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segunda-feira, 22 de junho de 2020

SÃO JOÃO



     Estamos em pleno São João, festividade tradicional no Brasil e principalmente na região nordeste. Festas joaninas ou juninas? Joanina deriva de João e é em homenagem a ele que assim se fala: festas joaninas. Junina deriva do mês de junho, visto que acontece nesse período do ano. É a principal festividade e a mais comemorada no nordeste brasileiro. Portanto, em tempo de pandemia do coronavírus, o São João este ano, acontecerá em casa. Artistas músicos e forrozeiros farão muitas lives, para as pessoas ficarem em casa.
     Os pagãos comemoravam essa data em função do solstício de inverno, no hemisfério sul e solstício de verão no hemisfério norte. Como a Europa situa-se no hemisfério norte, e praticamente a maior parte do ano perdura o frio, os pagãos comemoravam a chegada do “Deus Sol Invictus”, ou seja, o sol invencível que chegava abrindo o verão para abrilhantar e esquentar aquele espaço geográfico.
     O culto ao Sol invicto continuou a ser base do paganismo oficial até a adesão do império romano ao cristianismo. Antes da sua conversão, até o imperador Constantino I, tinha o Sol Invicto como a sua cunhagem oficial. Quando aconteceu a ascensão do cristianismo, ficou decidido que a referida data seria para comemorar o santo “São João”. Com isso, a cultura europeia e de suas colônias, foi se adaptando gradativamente, como é o caso no novo mundo e do nordeste do Brasil.
     Mesmo sendo na atualidade uma dança popular, é bom lembrar que a quadrilha que era muito difundida na França, foi inicialmente dançada na corte francesa. Em seguida, no campo entre os agricultores e seus familiares. Com a descoberta do novo mundo, os costumes e a cultura europeia vieram juntos. Foi assim que se consagrou as quadrilhas mais antigas que traziam muitas palavras francesas e que foram ao longo do tempo sendo aportuguesadas aqui no Brasil.
       Alavantú, vem do francês “en avant tous” (todos para a frente); changê de damas e changê de cavalheiros, vem do verbo “changer” que significa trocar, neste caso, trocar de damas e trocar de cavalheiros. Anarriê  também é do françês “en arrière” (todos para trás); Otrefuá, do francês “autre fois”  que significa outra vez.
     O que não havia na quadrilha francesa e que foi adaptado pelo povo brasileiro, foi a encenação do casamento matuto, neste caso a quadrilha gira em torno desse casamento matuto na roça, em que o noivo é obrigado a casar pelo pai da noiva, que com uma espingarda apontada para a cabeça dele, o obriga definitivamente a aceitar o casamento.
     As festas juninas são comemoradas no dia 13, em homenagem a São Pedro, quando na véspera se comemora o dia dos namorados; o dia de São João, 24, é o dia mais comemorado, há fogueiras, queima de fogos e impera a comida derivada do milho, inclusive porque é período de colheita. Dia 29 comemora-se o São Pedro que também é muito lembrado nas pequenas cidades do interior. Nesse período, não se toca outra música a não ser o forró. Para o nordestino, o São João tem o mesmo significado que o Círio de Nazaré para o amapaense.


    
       


segunda-feira, 15 de junho de 2020

CIRCOS BIZARROS




     Durante o século XIX e boa parte do século XX eram comuns nos circos, espetáculos conhecidos como aberrações ou bizarrices. Antes da chegada do rádio, o maior concorrente dos teatros, eram os circos. Durante esse período espetáculos desse gênero eram os preferidos pelas pessoas. Muitos desses casos ficaram famosos, tanto na Europa como nos Estados Unidos. A grande questão é que, casos desconhecidos de problemas de saúde que estivessem fora do normal da sociedade da época e, por outro lado, a ciência e a medicina não conseguissem resolver, eram geralmente tratados como coisas de outro mundo.
    Um desses casos foi o de Júlia Pastrana, mais conhecida como mulher macaco. Era uma mexicana que tinha um problema genético raro: Hipertricose terminal; em função disso, seu corpo era completamente coberto por pelos e seu rosto coberto por cabelos pretos lisos. Aproximadamente em meados de 1854, Júlia foi levada para os Estados Unidos, na época, com apenas 20 anos. Naquela ocasião, foi contratada imediatamente pelo circo de J.W.Beach. Fez turnês pela Europa e vários países do mundo.
     Outro caso, foi o de Josephine Myrtle Corbin, a mulher de quatro pernas. Nasceu nos Estados Unidos em 1868, com quatro pernas. Sua anomalia ficou conhecida como síndrome da duplicação caudal. Significa que o corpo da sua irmã gêmea se desenvolveu apenas da cintura para baixo, em função disso se incorporou ao corpo de Josephine. Se apresentou Ringling Brothres Circus, e em feiras. A artistas usava meias e sapatos em suas pernas extras, o que a transformava numa aparência atípica.
     Fato semelhante aconteceu com Ella Harper, que ficou famosa como a menina camelo. Aos 16 anos já era a estrela do Circus Harris Nickel Plate Show. Ela nasceu com um problema congênito em que seus joelhos dobravam para trás. Geralmente era apresentada junto a um camelo. Ficava muito famosa nas cidades em que se apresentava.
     Outro que se transformou em artista de circo e ficou muito famoso foi o caso de Stephan Bibrowsk, nascido em 1881, na Polônia. Ficou conhecido como o homem com cara de leão. Também era cantor. Seu problema genético constava de uma doença rara chamada hipertricose, na qual fazia crescer cabelos por todo o corpo e rosto, e o deixava com aparência de um leão. Já nasceu com quase três centímetros de comprimento. Após fazer muitas apresentações pela Europa, em 1901 viaja para américa. Nos Estados Unidos se apresentou em vários espetáculos, inclusive no Circo Barnun & Bailey.
     Outro caso raro foi também o da africana Sarah Baartman, que ficou famosa pelo seu exagerado e gigante bumbum. S apresentou em vários circos e ficou conhecida como a Vênus Hotentote. O que mais intriga nesses casos é que, em função de seus problemas de saúde, quando nasceram, em sua maioria, todas essas crianças foram abandonadas pelos seus pais e familiares. E é aí quando aparecem os empresários para, a partir de cada anomalia específica, transformar essas pessoas em artistas do circo de aberrações.

terça-feira, 9 de junho de 2020

VIVA CARLOS LIMA



     Minha homenagem ao ator e meu ex-aluno Carlinhos, que com o apoio dos artistas do Amapá, conseguiu vencer a covid 19. Carlos Alberto Silva Lima é professor de Artes, dramaturgo, ator, diretor de teatro e administrador. É graduado em Educação Artística pela Universidade Federal do Amapá. Desde a década de 1980 que vem se dedicando ao teatro no Amapá, tendo por base seu trabalho que iniciou na cidade de Santana, da qual é residente.
     Em função de sua dedicação à arte, foi convidado para dirigir por um período, o Teatro das Bacabeiras em Macapá, quando na ocasião desenvolveu vários projetos: “Cine ao Meio Dia”, onde com entrada franca, pessoas do comércio aproveitavam sua hora do almoço para apreciarem numa das salas do teatro, os mais diversificados filmes; Projeto “Seis e Meia” que acontecia às quartas-feiras; “Projeto Escadaria 2007” que acontecia uma vez ao mês, com várias atividades culturais, mais precisamente no dia de lua cheia; e “Projeto Café da Manhã” que acontecia sempre às segundas feiras, onde além do café se discutia as futuras atividades e pautas naquele teatro.
     Nasceu na cidade de Serra do Navio e foi lá que, ainda criança começou a participar na escola da ICOMI em dramatizações no âmbito da própria escola. Também participava do “canto coral”. Seu primeiro personagem foi uma mesa, como ele próprio descreve em entrevista concedida a este colunista: Quando eu comecei a fazer teatro, fui uma mesa e jogavam só uma toalha em cima de mim e o ator ficava sentado na mesa. Eu não podia fazer nada, Aí! Eu ficava pensando: - Poxa! É muita humilhação para um ator.
     De Serra de Navio mudou-se para a cidade de Belém do Pará onde obteve experiências na área do teatro com o professor e diretor Cláudio Barradas. Em Belém fez curso de teatro na Escola Técnica do Pará. O teatro é algo constante na vida de Carlos Lima. Este ator é tão apaixonado pelo teatro quando afirma: Eu brinco de teatro 24 horas por dia, vou para o restaurante com teatro porque sem arte não consigo viver.
     Em 1980 retornou ao Estado do Amapá para fixar residência, instalando-se dessa vez na cidade de Santana onde deu continuidade ao trabalho no teatro na Igreja Nossa Senhora de Fátima, juntamente com João Porfírio (popó) entre outras atrizes como: Fátima Trindade, Roberto Prata e Sílvio Romero. Em Macapá conheceu a professora Nazaré Trindade que era atriz reconhecida no Amapá, com quem muito aprendeu sobre teatro.
     Além de se dedicar ao palco propriamente dito, Carlinhos como é conhecido pelos mais íntimos, quando ainda era aluno da Escola Augusto Antunes, resolveu enveredar pela linha dramatúrgica e foi nos bancos escolares que escreveu “A Raposa Espertalhona”, seu primeiro texto teatral que tinha como personagem principal uma raposa. Seu trabalho mais conhecido, todos sabem, “Seu Portuga e a Língua Portuguesa”. Desejo muito sucesso para Carlos Lima.




segunda-feira, 18 de maio de 2020

TEATRO SOB DITADURA


                                        
     Face ao quadro político que se apresenta no Brasil da atualidade, com a luta entre poderes, por outro lado, com a constante ameaça do coronavírus, dizimando milhares de pessoas e ainda a dúvida de que rumo político seguira nosso país é que resolvi relatar um pouco sobre a batalha de artistas de teatro em relação à ditadura militar, para que tenhamos ideia do isto representa para a arte e a cultura em geral.
     A somatória dos fatos ocorridos em 1966 fez com que os artistas e intelectuais deixassem de lado a caneta e a máquina de escrever. Foi assim que 300 pessoas abriram o ano de 1967 num ato público na ABI – Associação Brasileira de Imprensa, no lançamento da “Semana de Protesto à Censura”. Já os jornais do dia 23 de outubro deste mesmo ano trazem declaração do General Façanha, então diretor do Departamento de Polícia Federal, chamando Tônia Carrero de “vagabunda” e segundo o texto “O Teatro e o Poder” de Tânia Pacheco, que se encontra inserido no livro “Anos 70 – Teatro”, o General Façanha teve a impetulância de afirmar que “a classe teatral só tem intelectualóides, pés sujos, desvairados e vagabundas que entendem de tudo, menos de teatro”.
     1968, talvez tenha sido o ano mais trágico de toda a história do teatro brasileiro. A censura assume o papel de protagonista na cena nacional: desencadeia uma guerra aberta e clara contra a criação teatral; torna-se incomodamente presente no cotidiano dos artistas do palco. Neste ano grande quantidade de espetáculos é proibida, sem falar dos textos censurados e dilacerados pela censura. Diante das arbitrariedades dos recentes acontecimentos, a classe teatral reage com indignação. Todos os teatros do Rio de São Paulo declaram-se em greve de protesto por três dias, e os artistas, liderados por personalidades como Cacilda Becker, Glauce Rocha, Tônia Carrero, Ruth Escobar e Walmor Chagas, realizam rumorosas vigílias cívicas nas escadarias dos teatros municipais das duas cidades, durante os quais ocorreram tragicômicos conflitos com a polícia.
     O Teatro “Gil Vicente” em Porto Alegre e o “Opinião” no Rio sofrem atentados à bomba. Flávio Rangel é detido na rua e tem sua cabeça raspada pela polícia. Consequentemente em junho de 1968, artistas revoltados decidem não acatar mais a censura e a partir desta data organizam e escrevem carta de protesto ao General Orlando Geisel, Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, contra a prisão do diretor Flávio Rangel, que teve a cabeça raspada anteriormente, no Rio de Janeiro.
     Um espetáculo marcante naquele período foi “Roda Viva” de Chico Buarque, que desencadeou uma tempestade de protestos e de adesões entusiásticas contra a repressão. Em repúdio à censura e às ameaças terroristas contra teatros e elencos, a classe teatral paulista devolve ao jornal “O Estado se São Paulo” os “Sacis” – prêmios por ele distribuídos.

sábado, 9 de maio de 2020

PRIMÓRDIOS DOS CENÁRIOS



    Muitas vezes, quem vai ao teatro assistir a uma peça, não imagina o quanto essa arte é antiga, principalmente no que diz respeito aos cenários. Cenário é todo aparato técnico que complementa a peça, determinando o espaço geográfico (castelo, rua, casa, clube, etc.) onde está acontecendo a cena, que também pode definir uma área interna ou externa. Objetos de cena, são todos os aparatos necessários para complementar a indumentária dos atores e também o cenário. E tudo começa na Grécia antiga.
      As invenções de Ésquilo no que diz respeito aos cenários foram muitas. Ele construiu várias máquinas para obter efeitos românticos e deu um passo à frente no arcabouço do drama grego. É considerado um dos primeiros que se voltou para a pintura cênica. Já Sófocles aparece como criador do terceiro ator e Eurípedes modificou o princípio e o fim da tragédia, permanecendo a mesma mise-en-scène. Diz-se que o pintor Agutarcos desenhou vários cenários para as tragédias de Ésquilo dentro das regras da perspectiva.
     “Pintura de Cena” era o termo empregado pelos Helenistas. Este mesmo termo foi introduzido por Sófocles, mas possivelmente foi utilizado na última trilogia de Ésquilo. O cenário clássico grego era organizado com uma parede de fundo, que também exercia a função de coxia para os atores se vestir. Esta parede geralmente representava a frente de uma casa, com uma grande porta ao centro e duas menores de cada lado. No teatro Grego e Romano sucessivamente, o conceito de cenário era irrelevante, sendo o frontispício da “Skené” a ambientação permanente para todos os textos, consequentemente nesse período o cenário era apenas visto, cujo drama era concebido pela palavra.
          No Renascimento, o arquiteto Bramante, construiu um teatro no qual o telão separava a cena dos degraus dispostos em forma de anfiteatro. Peruzzi iniciou os cenários em perspectiva e Serlio construiu um teatro dividido em duas partes: plateia e cena; também reduziu as construções cênicas, que primeiramente eram muito sólidas, a dois bastidores pintados, enquanto que para o cenário do fundo bastava um só telão.
     Servandoni, pintor e arquiteto, foi um dos principais mestres na renovação técnica cênica no século XVIII. Ao contrário de seus antecessores que se baseavam na perspectiva paralela, dispondo os planos sucessivos sempre em relação à boca de cena, o artista florentino idealizou um novo tipo de cenário baseado nas leis da perspectiva oblíqua, na qual o horizonte imaginário situava-se em vários pontos laterais de dispersão. Ele obteve dessa forma, certa fluidez que se contrapunha às realizações rígidas do Renascimento. Todos os aperfeiçoamentos que vieram posteriormente em relação à técnica de elaboração e confecção de cenários têm como ponto de partida os princípios idealizados por Servandoni.


quinta-feira, 16 de abril de 2020

CORONAVÍRUS:O DILÚVIO CONTEMPORÂNEO



     Durante toda minha vida, já ouvi muito as pessoas falarem do dilúvio, começando desde menino, claro; primeiro em casa, ouvindo meus pais, depois nas aulas de catecismo. Aquelas conversas me deixavam muito atordoado, com medo de que acontecesse novamente. Aliás o dilúvio é citado nas mais diversas sociedades primitivas, isoladas ou não, por quê?
     Na Bíblia há relato de um dilúvio, encontrado no Gênesis. Em função do estado pecaminoso da humanidade, ele resolve inundar a terra para dizimar os maus e ficarem os justos, como Noé e sua família. Neste caso, Noé recebe instruções para construir uma arca, que coubesse toda sua família e um casal de todos os animais que existiam na terra.
     Acontece que muito antes da Bíblia, os sumérios já haviam feito este relato, que está escrito em pequenos tabletes de argila com letras cuneiforme. Nas Aventuras de Gilgamesh, pode-se observar que: logo após o dilúvio, as comunidades ao Sul da Babilônia, onde se localizava a Suméria, ficaram em luto. Desolados, sem alimento e com dificuldade para se restabelecerem, passaram a ser atacados por povos vizinhos.
     Vejo o coronavírus como o dilúvio sem águas, um dilúvio seco, um dilúvio contemporâneo. Sim! porque nos traz e nos impele a momentos de muita análise e reflexão. Primeiro por ser algo tão pequeno, microscópico, invisível a olho nu, mas que causa tanto estrago. Dai observar também o adágio popular que “tamanho não é documento”, e ainda, “de onde menos se espera é de onde mais sai.”
     Nesses tempos de pandemia de coronavírus, devemos e precisamos ficar em casa. Um vírus tão pequeno que parou o mundo. Quem diria! Mas é verdade. Não há vacina, não tem cura, ataca os pulmões, as autoridades ficam de mãos atadas, e qual o principal remédio? Ficar em casa. E isto não é apenas um conselho, é o dever do cidadão ficar em casa, em reclusão no seu próprio ninho, antes que algum gavião venha o destruir.
     E essa não é a primeira vez que acontece de um pequeno vírus que abalar o mundo, por exemplo, na Europa do século XIV, houve a proliferação de uma doença causada pelo bacilo Yersinia pestis, mais conhecido como a pandemia da peste negra. Não precisa ir muito longe, em 2013 aconteceu na África a epidemia do Ebola; a gripe suína em 2009; ou a pandemia da aids na década de 1980. Quem viveu à década de 1980, sabe muito bem os estragos que causara a aids, inclusive, um dos símbolos de resistência pública dessa pandemia, foi o cantor Cazuza.
     Nesses momentos difíceis dessas provas naturais, muito se tem a aprender. Percebe-se que um pequeno vírus destrói qualquer sistema econômica, como o que vem acontecendo com a queda das bolsas de valores em todo o mundo. Momento que também a COVID/19 nos mostra que o ato de consumir não é o ideal, mas sim, que o principal valor do homem está na sua saúde. Portanto, nesses dias de pandemia do coronavírus, o melhor remédio se enclausurar na sua própria residência. Não tenha dúvida, fique em casa.
          

domingo, 29 de março de 2020

O TEATRO E SUA ORIGEM



     Do ponto de vista histórico e com os elementos que conhecemos na atualidade, poderíamos afirmar que o teatro surgiu na Grécia Clássica, embora pesquisas recentes venham demonstrar que muito antes, os egípcios, os indianos e os chineses já o praticavam. Portanto, não se pode negar que a cultura oriental é muito sedimentada, mas embora o oriente praticasse teatro antes dos gregos, essa prática acontecia primitivamente em forma de rituais religiosos.
     Aqui poderíamos fazer a seguinte indagação: porque ao longo dos anos, os ritos dramáticos religiosos desses povos que antecederam os gregos, durante centenas de anos, não conseguiram avançar, se hibridizar, se reconstruir e se transformar em novas manifestações culturais? Como se pode perceber, a grande maioria desses povos antigos era regida por impérios, cujos imperadores representavam a justiça e os deuses aqui na terra. Cada imperador era onipotente e onipresente e impunha suas leis que eram absolutas e indestrutíveis.
     O Egito com seus faraós é um grande exemplo disso. O povo egípcio seguia cegamente essas leis, e por vários séculos não se insurgiam em relação a elas.  Aceitou essas leis impostas pelo faraó, que ao mesmo tempo era o juiz e o sacerdote de deus. Para Margot Berthold, “Esse paciente apego à tradição sufocou as sementes do drama”. (Margot Berthold, p. 15). A questão é que esses reinos antigos, não abriram espaço para o desenvolvimento de um indivíduo livre, pensante e que tivesse direta participação na vida da comunidade.
     Este fato era impensável para aqueles que reinavam e dominavam seu povo, e se algum cidadão tentasse participar ou opinar contrariamente ao pensamento do rei, seria automaticamente morto por centenas de flechas, pela elite dos arqueiros fiéis ao rei. De acordo com Margot Berthold: “Faltava ao egípcio o impulso da rebelião; não conhecia o conflito entre a vontade do homem e a vontade dos deuses, de onde brota a semente do drama”. (Margot Berthold, p 15).
     Para que o teatro obtivesse novo impulso nessas antigas manifestações religiosas, faltou, estritamente, o que aconteceu na sociedade grega: a democracia. Nesse novo regime, o cidadão teve direito a voz, além do que possuía a abertura política de um confronto pessoal com o Estado de direito.
     É notório que a Grécia antiga tenha herdado esses rituais, entretanto não podemos negar que foi justamente nesse país que os primitivos rituais foram, ao longo dos anos, se transformando, tomando novas formas como festividades e atividades culturais até determinar os cultos teatrais como forma de representação e arte, à qual conhecemos na contemporaneidade.
     Etimologicamente, o termo teatro deriva do latim theatrum e do grego theatron, que dá ao vocábulo o sentido de miradouro, praticamente, lugar de onde se vê, lugar para olhar, detheasthai, “olhar”, mais – tron, sufixo que denota “lugar”. Entendendo-se dessa maneira, que o sentido primitivo da palavra “teatro”, estava relacionado estritamente com a ideia da visão. Esse verbete, que significava o prédio onde são realizados espetáculos, posteriormente se tornou mais amplo e a ter maior alcance, com vários sentidos conotativos, designando peças, produção, preparação de uma peça teatral em geral, entre outros.
     Esse teatro do qual conhecemos na atualidade, originou-se basicamente de três festividades: a) dos mistérios de Delos; b) da louvação às divindades Quintelanas – Elêusis, Demótes e Proserpina; e c) do culto ao Deus Dionísio. Sendo que esta última versão se considera como a mais provável, segundo estudos históricos e antropológicos já realizados.
     Sabe-se que uma vez ao ano, justamente por ocasião das vindimas (colheita de uvas), prestava-se homenagem ao Deus Dionísio; Deus da uva e do vinho; da embriaguez e da fertilidade. Geralmente, nesses cultos sacrificava-se um animal, mais praticamente um bode que, por sua vez, significa tragos em grego, de onde surge etimologicamente a palavra tragédia.
     Comumente ao som de música de flautas, as bacantes dançavam em honra ao deus Dionísio, juntando-se aos sátiros, também dançarinos, que vestidos à caráter, imitavam bodes, que, para a cultura grega desse período significavam os companheiros do deus. Depois de algumas horas, já embriagados, entregavam-se com entusiasmo a esse frenesi, esse culto, a esse verdadeiro espetáculo. Nessas condições, o teatro tem, notadamente, origem religiosa e campestre.
     Com o passar do tempo, o próximo passo foi a organização de procissões, que se tornaram muito mais religiosas do que profanas. Essas procissões tinham caráter comum, onde todos os celebrantes se juntavam tendo à frente jovens que cantavam um hino improvisado, chamado “ditirambo”. E assim, giravam em torno do altar do deus, agradecendo pela colheita da uva e pelo sexo, que significava a fertilidade da vida. Em seguida o coro separou-se do recitador e nesse momento crucial da história do teatro, havia nascido o primeiro ator. Contudo, na procissão já se podia constatar três artes: primeiramente, o canto, depois a dança e em terceiro a atuação e representação. Nesse caso, à frente vinha o corifeu – de onde surge a palavra coro – vestido com pele de bode, e todo o resto do grupo respondia ao ditirambo, atuando como um verdadeiro balé litúrgico, numa fusão do trágico e do cômico.
     E assim, constitui-se a tragédia: o ator e o coro se respondem cantando mutuamente, e em seguida, o ator fala e o coro canta. Posteriormente o ator dialoga com o corifeu, representante do coro. Vale salientar que nesse momento embrionário da tragédia não havia atos nem intervalos, sendo a mesma, composta de partes dialogadas e partes faladas.
     Aqui, revela-se o verdadeiro espírito da democracia grega, sua gênese, onde os cidadãos tinham o pleno direito de se manifestar e participar ativamente daquela sociedade. Foi basicamente desse hino, dessa primitiva música que, segundo Nietzsche, nasceu o teatro grego. Aqui, indico aos interessados, a leitura do livro “o nascimento da tragédia” do referido autor.
     Para Augusto Boal, teatro era o povo cantando livremente ao ar livre. Naquele momento, foi o povo grego quem criou e ao mesmo tempo se tornou o próprio destinatário do embrionário espetáculo. E foi exatamente desse coro, do contraste entre o espírito Dionisíaco e Apolíneo que nasceram a Tragédia e a Comédia. Etimologicamente, tragédia deriva do grego tragoidia que significa uma peça ou poema com final infeliz. Aparentemente vem de tragos, que quer dizer “bode”, mais oidea, “canção”. Origina-se basicamente do drama satírico, onde os atores se vestiam de sátiros, com suas pernas cabeludas e chifres de bode. Por outro lado, comédia também emana do grego komoidia, sendo um espetáculo divertido, comédia, de komodios, “cantor em festas”, de komos, “festa, farra”, mais oidos, “poeta, cantor”. Num certo momento da história, essa palavra passou a designar “poema narrativo”, em função disso, temos “A Divina Comédia” de Dante Alighieri, o que na verdade não reflete a seriedade da referida obra.
     A tragédia tinha como principais características o terror e a piedade que despertava no público. Era constituída de cinco atos e voltava-se para o resgate da mitologia grega, com seus deuses, heróis e feitos. A comédia era dividida em duas partes com um intervalo. Tratava dos homens comuns e de sua vida cotidiana. A comédia representava o vício, enquanto a tragédia, a virtude.
     Aqui faço uma relação de semelhanças com o Círio de Nazaré, quando todos os anos, no mês de outubro, em Belém do Pará e em várias cidades da região norte, o povo se reúne para louvar a sua santa (deusa) Virgem de Nazaré. Neste caso, com características próprias de uma cultura contemporânea do século XXI. É interessante saber que apesar da distância cronológica, manifestações semelhantes existem entre esses dois fenômenos religiosos, como por exemplo: o vigário tomando o lugar do corifeu, quando fala uma estrofe de uma oração, e o povo responde automaticamente, representando o coro.
     Os três grandes trágicos gregos foram: Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Théspis foi o criador do teatro ambulante, o qual conhecemos hoje como teatro mambembe, mas infelizmente todos os seus textos se perderam. Também foi ele quem inventou as máscaras. Representava seus papéis trágicos, inicialmente pintando o rosto com matéria prima da época, depois cobrindo o rosto com folhas de árvores, em seguida introduziu o uso de verdadeiras máscaras.
     Chegou um momento em que o Estado tomou para si a organização do teatro na antiga Grécia, quando instituiu concursos entre os poetas trágicos - mais conhecidos atualmente como dramaturgos. Isto veio a acontecer principalmente, a partir do tirano Pisístrato que governou Atenas por 19 anos consecutivos até sua morte em 527 a.C., por causa natural.   Durante seu governo instituiu novos festivais como as Grandes e as Pequenas Dionísias. Nesse ínterim, por volta de 534 a.C., as Grandes Dionísias passaram a incluir na sua programação um concurso de tragédias. As Grandes Dionisíacas ou Dionisíacas Urbanas se transformaram no ponto culminante e festivo da vida religiosa, intelectual e artística da cidade estado de Atenas. Os referidos festivais duravam seis dias consecutivos.
     O sentido fundamental dessas comemorações não objetivava somente divertir a população, mas por outro lado, servia também como um meio de propaganda ideológica, visto que na época, segundo (Hauser, 1968), “os tiranos empregam a arte não só como meio de adquirir glória e como instrumento de propaganda, mas também como ópio para aturdir seus súditos”, em consequência, o povo imediatamente acolheu essa forma artística que se disseminou e se tornou milenar no momento atual da história do homem.
     Em função dessas atividades teatrais persistirem até nossos dias, foi que em 1961, o Instituto Internacional do Teatro da UNESCO, órgão das Nações Unida, voltado para a educação, ciência e cultura, resolveram criar uma data dedicada às atividades culturais ligadas à representação, durante o seu IX Congresso Mundial, em Viena, Áustria. Portanto, em função da inauguração do Teatro das Nações, em Paris, França, em 27 de março de 1962, tem sido celebrado o Dia Internacional do Teatro. A data 27 de março, assinala também a inauguração das temporadas internacionais no referido teatro.

Referências Bibliográficas
ARAÚJO, Hilton Carlos de. Artes Cênicas: introdução à interpretação teatral. Rio de Janeiro, AGIR, 1986.
BERTHOLD, Margot. História Mundial do Teatro. 5ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2011.
BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1983.
HAUSER, Arnold. Historia Social de la literatura y el arte. Cuba. Instituto Cubano del Libro, 1968.