida o ator fala e o coro canta e posteriormente o ator dialoga com o Corifeu, representante do coro. Vale salientar que nesse momento embrionário da Tragédia não havia atos nem intervalos, sendo a mesma, composta de partes dialogadas e partes faladas.
     Poderíamos fazer aqui uma relação como o Círio de Nazaré, quando todos os anos, numa determinada época, o povo se reúne para louvar a sua Santa (Deusa) Virgem de Nazaré. Neste caso, com características próprias de uma cultura contemporânea de início do século XXI. É interessante saber que apesar da distância cronológica, momentos semelhantes existem entre essas duas manifestações religiosas, como por exemplo, o vigário assumindo o lugar do Corifeu, que quando fala uma estrofe de uma oração automaticamente o povo responde, representando nessa ocasião, o coro.
      Os três grandes trágicos foram: Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Théspis foi o criador do teatro ambulante, o qual se conhece hoje como teatro mambembe. Infelizmente todos os seus textos se perderam. Também foi ele quem inventou as máscaras para teatro. Representava seus papéis trágicos inicialmente pintando o rosto com matéria prima da época, depois cobrindo o rosto com folhas de árvores; em seguida introduziu o uso de verdadeiras máscaras.
     Chegou um momento em que o Estado tomou para si a responsabilidade e a organização do teatro na Antiga Grécia, quando instituiu concursos entre os poetas dramáticos (mais conhecidos atualmente como dramaturgos), em consequência o povo imediatamente acolheu essa forma artística, que se tornou milenar no momento atual da história da humanidade.
     Tendo como ponto de partida a contribuição do teatro em nível artístico, psicológico e social para o homem durante toda sua história e considerando a necessidade vital da humanidade em relação às atividades teatrais que persistem incondicionais até nossos dias, foi que em 1961, o Instituto Internacional de Teatro da UNESCO, órgão das Nações Unidas voltado a educação, ciência e cultura, resolveram criar uma data dedicada às atividades culturais ligadas à representação durante o seu IX Congresso Mundial, em Viena, Áustria. Portanto, em função da inauguração do Teatro das Nações, em Paris, França, em 27 de março de 1961, tem sido celebrado o Dia Internacional do Teatro. A data de 27 de março assinala também a inauguração das temporadas internacionais no referido teatro. Na ocasião a ONU passou a enviar mensagem sobre a importância do teatro aos seus países membros.